Deixámos para trás os corredores onde o ar circula como numa moderna tubagem de ar condicionado. Encontramo-nos agora no exterior do edifício do Hospital Ortopédico de Sant’Ana, onde se destacam as varandas. Ou serão mais do que isso? «É a primeira vez que num sanatório marítimo se constroem galerias de cura adossadas às enfermarias. Antes não havia». O nosso incansável guia, Carlos Teixeira, chama a atenção para as conversadeiras, pequenos bancos onde os doentes podiam instalar-se «para conversarem e estarem animados».
O ar, enriquecido com as emanações do oceano, era uma componente essencial do tratamento. «No fundo, temos de expor as pessoas aos elementos benéficos – o bromo, o ozono, o cloreto de sódio, o iodo e os raios de sol - abrigando-as dos elementos e da chuva».
O exterior desempenha pois um papel decisivo nesta máquina de cura. Mas também lá dentro a natureza fará o seu trabalho.
«O arquiteto Rosendo Carvalheira vai basear-se no sistema Tollet, em que as enfermarias, exactamente para não terem tetos direitos, onde se acumulam colchões de ar mefítico, eram em formato ogival, para que o ar pudesse sair por exaustores com pequenos capelos, como nós vemos nas salamandras. Mas isso tinha um problema: com o vento e a chuva, caía água dentro das enfermarias. Era um mal menor, mas caía». Neste caso isso não acontece: a água cai, sim, mas para uma caixa de ar que não tem comunicação com a enfermaria.
Trata-se, continua o nosso guia, de um sistema termodinâmico, em que o calor desempenha uma função decisiva. Quase poderíamos chamar-lhe um sistema inteligente. «Temos telha de marselha, mas negra, para absorver toda a energia do sol, e a caixa de ar. Ao aquecer, o ar aumenta de volume, ou seja, só pode escapar para cima, nunca vai para baixo, como o vapor numa chaleira. Esse ar, ao sair, puxa o ar que está na enfermaria. Que, por sua vez, vai puxar o ar que está no teto».
Assim se obtinha a renovação do ar desejada. E, porque todo este ar puro começa a abrir-nos o apetite, espreitemos a cozinha, concebida também ela com especificações muito precisas. «Reparem: luz direta do sol, grelhas de ventilação e, no interior, toda a tecnologia mais evoluída da altura: sistema de vapor para cozinhar, com panelas de pressão basculantes, eletricidade, elevadores para levar a comida. As cozinheiras não saíam para o exterior e as serviçais não iam buscar comida».
Uma espécie de farmácia
Grandes panelões com sistemas basculantes, roldanas e cabos de aço permitiam verter a sopa para as terrinas de forma cómoda e limpa. Transferes mecanizados, a fazer lembrar os que existem hoje nos cosmopolitas restaurantes de sushi, distribuíam as refeições pelas crianças e adultos. «Posso dizer-vos que o grande sanatório de Berck-sur-Mer, com 700 camas, inaugurado três anos depois deste, ainda tinha fogões a lenha. Aqui já funcionava tudo a eletricidade. Isto é arqueologia industrial».
O nosso anfitrião elege uma chave de um molho, roda-a numa fechadura e abre uma porta: estamos na antiga despensa. «Um dos elementos fundamentais de um sanatório era a boa alimentação. A despensa e a cozinha estavam para o sanatório como uma espécie de farmácia. Era aqui que se guardavam todas as tulhas com a comida, o feijão, o grão, o arroz, o açúcar… a parte dos frescos».
Na parede principal, uma fotografia a preto e branco mostra como funcionava uma enfermaria em tempos idos. «Quatro janelas abertas, mecanizadas, com sistemas de roldanas, as grelhas centrais, as duas grelhas do teto em arco canopial, grelhas junto à cabeceira, ventilação junto à cabeça, quer de um lado quer do outro», descreve Carlos Teixeira. «E não era como no Hôtel Dieu, onde havia 600 doentes para 113 camas. O ideal seria 30 camas por enfermaria; o ótimo: 20 camas por enfermaria; Sant’Ana: dez camas por enfermaria. Quanto menos pontos de contágio, melhor».
De volta ao corredor, numa das paredes surge algo que mais parece uma escotilha. «Tal como diziam os regulamentos em França, as enfermarias deviam ter um óculo de vigia. E aqui está ele, três anos antes de saírem os regulamentos franceses. Era aqui que os pais se debruçavam para ver as filhas, pois não podiam entrar em contacto com elas. E só uma vez por mês. As irmãs [freiras] também passavam aqui e espreitavam para ver se na hora do repouso não havia regabofe. Estão a imaginar as crianças, e ainda por cima animadas como elas ficavam rapidamente…».
A todo o vapor
Falámos em eletricidade. O hospital tinha a sua própria central que produzia a energia, disponível a qualquer hora do dia ou da noite.
Tal como a distribuição da comida, também o processo de higienização e desinfeção da roupa era mecanizado. «Temos uma lavandaria afastada do edifício. O transporte da roupa era feito em circuitos separados, entre sujos e limpos. Através de um alçapão nas enfermarias, as irmãs lançavam a roupa para uma vagonete com carris de ferro que percorria todo o H do edifício. A vagonete entrava na lavandaria e nesse momento era feito o vazamento para o tanque».
O processo dividia-se em dois passos: para começar, a desinfeção, «com os produtos da época»; em seguida, as roupas passavam para máquinas de lavar roupa… elétricas. As peças maiores eram colocadas num elevador (elétrico) que as conduzia a «uma estufa a vapor que esterilizava colchões, almofadas, grandes superfícies». Essa lavandaria industrial corresponde aos edifícios que hoje se encontram devolutos.
Além de energia, a central elétrica produzia outro elemento valioso num hospital: o vapor. Era ele, por exemplo, que permitia ter água quente canalizada em todo o complexo. «Estas crianças pobres vinham dos pátios de Lisboa e das ilhas no Porto, a que chamavam ‘o cemitério dos vivos’. Eram pardieiros autênticos. Aqui tinham acesso a lavatórios com duas torneiras – água quente e água fria –, banho de água quente. Eles nem sabiam o que era água canalizada, quanto mais duas torneiras por lavatório! E aprendiam a lavar as mãos antes de comer».
Aprendiam também outras coisas: uma vez que não podiam passar tanto tempo sem aulas, havia no sanatório uma escola.
O sobressalto da República
Apesar de usar a tecnologia mais avançada, esta poderosa máquina de cura não funcionava sem intervenção humana.
Para cuidar das instalações – e, sobretudo, dos doentes –, a fundadora, Claudina Chamiço, havia optado pela instalação de um convento no perímetro do hospital. «As melhores enfermeiras, na altura, eram as francesas de São Vicente de Paulo e, portanto, são essas irmãs que Claudina traz para o sanatório. Define também que vai haver um capelão residente», explica Carlos Teixeira. Para as questões médicas, será escolhido, naturalmente, um diretor clínico residente. Quanto às tarefas ‘domésticas’, como limpar, lavar as roupas, fazer as camas e cozinhar, ficam a cargo das serviçais – que são instaladas no último piso, com a melhor vista. «Quem trabalhava no sanatório vivia no sanatório».
Por muito autossuficiente que fosse o seu funcionamento, esta espécie de microcosmo harmonioso que era o Hospital de Sant’Ana não atravessou incólume as convulsões políticas que abalaram o país no início do século. O seu cunho religioso não agradava aos altos responsáveis republicanos.
«Em 1910, com a República, as irmãs foram expulsas. A revolução foi a 5 de Outubro, dia 21 o diretor recebe uma carta a dizer para expulsar as irmãs, por serem francesas». Não deixa de ser irónico o motivo da expulsão, uma vez que os ideais republicanos – e até o anticlericalismo assanhado… – tinham sido importados justamente de França.
«Agora imagine o que é um hospital ficar sem enfermeiras. Foi um caos, uma tragédia. Afonso Costa não teve problema nenhum em expulsar as irmãs. Ninguém se lembrou que as irmãs eram as enfermeiras. Cuidavam de cem doentes, não era uma coisa simples».
Rapidamente teve de se encontrar uma forma de dar resposta ao problema. «Como não deixavam que as freiras viessem com hábitos, elas começaram a entrar clandestinamente, como enfermeiras da Cruz Vermelha ou vestidas como a senhora fulana de tal».
O próprio arquiteto, Rosendo Carvalheira, irá tomar o assunto em mãos. «Sabemos hoje que Rosendo Carvalheira, e outros maçons ligados ao Banco Totta, vão pôr travão nessa situação. Não se tinha estado a trabalhar, a construir tudo isto para depois apodrecer. Como dizia Claudina: ‘Se isto ficar a cheirar mal, fecho-o com um par de trancas’. Carvalheira escreve uma carta a Afonso Costa a ameaçar que fecha o sanatório. E a Maçonaria consegue trazer as Irmãs Católicas Dominicanas Portuguesas para o sanatório».
Aliás, as relações entre a Maçonaria e a Igreja adquirem no caso deste hospital uma feição peculiar.
«Rosendo Carvalheira era maçom, foi presidente do Supremo Tribunal Maçónico, era filho adoptivo de Alexandre Herculano», continua Carlos Teixeira. Isso não impediu Claudina Chamiço, que era monárquica e católica, de o contratar para liderar a obra. «Claudina não se importou nada de trazer maçons, republicanos e ateus».
Como estava disposto no testamento de Claudina, «após a sua morte, em 1913, o sanatório passa a ser gerido por uma comissão de administração composta por sete elementos», lemos no site da Santa Casa. Mas nem mesmo a fortuna fabulosa dos Biester duraria para sempre. «A dificuldade financeira sentida por esta comissão, determinou que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa assumisse a administração do sanatório, em 1927».
As netas que Claudina não teve
Chegámos à zona mais nobre do edifício. A vista para o estuário do Tejo é de cortar a respiração. Seria aqui a sala da administração do hospital? O nosso anfitrião desfaz-nos as dúvidas. «Isto era o quarto de brincadeiras das miúdas. Era para aqui que vinham brincar quando não podiam estar na rua. Agora tentem recuar a 1904 e imaginem o que era ser menina, pobre e tuberculosa… eu não conheço piores perspetivas de futuro. Mas aqui as meninas tinham isto tudo para brincar. E mais: tinham os brinquedos que só estavam ao alcance da realeza ou da nobreza. Badminton, por exemplo, que tinha sido inventado há pouco tempo. Claudina tratava estas meninas como se fossem as filhas e as netas que não teve».
O espaço, inundado de luz, assemelha-se a um jardim de inverno. «Todos estes vidros que aqui vemos são cristal. 121 anos e nem um risco. Esta sala, no fundo, é um hino à fitoterapia». E um verdadeiro salão de festas para as crianças.
Nos azulejos pintados à mão, perfilam-se as plantas medicinais «associadas às patologias dos doentes aqui internados, quer para os cardíacos, quer para o cancro, quer para a tuberculose óssea». É toda uma lição de farmacologia. «Aqui estão todas as plantas que possam imaginar, desde logo a papoila branca. Os opiáceos quando chegam ao nosso cérebro transformam-se em morfina. É um poderoso anti-tússico e era muito utilizado no tratamento da dor. No Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, a Maria Noronha estava tuberculosa, e colocavam-lhe pétalas da papoila debaixo do cabeção, para ter uma boa noite de sono. Ela dizia: ‘Às vezes tenho uns sonhos muito estranhos’. Deviam ser umas pétalas a mais…». O canábis também está presente. «Alguma vez tinham visto um hospital forrado a ópio e canábis? Ainda bem que ainda ninguém descobriu… Mas temos aqui tudo: anti-inflamatórios do sistema muscular, diuréticos, um estabilizador que em certas doses pode matar rapidamente, a flor da mostarda e a campainha da China, que são antissépticos. E a madressilva, os pinheirinhos, os eflúvios de terebentina, a hera».
Origens da arquitetura moderna
As portas do ‘salão de festas’ abrem-se de par em par para uma generosa varanda. A vista, já o sabemos, é uma espécie de bebedeira de azul: o céu sem nuvens, o estuário do Tejo, o oceano a perder de vista. «Aqui temos o Estuário da Meia Laranja, uma vista fantástica que é digna dos reis». Com a particularidade de aqui os verdadeiros monarcas serem as crianças mais desfavorecidas.
«Estamos perante o paradoxo que os médicos higienistas colocaram aos arquitetos, quando lhes pediram para fazer sanatórios desta forma», explica Carlos Teixeira. «Se a arquitetura, em termos grosseiros, pode ser a arte e o engenho de criar espaços formais para abrigar as atividades humanas, os higienistas pediam para abrigar as atividades humanas, mas expondo aos elementos». Como tão bem escreveu o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto:
«A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender
nem construir como fechar secretos;
[...] O arquiteto:o que abre para o homem». «Isso faz-se», continua o nosso anfitrião, «desta maneira: rasgar as paredes, ter o sol, abrir as portadas e vir o vento. Temos aquilo que Le Corbusier, 30 anos depois, dizia de forma enigmática: ‘Le dehors est toujours un dedans’. Agora em português: ‘O exterior é sempre um interior’.
Este é o paradoxo: nós estarmos cá dentro como se estivéssemos lá fora. Com flores, com um jardim perene de eflúvios terapêuticos e ao mesmo tempo a beber os elementos exteriores que são benéficos e que aumentam as defesas das crianças. Os homens da arquitetura moderna do segundo quartel do século XX vão receber estas orientações dos médicos que viveram estes espaços e perceberam que isto era fantástico e funcional. Eles diziam algo que por acaso a minha mãe me dizia em criança e que eu fixei. ‘Onde não entra o sol, entra o médico’». Carlos Teixeira conclui: «Aquilo que vemos aplicado neste sanatório vai ser o farol das orientações que vão criar o movimento da arquitetura moderna e que vão transformar a habitação comum num home sanatorium. As casas feitas por Mies van der Rohe, Le Corbusier, Frank Lloyd Wright, Louis Kahn, Alvar Aalto, aquelas vivendas que vemos ali fora de cinco milhões: panos de vidro, azulejos, mosaicos, ventilação… As varandas, que vão ser massificadas no século XX, são galerias de cura. Antes só havia nos edifícios como Buckingham Palace, onde os reis aparecem para saudar os súbditos, e depois retiram-se. Aqui elas vão ganhar uma dimensão terapêutica. Quando o betão o facilitou, começámos a ter varandas nas nossas casas. Que depois fechámos para fazer marquises…».
A conversão de Sant’Ana
Com a entrada em cena de novas terapêuticas – em especial a descoberta de um novo antibiótico, a estreptomicina, que em 1952 valeria o Prémio Nobel da Medicina ao americano de origem russa Selman Waksman – e a queda dos níveis de incidência e mortalidade da tuberculose, o Hospital de Sant’Ana teve de reinventar-se.
«Já tínhamos a penicilina, mas aparecem a estreptomicina, o ácido paraminosalicílico, a BCG para prevenir, e começamos a ter antibióticos para combater a doença instalada. Portanto, percebe-se que já não é necessário fazer tratamentos sanatoriais que demoravam de seis meses a dois anos de permanência. As pessoas já podem ser tratadas em casa».
Através de um despacho governamental de 1961, o sanatório converte-se em Hospital Ortopédico.
«Tudo o que era benéfico para a tuberculose óssea continua a ser benéfico para o sistema musculoesquelético. As doenças do foro ortopédico dão-se muito bem com esta vitamina D – o sol e a proximidade do mar são extraordinariamente benéficos. Muitos destes sanatórios marítimos vão-se transformar em centros ortopédicos especializados na patologia óssea. Com a vantagem de termos aqui o médico que vai iniciar essa transformação, o primeiro cirurgião ortopédico do país, o Dr. Arnaldo Rodo, que se formou em Itália. Na altura teve que pedir autorização ao Estado para ir para Bolonha, para o Instituto Professor Putti, fazer a formação em Ortopedia. Extraordinário, não é?».
Tradição e Inovação
Recusando deixar-se ficar para trás, ser condenado pelo progresso à irrelevância e ao abandono, como tantos sanatórios pelo país fora, o hospital de Sant’Ana aposta na multidisciplinaridade, na inovação e na especialização. Uma das novidades aqui lançadas, ainda no início da década de 1960, é a fisioterapia.
«E temos aqui a génese do movimento de especialização em Ortopedia», recorda Carlos Teixeira. «Criámos a primeira consulta de subespecialidade em Portugal de cirurgia da mão. As subespecialidades vão-se desenvolvendo, daí a criação do Centro de Estudos, que hoje é o Centro de Inovação e Conhecimento, em que os médicos vão para Inglaterra, para os Estados Unidos, para a Alemanha, para a Áustria, especializarem-se nas suas áreas. Enquanto os hospitais civis dedicavam, e ainda hoje dedicam, nalguns casos 75% à traumatologia e só 25% à ortopedia, aqui invertemos essa relação. Somos fellows do sistema AO de osteossíntese, o grupo de estudo Arbeitsgemeinschaft für Osteosynthesefragen – desculpem, só tive um ano de Alemão... às vezes arranha a garganta dizer estas palavras», graceja o nosso cicerone.
E pacientes célebres, não os houve? «Muitos, nomeadamente na área da patologia desportiva». Quantos aos nomes, só podemos deitar-nos a adivinhar, uma vez que o Regulamento Geral de Proteção de Dados impõe estrita confidencialidade.
Mandado construir há 120 anos para os mais pobres, o Hospital de Sant’Ana recebe hoje pacientes do SNS, muitos deles encaminhados do Hospital São Francisco Xavier, e pacientes em regime privado. Mas a Madonna del Popolo, que encontramos esculpida no nártex da pequena basílica, não consegue cobrir todos com o seu manto protetor. Há sempre mais candidatos do que lugares disponíveis. Até porque, além dos cuidados médicos de excelência, há o encanto centenário do edifício, o ar limpo e revigorante e aquela vista soberba, que pode não curar ossos partidos, mas sempre dá uma dose extra de ânimo a quem dele está mais necessitado.
Correção: Na primeira parte do texto, publicada na edição anterior, por lapso do jornalista referia-se o incêndio do Hôtel-Dieu de Paris como tendo ocorrido a 30 de dezembro 1792. O ano correto é 1772.