John Singer Sargent. Viver para pintar

Americano nascido em Florença, John Singer Sargent consagrou a sua vida à pintura e nada mais. O seu talento foi reconhecido desde cedo, mas também atraiu ataques violentos. E só recentemente o interesse pela sua obra voltou a despertar, depois de uma longa hibernação
John Singer Sargent. Viver para pintar

John Singer Sargent estava inquieto quanto à forma como o seu retrato de Madame Gautreau iria ser recebido pela crítica e a sociedade. Embora o considerasse a sua obra-prima, sabia que alguns aspetos podiam ser considerados problemáticos.

Mas haveria motivos para tanto receio? Dois anos antes, El Jaleo: Dance de Gitanes, uma pintura monumental feita em Espanha, de uma dançarina num salão de flamenco, tinha causado furor, havendo quem a considerasse superior a Um bar nas Folies Bergères, de Manet, exibido no mesmo Salon. Sobre o retrato La Dame à la Rose, também de 1882, o escritor Henry James dissera que oferecia «o espetáculo um pouco estranho de um talento que, no dealbar da carreira, já nada tem a aprender».

Mas o caso de Madame Gautreau era um tanto diferente. O jovem pintor tinha um mau pressentimento… Deveria ou não apresentá-lo? Carolus-Duran, figura bem conhecida e bem instalada no meio artístico parisiense, com quem Sargent tinha aprendido a dominar a arte da pintura a óleo, encorajou-o: que enviasse o retrato para o Salon com toda a confiança!

De resto, não estava Paris habituada a obras muito mais chocantes? Afinal, haviam passado quase duas décadas desde que, em 1865, Manet apresentara Olympia, o retrato de uma prostituta reclinada com apenas uma fita preta à volta do pescoço – e que, bien sûr, provocara um escândalo tremendo. Gautreau não só era uma figura respeitada como estava vestida, tendo sido ela própria a escolher a indumentária.

Desta vez, ao contrário do habitual, não se tratava de uma encomenda. Fora Sargent, através de um amigo, a solicitar a esta beldade exótica que posasse para ele. «Tenho um grande desejo de pintar o seu retrato e tenho razões para crer que ela o permitirá e que espera que alguém lhe preste esta homenagem à sua beleza». Na carta, propunha um encontro em Paris e que o amigo o apresentasse nada menos do que como «um talento prodigioso», o que não andava longe da verdade.

Virginie Amélie Avegno nascera no seio da pequena aristocracia de Nova Orleães, tendo sido levada para Paris aos oito anos. Aos 19 casou-se com um banqueiro e homem de negócios com o dobro da sua idade, Pierre Gautreau. Com sangue crioulo a correr-lhe nas veias, era considerada uma das figuras mais belas e elegantes do Terceiro Império (1852-1870). As suas joias e vestidos eram objeto de comentários frequentes nas páginas dos jornais.

Apesar de tais pergaminhos, Sargent teve dificuldade em encontrar o ângulo certo para representar os atributos de Madame Gautrau. Numa carta, descrevia-a como possuidora de uma «beleza impossível de pintar». E ela, por sua vez, impacientava-se com as longas sessões de pose. Até que, após várias tentativas, o artista assentou na escolha dos tons e da posição que realçava as curvas subtis do seu modelo.

Arrasado em Paris

Os receios de Sargent, as suas hesitações em apresentar o retrato, não eram infundados. Quando o Salon abriu as portas, a 1 de maio de 1884, o retrato de Madame Gautreau atraiu todas as atenções. E todas as críticas. «Ao longo de toda a manhã, ouvi uma série de comentários jocosos, piadas de mau gosto e discussões acaloradas», descrevia Ralph Curtis, primo do pintor. «O pobre John estava de rastos». Estaria Carolus-Duran já a prever esta receção negativa e ainda assim encorajado a apresentação pública da obra, animado por sentimentos de inveja suscitados pelo sucesso precoce do seu virtuoso discípulo?

As palavras eloquentes e verrinosas do crítico Joseph Peladan resumem o que muitos sentiram perante a desconcertante pintura. «De todas as mulheres despidas, a única interessante é a do Sr. Sargent. Interessante pela sua fealdade, com um perfil afilado que lembra um pouco os de Piero della Francesca; interessante pelo seu decote, ainda adornado com correntes de prata, que é indecente e dá a impressão de um vestido prestes a cair; interessante, enfim, pelo branco nacarado que torna a sua pele azulada, ao mesmo tempo cadavérica e clownesca».

A alça caída, que sugeria uma nudez iminente, foi dos aspetos mais merecedores de críticas. O estudo que hoje pertence à Tate Gallery de Londres – exibido lado a lado com a versão definitiva na exposição John Singer Sargent – Éblouir Paris (Deslumbrar Paris), que termina por estes dias no Museu d’Orsay – mostra ainda a conceção original.

Consternado com as reações, Sargent levou o quadro para o ateliê, voltou a colocar a alça no lugar e rebatizou-o Retrato de Madame X.

Como notou o primo do pintor, a obra gerou «discussões acaloradas». Nem o opróbrio não foi unânime. O escritor Henry James, por exemplo, defendeu-a vigorosamente. «Esta pintura soberba, nobre na conceção e magistral no traço, dá à figura representada alguma coisa do alto-relevo da imagem de perfil em grandes frisos. É uma obra de pegar ou largar, como se costuma dizer, e em relação à qual a questão de gostar ou não gostar surge de imediato para ser resolvida. O autor nunca foi tão longe em termos de ser ele próprio com tanta ousadia e consistência» .

Correram rumores maliciosos de que a retratada fora apresentada ao pintor por um amigo comum, Samuel Pozzi, médico bem relacionado na alta sociedade. E de que Pozzi... seria amante de Madame Gautreau.

Mais de vinte anos depois, Sargent obteria a merecida vingança, quando a pintura foi adquirida com pompa pelo Museu Metropolitan de Nova Iorque, que por ela pagou ao artista a soma considerável de mil libras esterlinas (o equivalente a aproximadamente 150 mil euros atuais). Na altura, foi aclamada como ‘a Mona Lisa do Metropolitan’.

Um percurso invulgar

John Singer Sargent, o homem no epicentro deste escândalo tão tipicamente parisiense, era um americano com um percurso invulgar. O seu pai, Fitzwilliam Sargent, era cirurgião; a sua mãe, Mary Newbold Singer, era filha de um rico comerciante de Filadélfia e, como tantas americanas ricas, cultivava o interesse pela música e pelas artes. A morte da primeira filha do casal, aos dois anos, em 1853, levou Mary a convencer-se de que não suportaria continuar a viver em Filadélfia. Para lhe agradar, o marido acedeu a suspender o vínculo com o hospital onde trabalhava. No outono de 1854 partiram para a Europa, na expectativa de escreverem um novo capítulo nas suas vidas. Com pleno sucesso: nunca mais regressariam à América. Mary adorava organizar passeios e visitas aos monumentos, no Sul de França, em Itália, na Suíça e na Alemanha. John nasceu em 1856 em Florença e ambas as suas irmãs em Roma. Desde cedo a mãe incutiu-lhe o gosto pelo desenho e pela aguarela, que ela também praticava. Sempre com o caderno de desenho na mão, aos nove anos já revelava um olhar aguçado de artista.

«O Johnnie está a ficar um rapaz tão gracioso», escrevia Mary, orgulhosa, numa carta destinada à sua mãe, nos Estados Unidos. «Já tem idade para amar e apreciar as belezas da natureza e da arte, tão presentes neste velho país. Desenha muito bem, tem um olhar rápido e preciso».

Aos 12 anos, John entra como aprendiz para o ateliê de Karl Welsch, um pintor de paisagens alemão sediado em Roma. Aos 14, quando viaja com os pais para os Alpes suíços, escala o monte Pilatus, de onde se avista um mar de nuvens e os cumes que despontam acima delas, uma paisagem grandiosa que transpõe para uma aguarela hoje pertencente ao Metropolitan. Em 1873, aos 17 anos, ingressa para a Academia de Belas-Artes de Florença. Sentindo-se mal preparado para entrar para um ateliê de um pintor de renome, acredita que ao fim de mais um ano de formação poderá então dar esse passo. Mas a Academia de Florença não corresponde às expectativas e a família ruma a Paris, onde chega a 14 de maio de 1874.

John, já com 18 anos, encontra o mestre que procurava em Carolus-Duran, um retratista de prestígio que latinizara o nome de batismo Charles Durant. Chegando ao ateliê de Duran com um rolo de telas e uma pasta de desenhos debaixo do braço, o americano rapidamente suscita a admiração dos outros aprendizes, que ficam boquiabertos com o seu talento. Mas se assim é no desenho e na aguarela, falta-lhe dominar a técnica da pintura a óleo e os cânones do retrato, uma lacuna que o mestre se encarregará de preencher. Duran aconselha os seus alunos a irem para o Louvre fazer cópias rápidas de Velázquez e tem como lema: «Em arte, tudo o que não é indispensável é prejudicial».

Poucos meses após o início da aprendizagem com este retratista, Sargent submete-se aos esgotantes exames para entrar na Escola de Belas-Artes de Paris. A última prova, que dura 12 horas (!) consiste num desenho da forma humana. Sem surpresa, é admitido para uma das 70 vagas (36.º lugar em 162 candidatos).

O homem de vermelho

Pode considerar-se que a fase de formação termina em 1879, quando apresenta o retrato de Carolus-Duran, que permite antever que o discípulo irá ultrapassar o mestre – se é que não o ultrapassou já.

Embora se possa pensar que já nada tem a aprender, Sargent não é da mesma opinião. Em 1879 viaja para Espanha, onde copia os quadros de Velázquez. Fará até a sua própria versão das Meninas, quando pintar as quatro filhas de Edward Darley Boit – a mais nova, de oito anos, sentada no chão com uma boneca, a mais velha, de 14, pouco colaborante, encostada a um enorme jarrão de porcelana.

Apesar dos seus méritos – pianista exímio, poliglota (desde jovem fala fluentemente inglês, italiano, francês e alemão), leitor dos clássicos – Sargent recusa ser um diletante ou um menino de salão. Acorda cedíssimo, come depressa para não perder tempo, regressa a casa antes de todos, recusa os convites para festas. Não lê jornais, vive completamente alheado do que se passa no mundo e permanecerá celibatário toda a vida, o que virá a suscitar dúvidas sobre a sua orientação sexual.

Vive para pintar e, ainda na casa dos vinte, produz obras-primas umas atrás das outras, como a exposição do Museu d’Orsay mostra à saciedade. Em 1881 pinta o retrato O Dr. Pozzi em Casa, o tal que as más-línguas diziam ser amante de Madame X. 

«O percurso de Pozzi desde rapaz em Bergerac até à alta sociedade parisiense foi um triunfo do intelecto, carácter, ambição, profissionalismo e, sim, de um charme sedutor que tanto afetava homens como mulheres», escreve o romancista Julian Barnes n’O Homem do Casaco Vermelho. Autor de um tratado de ginecologia que fez escola, Pozzi operou e foi amante de Sarah Bernhardt, e um mulherengo incorrigível.

Sargent representou o célebre cirurgião na intimidade do seu luxuoso apartamento da Place Vendôme. Uma princesa do Mónaco considerou-o «chocantemente belo», mas omais notável deste retrato não é tanto o rosto, como os dedos, que se entretêm a brincar com as presilhas e o cinto do roupão. E obviamente a cor: o roupão encarnado contra um fundo encarnado. Gestos e tons sem dúvida apropriados para um cirurgião.

Também este retrato de uma ousadia espantosa não conseguiu gerar consenso. «Em 1882, Sargent enviou Dr. Pozzi at Home à Royal Academy em Londres, onde não obteve qualquer impacto», nota Barnes, que reproduz o que o viperino Robert de Montesquiou escreveu sobre Sargent: «O gosto é uma coisa muito especial… O Sr. Sargent, que é um grande pintor, não tem nenhum». E sobre este retrato em particular: «A pintura estava no escuro e não fazia mal que assim fosse».

Pode dizer-se que o sucesso de Sargent foi proporcional à violência dos ataques de que foi alvo. Oscar Wilde, que chegou a manifestar «profunda admiração pela sua obra», pouco depois chamava à arte de Sargent «perversa e meretrícia».

Não menos agressivo foi o crítico britânico Roger Fry: «Usei a expressão ‘praticante de pintura’ como um termo inadequado, comparando-a ao honroso título de ‘artista’. Não estava a perceber-me de que, tal como precisamos de ciências puras e aplicadas, também precisamos de artes puras e aplicadas, e que a arte de Sargent é eminente e inteiramente do último tipo. É uma arte aplicada às exigências e ambições sociais. Vejo agora que esta maravilhosa série de retratos representa uma transação social totalmente análoga às transações entre um homem e o seu advogado». Por outras palavras, o crítico acusava o pintor de prostituir o seu talento.

Os equívocos e a longa hibernação

Sargent, que vivia das encomendas, chegou a temer que o escândalo provocado pelo Retrato de Madame X lhe manchasse a reputação. E mudou-se para Londres, onde esperava conquistar uma clientela rica e ávida do seu talento. Curiosamente, a controvérsia chamou a atenção da famosa colecionadora de Boston Isabella Stewart Gardner, que viajou de propósito até Londres para combinarem os termos de um retrato seu. Sargent pinta-a de frente como um ícone bizantino, contra um brocado veneziano do século XVI. O retrato é objeto de troça, ao ponto de o marido dela proibir a sua exibição, restrição que a própria cumpre depois de enviuvar.

Instalado em Inglaterra, inicialmente é considerado, erroneamente, um impressionista. Se em Paris fora maltratado, do lado de lá da Mancha também é por vezes incompreendido. O retrato das irmãs Vickers, pintado em 1884, é considerado pelo público visitante da Royal Academy, o «pior quadro» de 1886! O que não impede que na década seguinte, de 1890, tenha Londres a seus pés.

Os ‘fracassos’ e mal-entendidos são provisórios. O «talento prodigioso» de Sargent acabará sempre por impor-se. Mas isso pode levar décadas. Após a sua morte, em 1925, foi desconsiderado como pintor de retratos da alta sociedade, tecnicamente exímios, mas superficiais. Só na década de 90 do século XX a história da arte voltou a olhar para ele com outros olhos, com os museus a limparem o pó e tirarem as suas obras das reservas, como se estas, há muito adormecidas, despertassem de uma longa hibernação.