Em finais de 2015, a Cordoaria Nacional, em Lisboa, acolhia uma exposição itinerante que antes tivera paragem em Veneza, onde atraíra 200 mil visitantes. O conteúdo da exposição era de facto sensacional: 34 cadáveres em que se viam as veias, os nervos e os músculos, e, à parte, mais de 350 órgãos humanos, preservados através de um método revolucionário conhecido por polimerização, ou plastinação, que consistia em retirar todos os fluidos corporais e substituí-los por polímeros (plásticos) que não se degradavam. Uma espécie de embalsamamento, com a particularidade de estas ‘múmias’ surgirem despidas da própria pele, o que permitia um vislumbre inédito dos meandros da sua (nossa) anatomia.
Para uns seria uma visão de pesadelo a evitar a todo o custo: dezenas de seres humanos esfolados em posições como um jogador de futebol prestes a rematar ou uma bailarina em pontas, ou até uma pessoa literalmente serrada ao meio. Para a maioria, a curiosidade, ou o valor pedagógico, levou a melhor.
Mas, afinal, a quem pertenciam aqueles corpos? Os organizadores da exposição, que continuou a correr mundo, alegaram que se tratava de cadáveres não reclamados de hospitais chineses e que haviam sido colocados à disposição da ciência.
Mas houve quem suspeitasse de algo mais sombrio. Quando a exposição rumou à Austrália, em 2018, a Coligação Internacional para Acabar com o Abuso de Transplantes na China (ETAC, na sigla inglesa) pôs o dedo na ferida, ao notar que os hospitais chineses mantinham os corpos durante 30 dias até os declararem não reclamados. Mas o processo de plastificação, para ser bem sucedido, tinha de ser iniciado nas 48 horas após o óbito.
«Há fortes indícios de que os corpos e órgãos em exposição vieram de prisioneiros executados na China», disse na altura ao The Guardian Vaughan Macefield, professor de fisiologia na Western Sydney University. «A maioria dos corpos em exposição são de homens jovens - algo bem diferente dos corpos de pessoas mais velhas usados para ensinar anatomia nas faculdades de medicina australianas».
Depois disso, as dúvidas parecem ter caído na névoa do esquecimento. E o segredo de a quem realmente pertenciam os cadáveres pode ter morrido com o anatomista alemão Gunther von Hagens no passado dia 24 de julho.
Nascido Gunther Gerhard Liebchen a 10 de janeiro de 1945 em Alt-Skalden (atual Skalmierzyce), na Polónia ocupada pela Alemanha nazi, era filho de um oficial das SS. Teria apenas cinco dias de vida quando, temendo o avanço do Exército Vermelho para Oeste, os pais pegaram nele e o levaram numa jornada de seis meses que só parou nos arredores de Berlim.
Von Hagens cresceu na Alemanha de Leste, sob a influência soviética. O facto de ser hemofílico levou-o a interessar-se por medicina, e em 1965 ingressou na Universidade de Jena, onde se haviam formado figuras como Marx, Leibniz e Novalis, para estudar esta disciplina.
Em 1969, após uma visita à Bulgária e Hungria, foi preso quando tentava passar clandestinamente a fronteira para a Áustria. Libertado num acordo feito com as autoridades da Alemanha Federal, continuou os seus estudos médicos já no bloco ocidental, doutorando-se pela Universidade de Heidelberg em 1975. Também em 75 casou-se e assumiu o apelido da mulher.
Foi nos anos seguintes que desenvolveu e aperfeiçoou a técnica da plastinação, que patenteou em 1979. O processo desenrola-se em quatro passos: fixação, desidratação, impregnação a vácuo e endurecimento. A partir daí, os tecidos deixam de estar sujeitos ao processo natural de decomposição, deixam de ter cheiro e podem ser manipulados sem se danificar. Claro que tudo isto envolve doses industriais de formaldeído, acetona, silicone e outras resinas.
Ao início a plastinação permitia preservar apenas pequenas quantidades de tecidos, passando depois a aplicar-se a órgãos isolados. Até que ao fim de cerca de 20 anos se tornou possível conservar corpos inteiros (de seres humanos ou animais), através de um processo que chega a consumir 1500 horas de trabalho.
A primeira exposição Body Worlds teve lugar no Japão em 1995. Daí em diante, Von Hagens levou o seu espetáculo a dezenas de cidades pelo mundo fora, como o patrão de um circo ou de um freak show.
A sua competência científica nunca foi posta em causa. Quanto à sua integridade moral, é discutível.
Em 2002, foi aberto um processo judicial contra um patologista e um médico-legista na Sibéria por causa de um carregamento de 56 cadáveres para Heidelberg, onde von Hagens tinha fundado o seu Instituto da Plastinação em 1993. Em 2003, uma comissão parlamentar no Quirguistão investigou a cedência de centenas de cadáveres para plastinação, aparentemente provenientes de prisões, alas psiquiátricas e hospitais naquela antiga república soviética.
Além do de Heidelberg, o anatomista possuía um segundo instituto dedicado à plastinação na província de Liaoning, China, onde tinha armazenados nada menos do que 647 cadáveres.
Em 2004, o jornal Süddeutsche Zeitung noticiou que von Hagens oferecera uma soma avultada a Alexander Sizonenko, um dos homens mais altos do mundo (2,48 m) para que este após a sua morte cedesse o corpo ao Instituto da Plastinação. Sizonenko recusou.
Diagnosticado com Parkinson em 2008, Von Hagens morreu em Heidelberg de hemorragia cerebral. «Consigo imaginar o meu corpo plastinado a dar as boas-vindas à entrada de uma exposição, ou transformado em fatias e distribuído por vários locais», dissera ao The Guardian em 2018. Ao mesmo jornal, um porta-voz do museu fundado por von Hagens em Guben, na Alemanha, confirmou agora que o corpo do anatomista iria ser conservado pelo processo que ele próprio inventou há cerca de meio século.