sexta-feira, 10 jul. 2026

João van Zeller: “Conheci Angola até ao âmago”

Viveu em Angola entre 1968 e 1975, com uma interrupçãopelo meio. Calcorreou o país de Norte a Sul, de Leste a Oeste, e presenciou as cerimónias mais impressionantes que imaginar se possa, como relata no livro Angola – Duas épocas: 1968-70, 1973-75. Recentemente, doou à Faculdade de Letras a sua Biblioteca Angolana ‘para as gerações vindouras estudarem a História de Angola e a História de Portugal’. Sem tabus nem cancelamentos.
João van Zeller: “Conheci Angola até ao âmago”

Aos 84 anos, João van Zeller tem uma nova paixão: a sua Biblioteca Angolana, que já soma mais de 1100 volumes. «Isto é uma espécie de amante que eu arranjei», confidencia-nos. «Até fico um bocado transtornado ao falar consigo, porque falar disto é como falar de uma miúda por quem a gente se apaixonou».

Para sermos rigorosos, a paixão não é exatamente nova. Mas ganhou um novo impulso com a recente catalogação do acervo pelo arquivista e bibliotecário Paulo Gonçalves, indicado por um amigo livreiro. «Com o Paulo saiu-me o jackpot, é um poço de conhecimento».

Graças ao relatório redigido pelo especialista, João van Zeller descobriu que existe na sua Biblioteca Angolana «um número apreciável de livros muito raros», alguns dos quais não é possível encontrar sequer na Biblioteca Nacional. O mais antigo da coleção é um decreto de 1798 sobre o tráfico de escravos entre Angola e o Brasil, e o mais relevante é o monumental conjunto de oito volumes (1889-1994) da Expedição Portuguesa ao Muatiânvua, do explorador Henrique de Carvalho. 

As obras foram sendo adquiridas ao longo de uma vida, mas o gestor reconhece que há um núcleo importante em falta: «Um dia entro num alfarrabista que já não existe, no Largo da Misericórdia, e o que é que vejo? A coleção completa dos 400 volumes da Agência Geral do Ultramar, que era a coisa mais importante do ponto de vista científico. Estava ali completa. Custava 300 contos, podia ter comprado naquele instante. Mas pensei na minha mulher. ‘Chego a casa com estes livros todos e ela dá-me uma sova’. [risos] Pensei, pensei, pensei. Uma semana depois, quando voltei, já lá não estava. Sabe para onde é que foi? Para a Biblioteca do Congresso em Washington». Escusado será dizer que nunca mais lhe apareceu uma coleção igual.

Apesar do apego que sente pelos livros da sua biblioteca – que constituem uma extensão da sua devoção por Angola, onde viveu, trabalhou e passou por experiências que não esquece –, João van Zeller decidiu doá-los à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Quer que, em vez de estarem fechados no seu escritório, possam respirar e ser consultados por alunos, docentes e investigadores.

Com o mesmo intuito, foi assinado um protocolo com a Universidade Católica de Luanda para que todo este material seja digitalizado, de modo a estar disponível, ainda que não no formato físico, naquela instituição da capital angolana. «Com a digitalização, vai ficar tudo acessível aos investigadores, professores e estudantes da Universidade Católica de Angola. Porque isto não pode ficar morto nas estantes». E remata: «A minha ligação a Angola é tão forte que este deve ser o objetivo mais importante que tenho de momento».

Nascido no Porto a 15 de outubro de 1941, João van Zeller tem um longo percurso ligado à comunicação social, à finança e aos vinhos. Estudou Direito em Lisboa, tendo sido aluno de Marcello Caetano. Foi para Angola como chefe dos Serviços de Imprensa, Radiodifusão e Televisão de Angola, apesar de estar ainda na casa dos vinte anos.

Depois trabalhou na banca e na finança, não apenas em Luanda mas também em Nova Iorque e Londres. Privou com Mobutu e Holden Roberto, almoçou em Madrid com Kissinger, «um fanático de futebol», viajou no Concorde. Foi administrador da TVI durante 14 anos e acionista de referência, um dos períodos mais difíceis da sua vida. Houve alturas em que ganhou dinheiro e outras em que ficou «reduzido a zero».

No recém-publicado Angola – Duas Épocas: 1968-70, 1973-75 (Edições Afrontamento) combina as suas memórias pessoais daquele período com acontecimentos políticos e dados económicos, sem esquecer os amigos, as praias, os restaurantes, as festas e a vida nocturna, com alguns episódios picarescos à mistura.

Olhando para este catálogo, é uma biblioteca bastante eclética, não é? 

Paulo Gonçalves: É uma biblioteca só sobre Angola. 

Sim, mas vejo romances, poesia, história, estudos científicos, revistas e periódicos...

PG: Sim, tem várias coisas. Muitos estudos sobre antropologia, etnografia, geologia, zoologia... e história de Angola. Os livros vão de 1798 até ao presente.

A maioria feitos cá, não?

PG: Não só. Há muitos feitos cá, mas muitos também muitos impressos em Luanda.

João van Zeller: Há duas coisas extraordinárias que me apareceram há pouco tempo. Uma delas é este A Colonização das Terras Altas da Huíla. Conhece Angola?

Não conheço.

JvZ: Ah, não conhece! [risos] É pena, porque é o país mais extraordinário... Eu nasci tripeiro, sou tripeiro até à raiz dos cabelos. Mas sou angolano do coração. E ia adquirir a nacionalidade angolana antes de aquelas coisas começarem com o Rosa Coutinho [também conhecido como o ‘Almirante Vermelho’, mediou o processo de transição para a independência de Angola, consagrada nos Acordos de Alvor, assinados em janeiro de 1975]. Sabia que entre o 25 de Abril e julho de 74 não aconteceu nada?

Continuou tudo igual?

Tudo igual. A partir daí é que as coisas começaram a correr mal. Eu estava à frente de um banco que depois se revelou muito importante.

Podemos recuar um bocadinho? Em que circunstâncias vai para Angola?

A primeira vez que estive em Angola foi de 1968 a 70, no fim do meu curso de Direito. Por necessidades financeiras, procurei não sobrecarregar a minha família com o custo dos estudos e fui trabalhar para o SNI, que era uma espécie de Ministério da Cultura daquele tempo. O ‘ministro’, digamos assim, era um senhor chamado César Moreira Baptista que, às duas por três, numa circunstância rocambolesca, que está contada neste livro [Angola – Duas Épocas], me chamou ao gabinete, onde eu nunca tinha entrado. Eu na altura era um redator de imprensa estrangeira.

Redator de imprensa estrangeira?

Porque aprendi línguas muito cedo. Posso dizer que tenho quatro características. Sou tripeiro; sou angolano; sou alfacinha por adoção; e tenho um esqueleto inglês – tenho cinco costelas na família inglesas. E, portanto, fui formatado no modelo britânico.

Comerciantes de vinho do Porto?

Sim, claro. Ainda há vários van Zeller no vinho do Porto. E depois há os Symingtons. O primeiro Symington que veio para Portugal casou-se com uma van Zeller. E a Sogrape [fundada em 1942 por Fernando van Zeller Guedes] é a maior empresa de vinhos, suponho eu, da Península Ibérica. Ainda se vendem 20 milhões de garrafas do Mateus Rosé por ano, sabia? 20 milhões.

Ouvi dizer que era o vinho favorito do Saddam Hussein [ditador iraquiano deposto e executado pelos EUA].

Isso não sei. A Rainha de Inglaterra, um dia, foi ao Savoy – o Savoy em Londres, está a ver? – e disse que lhe apetecia beber um Mateus Rosé. Não havia. O diretor ia enlouquecendo. Mandou toda a gente ir à procura. E passados 10 minutos, numa tasca ali ao lado, encontraram umas garrafas e lá serviram Mateus Rosé à Rainha. Há mil histórias engraçadas.

E então dizia-me que depois de trabalhar no SNI vai para Angola.

A primeira vez que estive em Angola, era chefe dos Serviços de Imprensa, Radiodifusão e Televisão de Angola. A sua área…

Mas devia ser ainda muito novo.

Uns 26 anos. Tinha a categoria de secretário provincial, que era uma espécie de equivalente a ministro. Mas, como era muito novo, era atrevido. Não tinha medo de nada. Não ligava nenhuma ao poder – aliás, o poder nunca me impressionou. Estava completamente desprendido da importância que aquilo realmente tinha. Éramos correspondentes da RTP, mandávamos as cassetes todos os dias para a RTP, tinha não sei quantos cameramen, tinha fotógrafos, tinha uns 15 jornalistas a trabalharem para mim, tinha uma secção de publicações, tinha uma secção de relações públicas, onde recebi toda a espécie de celebridades, desde o Juan Carlos a sei lá quem, uma quantidade de gente. E nas minhas funções conheci Angola de Cabinda ao Cunene, do Novo Redondo a Teixeira de Sousa – depois mudou tudo de nome. Conheci praticamente Angola inteira. E fiquei imerso naquela cultura.

Na cultura colonial, de matriz europeia, ou na cultura autóctone?

Claro que sou europeu, mas estou a falar da cultura tradicional angolana. As pessoas hoje não gostam de ouvir isto, mas não havia racismo. Se havia eram bolsas. Vi engraxadores brancos a engraxarem sapatos de pessoas de cor, havia vendedores de lotaria brancos, havia sinaleiros pretos, sinaleiros brancos… havia de tudo. Eram três culturas, digamos assim, que conviviam muito bem: a cultura angolana, a cultura europeia e a cultura cabo-verdiana, também muito importante. Portanto, conheci aquilo até ao âmago. Assisti a funerais tribais e a cerimónias da circuncisão, às cerimónias do alambamento – que era a entrega das meninas – com os sobas, os bois, aquela coisa toda. Nos confins de Angola, na Diamang, por exemplo… Aliás temos aqui vários livros sobre o Museu do Dundo, que era único no mundo. [Levanta-se e vai buscar um livro à estante] Veja este: Subsídios para a história, arqueologia e etnografia dos povos da Lunda. Tem um trabalho sobre as máscaras do Mesquitela Lima…

Foi meu professor.

É uma coisa incrível, do ponto de vista do estudo etnológico. Eu produzia e realizava, com a locução do Fernando Pessa, um jornal de atualidades, o Actualidades de Angola, que saía a cada 15 dias e era distribuído pelos territórios portugueses e comunidades portuguesas espalhados pelo mundo. Ia para todos os cinemas portugueses, Timor, Angola, Moçambique, New Bedford, França, para todo o lado. Naquele tempo os cinemas tinham intervalos e nesses intervalos, ou antes do filme, passavam os movietones, desenhos animados do Walt Disney ou o jornal de atualidades, que muitas vezes era o Actualidades de Angola. Fizemos coisas fantásticas.

Isso estará no Arquivo da RTP?

Infelizmente não. Aquilo era montado em Luanda e depois a montagem final era feita na Tobis. Mas então na Lunda assisti a uma coisa impressionante. Nunca vi nada assim. Havia uns hábitos, existem ainda…

Superstições?

Não! O casamento tinha a cerimónia do alambamento, em que a família da noiva entregava uma fortuna com a noiva, os bois, etc....

O dote.

O dote. E havia tribos poligâmicas. Na Lunda havia um hábito extraordinário, que era o seguinte. Uma mulher não podia ter relações sexuais com o marido durante um ano após ter o primeiro filho. Então cheguei lá no momento em que havia uma festa para comemorar o primeiro dia em que eles iam ter relações sexuais. Foi uma coisa demencial, porque a rapariga estava completamente nua, toda pintada de óleo dendém, óleo de coco cor de laranja, os feiticeiros com estas máscaras, uma batucada tremenda, 400 ou 500 pessoas à volta. Acha que eles se incomodavam com a minha presença?

Não era um intruso?

Zero! Foi uma festa. A certa altura, ela foi lá para a casinha, fizeram a sua função e saíram os dois. A festa continuou, apanhou tudo um grande ‘pifo’ e foi assim o dia inteiro. Uma coisa louca.

Há umas bebidas, não é bem alucinogénias, mas que costumam tomar nessas cerimónias.

Isso nunca vi. A liamba, a maconha, isso sim, há sítios onde cresce muito e eles andam muito adormecidos.

Fumam?

Mastigam. Agora vou-lhe contar outra coisa. Em Cabinda assisti a um acordo com um movimento de libertação. A PIDE lá não era uma polícia política no sentido daqui de Portugal, eram os serviços de intelligence para as Forças Armadas portuguesas. E houve um diretor da PIDE que montou uma empresa de distribuição de pão em Cabinda, no norte de Angola, e começou a distribuir pão nas redondezas. Um dia vou jantar ao Governo-Geral e está lá um tipo chamado Alexandre Tati, que era o líder de um movimento de libertação – considerado ‘terrorista’ – que tinha uns 10 a 15 mil homens. Só percebi o que estava a acontecer quando a meio do jantar o ajudante-de-campo do governador-geral vem dizer-lhe alguma coisa ao ouvido. E diz o Tati: ‘Já sei o que se está a passar. As tropas portuguesas vão ser atacadas pelas minhas, neste momento. Mas eu estou aqui’. Uma coisa incrível! Lá se chegou a acordo com esse movimento, pagou-se não sei quanto e os conflitos em Cabinda acabaram. Acontece que os tipos vieram todos para Cabinda. Umas 10 mil pessoas com as famílias, imagine. E aquilo criou um problema nos fundos do Maiombe, com a questão das mulheres e das crianças e das casas.

Dez mil pessoas com famílias não se enfiam num sítio qualquer de um dia para o outro.

E eu tive uma ideia, passe a imodéstia. Como tinha estado envolvido em Inglaterra em iniciativas de apoio a gente com dificuldades, falei ao Ministro da Educação, o Pinheiro da Silva, uma pessoa absolutamente extraordinária. ‘Está tudo a entrar em férias. Porque é que não se mobiliza a malta das escolas e dos liceus? Faz-se uma ponte aérea para os fundos do Maiombe e constroem-se umas 500 casas para aquela malta que está em dificuldade’. Às duas por três as casas estavam prontas. E um dia, estava eu no meu escritório e aparece o Tati. ‘Quero fazê-lo meu irmão’. Uma das coisas que lhe tinham dada era uma casa bestial na Corimba, em cima da areia. E convidou-me para ir tomar chá a essa casa. Lá fui eu tomar chá com o Tati e levei uma namorada, para me sentir apoiado. Ele tinha três mulheres naquela altura e dançavam em frente ao mar, uma coisa lindíssima. Preto, branco? Não existia. E depois: ‘Agora vais ser meu irmão’. Lá fui eu para Cabinda, com uma tropa, ser irmão dele. Não imagina o que é atravessar a floresta do Maiombe. As árvores são tão grandes que é quase noite.

A luz não chega cá abaixo.

É muito escuro. Mas não é a selva. São aquelas árvores brutais, que são usadas pelas grandes empresas de madeireiros, madeiras fantásticas. Atravessamos a floresta do Maiombe, demorámos quatro ou cinco horas a fazer aquele trajeto de cem quilómetros, ou nem isso, e lá cheguei. Copos, batuques, uma festa bestial, tudo a dançar até às quinhentas… Mais comida, mais isto, mais aquilo. Montaram lá um palanque e ficámos irmãos. Até que eu já não aguentava mais e fui recolher. Cabinda é uma cultura à parte do resto.

Em que sentido?

Em Cabinda há muita coisa ligada com o óbito, com a morte, com o casamento, com o alambamento… e com o sexo. E sobretudo com a puberdade. Assisti às coisas mais horríveis. Cortam aquela coisinha que a gente tem com uma gilete. Às vezes até morrem com infecções. Uma batucada, um pó, sangue por todo o lado. Com as raparigas é diferente. Em Cabinda, não sei se isso se mantém, havia o hábito, de quando a rapariga atingia a idade de ter relações, ser educada sexualmente por uma velha. Um Kama Sutra autêntico. Aprendia a arte…

As posições todas, etc.

Estava lá há uns tempos com as velhas, a ensinarem-lhe tudo quanto há e depois saía e casava-se. E aquelas que não casavam ficavam mulheres públicas. E em Cabinda havia outra coisa, assisti uma vez a isso… o pau de cabida. Você ficava... durante três dias.

Um viagra natrual. 

Qual viagra, cem vezes viagra. Nem me passou pela cabeça provar aquilo. Um tipo enlouquecia. Houve lá um que teve que ser atado durante dois dias. Estava louco. Outro costume: os óbitos. Havia um famoso escritor francês naquela época que foi muito mediático – na altura fizeram-se dois ou três filmes com os livros dele, até com atrizes conhecidas –, chamado Michel de Saint-Pierre, que foi a Angola. Eu já o conhecia cá de Portugal, do tempo em que era redator de imprensa estrangeira do SNI. Além de fazermos os resumos da imprensa internacional para o Salazar todos os dias, recebíamos jornalistas e personalidades estrangeiras. Mas então o Michel de Saint-Pierre foi a Angola e quis assistir a uma cerimónia funerária. Lá fomos a uma cerimónia funerária. Era uma rapariga nova que tinha morrido e o rapaz teve que ter relações sexuais com o cadáver. Imagine.

Isso é necrofilia…

Não, não é. Quanto mais eu percebia, menos percebia aquela cultura. Não pode chamar isso, porque não é isso, não tem nada a ver. Quanto mais conhece, menos conhece.

É um mistério. 

É muito mais que mistério. É uma coisa... impossível. E, se não fosse a língua portuguesa, aquele país não existia. Até porque havia rivalidade tribal e racismo entre as tribos. Com os portugueses não, porque os camionistas e os comerciantes eram o sistema arterial e os corações daquele país. Tudo isto para lhe dizer que Angola ficou cá dentro, eu sou angolano. Sou angolano. Depois acabou muito mal em 75. Estava à frente de um banco importante, de que os acionistas eram o Citibank, o maior banco do mundo na altura, que tinha 45%, e o Banco Espírito Santo, que era o maior banco português na altura. E eu, o Mário Mosqueira do Amaral, que foi administrador, com o Ricardo Salgado, do Banco Espírito Santo, e o Carlos Corte-Real, que era o diretor-geral da CADA, a Companhia Angolana de Agricultura, ficámos com 10 %. A CADA era a maior empresa de café do mundo. Hoje em dia Angola não tem café.

E era de quem, a empresa? 

Era de quatro acionistas.

Portugueses? 

Queiroz Pereira, Espírito Santo, Guedes de Sousa e Arantes Pedroso, destas quatro famílias. E aquilo era um modelo. Aliás, havia duas grandes empresas modelo de tipo colonial. Com hospitais e escolas e cinemas, casas para os trabalhadores. Casas razoáveis e casas boas até, em muitos casos, para os executivos, para os empregados da empresa. A melhor de todas era a Diamang. Era uma coisa modelar.

Mas há quem diga que o dinheiro da Diamang fugia todo para o estrangeiro.

O quê? Não.

O coronel Matos Gomes dizia isso. 

Isso são coisas que se contam. A De Beers era a maior empresa do mundo de diamantes e portanto era acionista. O Estado português era acionista. Ganhava uma pipa de massa. A lapidação às vezes era feita em Antuérpia, às vezes era feita aqui. Era uma coisa monumental. O comandante Ernesto Vilhena foi o cérebro daquilo. Era um modelo de exploração de minérios. Aquilo era uma beleza… Atenção que eu não exagero nada, nem dramatizo. Sou muito cuidadoso nos adjetivos. Mas era muito bonito – o arvoredo, as casas, o cinema, os campos desportivos, os hospitais. A Diamang era um estado dentro do Estado. Tinha uma emissora própria, etc., etc. Não havia dinheiro a circular. Eram vales, não se usava dinheiro. Mas tinha uma coisa horrível. Você estava lá e imagine: era o José Saraiva e o João van Zeller durante o ano inteiro. No cinema, no ténis, no futebol, eram sempre os mesmos ao seu lado.

E as condições?

As casas dos empregados, dos que andavam a explorar – tenho aí fotografias várias – eram boas. Mas as casas dos executivos eram muito boas. E tinham uns muros baixinhos para toda a gente se ver uns aos outros. Era uma filosofia. Mas era uma maravilha. As piscinas, o clube... era uma coisa bestial. E a CADA [também] era assim. Qual é a sua idade?

Quarenta e seis.

Tem praticamente metade da minha. Sinto que isto pode ser difícil de perceber para a sua geração.

Até aqui não tem sido…

A maior parte das pessoas não apreende. Ou porque são céticas, ou não acreditam, porque as coisas são inverosímeis. As coisas que aconteceram e que existiam em Angola são de facto inverosímeis. Encontrei o seguinte dado num documento da Secretaria de Estado dos Retornados, feito em 1976, um ano a seguir ao Verão Quente. Foi trazido por um comandante da Marinha que o analisou e estava distribuído o valor do património… Por acaso, só consegui esta informação no último minuto – está em três linhas nesse livro. Deixámos lá, entre o setor de minérios, a Companhia Mineira de Lobito, Companhia do Manganês, Companhia de Petróleos, etc., etc.... Estou a falar das companhias portuguesas – os serviços é claro que foi tudo confiscado, não valia nada. O meu banco valia zero. Confiscado. Não havia lei. Saiu um boletim oficial do ministro da Economia, mas era uma fantasia.

O banco com todos os seus ativos? 

Os ativos eram incobráveis, a maior parte deles. Mas entre indústria pesada – siderurgia, cimentos, etc. –, o minério – a Companhia Mineira do Lobito era a maior companhia da África subsaariana, tinha um porto mineraleiro em Moçâmedes para exportar os pellets de ferro. Os navios japoneses ficavam ali à espera durante dias. Aquilo era um colosso. Tudo isso somado, registe, avaliado por esse senhor da Marinha, dava 435 mil milhões de dólares. É o dobro do PIB português atual e é quatro vezes o PIB de Angola atual. Foi o que nós lá deixámos.

E o que aconteceu a esses ativos?

Foi tudo destruído. E nem estou a contar com os serviços, porque havia 5 ou 6 mil empresas, com 50 empregados, 40 empregados, que nem sequer estão quantificadas. Houve um senhor chamado Costa Oliveira, que tem um livro muito importante sobre isso, que lançou um plano económico e financeiro para Angola, em que congelou as importações, porque a balança comercial estava muito desequilibrada. E, portanto, teve que se fazer tudo lá: motocicletas, os automóveis eram lá montados, as máquinas… Se aquilo tivesse andado direito, era o Brasil. 435 mil milhões de dólares – isto foi escrito em 1976, não é propriamente para a gente desconfiar. Foi o valor que eu encontrei, está escrito. Até agora, ninguém se queixou. Uma cifra brutal. Desapareceu tudo. A CADA era a maior empresa do mundo de café. As pessoas não acreditam. Desapareceu.

Em termos humanos, depois da saída dos portugueses também foi uma tragédia.

Um milhão de mortos na Guerra Civil. Na minha interpretação pessoal, a invasão, aquela mortandade toda que houve em 1961 [o massacre perpetrado pela UPA, de Holden Roberto, contra colonos e civis, que provocou cerca 800 mortos e deu início à Guerra do Ultramar], foi uma tentativa de reconstituição do reino do Congo. Desculpe… se me começa a puxar pela língua nunca mais me calo, porque falar disto é como falar de uma miúda de que a gente gosta, se apaixonou, de uma amante, sei lá. E a minha ligação a Angola é tão forte que a doação e digitalização da Biblioteca Angolana deve ser o objetivo mais importante que tenho de momento, nos últimos anos que me sobram para viver. Eu tenho 84 anos, não é brinquedo.

Essa ligação a Angola mantém-se independentemente do que se passa lá?

Completamente.

É imune a isso tudo? 

Imune. O que se passa lá é a natureza humana, é o produto da História. A Revolução Francesa foi o que foi. A Revolução Americana foi o que foi – totalmente diferente da Francesa, porque os Founding Fathers eram todos cristãos e a Revolução Francesa era ateia, completamente. São produtos da História. A gente não pode dizer se são bons ou são maus. É o nosso tempo, é o tempo que a gente vive. Eu não sou saudosista. Memorialismo é uma coisa, saudosismo é outra coisa completamente diferente. Não tenho saudades de nada. Vivi coisas formidáveis. Paguei os meus estudos com o meu trabalho, depois ganhei o meu dinheiro. Já estava lançado na vida e fiquei sem um tostão. Passei o pior que possa imaginar. Comecei em Londres a partir do zero. O meu quarto livro é disso que fala, da minha formatação britânica. Isto que aqui está [o livro Angola – Duas Épocas] tem importância para a documentação do futuro. Mas não é saudosismo, são factos. Os factos foram tão importantes em Angola, e estão tão bem documentados, que não se pode passar por cima deles. Concorda?