Ludwig Wittgenstein, o homem impossível

Tal como Deus, o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein tinha muitas faces. Era irascível, críptico, seguido por discípulos quase devotos, temido e admirado em partes iguais. O livro Ludwig Wittgenstein - Filosofia na Era dos Aviões oferece tanto um retrato de um homem extraordinariamente difícil quanto um mapa do mundo que o produziu.
Ludwig Wittgenstein, o homem impossível

Em 1929, o influente economista britânico John Maynard Keynes escreveu numa carta para a mulher, Lydia: «Bem, Deus chegou. Encontrei-me com ele no comboio das 5h15. Faz tenção de permanecer em Cambridge definitivamente». Referia-se ao regresso de Ludwig Wittgenstein a Cambridge, e o tom era simultaneamente irónico e rendido. Keynes achava-o exaustivo. Mas não conseguia ficar indiferente.

Tal como Deus, Wittgenstein tinha muitas faces. Era irascível, críptico, seguido por discípulos quase devotos, temido e admirado em partes iguais. Bertrand Russell, o filósofo mais famoso do mundo ocidental à época, acolheu-o relutantemente e acabou por o proclamar génio — e não era homem dado a elogios fáceis. Admitiu que uma crítica de Wittgenstein o perturbou de tal modo que condicionou a publicação de um livro seu. Mais tarde, afastou-se.

Quando Wittgenstein apareceu em Cambridge, em outubro de 1911, Russell era um professor de 39 anos com considerável reputação em lógica e filosofia, neto de um primeiro-ministro da era vitoriana, defensor do sufrágio feminino e do livre comércio — e simultaneamente envolvido num intenso caso amoroso e epistolar com Lady Ottoline Morrell. Foi a ela que escreveu, depois de um primeiro encontro com o novo aluno, que este «ameaça ser um suplício — voltou comigo depois da aula e discutiu até à hora do jantar — obstinado e perverso, mas acho que não é nada estúpido». Semanas depois, voltou ao assunto: o jovem que pretendia abandonar a engenharia pela filosofia «talvez venha a fazer grandes coisas». Russell apresentou-o aos amigos do grupo literário de Bloomsbury e ao semissecreto clube de debates de Cambridge, os Apóstolos. Escreveu a Morrell: «Começaram todos a descobrir Wittgenstein. Agora todos se apercebem do seu génio».

Agora, Anthony Gottlieb — jornalista, crítico e autor de uma série de obras sobre a história da filosofia — publica a primeira biografia de Wittgenstein em mais de três décadas, Ludwig Wittgenstein – Filosofia na Era dos Aviões (Edições 70). O livro, parte da série ‘Jewish Lives’ da Universidade de Yale, é tanto um retrato de um homem extraordinariamente difícil quanto um mapa do mundo que o produziu: a Viena finissecular, a aristocracia industrial austro-húngara, a Europa em convulsão entre duas guerras, e Cambridge como palco de uma revolução intelectual silenciosa.

O Carnegie da Áustriae os seus oito filhos

Ludwig Wittgenstein nasceu em 1889 numa das famílias mais ricas da Europa. O pai, Karl Wittgenstein, era o grande industrial do aço austro-húngaro — «o Carnegie da Áustria», na formulação de Gottlieb — patrono das artes e figura central da vida económica vienense. A mãe era musicalmente dotada. Brahms era amigo da família e dava concertos na sala de música da casa. A palácio dos Wittgenstein em Viena era um salão frequentado por pintores, músicos e intelectuais. Karl patrocinou obras de Auguste Rodin e financiou o Pavilhão da Secessão. O Império Habsburgo tinha os dias contados, mas Viena sobrepunha a criatividade à decadência.

A riqueza, porém, não protegia do sofrimento. Três dos quatro irmãos rapazes de Ludwig morreram por suicídio. Paul, o único sobrevivente além de Ludwig, era um pianista de carreira que perdeu o braço direito na Primeira Guerra Mundial e ainda assim continuou a tocar — encomendando a Ravel e a Prokofiev concertos para a mão esquerda. Numa família de tal intensidade, a normalidade era impossível. Ludwig seria o mais improvável de todos: o herdeiro que abdicou da herança, o aristocrata que quis viver como um monge, o génio que duvidava da própria genialidade.

Quando regressou do cativeiro em 1919 mandou redistribuir a sua parte nos fundos familiares pelos irmãos. Anos mais tarde, fez o mesmo com a herança da mãe. Russell, que o visitou nessa época, ficou com a impressão de que ele se desfizera da fortuna porque «as posses terrenas lhe pareciam um fardo». Não era ascetismo performativo — era uma necessidade quase física de se livrar do peso de uma família demasiado grande para qualquer um carregar.

Uma cidade, um século

A riqueza a que renunciou e o palácio onde viveu dizem-nos alguma coisa. Mas o que nos diz mais sobre os Wittgenstein — e não por acaso é possível estabelecer um paralelo com a família fictícia de Thomas Mann nos Buddenbrooks — são todos quantos frequentaram aquela casa e com quem Ludwig interagiu.

Os músicos Johannes Brahms e Gustav Mahler eram visitas regulares. Os pintores Gustav Klimt, Oskar Kokoschka e Egon Schiele circulavam pelo mesmo mundo — Klimt pintou o retrato da irmã Margarethe. O arquiteto Adolf Loos projetou uma casa da família. Karl Kraus, talvez a influência intelectual mais direta sobre Wittgenstein, era obcecado com o uso honesto da linguagem. Arthur Schnitzler psicanalisou a sociedade vienense antes de Freud. Stefan Zweig, Robert Musil e Georg Trakl — o poeta expressionista a quem Wittgenstein enviou uma doação anónima de 100.000 coroas, e que se suicidou sem saber quem era o seu benfeitor — e Rainer Maria Rilke, outro destinatário da generosidade do herdeiro, completavam uma constelação improvável.

Com Sigmund Freud — cerca de trinta anos mais velho —, Wittgenstein teve uma relação ambivalente: admirava e criticava simultaneamente. Friedrich Hayek, sobrinho pelo lado materno, viria a ser o grande economista liberal do século XX. Também se cruzou com Georg von Schönerer, político pangermanista e antissemita que inspirou o nazismo.

Num par de décadas, na mesma cidade, emergiram a psicanálise, o modernismo musical, o expressionismo austríaco, o positivismo lógico, a arquitetura funcionalista e um dos maiores sistemas filosóficos do século XX. Wittgenstein não era um pensador isolado do seu tempo. Era o seu pensador mais radical.

A filosofia contraa linguagem

O que Wittgenstein trouxe à filosofia foi uma ideia tão simples na formulação quanto perturbadora nas consequências: a filosofia é uma «batalha contra o enfeitiçamento da nossa inteligência pelos meios da linguagem». A confusão filosófica não nasce do mundo — nasce das palavras que usamos para o descrever.

A sua obra divide-se, grosso modo, em dois momentos. No primeiro, desenvolveu uma teoria pictórica do significado: as palavras têm referentes no mundo, as frases são imagens da realidade. Quando dizemos ‘gato’, há um gato ‘lá fora’ que a palavra espelha. O papel da filosofia é clarificar o que pode ser dito com sentido e excluir o resto. Os problemas filosóficos tradicionais — Deus, a alma, o sentido da vida — seriam pseudoproblemas: resultados de aplicar a linguagem do mundo empírico a domínios onde ela não funciona. «Sobre o que não se pode falar, deve-se calar» — a frase mais citada do Tractatus Logico-Philosophicus, escrito durante a Primeira Guerra Mundial nas trincheiras austríacas, onde Wittgenstein serviu como voluntário antes de ser capturado pelos italianos em 1918. O livro seria publicado em 1921, com um prefácio de Russell que Wittgenstein considerou uma deturpação das suas ideias.

Convicto de ter resolvido os problemas fundamentais da filosofia, Wittgenstein abandonou-a. Foi assistente de jardineiro num mosteiro, professor primário em aldeias rurais da Áustria, arquiteto em Viena. No outono de 1928, concluiu a casa que planeara para a irmã Gretl — cada janela, cada porta, cada trinco, cada radiador projetado com atenção extrema, incluindo um sistema telefónico interno e uma rede de campainhas para os criados. Nessa altura conheceu Marguerite Respinger, de 22 anos. Apaixonou-se por ela, mas nunca soube muito bem o que fazer com o que sentia. O romance durou entre 1929 e 1933, e morreu entre Viena e Cambridge.

Quando regressou a Cambridge, já pensava de forma diferente. No segundo momento da sua obra, percebeu que a teoria anterior estava errada. O significado das palavras não está em nenhum referente ‘lá fora’ — está no modo como as usamos. «O significado é o uso». Em vez de especular sobre o mistério do tempo, observe-se como um maestro o marca, como um físico o modela, como se sente quando o está a desperdiçar. Não há um significado objetivo à espera de ser descoberto. A filosofia não resolve os problemas — dissolve-os, mostrando que eram ilusões criadas pela linguagem.

«Quando os filósofos usam uma palavra — ‘conhecimento’, ‘ser’, ‘objeto’, ‘eu’, ‘proposição’, ‘nome’ — e tentam apreender a essência da coisa, devemos sempre perguntar-nos: será que a palavra é realmente usada dessa forma na língua à qual pertence? O que fazemos é reconduzir as palavras do seu uso metafísico ao seu uso quotidiano».

A família judaico-cristã no nazismo

O Anschluss de março de 1938 transformou a família Wittgenstein — católica há três gerações, mas de ascendência judaica — numa família fragilizada. Os que ficaram em Viena foram poupados aos campos de concentração graças ao dinheiro que a família tinha na Suíça, protegido da cobiça nazi. Ludwig, então professor em Cambridge, não regressou quando deixou de ser cidadão austríaco e passou a ser cidadão alemão. O irmão Paul fugiu quase de imediato para Inglaterra e depois para os Estados Unidos. As irmãs Hermine e Helene ficaram em Viena, após negociarem com os nazis a sua reclassificação como ‘mischlinge’ — um estatuto que só as protegia parcialmente. Gretl, que chegara a participar nas negociações, foi para os Estados Unidos em 1940, regressando mais tarde a Viena para recuperar a casa desenhada pelo irmão filósofo, onde viria a morrer.

Foi Paul quem entregou 1,2 milhões de francos suíços ao Reichsbank. Mas foi Ludwig quem viajou até Berlim para negociar diretamente com funcionários nazis, e depois a Nova Iorque para convencer Paul a aceitar o acordo. O montante total entregue pelos Wittgenstein, numa semana antes do início da guerra, incluiu, entre outros ativos, 1.700 quilogramas de ouro. Hermine e Helene foram reclassificadas após o pagamento, numa decisão pessoalmente autorizada por Hitler. Sobreviveram à guerra em Viena. Paul nunca perdoou as irmãs por o terem pressionado a participar nas negociações — e nunca mais falou com Ludwig ou Gretl depois do conflito.

O homem e o paradoxo

Gottlieb é um biógrafo hábil. A edição portuguesa anda pelas 200 páginas com cronologia, árvore genealógica, notas e leituras complementares. O Wall Street Journal notou que é o tipo de livro que se pode abrir ao acaso e quase sempre encontrar algo que prende. É verdade. E o que o autor consegue fazer é aquilo que as grandes biografias fazem: mostrar o pensamento a partir da vida e a vida a partir do pensamento.

O que emerge é o retrato de um homem «habitualmente veemente, volátil e sem filtros» — que se apaixonava por jovens que raramente o compreendiam, que inspirava devoção e exasperação em partes iguais, que andou pela Irlanda, pela Noruega e pelas aldeias austríacas à procura de uma solidão que nunca era suficiente. A sua relação com o judaísmo — herdado mas convertido, presente mas negado — era tão conflitual quanto tudo o resto. Mais do que a religião, o que o movia era uma espiritualidade rara: disse uma vez que, se não tivesse sido filósofo, teria sido monge.

Há em Wittgenstein uma contradição que Gottlieb capta com precisão: entre o sistemático e o místico. A sua obra é técnica, rigorosa, construída em proposições numeradas e tabelas de verdade. Mas ele acreditava que a linguagem tem limites — e que do outro lado desses limites estão algumas das verdades mais profundas que os humanos podem vislumbrar. Verdades que não se dizem: que «se mostram a si próprias», como escreveu. Esse paradoxo — o filósofo da linguagem que acredita no indizível — é o que torna Wittgenstein permanentemente fascinante.

Em 1931, aos 41 anos, escreveu no diário que talvez o seu nome ficasse na história apenas como o ponto final da filosofia ocidental — «como o nome de quem incendiou a biblioteca de Alexandria». A filosofia ocidental não terminou com ele. Mas ficou diferente.

Wittgenstein foi diagnosticado com cancro da próstata em 1949. Nos últimos meses de vida regressou a Cambridge, onde foi acolhido pelo médico Edward Bevan e pela mulher deste. As últimas palavras que se conhecem, ditas na véspera da morte, foram: «Diga-lhes que tive uma vida maravilhosa». Morreu a 29 de abril de 1951, três dias depois de completar 62 anos.

Gottlieb traz-nos Wittgenstein como um produto das contradições da sua família e do seu tempo — mostrando até que ponto o seu carácter singular moldou a forma como filosofou, e até que ponto esse carácter emergiu das tensões culturais, religiosas e familiares que o rodearam desde o início. A filosofia como «batalha contra o enfeitiçamento da nossa inteligência pela linguagem» foi também, sempre, uma batalha consigo próprio.