João Abel Manta. Anatomia cruel da nossa mansidão

1928-2026. O país mudou de cenário, mas os fantasmas de Abel Manta continuam reconhecíveis.
João Abel Manta. Anatomia cruel da nossa mansidão

O desaparecimento de João Abel Manta já vinha saindo em fascículos há muito, a cargo não tanto de um certo descaso ou esquecimento mas das fórmulas devorantes de abutres comemorativos, sempre com a sanha de fazer a única coisa que sabem: exibir em paredes por grosso, preencher a temporada nalguma galeria, museu, com aquele gosto de atividade curricular, e a trabalheira de levantar dos arquivos fragmentos que amolecem toda a urgência, com catálogos ao vivo, que no-lo davam arrastado, frio, sem fantasia de espécie nenhuma. Assim, a morte de qualquer artista minimamente estimado sabe mais a outra requisição aos serviços, para se voltar a fazer o mesmo, maior se possível, e, talvez por rejeição disto, Abel Manta se esquivasse, procurando faltar à especialidade histórica deste país, que é o ir fazendo alguma coisa por descargo de consciência, para seguir, afinal, na mesma inconsciência tranquila. Parece até que já passou, que fomos safos do pior daquilo tudo. Qual contestação?, se esta se tornou um modo geral de cada um se coçar. E não há, por isso, margem sequer a um ensaio de inconsciência trágica, dilacerada, capaz ainda de produzir conflito ou remorso, mas só um cuidado de reivindicar importâncias, tramar algum tipo enfiando com ele no «presépio de plástico», onde a maioria quer, e se aperalta, toda solene, com esse candor de bufos de si mesmos, agradecidos, entregues à acomodação pachorrenta, brindando essa ganância de referências passadas que não aquecem nem arrefecem o nosso sonambulismo civil. Tudo isto exprime um fundo de convivência satisfeita com o pior, e dá para deixar que o tempo fique todo ele com cheiro de efeméride, exposição regular-comemorativa, selo postal, colóquio patrocinado, frase de circunstância debitada por algum analfabeto funcional da cultura. Lá se repescaram, como de esperado, os automatismos de há décadas: «mestre do cartoon», «cronista do 25 de Abril», «ilustrador da liberdade», «o maior artista gráfico dos últimos…». Poucos sofreram tanto dessa especialidade, desse ensejo de os ver embalsamados em vida, em lugar desse favor abrir o campo a novas relações, uma pronúncia matreira que pudesse atingir aqueles que se governam ensacando o espólio, atrelando qualquer manifestação aos humores oficiais, e uma vez que, no essencial, seguimos na mesma, continua a administrar-se a arte, a alimentar esse círculo de happenings nobres com o consentimento dos poderes.

João Abel Manta soube-se condenado aos especialistas, aos apreciadores-e-roedores, a essa pacificação resinosa, e a acatar que lhe fosse feita assim a folha, naquele enredo escolar em que até a denúncia ao fascismo parecia pôr tudo aquilo à distância – ufa! –, como se o provincianismo e a miséria moral do salazarismo não tivessem sabido reciclar-se, repor nestas «cidades inabitáveis do apocalipse capitalista» o desfile doméstico de antes e os demais rituais que fixam o concurso de proezas da nossa inanição. Bem a tempo, José Cardoso Pires apontou aos novos espetros que o fascismo insinuava, ele que persiste como o mais cúmplice, o mais sagaz dos admiradores, tendo-se revezado como podiam a redigir e corroer com mãos conspirativas de modo a transmitir na tinta um ácido que persistisse, rebuscando fissuras, a trabalhar para os desmoronamentos, notando como continuava cá tudo, a postos, a nossa burguesia em grande parte intocada, ansiosa por repor a sua feira, de acordo já com ritmos e lógicas moderninhas de importação, preservando o mesmo regime de ornato, e seus emblemas e heróis, seus colaboracionismos à sorrelfa, pois tudo isso se compagina harmoniosamente com a alimentação a soro, a caça ao subsídio, e as obras de restauro do campanário, com os «monomentos», para que em sua volta seguisse a procissão com todos os seus tiques, a servir para recreio da tal intelligentzia cosmopolita, que Abel Manta ilustrou como «um carnaval soluçante», andando de velório em velório.

Chegou a vez do seu. Aos 98 anos, depois das maleitas que o pregaram à cama (cruz e antiga nau dos blasfemos), já se esperava ver deste lado do porto os lenços estendidos, como há muito, e ele remando ainda em contramão, mais por hábito já, contra os que recolhem as migalhas da memória, os que andam por aí dirigidos sempre ao passado. «Não hão de apanhar-me vivo», diria ainda o artista plástico, arquiteto, ilustrador e cartoonista que se furtou de vez a isto, na passada sexta-feira. Se alguns salivavam com ele em registo mestre-escola, aquele seu «traço meditado e explosivo» persiste pelo claro ensejo de desmantelar mais do que retratar apenas uma época política. No fundo, incomoda o quanto aqueles mesmos traços são tão sugestivos de novos alvos, persistindo em radiografar disposições profundas de um eventual caráter português. A obediência, o gosto pela tutela, a reverência pelo poder, a melancolia passiva. Este medo que sempre surge mascarado de prudência, e a eterna tendência para trocar liberdade por uma posição administrativa no esquema, tudo aquilo que assegura que sempre outros «cadáveres ambíguos» fiquem por aí infestando a paisagem.

A frechada ali tinha o seu quê de vingança, um ato longamente estudado ainda que pudesse eclodir numa impressão quase espontânea. Não era apenas uma travessura perigosa, mas sinal desse «condão da minucia obcecada que, desenvolvida em doses impiedosas, denuncia uma brilhante, atrevida e cruel ostentação dos fundamentos exatos do real quotidiano» (Cardoso Pires).