Imprensa da Universidade de Lisboa. Refazer a boca com o sabor a pó e a cinzas

Prodigiosa e secreta, a colecção de obras que compõe o catálogo da Imprensa da Universidade de Lisboa actua como um líquido de contraste permitindo reconhecer todos os saberes e géneros literários que os editores comerciais foram desertando. Ao fim de uma década, com meia centena de títulos editados, a editora criada por António M. Feijó consegue ser um dos raros projectos que parecem encarar a arte da impressão como uma verdadeira religião.
Imprensa da Universidade de Lisboa. Refazer a boca com o sabor a pó e a cinzas

W. H. Auden escreveu certa vez que um homem que tenta salvar-se de um afogamento é um intelectual, porque está a pensar na sua condição. Hoje, quase todos os leitores mais exigentes acreditam estar a afogar-se, mas essa sensação não os conduz ao pânico nem ao desespero, leva-os antes a aferrarem-se a uma tranquila paranóia objectiva, e aos prazeres do pensamento, reconhecendo como só este pode estender um caminho em direcção ao que quer que venha a sobreviver ou persistir face ao colapso. Estes períodos tendem, no entanto, a ser marcados por uma mórbida inércia, e tornou-se notório como esta época parece ter dado baixa do stock de sal com que preservava os melhores feitos do nosso passado recente, para compensar-nos das injúrias de um espaço público onde o banal vem há muito alastrando e impõe hoje o seu poder incontestado, desde logo por ter conseguido submeter a si o favor do mercado.

Seja como for, se entre os consumidores o leitor sempre preservou uma certa reserva ao praticar a suspeita face às tendências e às comoções dominantes, a edição também se distinguiu pela capacidade de se evadir às expectativas, gizando saídas invulgares, prometendo aquela desordem significativa, a possibilidade de um abalo. No fundo, o leitor quer o quê? Deixar-se perder na fragrância ascética de um novo livro, que verse com uma profundidade exaltante temas que lhe provoquem essas tonturas deleitosas de algo que, partindo do concreto, acaba por se tornar meio esotérico. Mas se as condições de treva deveriam instigar modos de intervenção crítica, e se ainda aspiramos a vir no índice deste século, como algum sinal humano florescente e salubre, mais do que essas edições que parecem aquecer com o bafo as mãos, é útil poder nutrir-se de uma constelação de referências que desafiarem os géneros e mesmo as palavras, de outro modo o nosso rasto mal se apercebe. Num meio prenhe de boas intenções como o da edição, em que a cada ano entram a concurso uma infinidade algo caótica de títulos, perdendo-se tantos nessas leituras feitas na diagonal, há muito que sentíamos falta do impulso que só podem dar-lhe as editoras universitárias. Para lá do “arco-íris do luto” que nos servem os enredos comerciais, fazem falta colecções que, mais do que actualidade, se proponham trabalhar para a duração. Se as editoras comerciais muitas vezes oferecem versões provisórias da história, as universitárias tipicamente constroem corpos coerentes de conhecimento, trabalham para produzir versões mais rigorosas, estáveis e fundamentadas. Henrique Leitão, Pró-Reitor da Universidade de Lisboa, que sucedeu há quatro anos a António M. Feijó na direcção da colecção, adianta que a ideia é servir um público culto, mas não especialista. Numa entrevista dada há uns anos a este jornal, Feijó assinalava que a editora nasceu por iniciativa do reitor, que quis criar uma editora da universidade que coexistisse com as editoras já existentes em várias escolas e institutos, sem competir com elas, mas complementando-as. Cada uma manteve a sua missão específica, enquanto a Imprensa assumiu um projecto transversal, ao serviço da universidade como um todo. Desde o início, foi definida uma linha editorial exigente e clara. A Imprensa da Universidade de Lisboa propôs-se publicar, em primeiro lugar, textos clássicos fundamentais ainda inéditos em português ou esgotados há demasiado tempo; em segundo lugar, manuscritos inéditos nas diversas áreas do saber cultivadas na universidade – das ciências exactas às ciências sociais e às humanidades; e, por fim, de forma mais residual, projectos avulsos de particular interesse para a instituição, como foi o caso do volume inaugural dedicado ao património material da Universidade de Lisboa.

Sob o prisma que aqui se defende, o regresso a textos clássicos fundamentais não é um gesto de recuperação patrimonial, nem um exercício de nostalgia erudita, mas um modo de intervir no presente. Entende-se que um clássico não é uma obra que resiste ao tempo, mas que o organiza. Por outro lado, e reconhecendo que está a actuar num mercado editorial saturado, sobretudo no domínio da ficção, Feijó assinalava que “a não ficção é um parente pobre”. E que, nesse domínio, “podemos publicar coisas que os editores comerciais têm mais dificuldade em fazer. Aí podemos correr alguns riscos”. Esse é o propósito que define e distingue a colecção: publicar o que os editores comerciais dificilmente conseguem ou querem publicar, apostar em obras de circulação mais lenta, mas de impacto duradouro. É um modo de segurar a rectaguarda, preservando a ideia de que o livro continua a ser a forma privilegiada de certos pensamentos, não porque seja a mais eficiente, mas porque é lento, e porque só na lentidão certas relações se tornam perceptíveis.

Henrique Leitão lembra que, com 53 mil alunos, mais de seis mil professores, a Universidade de Lisboa é uma instituição cultural imponente, e deve tomar uma posição na defesa de uma ecologia diversa e sustentada a diferentes níveis. Assumindo que o papel que lhe tocou foi dar seguimento a “uma colecção magnífica”, e que é feita com escassos recursos, se o público visado excede os estudantes, não deixa de estar implicada no esforço de trazer para nativo um mundo que tende a perder o fôlego e a ver o seu testemunho erodido, num presente que faz do passado esse enorme destroço submerso a afundar-se silenciosamente fora da nossa perspectiva. E se nos é cada vez mais fácil assumir que o futuro trará condições muitíssimo adversas à transmissão de uma cultura exigente, esta colecção actua num regime provisional, preparando um colapso simbólico, as erosões da linguagem. Nesse sentido, há um papel ético que parece consciente do perigo que Walter Benjamin reconhecia em certas épocas, ao assinalar como “nem mesmo os mortos estarão a salvo se o inimigo vencer”.

Hoje, o inimigo é demasiado difuso, é o próprio contexto cultural, em que, como assinalava Eduardo de Sousa, um livreiro com décadas de experiência, os jovens procuram cada vez menos os livros como formas de se evadirem a um tempo sem promessa… “Grande parte deles não os quer nem de graça, bastando-lhes os bytes que, num misterioso código binário de 0/1, recolhem todo o saber humano numa etérea biblioteca virtual, localizada em lugar nenhum.”

Destacando-se daquela “engrenagem parideira” da indústria do livro, a qual se faz frequentemente a trouxe-mouxe, sem grandes cuidados no tocante à preparação dos textos, à tradução das obras vertidas de outros idiomas, ou à edição e revisão, os livros desta colecção vão-se sucedendo sem rufar de tambores e sem aquela sombra da auto-satisfação presunçosa que caracteriza a maioria dos editores, os quais muitas vezes se assumem como heróis por conta de outrem. Esta persuasão apostada na discrição, é um dos aspectos mais convincentes de uma forma de resistência incisivamente intelectual, deixando a outros os laivos iconoclastas, permanecendo indiferente aos heroísmos da subversice, às mistificações que vêm impor auréola e espavento em redor de certos personagens. Esse desejo de constituir uma integridade em movimento está bem patente nas Edições Avulsas, onde têm vindo a lume obras como O Maior Benefício para a Humanidade, de Roy Porter, que, sob a forma enciclopédica, nos propõe uma história da medicina como se se tratasse de uma épica, narrando, da antiguidade até ao presente, a luta da humanidade contra as enfermidades do corpo, de Esculápio à SIDA. Ali saiu também A Matemática e a sua História, de John Stillwell, obra que, seguindo a ordem cronológica, nos oferece uma visão unificada, concisa e acessível do desenvolvimento dos principais ramos da matemática, desde Pitágoras a Poincaré e Erdős. Nesta chancela merece ainda destaque o Atlas do Comércio Transatlântico de Escravos, de David Eltis e David Richardson, em que nos a magnitude desumana da escravatura é ilustrada através de 189 mapas que ilustram mais de 30 mil viagens de navios negreiros, estabelecendo de forma meticulosa a ligação entre história e geografia no comércio atlântico de escravos, com as setas dos mapas a ligar pontos de partida e pontos de chegada, e com as tabelas que os acompanham a darem-nos uma estimativa do número real de escravos transportados. 

Estes avulsos formam a “espinha dorsal” do catálogo, diz-nos Henrique Leitão, ainda que não seja a sua linha principal, nem reúna as obra smais emblemáticas. A colecção central é a dos Textos Fundamentais, onde encontramos títulos como Contra Toda a Esperança, de Nadejda Mandelstam, Rumo à Estação da Finlândia, de Edmund Wilson, Figuras e Outros Ensaios, de Erich Auerbach, Vanguarda e Kitsch, de Clement Greenberg, Primavera Silenciosa, de Rachel Carson ou Nos Arquivos de Freud, de Janet Malcolm. É uma prodigiosa expansão do nosso horizonte de leituras aquilo que nos é proposto, e, do ponto de vista da intervenção, deve assinalar-se como o catálogo, em vez de ambicionar o efeito de destaque ou frissom, em vez de apostar em provocar fascínio, parece preferir chegar-nos, hoje, como algo que vem do passado, recolhendo linhagens, gestos mentais, elementos de sobrevivência simbólica. As obras não parecem ser escolhidas pelo seu prestígio, para consolidar um sistema de peças “incontornáveis”, mas para restabelecer a confiança numa enunciação autónoma, poderosa, regeneradora. Dirigindo-se a leitores que estimam acima de tudo o seu tempo e liberdade, que sabem fazer as suas escolhas e dispensam os conselhos da propaganda literata, poderíamos afirmar que o desinteresse pelo elemento material, pela eficácia do objecto em seduzir, reverte para a exigência no apuro de uma sobriedade para que seja o texto a construir todo o percurso até ao leitor.

A imagem fundadora desta colecção poderia ser, assim, a do depósito subterrâneo, uma biblioteca que não se deixe afundar, mas preserve na nossa língua uma tradição de ideias fortes, de juízos penetrantes e lúcidos, aproximando-se da imagem dos arquivos criogénicos de sementes, enterrados no gelo do Árctico: depósitos silenciosos, quase anónimos, concebidos não para o presente, mas para um porvir radical, no sentido em que busca retomar a raiz de certa ancestralidade das disciplinas. É uma biblioteca que fixa uma sensibilidade com vista à duração, e que se projecta face a um tempo em que as línguas poderão ter mudado, possivelmente perdendo muita da sua riqueza caracteriológica, e as instituições desaparecido; os grandes nomes que definem o cânone poderão ter-se tornado demasiado remotos, como antigas runas, mas ficará ali esse legado prometido àqueles que desejem acompanhar o pensamento e a formação de discursos audaciosos. E, contudo, este não é um projecto de mera conservação, pois actua nos nossos dias como um gesto de confiança tardia no pensamento, partindo da convicção de que, se os livros nunca salvaram o mundo, sem eles, este torna-se ilegível, mesmo quando continua a existir.

Não se impõe, assim, como um monumento do que deve ser lido, não procura reforçar o que foi consagrado, mas antes um horizonte de difícil acesso: ideias que suportam o atraso, o esquecimento, a leitura fora de tempo. Livros capazes de permanecer legíveis depois da perda do contexto que os justificava. Textos que não dependem de um sistema intacto, de uma tradição contínua ou de uma comunidade estável. Escritos que aceitam ser lidos em ruína, como mensagens encontradas num terreno inundado, com partes apagadas, margens comidas pela água, mas ainda suficientes para reactivar um gesto de pensamento.

Depois da catástrofe, a leitura será sempre uma forma de buscar encorajamento, impulso para recomeçar. Assim, ao fim de uma década de existência, sem aquele elemento de autocelebração, eis o raro exemplo de um catálogo que não parece tão convencido da sua imortalidade, como dessa força de um resto activo, atribuindo ao livro o seu justo valor, pela capacidade de fundar na espera uma ideia de esperança.

Afinal, como nota Edmund Wilson, “os mitos que nos fizeram pensar são projecções de uma imaginação humana semelhante à nossa e, se procurarmos a chave dentro de nós e aprendermos a decifrá-los correctamente, fornecer-nos-ão um relato, até agora inacessível, das aventuras de pessoas como nós.” Assim, quando pegamos estes livros, mais até do que os assuntos e os argumentos aos quais estão dedicados, sentimos esse elemento de uma paciência fervorosa, essa confiança na escrita como modo de articular a intuição e a inteligência, avançando e fazendo recuar esses “nevoeiros que obscurecem os horizontes das vastidões remotas do tempo”. Aqui, somos levados a pensar nesse princípio da força viva, da humanidade que se cria a si mesma, o qual remonta a Giambattista Vico e à sua Ciência Nova (1725), mas que foi desenvolvido de forma magistral pelo filósofo italiano Paolo Virno, que partiu de uma intuição herdada de Marx, Aristóles e Hannah Arendt, ao vincar que o ser humano é um animal sem um meio específico, distinguindo-se assim, e revelando a sua infixável “natureza”. Enquanto os outros animais possuem instintos claros e nichos ecológicos definidos, nós vivemos numa espécie de vazio natural. E esta “deficiência biológica” vem a revelar-se a nossa potência: porque não temos um mundo fixo, podemos inventá-lo. E inventamo-lo através da linguagem. Assim, o verbo é a ferramenta que substitui o instinto. A linguagem é o ecossistema simbólico que nos salva do desamparo natural.

Virno diz-nos que, por nos encontrarmos até certo ponto exilados da natureza, isso nos leva a viver em diferido. Não reagimos automaticamente aos estímulos, mas procuramos mediar o seu impacto através de símbolos, ideias, palavras. Entre o golpe e a reacção abre-se um abismo: a reflexão. Um exemplo que, hoje, deveria ser-nos constantemente relembrado surge na reacção ao medo. Pois se um cão quando sente medo, foge. Um homem procura pensá-lo, reprimi-lo, racionalizar e transformar ou sublimá-lo, seja artisticamente na literatura ou no cinema, na filosofia ou na psicologia. Essa distância é o território da linguagem. Somos, assim, animais que se defendem do caos pensando antes de agir, ou enquanto agem. E isto porque não possuímos instinto suficiente para “ser” simplesmente.

E como não temos um habitat natural, a nossa casa é a tribo ou a comunidade. E estas fundam-se numa coisa: a palavra. A linguagem não serve apenas para descrever o mundo, mas para criar um mundo comum onde habitar. Por isso Virno afirma que a política é a continuação da biologia por outros meios: a linguagem é o instrumento evolutivo que permite organizar a sobrevivência colectiva.

No fundo, Virno propõe-nos uma antropologia paradoxal: não existe uma natureza humana estável, mas essa instabilidade é a nossa natureza. Ser humano é estar deslocado, falar em excesso, imaginar sem descanso, não encaixar. E é nesse desajuste que nascem a política, a filosofia e a arte. O animal exilado não encontra casa na terra, mas inventa a linguagem para transformar o desenraizamento em conversa. Não somos anjos caídos nem macacos ascendidos: somos animais que inventaram a linguagem para não morrer de natureza.

Isto permite-nos também estabelecer um contraste face ao contexto e avaliar um certo desaire compulsivo dos ditos selos “independentes”, esses que cada vez mais nos lembram os rituais de embalsamadores da igreja cultural, e que se vão servindo dos supostos profanos, hereges, franco-atiradores, desesperados, relapsos, para construir uma tosca mitologia integrando as faceirices de deuses irrelevantes. Tornou-se evidente neste século como o selo de editora independente não é já garante de qualquer princípio de insubordinação, mas esvaziou-se, assinalando muitas vezes aqueles projectos mais oportunistas, que procuram beneficiar de todos os esquemas de subvenção, caindo em rotinas de mendicância nos concursos às verbas e aos milhentos programas de apoio, situando-se numa zona de absoluta aversão ao risco, de repetição de fórmulas e catering para nichos ou círculos fechados.

Alheada deste contexto, a Imprensa da Universidade de Lisboa traz-nos um catálogo pacientemente cultivado, insubmisso ao calendário, às tendências, consegue pensar não em anos, mas décadas, gerações. Sem um verdadeiro esmero gráfico, a colecção chega a ser um tanto soturna, com uma apresentação meio insípida, desde o formato dos livros às capas – frias, esteticamente mudas. Estes volumes parecem algo removidos, convocando um tempo desenquadrado, uma espécie de vontade de retiro. E isto inspira um certo resguardo face à típica ostentação dos produtos de escaparate ou de supermercado. Somos levados a pensar na “meditativa definição” que Robert Bringhurst faz do livro “físico”, em papel, como insuperável suporte de um texto: “O livro é um flexível espelho da mente e do corpo. O seu tamanho e as suas proporções, a cor e a textura do papel, o som das páginas ao serem folheadas, bem como o cheiro do papel, da cola e da tinta, tudo se mistura ao tamanho, à forma e à disposição dos tipos para pôr um pouco a descoberto o mundo em que o livro foi feito. Caso o livro pareça ser apenas uma máquina de papel, produzido por outras máquinas segundo a conveniência destas, só máquinas quererão lê-lo.”

Estes livros sérios, com uma composição sóbria, numa aspiração à firmeza do sentido, parecem submeter o sector editorial a uma crítica implícita, um modelo que se deixou tragar pelas ansiedades do mercado. Assim, a colecção produz um corpo constante de livro para livro, com capas um tanto sisudas – apenas o retrato dos autores ou dos protagonistas das obras sobreimpostos a um fundo azul desbotando em bordeaux, ou ao contrário, às vezes com assomos de um verde. Seria difícil situar esta colecção numa determinada época. De certo modo, o seu tempo é flutuante. Também a escolha dos títulos não procura trunfos, mas contenta-se com obras de clássicos desprezadas, de contemporâneos injustamente pouco divulgados entre nós. No fundo, estes livros parecem conspirar contra o pano de fundo, mas sem o menor alarde, contra um mundo que se empina e se afecta nas aparências para esconder a sua pouca substância. Estes livros parecem empenhados em passar despercebidos. Toda a ênfase é, deste modo, retirada ao medium e transferida para o texto. Mostrando-se, assim, empenhada em explorar os significados que os livros transportam e não em saborear a sua aparência. Pode ainda assinalar-se uma postura discretamente insubordinada ao não respeitar o novo acordo ortográfico. Uma aposta que participa na destruição parcial da ilusão imbecil e burocrática de um idioma unificado do ponto de vista da ortografia.

Sem ambições comerciais, sem poder superar a modéstia das tiragens, por razões burocráticas este catálogo está ainda longe de ter verdadeira expressão no nosso país, uma vez que a distribuição tem sido o seu calcanhar de Aquiles, não estando acessível senão num punhado de livrarias.  

De resto, por razões que exprimem a miopia cultural de uma imprensa que vive a reboque dos enredos publicitários daquele selecto grupo de editoras que funcionam mais como agências de comunicação, só isso explica que uma colecção como esta, ao fim de uma década de existência, e com meia centena de títulos publicados em áreas tão diversas, não tenha merecido qualquer destaque. Assim, um projecto que deveria estar enquadrado dentro das linhas regulares da oficialidade, consegue tornar-se o mais cativante exemplo de um catálogo diletante a uma escala gigantesca, agitado por uma curiosidade voraz, sem neutralizar o sabor a pó e a cinzas. Numa época em que todos estão obcecados com o presente, com o que se segue, este catálogo parece interessado em explorar a sombra dos acontecimentos, afirmando-se como uma presença estranha ao presente do tempo.