A secretária pessoal de Calouste Gulbenkian costumava recordar que nunca o vira vestido de forma ‘desportiva’, ou seja, sem ser com o tradicional fato completo. Gulbenkian era exigente com o que vestia e tinha na Meyer & Mortimer, de Londres, «a sua alfaiataria de eleição», como assinala Vera Mariz, conservadora do Museu Gulbenkian, num dos textos que acompanham a exposição Arte & Moda, que acaba de ser inaugurada na galeria de exposições temporárias da fundação lisboeta.
A mostra, que procura colocar em diálogo vestidos de alta-costura de grandes criadores e as obras da coleção Gulbenkian, traz também para o primeiro plano a figura discreta de Nevarte Essayan Gulbenkian, a esposa de Calouste, considerada «a mais bonita mulher de Constantinopla». Também ela apreciava os belos vestidos, embora dependesse sempre da vontade do marido – ou da falta dela – de abrir os cordões à bolsa.
«Os tecidos, as texturas e as silhuetas dialogam com os mármores, as madeiras, as porcelanas e as telas do Museu», escreve o comissário da exposição, Eloy Martínez de la Pera Celada. «Uma manga de gaze de Balenciaga pode encontrar o seu eco num pregueado escultórico de Antonio Canova; a filigrana de uma peça da dinastia Qing pode refletir-se num vestido de Alexander McQueen; um azul de Hermès pode reverberar num retrato de Jean-Auguste Renoir; um espartilho de Schiaparelli pode ser o protagonista de uma cena de cumplicidade feminina pintada por Niklas Lafrensen; e os bordados de Jan Taminiau podem encontrar correspondência numa imponente natureza-morta de Jan Weenix», exemplifica Martínez.
A ideia de juntar arte e moda não é inteiramente nova. Em setembro do ano passado, após a morte de Giorgio Armani, a Pinacoteca de Brera, o mais importante museu de Milão, expôs modelos de Armani nas suas galerias recheadas de obras-primas da pintura. Único senão: a rigidez dos manequins inertes não faz plena justiça ao talento dos costureiros.