Israel pode ter influenciado televoto da Eurovisão 2025 através de campanha do Governo

No dia em que arranca a primeira semifinal da Festival Eurovisão da Canção 2026, uma investigação levanta dúvidas sobre a edição do ano passado.
Israel pode ter influenciado televoto da Eurovisão 2025 através de campanha do Governo

No dia em que arranca a primeira semifinal do Festival Eurovisão da Canção, pautado por boicotes devido à permissão da participação de Israel, surge um detalhe sobre a edição do ano passado.

Israel pode ter manipulado o televoto da Eurovisão na edição de 2025, em Basileia, na Suíça. A investigação do The New York Times revela que, através da interferência do Governo israelita na promoção da participação do país, os resultados podem ter sido manipulados. No entanto, não há evidência de uso de bots, ou de "outras manobras encobertas para manipular o voto", de acordo com a investigação.

Os dados analisados pelo jornal norte-americano dão conta de que, em alguns países, bastariam apenas "algumas centenas de pessoas organizadas" para efetivamente influenciar significativamente o televoto e possivelmente mudar o rumo do final do festival.

Como pode ter funcionado a manipulação?

A investigação explica que a manipulação pode ter funcionado através de campanhas coordenadas por entidades ou instituições ligadas ao executivo, incentivando a população a votar em massa.

O The New York Times dá o exemplo de Espanha, um país assumidamente contra a atuação de Israel, que inclusive não vai participar nem transmitir a edição deste ano do festival, em protesto contra a participação do país que acusam de genocídio. O jornal explica que Israel recebeu 47 mil votos do público espanhol em 2025 - esse foi um número cinco vezes maior do que os votos da Ucrânia, o segundo país mais votado. Essa discrepância levanta dúvidas e debate sobre a forma como pode ter havido influência adicional.

Cada pessoa pode votar até 20 vezes no concurso. O governo israelita terá "lançado uma campanha para tentar influenciar o voto" através de publicações nas redes sociais de várias figuras responsáveis, como diplomatas, ativistas e membros do governo, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

A investigação aponta a utilização do concurso como uma "ferramenta de soft power", que significa um instrumento não coercivo utilizado por um país, cidade ou organização para influenciar comportamentos e opiniões internacionais através da atração e sedução, em vez de força ou pagamento.

“Houve claramente uma campanha digital coordenada e financiada por Israel para mobilizar apoio”, garantiu o diretor do FakeReporter, empresa que fiscaliza notícias falsas em Israel, Achiya Schatz, ao jornal.

Recorde-se que no ano passado a União Europeia de Radiodifusão (UER) chegou a realizar uma investigação que abrangiu "vários gabinetes governamentais, empresas, companhias estatais e companhias públicas". Concluiu-se que houve uma campanha liderada pela Agência de Publicidade do Governo de Israel, no entanto, não houve qualquer auditoria aos resultados.

Há possibilidade de punição?

“Estas regras [de competição justa e neutra] não proíbem as emissoras participantes ou terceiros como editoras ou outros de promover as suas participações online ou noutro lado, desde que tal promoção não instrumentalize o concurso ou viole as suas linhas editoriais”, explicou em maio o diretor executivo da UER, Martin Green.

Isto significa que o ato de interferência governamental não constitui uma violação clara das regras da UER. No entanto, constitui sim um abuso nas práticas de promoção da participação de um país, uma vez que é suposto o festival ter apenas a participação das emissoras públicas de televisão e não dos governos.