Mesmo depois de décadas de ativismo, nos anos 90, nos EUA, a perseguição aos homens gays ainda era uma realidade. Muitos deles viviam, por isso, vidas duplas, escondendo o que realmente sentiam (quando queriam correr esse risco). Os encontros tinham de ser combinados pessoalmente (sem deixar pistas), de uma forma bastante discreta e, claro, na clandestinidade, pois podiam ser punidos com prisão. «Pervertidos» e «tarados», chamavam-lhes as autoridades. E foi precisamente até essa altura que Carmen Emmi quis viajar naquela que é a sua primeira longa-metragem: Plainclothes, em português Incógnito. O realizador norte-americano revisita a década em que cresceu, em Syracuse, onde aprendeu a reprimir quem realmente era, numa altura em que, segundo o próprio, essa opressão parece regressar – mesmo que mais discreta –, ao seu país. Segundo o The City, relatórios recentes revelam que o Departamento de Polícia da Amtrak, por exemplo, mantém sob vigilância um ponto de encontro na Penn Station desde junho, já tendo realizado mais de 200 detenções. Um dos homens detidos, David, de 31 anos, contou ao jornal americano que foi preso quando estava simplesmente a tentar urinar. É assumidamente homossexual e utiliza uma pulseira do orgulho LGBTQIA+. Já se estava a sentir observado há algum tempo até que foi preso por «atentado ao pudor». O profissional de saúde disse que foi algemado a uma parede numa cela dentro da Penn Station, onde ouviu um dos policias dizer aos outros: «Conseguimos prender mais três tarados!». David foi preso juntamente com dois homens que estavam no mesmo local, mas que não conhecia. Foi libertado horas mais tarde.
Incógnito estreou em exclusivo na Filmin no dia 29 de janeiro, depois da sua apresentação no Festival de abertura do Queer Festival e foi distinguido com o Prémio Especial do Júri para Melhor Elenco no Festival de Sundance 2025.
Um filme sobre controlar sentimentos
Estamos em 1997, numa área bastante conservadora dos EUA. É nítido que Lucas, personagem principal interpretado pelo ator britânico Tom Blyth, tem vários problemas de identidade. Logo à partida há qualquer coisa que nos faz sentir que não é uma pessoa feliz. No entanto, parece relativamente à vontade com a missão que lhe foi delegada: o jovem agente da polícia trabalha como infiltrado em operações destinadas a atrair e prender homens homossexuais em espaços públicos. Sentado numa mesa no meio de um shopping, o objetivo é chamar a atenção de um estranho interessado, segui-lo até à casa de banho e prendê-lo assim que ele fizer alguma coisa ou der a entender que é realmente gay. Mas a vida troca-lhe as voltas quando se apaixona por um dos seus alvos: Andrew, um pai de família, interpretado pelo também britânico Russel Tovey. Segundo as regras da missão, Lucas está proibido de entrar nas cabines da casa de banho ou de falar com os suspeitos. Contudo, nesse dia, o jovem quebra essa regra. A partir desse momento, é então obrigado a confrontar o desejo, o medo e a culpa nesse contexto de repressão.
A origem do filme remonta a 2016, numa altura em que Carmen Emmi começava a viver abertamente a sua sexualidade, enquanto o seu irmão se preparava para ingressar na polícia. O realizador inspirou-se num caso ocorrido em Long Beach, Califórnia, onde agentes atraíam homens para o WC de um parque para depois os deter. Leu o artigo dois anos depois de o caso ter acontecido, pouco tempo após «ter saído do armário», e isso fez com que sentimentos como a ansiedade - que pensava já ter superado – começassem a regressar, explicou em várias entrevistas depois da estreia do filme. Sentia que tinha de escrever sobre isso. «É um filme sobre controlar os próprios sentimentos», disse Carmen ao TheWord San Diego. «E o tipo de estado mental perturbador que pode surgir ao viver dessa maneira», completou. «Eu tinha me convencido de que era seguro ser eu próprio, mas quando li o artigo sobre a operação policial secreta em Long Beach, deixei de ter essas certezas (...) Comecei a escrever um diário e foi assim que o personagem Lucas nasceu», admitiu. Quase na mesma época, o seu irmão estava a formar-se para polícia, o que «adicionou uma camada de complexidade pessoal à história». «Sou muito próximo dele. Conforme ele mergulhava nos treinos, eu aprendia mais sobre como era esse mundo», explicou.
Um tema urgente e atual
Ao Sundance Institute, o realizador também lembrou uma frase que leu durante o processo de escrita do argumento e que o fez entender por que caminho iria na história. «Enquanto investigava para esta história, li em algum lugar que, a partir de uma certa idade (talvez entre 12 e 13 anos), os meninos aprendem que um soco é melhor do que um abraço. Essa ideia ficou na minha cabeça e ajudou-me a formular a pergunta que eu queria fazer: ‘O que é que acontece quando nós controlamos os nossos sentimentos?’», partilhou. Ao longo de grande parte do processo de escrita, imaginou fazer o filme para si próprio com 20 anos, altura em que estava a lutar para se assumir. «No entanto, durante as exibições teste, muitos membros da plateia partilharam comigo momentos das suas vidas em que sentiram que não podiam ser eles mesmos ou como escondiam os seus sentimentos por diversos motivos (aparência, família, sociedade). Se eu puder ajudar as pessoas a perceberem como podem estar a controlar os seus sentimentos, reprimindo a sua verdadeira essência, mesmo que minimamente, sentirei que cumpri a minha missão», revelou.
Ao site Cinema em Portugal, Tom Blyth destacou a intensidade emocional da personagem que interpreta: «Lucas vive num estado constante de ansiedade e paranoia. A tensão era tão grande que levava isso comigo para casa. À noite, não conseguia dormir, revivia os seus pensamentos e momentos do dia em que me sentia paranoico. Isso infiltrava-se na minha vida pessoal», desabafou. Já Russell Tovey, que é conhecido pelo seu ativismo LGTBIQ+, recordou na mesma entrevista ter assumido publicamente a sua orientação sexual aos 20 anos, apesar das resistências da indústria, sublinhando a relevância do filme: «Embora se passe nos anos 90, o filme é urgentemente atual. Pensávamos que estávamos a fazer um filme de época, mas é impressionante como se tornou tão contemporâneo», acredita. Para o ator, obras como Incógnito são hoje «mais importantes do que nunca», num contexto em que «políticas anti-LGTBIQ+ promovidas por Donald Trump e outros políticos de extrema-direita chegaram mesmo ao Supremo Tribunal do Reino Unido».