segunda-feira, 09 mar. 2026

LAUTREC ou a consubstanciação

A natureza de LAUTREC, de José Manuel Barroso, é a de um caleidoscópio. Com as suas danças de imagens, os seus vários caminhos em busca de um destino que lhe dê sentido, alcança esse sentidona unidade superior que é a relação de identificação do autor com o artista.
LAUTREC ou a consubstanciação

A francofilia e mesmo a francesia perpassam por LAUTREC, de José Manuel Barroso, um luxuoso livro de bolso com capas em papel couché e folhas munken presas por vinco à francesa. As páginas vivas, frenéticas, a que não falta feérie, de Barroso dão-nos a extremamente sedutora Belle Époque. Paris é mesmo o paradisus, como lhe chamou um frade, e Montmartre, com os seus cabarets, álcool, artistas, bailarinas e «sacerdotisas da noite», é o centro da vida de prazer. Aristide Bruant, dono de cabaret, inicia o jovem Lautrec neste universo de bebida, sexo e arte de vanguarda. Será imortalizado pelo pintor num cartaz em que surge de grande chapéu e sobretudo pretos e enorme cachecol vermelho. 

O “Tripé” entre Sião e Babilónia

Toulouse-Lautrec, o pintor do tronco de adulto e pernas de criança, alcunhado de “Tripé” pelas flores da noite, frequenta o Moulin Rouge, que apresenta o mais famoso cancan; o Moulin de la Gallete, com o mais concorrido baile popular; e o salon da Rue des Moulins, de sofás vermelhos, com mulheres de meias pretas e tarifa alta. Lautrec pinta estes locais onde se sacia o prazer. Priva com bailarinas e prostitutas. Lida muito bem com elas e é por elas muito acarinhado. Também Jorge Luis Borges constatou que ser cego tinha uma vantagem: a de as pessoas serem mais carinhosas com ele pelo facto de não ver.

Entre as muitas «rainhas da alegria» que mimam Lautrec, além da especial Rose la Rouge, Barroso lista «La Goulue…amante de todos os prazeres da vida!...La Torpie, o torpedo ─ ah tem um belo traseiro; Grille d’Égout, grelha de esgoto ─ uma enleante cobra; Nana-la-Sauterelle, o gafanhoto ─ pousa sempre por cima; Georgette – la Vaudrouille, Georgette, o esfregão ─ limpa tudo; Demi-Siphon ─ meio sifão e está tudo dito; Raio de Ouro, duas firmes mamas de marfim…» (p. 104).

Henri de Toulouse-Lautrec, membro de uma rígida família católica da nobreza de França, começa a vida num castelo, adorando o sol, os cavalos e o mar, e acaba-a em Montmartre, como adorador da noite, de copos e corpos. Praticante do absinto e de femmes de joie, isso em nada afecta a sua integridade artística, a dedicação absoluta ao trabalho de criar beleza com cores e formas. Primeiro foi cartazista, depois pintor de assinatura pós-impressionista e percursor da Art Nouveau.

Embora de modo muito menos escatológico do que Jean Genet, que santifica a sordidez e a degradação com uma «mystique de la merde», há também em Lautrec alguma «nostalgie de la boue». Essa nostálgica atração pela “lama” levá-lo-á a morrer sifilítico aos 31 anos. 

Para os pais, católicos absolutos, o filho Henri vive, perdido, no pecado. Na bíblica dicotomia Sião-Babilónia, genialmente trabalhada por Camões em Sôbolos rios que vão, poder-se-á considerar que, para os pais de Henri, Montmartre representa a nova Babilónia, a maldita. Para o pintor, pelo contrário, Montmartre é Sião. E se, até ficar com as pernas doentes fracturadas, a vida no castelo e na natureza foi Sião, agora para Lautrec a vida aí seria Babilónia. Sem Deus, ou com um Deus que não lhe foi benigno, o pintor encontra, em Montmartre, o sentido da vida na Arte, com maiúsculas, e no amor, mesmo se feito de minúsculas.

Mas, além do desastre que são as suas mortais pernas feias, não lhe foi também dada uma imortal mão criadora do belo?! A sua grande pintura não compensa as suas pequenas pernas e curta vida? Não será Lautrec um acabado exemplo do que é justo, terrivelmente justo?

O caleidoscópio

LAUTREC não é uma biografia clássica. José Manuel Barroso, em vez de se deixar aprisionar pela verdade dos factos, liberta-se da verdade objectiva e ficciona livremente no sentido de uma verdade maior ─ a verdade literária. Em vez de distanciamento, revela-se tão próximo do pintor que, aqui e ali, aproxima-se da autobiografia indirecta. Não respeita uma nítida linha temporal-espacial, antes mistura avanços e recuos dessas duas coordenadas. Em vez da simples linguagem jornalística ou denotativa, Barroso exibe uma prosa literária, na qual se detectam frases que são versos proseados, expansões luxuosas e repetições que, como em José Régio, acrescentam sempre alguma coisa. Por outro lado, uma só voz autoral não satisfaz José Manuel Barroso pelo que se desmultiplica em entidades de enunciação: é o autor enquanto tal no corpo textual dominante e torna-se Lautrec no “Ensaio de Diário” e em cartas. Também em cartas, veste as peles de Van Gogh ou Gauguin. Só a frase final do livro é que não pertence a nenhuma das encarnações verbais do autor, mas ao próprio Lautrec: «Mãe, apenas tu! Morrer é terrivelmente doloroso».

Ainda, e por último, ao contrário das biografias padrão, de longo texto compacto, LAUTREC é uma peça literária partida em bocados. Este grande livrinho estilhaça-se em 100 fragmentos. Excluídos os peritextos ─ ficha técnica, dedicatórias, epígrafes e índice ─, são 100 os morceaux distribuídos por 130 páginas.

A natureza desta obra de José Manuel Barroso, conjugados os elementos referidos, é a de um caleidoscópio. Um caleidoscópio com fragmentos que são espelhos internos que se reflectem, fragmentos em combinações variáveis, fragmentos que são repetições com diversos graus de infidelidade. O caleidoscópio, com as suas danças de imagens, os seus vários caminhos em busca de um destino que lhe dê sentido, alcança esse sentido na unidade superior que é a relação de identificação de Barroso com Lautrec. O próprio espaço titular do livro ─ LAUTREC José Manuel Barroso ─, ao dispensar qualquer elemento linguístico entre os nomes, não só indicia como afirma essa relação. A relação atinge a consubstanciação:

«Quanto te comoveu esse gesto, lembras-te?...As modelos tuas amigas prostitutas, dizias, respiravam vida, ao contrário das pretensiosas modelos profissionais. Eu, por vezes, nem ousava oferecer-lhes umas moedas por elas pousarem para mim…» (p.115)

 A rotação do “tu” para o “eu” não é inocente! Nem se trata, como diria um erudito literário, de um “Homero também dorme”, de uma distração do autor. Trata-se sim da afirmação consciente do ponto de chegada das sucessivas aproximações de Barroso a Lautrec. E é deste modo que os fragmentos, os bocados partidos de um todo, se unem, dando consistência e coerência orgânica à obra.

O LAUTREC de Barroso, editado pela The Poets and Dragons Society, é um Labor of Love, o trabalho de um amor viril.

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