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Era prático como o diabo, um desses tipos que se governava como à frase, sem perder a serenidade nem a linha, optando sempre pelo modo mais direto de afiar a sentença, sem nem dar hipótese àquela volúpia de quem tudo aforisma. Podia nalguns aspetos ir ao ponto de torturar a realidade para que esta não fugisse às evidências. Era direto, seco, acreditava que é possível passar uma certidão face a qualquer ocorrência ou concurso de factos. Sendo também um assumido provocador, tinha ficado sem paciência para as historinhas de embalar com que este tempo se adormece a si mesmo – enrodilhado cada um na mantinha da sua boa consciência.
As suas mais de três décadas a dirigir jornais traduziam-se numa capacidade de reconhecer como há períodos intratáveis, em que a impotência vive para o disfarce, a barafustação, todas as lutas se baralham e confundem, cada um puxa para seu lado, e já não há resumo possível. Assim, tinha-se virado para a História, passando desse esquisso meio ansioso e espontâneo que o jornalismo tenta oferecer para aquele passado com um arco mais vasto, mais firme. Fê-lo, no entanto, como alguns homens que envelhecem com gosto por romances policiais, por apreciar essas variações numa estrutura familiar e que denunciam um desacerto cheio de consequências. Tinha aquele enlevo de quem aprecia a tapeçaria buscando fios desalinhados, pontas soltas, puxando-os para testar se se aguentam os motivos principais. A noção que fazemos do nosso passado não é tantas vezes uma convenção tão repetida quanto raras vezes interrogada? Nesse modo de indagação esqueceu a própria mortalidade, não como se voltasse costas a este mundo, mas interrogando-o a um outro nível, como se reconhecesse ter chegado àquela idade em que lhe conviria encontrar um reservatório mais vasto para manter focado o seu apetite de leitura e confronto com a realidade, evitando gastar os últimos anos refém desta perpétua irritação. Morreu de repente, tendo tido apenas o tempo de ouvir a notícia, quando se submeteu por fim a exames após ser assaltado por umas dores impossíveis de ignorar.
Nunca se viu
como jornalista
Polido e cético até ao fim, quis dedicar o tempo que lhe restava a concluir o último dos capítulos daquela incursão audaciosa com que seguiu as pisadas do pai na historiografia portuguesa. «A calma sedimentou-se mas/ a ironia vagueia no campo e ruge./ Pelos olhos recebo o tempo, interpreto/ e nego. É muito forte o tempo», eis uns versos de Cacaso que assentam bem ao homem que fundou este semanário, e que preservou aquele travo de lucidez desafiadora, hábil na sua descrença face às miragens que a todo o momento se nos impõem. Nos últimos tempos, mais do que as suas crónicas era na sua fisionomia que melhor exprimia um certo cansaço, não propriamente uma indiferença nem desprezo, mas na sua compostura sentíamos que cheirava a outro tempo. Outros esgotam-se resmungando, mas ele cometeu uma espécie de haraquiri social ao expor publicamente a forma como os nossos figurões ou figurantes se descosem e se confessam diante de alguém que julgam poder enredar nos teares dos bastidores e da intimidade. Dizem que traiu as suas fontes, mas ele continuou a dizer que nunca aceitou, nos contactos que foi mantendo com os protagonistas da nossa vida política, que lhe viessem com confianças. Estavam diante de um jornalista, e simplesmente avaliaram-no por grosso, guiando-se pela generalidade de uma classe em que predominam os arrivistas e os capachos, preferindo ser subserviente a ser cruel, tendo-se tornado tão comum, como assinalava António Guerreiro, que esta suporte esse hífen tão conspícuo que dá origem a uma bela composição: mediático-político.
Assim, os golpes mais demolidores que lhe foram desferidos aquando da publicação de Eu e os Políticos vieram de alguns dos nomes com mais projeção nesta classe anfíbia, figuras a quem interessa preservar esse pacto. Esses jornalistas que nunca sonhariam libertar-se dos escrúpulos e das orientações deontológicas que são sempre tão rigorosas para o mesmo lado, são os mesmos que já se libertaram de quaisquer ilusões no que toca a defender o jornalismo do jogo de influências que leva a que este se tenha tornado uma porta giratória para que aqueles que nele mais se destacam logo sejam promovidos à classe jornalístico-política, caçando posições nos gabinetes, não faltando nunca um contingente que a cada novo executivo entende como uma promoção o abandono das redações em reconhecimento pelos serviços prestados e o talento na assessoria dos nossos dirigentes políticos. «O hífen, como todas as fronteiras, separa e ao mesmo tempo reúne dois territórios», lembra Guerreiro. «Na ausência de guardas de fronteira, o trânsito é livre e a hora de maior afluência é quando há eleições e tomadas de posse de um novo governo. Há quem chame ‘permeabilidade’ a esta possibilidade de transitar de um lugar para o outro».
Uma leitura inconveniente
Ora, José António Saraiva sempre foi capaz de honrar aquele elemento decisivo da tradição jornalística: aquela capacidade de esgrimir de forma irónica e precisa uma leitura inconveniente, capaz de em meia dúzia de linhas incisivas deixar o adversário a sangrar. Ele que acabou a dizer que nunca se viu como um jornalista, preservou, no entanto, esse instinto pavoroso, essa capacidade de fazer cair sobre si toda a infâmia deste enredo de manobristas, toda essa hierarquia de conveniências e favores, e a maior distinção que lhe foi feita esteve patente na forma como este homem que dirigiu durante 23 anos e no seu período áureo aquele que se publicita como o nosso jornal de referência, no seu velório e funeral não gozou com a pompa e nem a comitiva desses que, com a sua presença, distinguem os arquitetos desta sujeira em que tão bem se governam. Curiosamente, se no final Saraiva se despedia vincando que nunca se viu como um jornalista, teve o funeral de um. Ele que morreu empurrado para as notas de rodapé pela maioria dos jornais, teria certamente gozado de outro destaque se em vez da suposta devassa dessa fronteira tão conveniente onde alguns decidem organizar a sua vida privada, tão estreitamente entrelaçada com aquele tráfico de favores, se tivesse governado do lado do boato, daquilo que se diz ao ouvido, o que se deturpa, e que tanta força tem na forma como se engendra a ambição e os interesses, o que depois todos estão seguros de que não caberá na história com H grande. Talvez a pior das suas indiscrições tenha sido essa, acreditar que não se faz mais com a mentira do que com a verdade. Ter essa infame convicção de que ninguém pode fazer valer contra as linhas com que uma época se cose os privilégios da sua tão industriosa vida privada (ou será antes secreta?). Naquele livro que Saraiva quis ver publicado sem dar conta a ninguém, para que não lhe viessem lembrar as chatices em que certamente se estava a meter, parece ter procurado confrontar-se com aqueles traços dolorosos, o que sobressaía deste ou daquele acontecimento, das conversas colhidas a esmo, com o benefício do acesso que lhe foi dado a certos círculos privilegiados. No fundo, ele atraiçoou-se a si mesmo. Não foi propriamente a verdade dos factos que lhe disputaram, mas a legitimidade em revelar o que lhe teria sido contado dentro dessa reserva de quem tece a sua teia julgando empurrar o outro para a condição de confidente. É uma forma subtil de suborno essa, obrigando o jornalista a observar limites que nunca chegaram a ser negociados, e isto porque se reconhece que há sempre um relação de poder, sendo aquele que expõe os outros quem primeiro fica exposto.
Desanestesiar os nervos
Ninguém diz estas coisas numa peça que se quer de homenagem e lembrança, como um homem que pode ser durante tantos anos um fazedor de reis, acabou amachucado, a investir contra os moinhos de vento do politicamente correto em crónicas em que sabia estar a condenar-se ao desdém da mesma classe sobre a qual teve um tão grande ascendente. Num tempo de concessões recíprocas em que o jornalismo abdicou quase inteiramente das suas armas, daquele seu travo sardónico, da crítica impiedosa, e mesmo de profanar esses pactos, de ir aos sepulcros fechados arrancar de lá esses esqueletos que muitos preferem esquecer, ele não mediu bem as antipatias profundas que aquele seu gesto iria dispor numa assanhada orquestra que, depois, nunca mais deixaria de acompanhar cada um dos seus movimentos musicando de acordo com os ritmos da perfídia, preparando o lado odioso da lenda que lhe restasse. Viu-se então cercado pela impiedade judiciosa desta atmosfera de imbecilidade ambiente, e se ele se exasperava bordando as suas intervenções de elementos provocatórios, como se estivesse a soprar as brasas e reacender a fogueira que lhe armaram, sendo tão pródigo em fornecer os motivos, bombardeando a rotina com aqueles seus tiros de sarcasmo e de heresia. Foi a sua forma de sedição, assumir uma retórica que chocava de frente contra aqueles pianos. Preferia ser visto a bocejar, em vez de vir fornecer mais versitos avulsos para a cerimónia. Estava mais empenhado em desanestesiar os nervos, dormentes da monotonia dos recitais infindáveis de bons sentimentos dos nossos prestamistas e agentes fiduciários. Em vez de receitas para a confeção das canjas domésticas, preferia provocar um reviramento mental a quem já lia as suas crónicas destapando o frasquinho de água benta, facetando-as de sarcasmos, gozando o prato contra esse fundo de beatas falsas. Enquanto o jornalismo se via soterrado pela banda sonora que lhe fornece esse coro de jactanciosos opinadores, que nos fornecem a infecunda beatice dessas fórmulas confessionais, desse quadro catecista, tonsurado, hipócrita, incestuoso, impondo-se os tais deveres severos mas só por aparência, por cálculo e ganha-pão, ele aparecia na outra margem, como um antagonista capaz de vituperar tudo, e tudo corroer, libertando-nos da doçura das vozes desses castrados, estas personagens de centro administrativo, com a sua tramoia clerical. Mesmo quem não podia estar alinhado com aquelas convulsões que lhe inspirava a exageração patológica de certas liberdades que, afinal, apenas se organizavam construindo cenas e personagens de fancaria, obrigando todos a observar de uma extrema compunção quando passávamos do registo afirmativo, de um orgulho festivo, para um enredo de vitimização e recriminação que instalavam em torno de qualquer discussão cultural uma desoladora morbidez.
Hoje, abrindo as páginas do jornais, estamos sempre a ser confrontados com uns seres esmaltados de bons ditos e excelentes desejos formulados, sempre nuns êxtases beatíficos, a afinarem perpetuamente os violinos, e temos de aturar toda esse cortejo celestial, só se ficando atónito diante da chatice, da teatralidade destes seres empalhados e comovidos consigo mesmos. Não precisamos de acompanhá-lo nos seus juízos, mas talvez ele nos permita reconhecer como com toda essa disparatada apoteose de uma classe moralista entregue, por um lado a encómios bombásticos, à imundície do elogio mútuo, a essa comunidade de patuscadas, depois só mostra ter algum nervo, quando apanha um alvo que não está acobertado por alguma das nossas seitas. Seria ridículo fingir que José António Saraiva não nos ofereceu matéria de choque, mas a sua intervenção informa-nos sobre o modo como o jornalismo se distanciou da sensibilidade comum e passou a representar as fantasias de uma classe que julga hoje ter reclamado para si o prestígio de representar o seu génio imaculado, vindo-nos com aquela barulhada emocional, esses lances patéticos, esses quintos atos candentes.
Avessos à oficialização
Quando os jornais se tinham transformado em folhetins para aquela classe redigir as composições cheias de balelas parvas antes de entrar em cena nos estúdios de televisão, que se tornaram o foco do beatério nacional, ele trazia à palestra as velhas ralações daqueles que não se sentiam incluídos nesse clube dos bons sentimentos, porque tinham preocupações bem mais concretas, recusando ver-se capturados nessa larga caricatura da época, que aparece sempre retratada no seu fervor progressista, enquanto os problemas sociais que há três décadas devolvem o país ao seu crónico atraso, são deixados nos fundos de gaveta. Naquele projeto de obra jocosa, Saraiva parecia ter o instinto certo do momento dramático, quando um número cada vez maior de pessoas estavam capazes de votar no pior apenas para acabar com toda esta fantochada. Não é difícil apontar-lhe essas resmunguices cruéis, «de diabo coxo, judiarias de pícaro em licença de vinho iconoclasta», para reconhecer a dívida deste texto com algumas expressões colhidas em Fialho D’Almeida. Assim, pelo convívio que nos foi permitido ter com ele, beneficiando sempre de uma liberdade para manifestarmos a nossa diferença e desacordo, devemos também reconhecer como naquele sua prática lapidadora da forma, avançando sempre por períodos curtos, sem qualquer contemplação ou margem para enlevos elípticos, para o rosário de variações barrocas com que se pagam os pavões do estilo, nada nos aproximava, e, no entanto, devemos obrigar-nos a perceber aquilo que nos ensinava sobre a necessidade de não fatigar o leitor, não se lhe impor por meio de inversões e cadências que fazem com que se perca o centro, deixando o texto de ter um eixo e de exercer a sua gravidade, traindo o esforço de uma observação sem subsídios, ajudando a esse resíduo de amnésia da fantasia. Ele assumiu aquela secura congénita e desinfeção moral ou sentimentalista, as naturais qualidades de escrita e aquele dom pedagógico raro que sempre se reconheceu ao seu pai, o historiador da cultura António José Saraiva, e que lhe granjeou também ao longo do tempo tantos leitores e admiradores. Ligava-os igualmente uma imensa disponibilidade diante da realidade, e um mesmo desejo de dar provas de vida no meio das múmias que disputam entre si a legitimidade de nos dar a perspetiva da nossa história como se se tratasse de um relicário. Eduardo Lourenço reconhece que o essencial da obra de António José Saraiva está «nos detalhes, nas hipóteses, nas leituras capitais, que justas ou injustas, desarrumaram o imaginário da cultura portuguesa». Se não nos é permitido confundir os dois perfis, é evidente que os une a forma como se mantiveram avessos a um efeito de ‘oficialização’, a esse ensejo tão comum na nossa classe intelectual de nadar em gloríolas. Defenderam-se e a esse esteio de uma cultura com espaço para os embates, as polémicas, a afirmação de perspetivas provocatórias, escapando e denunciando até todos aqueles que sempre pensam a sua intervenção e obra «destinadas a um consenso mole de glorioso embalsamamento». Lourenço distingue o historiador português como um autor extremamente original, «de uma liberdade de tom suprema, desabotoado no sentido próprio e figurado, e da mais rara das coragens: a de mudar de opinião se a reflexão, a experiência, a informação lhe pediam essa espécie de auto-negação». Nos traços que nos parece evidente que foram transmitidos ao filho, devemos sublinhar esta capacidade de auto-negação, e se o arquiteto não morreu como o pai a proferir um discurso público no preciso momento em que foi sacudido pela lembrança do seu pai, não deixa de ser curioso que José António Saraiva tenha em grande medida abandonado aquele ofício em que chegou a sentir-se como um Deus, para se entregar ao jornalismo e depois a seguir as pisadas do pai, e partilhando sempre com o filho os entusiasmos das suas intuições e descobertas, mais ou menos erráticas, fantasiosas, mas sempre firmes, expostas de forma lúcida, marcando um perfil indomável em contraste com um ambiente intelectual de uma indigência confrangedora.
Pacto inquebrantável
Morreu a ultimar um livro, deixando as últimas notas ao filho, que o acompanhou de forma cúmplice nestas corsárias incursões, convencido ainda de que tinha a receita para atrair e espantar os seus leitores, esses que foram verdadeiramente aqueles com quem manteve um pacto inquebrável, e que o seguiam nas suas leituras pessoais, polémicas, tendo sempre como referência essa ideia de que é possível comprometer-se com a verdade, e fixá-la de algum modo, se o autor em vez de se deixar arrebanhar pelas conveniências do grupo e as lógicas atávicas de classe, se em vez de mimar essas sucessões de estados afetivos, ou procurar fornecer-nos equações de álgebra moral, se focar naquilo que a sua experiência verificou. Assim, dada a falta de temperamento filosófico, José António Saraiva deixou aos outros as grandes construções rebuscadas, as notações extravagantes, os panos decorativos, libretos de farsa e fabulações de melodrama, também não se pôs a colecionar factos morais como quem coleciona bibelots, mas implicou-se no esforço de reconhecer a força do que pode conhecer-se como um facto determinante, e se há algo de maldoso nalgumas das intervenções, não pode recusar-se-lhe o grande papel que teve como um cronista mefistofélico dos vícios e das congeminações das últimas largas décadas, sem as quais a história não pode ser lida a uma luz de intimidade e compreensão humana. Outros agarram-se a esses pudores austeros de moralistas, e alguns disfarçam-se de ingénuos e fingem estar tomados de ideais, do seu tumulto, mas depois vemos como os seus artiguinhos de almanaque, não servem outra coisa senão fornecer-nos os elementos de etiqueta numa época que, debaixo dessas convenções decorativas, estava inteiramente podre.