Guida Scarllaty. “Um dia a minha mãe gritou-me: ‘Eu tive um filho, não tive uma filha!’”

Arquiteto, Carlos Ferreira/Guida Scarllaty, chegou a trabalhar numa grande construtora mas o 25 de Abril trocou-lhe as voltas. Fundou o Scarllaty Club, em 1975, e estreou-se ao lado do melhor amigo, Fernando Santos/Deborah Kristall. Em criança já se pintava com a maquilhagem da mãe e trabalhou até à pandemia. Garante que se o convidarem volta a transvestir-se em palco. Afinal de contas, aos 83 anos, não dá a carreira por terminada. 
Guida Scarllaty. “Um dia a minha mãe gritou-me: ‘Eu tive um filho, não tive uma filha!’”

Como é que o transformismo surgiu na sua vida?

Porque eu quando fazia teatro, com 16, 17 anos, e em festas especiais, transvestia-me. O boneco ficava de tal maneira diferente de mim que ninguém me reconhecia. Era uma transformação total. E não precisava de muita pintura. Punha uma peruca, uns risquinhos, um blush, um batom… Quando havia festas de Carnaval ou outras, às vezes até para provocar, mesmo sem ser Carnaval, os meus amigos que me conheciam, diziam assim: ‘Vai vestido, porque ninguém te vai reconhecer’. E eu vestia-me, mas não passava de uma brincadeira, na época.

Só começo a fazer travesti profissional aos 30 anos. Mas em miúdo já me pintava com a maquilhagem da minha mãe. Depois ela via-me pintado e mandava-me logo ir lavar a cara! Dos 20 aos 30, trabalhei em arquitetura. Pus o teatro um bocadinho em stand by porque eu queria era dinheiro. E como era arquiteto arranjei uma boa colocação no J. Pimenta [construtora que ficou conhecida nos anos 70]. Nisto, veio o 25 de Abril, os meus queridos patrões foram para o Brasil, o Mário Martins, engenheiro-chefe também, perguntaram-me se eu queria ir e eu disse que não. Eles foram e eu não estava para aturar as comissões de trabalhadores. Tinha uma caixa de cartão, agarrei no compasso, nas réguas, nos lápis, nas coisas da minha secretária, tudo ali para dentro, peguei naquilo, meti-me no carro, até hoje.

Não foi para o Brasil porquê?

Não tinha nada a ver com o regime anterior, embora não gostasse do regime anterior, mas isso é outra conversa. Estive envolvido no Maio de 68, estava na Escola Belas Artes. Estive envolvido, mas sempre um bocadinho à parte, porque a minha mãe fez-me um pedido, e eu sempre fui muito dependente da minha mãe. Quando começaram esses problemas estudantis, a minha mãe pediu-me por tudo: ‘Meu filho, não te metas em nada, não me dês desgostos’.

Os seus pais tiveram muita influência em si?

A base da minha educação está toda na minha mãe! No meu pai também, como exemplo de homem, de chefe de família. O meu pai era de uma seriedade a toda a prova. Deixava-se enganar e fingia que não percebia, só para não se chatear. É um bocado o meu género também; eu pago para não me chatear.

Foi quando saiu da J. Pimenta que começou a trabalhar como travesti?

Não foi logo. De abril até o fim de 74, mete-se o princípio de 75, e eu sem trabalho E não poser porque eu estava a gastar o meu dinheiro todo. Tinha bastante dinheiro na altura, para a época, tinha bastante dinheiro. Foi quando pensei em abrir um negócio e surgiu a ideia de um bar, servir copos, que é o mais fácil, não preciso de ter curso, não preciso de fazer nada.

Um dia passo no Príncipe Real, vejo uma padaria desativada, para alugar. Fui lá falar com os donos, fiz o contrato, disse que era para fazer uma discoteca, bar, uma coisinha a abrir durante a tarde… abri durante a tarde, durante a noite, durante a madrugada, saíamos de lá às seis da manhã! Aí eles não acharam muita graça, mas como aquilo teve uma explosão mediática muito grande, eles aguentaram.

É assim que surge o Scarlatty Club, com a decoração toda feita por mim. Estas mãozinhas que estão aqui meteram muito cimento nas paredes para fazer desenhos. Era uma casa muito sui generis, entre o art déco e com umas pinceladas mais surrealistas, tudo na base do preto, vermelho e dourados.

Como é que foi a primeira noite no Scarlatty Club?

Estava lá com a minha mãe mas não tive coragem de me assumir pintado, em cima do palco, porque era o empresário. Contratei o Zé Manel Rosado, a Lydia Barloff, contratei um outro amigo, que também ficava muito bonito vestido de mulher, e contratei um ator do Teatro da Graça. Com os três, montei um showzinho de cabaré. A inauguração foi no dia 22 de novembro de 75.

No fim do ano a Lydia diz-me que tinha de decidir-me a fazer qualquer coisa porque o elenco era muito pequenino. E então pensei que, realmente, em vez de estar a pagar a outra pessoa… Já tinha ficado quase sem dinheiro, gastei tudo o que tinha quando fiquei desempregado e na montagem do bar, a minha mãe ainda teve de me emprestar 500 contos para comprar a máquina de fazer gelo! Isto porque tudo o que via comprava: uns candeeirinhos com berloques, era tudo uma fortuna! A iluminação do bar tinha os últimos requisitos da moda, uma máquina de fazer cair balõezinhos, outra de espalhar serpentinas, e papelinhos, tinha tudo pendurado no teto. O final do espetáculo era uma folia, uma maluqueira completa! Já tinha visto muitos espetáculos em França, conhecia o Alcazar, a Chez Michou, e vinha muito influenciado daquilo que vira. Então, para fazer, queria fazer uma coisa em grande! Os finais eram todos de loucura, papelinhos, serpentinas, as pessoas que estavam a beber ficavam com o whisky cheio de papelinhos… Era uma maluquice muito grande! E então, eu entro no espetáculo de 75 para 76.

Como é que escolheu o seu nome profissional?

Quando me vestia na brincadeira, nas festas, havia um amigo que me chamava Guida. Toda a gente pensava que eu era a Guida. Ficou sempre a Guida, até o Scarlatty não houve mais nome nenhum. Aliás, até diziam a esse amigo, quando havia festa, ‘Ah, traz a Guida’. Na passagem do ano, 75-76, nasce a Guida Scarlatty, e, para ter nome de cartaz, inspirei-me no filme ‘E tudo o vento levou’, na Scarlett O’Hara, aquela mulher forte, poderosa!

Scarlett não podia ser porque era uma cópia, então ficou Scarlatti, que, por sinal, era um compositor italiano.

Quem é que frequentava o seu bar naquela altura? Como é que era o ambiente?

Em pleno PREC, 1975, começa a haver uma explosão muito grande nos jornais, na televisão, e a curiosidade é espalhada por toda a Lisboa.

Não havia outras casas de travesti?

Não, era a primeira. Foi a primeira casa a ter travesti público e profissional. Iam lá desde os conselheiros da Revolução, Vítor Alves e outros, políticos, Mário Soares, Sá Carneiro, passaram por lá todos. O Mário Soares até achou muito a graça a um número que eu fazia, em que punha no palco uma fotografia dele grande – era ele o primeiro-ministro – e cantava uma canção que era ‘Não, não e não! Nunca mais te quero ver!’. Era um boneco que eles acharam muita graça.

Nisto, fui convidado para a festa de lançamento da UGT, em Troia, e levei esse espetáculo com o retrato do Mário Soares. Quando os da UGT me viram sair com a fotografia da carrinha perguntaram-me para que é que era. E eu disse que era o número que ia fazer. Quando estava na altura de começar a arranjar as coisas para o espetáculo, vem um ter comigo e diz-me assim: ‘Olhe, sabe uma coisa, nós estivemos a ver, nós pagamos o espetáculo todo na mesma, mas não vale a pena vocês atuarem’.

E não havia censura… Memorável! Mas pagaram e bem. Eu cobrava bem, estava na mó de cima e cobrava bem. Naquela altura, sei lá, pagaram-me 250 ou 300 contos. Modéstia à parte, tive um dos cachês mais altos da época dos artistas em Portugal. Ganhei muito dinheiro.

Como é que se sentia com tanto dinheiro, com tanto brilho, com uma casa a trabalhar bem, com gente do melhor que há a ir ao seu clube? Sentia-se poderoso?

Com a consciência que tenho ainda desse tempo, eu nessa altura sabia que tudo era efémero. Eu disse, está a acontecer agora, mas um dia vai acabar.

Mas não sentia uma certa euforia?

Sentia prazer em ser reconhecido pelo trabalho mas nunca me babei. Não, nunca me babei.

Improvisava muito nos seus espetáculos?

Tive a sorte de entrar no improviso e, na altura, eu tinha algum humor próprio. Também porque convivi com muitos atores corrosivos de humor. O Varela Silva era um deles. A Laura Alves tinha um humor sarcástico fantástico. Apanhei muita inspiração deles.

Ou seja, o teatro foi uma grande escola para si. Apesar de depois ter seguido a arquitetura.

Muito mais do que quando frequentei o curso de teatro no Conservatório Nacional. O curso de teatro deu-me algumas bases. Agora, o verdadeiro... O que eu aprendi foi a trabalhar com grandes atores.

É verdade que os artistas levavam uma vida muito boémia nesses tempos?

Sim, nesse tempo sim. Mas era uma boémia saudável. Havia o Porão da Nau, no Saldanha, o Cantinho dos Artistas, à saída do Parque Mayer. Acabava a segunda sessão da noite e nós íamos para lá, conversava-se muito. Às vezes havia artistas a declamar, outros a cantar. Por exemplo, lembro-me de ter visto o Paco Bandeira muito jovem, com a guitarra, a tocar, ainda sem ser muito conhecido.

Mas também devia haver umas bebedeiras…

Claro que havia. Isso fazia parte da praxe, não é? Só que eu nunca tive tendência porque me fazia impressão. O meu pai era alcoólico.

O pai tinha um restaurante, não era? E a mãe trabalhava numa perfumaria.

A minha mãe trabalhava na fábrica Nally. Fazia perfumaria, batons, pó de arroz, a fábrica era no Campo Grande. E o pai meu tinha o restaurante. Isto tudo começou porque o meu avô era negociante de vinhos. Tinha adegas na Calçada da Carriche. No velho tempo, em que se ia cantar o fado à calçada de Carriche. E para o meu pai começar a trabalhar, o meu avô alugou-lhe uma loja precisamente onde nasci e morei toda a vida, na avenida Defensores de Chaves.

Morei naquela casa 79 anos e saí porque a casa estava em nome do meu pai. Do nome do meu pai passou para o nome da minha mãe. Do nome da mãe já não pode passar para mais ninguém. Por causa da ‘Lei Cristas’ os filhos não têm direito à casa que estava alugada em nome dos pais.

Mas podiam ter-lhe feito outro contrato?

O senhorio aumentou o preço para uma renda que eu não podia pagar na altura.

Por isso é que ficou em risco de despejo, em 2022?

Na altura pagava pouco mais de 400 euros. Com o novo contrato o senhorio pedia 1800 euros. Eu até podia pagar não sei quantos anos, mas depois ficava sem nada.

Como é que era essa casa da sua infância?

Era um rés-do-chão com cinco divisões. Uma cozinha enorme, um imenso terraço. E o meu pai fez aí primeiro uma taberna. Depois, com a evolução do tempo, quando eu já andava na escola, já era restaurante.

O Carlos vem de uma família remediada, no mínimo.

Remediadíssima. Com muito boa qualidade de vida. O meu pai e a minha mãe foram duas pessoas excecionais na minha vida. O meu pai nunca me tocou no assunto da homossexualidade, nem de ser travesti. Mas ele se sentia... E ia às escondidas ver os meus espetáculos ao Coliseu dos Recreios.

Apesar de tudo havia o problema do alcoolismo e da violência doméstica.

Nunca vi o meu pai bêbado a cair. Mas chegava alcoolizado, entrava em casa e implicava com a minha mãe. E ainda por cima, porquê? Porque o meu pai queria que eu seguisse as pisadas dele. E a minha mãe queria que eu estudasse. Havia um choque entre os dois na minha educação. Choque esse tão grande, que a minha mãe acabou por vencer.

Como é que lidava com essas situações?

Quer dizer, lidava muito mal até aos meus 16 anos. Nessa altura comecei a andar nos teatros, com a pestana aberta. Até que um dia o meu pai começa a implicar comigo, a minha mãe mete-se no meio, e o meu pai dá um estaladão à minha mãe, que a minha mãe cai para debaixo do lava-louças. Levantei-a, ele veio a correr atrás de mim para a sala de jantar, que era uma sala grande, eu corri à volta da mesa, peguei numa cadeira, levantei-a e disse-lhe: ‘Se você me toca mais alguma vez, a mim ou à minha mãe, eu desfaço-o com esta cadeira!’ Espetei com a cadeira em cima da mesa, espatifei a mesa, espatifei a cadeira, espatifei tudo que estava ali.

A partir daí o meu pai nunca mais me tocou e quando implicava com a minha mãe era na minha ausência. Porque ele só deixou de beber praticamente quando já estava muito doente.

O seu pai, tendo esse caráter, como é que lidava com a sua orientação sexual?

O meu pai nunca tocou no assunto da minha orientação sexual. A minha mãe sim. Aliás, eu em miúdo pintava-me e ela mandava-me logo lavar a cara! Tivemos conversas, e até violentas da parte dela. Um dia a minha mãe gritou-me: ‘Eu tive um filho! Não tive uma filha!’

Nessa altura, teria uns 17 anos, saí de casa e aluguei um quarto no Campo dos Mártires da Pátria. Estava na faculdade, fazia cerâmica, fazia pinturas, vendia aguarelas na rua da Rosa, quadros com pinturas surrealistas, fazia muita maluqueira.

E conseguia viver disso?

Ia vivendo.

Mais tarde, em 1968, quando tinha 25 anos, esteve na célebre festa de Atenor Patiño, na mansão da Quinta Patiño. Como é que foi lá parar?

Muito fácil. Trabalhava num ateliê de decoração, que fazia parte da decoração da festa. E então, quando andávamos lá a fazer as coisas, falei com o chefe do ateliê e pedi-lhe para me arranjar um convite. E consegui! Aquilo foi sumptuoso, uma festa das mil e uma noites, uma coisa indescritível!

Essa festa tornou-se um mito. O que é que aconteceu nessa noite?

Ora bem, a Diana Ross atuou na festa, por debaixo de uma plataforma que se construiu. Fez-se uma cave, tipo cave natural, com plantas, com rochas artificiais, etc. Aí era a discoteca. Quem quisesse sair do jantar e das tendas ia para ali dançar. Corri aquilo tudo para ver, porque como tinha estado na parte da construção, também tinha curiosidade em ver como é que as coisas iam funcionar. Depois falei com algumas das pessoas que estavam lá, fui apresentado como um dos decoradores.

Quem foi a pessoa que o fascinou mais?

A Gina Lollobrigida foi muito simpática. A Begum Akakan, uma senhora. Estava também uma amiga minha, que era a mulher do Schlumberger, a São Schlumberger. Os Schlumberger, naquela altura, também tinham dado uma festa do mesmo género, em Colares. A São tornou-se minha amiga através das galas do São Carlos, que eu frequentava todas as semanas, religiosamente.

Voltando atrás, o Scarlatty Club durou quantos anos?

O Scarlatty fechou em 1990.

É nessa altura que o travesti começa a ser associado à rua e à prostituição.

E isso desgostou-me muito. Embora eu tivesse a minha clientela rigorosa, isso desgostou-me e desviei a minha carreira.  

Foi outra vez para o teatro?

Comecei a fazer revista e turnês pelo país inteiro. Andei cinco anos com o Camilo de Oliveira, com o Vítor Rosado, com a Maria José Valério, Ivone Silva, a Anita Guerreiro.

Depois, foi viver uma temporada para o Brasil.

Fui aos 50 anos. Quando cheguei aos 50 anos, digo assim: ‘pronto, isto vai terminar’. Fui para o Brasil logo a seguir ao meu pai falecer.

Por que é que resolveu ir para o Brasil, onde é que se instalou e a fazer o quê?

A ida para o Brasil também tem história. Aliás, tudo na minha vida tem história.

Com a morte do meu pai, apesar de tudo o que era mau, a minha mãe dizia-me que foi o seu único amor, foi o único homem que conheceu. E a mãe chorou e vestiu-se de luto carregado com a morte do meu pai. Já não dormiam juntos há vinte e tal anos, mas ela vestiu-se de negro dos pés à cabeça. Fazia-me impressão. Pensei, que aquilo não podia continuar, a minha mãe andar de preto. E fiz-lhe uma marosca. Cheguei um dia ao pé dela e pedi-lhe para arranjar uma mala de roupa, com roupas leves, porque íamos para fora duas semanas. Ela já estava habituada a estas malandrices.

Apanhámos um táxi para o aeroporto. Metemo-nos dentro do avião. Ela já estava acostumada a fazer assim viagens de surpresa mas nunca uma viagem tão longa. Quando estávamos há seis horas no avião, a viagem levava oito, nove horas, ela só perguntava se o avião nunca mais parava.

Passado um bocado, o comandante avisa que estávamos a chegar ao Rio de Janeiro. Ela ficou doida! Instalamo-nos num hotel em Copacabana, começámos a andar, a passear. No dia seguinte perguntei-lhe se queria ir à praia. Mas avisei-a logo que para ir à praia não podia ir de preto, senão chamavam-lhe maluquinha. E foi aí que eu consegui começar a tirar-lhe a roupa preta. Acabámos por ficar um mês no Rio de Janeiro, onde fiz determinados conhecimentos, logo nessa altura.

Conheci um rapaz que era parente do diretor do Teatro Castro Alves. Perguntou-me se queria trabalhar mas eu recusei porque o travesti no Brasil, naquela altura, no início dos anos 2000, já estava muito avançado. Já tinha seios. Já tinha silicone. Já eram mulheres espampanantes.

Disse-lhe que podia voltar para fazer uns burlescos. Agora travesti, travesti, não me atrevia a fazer. Regressámos a Lisboa e passados três meses voltámos ao Brasil. 

E depois quanto tempo é que lá viveu?

Primeiro estivemos lá uns seis ou sete meses, sempre no Rio, onde atuei na Galeria Alasca, no Pink Fleming. Até que ele me pediu para ir a Salvador da Baía, para fazer a inauguração do Teatro Castro Alves. Foi quando comprei lá uma casa em Salvador, onde vivemos cerca de 15 anos. Só voltei para Portugal por causa da doença da minha mãe. 

O que é que a mãe tinha?

A minha mãe aparece-me a desmaiar. Tínhamos uma empregada em casa, e a empregada, ao fim de algum tempo, veio contar-me que encontrava a minha mãe desmaiada muitas vezes mas que daquela vez tinha sido durante mais tempo.

Levei-a a uma clínica mas a saúde privada lá não dá para contar. E os hospitais públicos são piores do que em Portugal. Muito piores. São autênticos manicómios. No privado, numa semana em que a minha mãe esteve internada, gastei 15 mil euros.

Foi-lhe detetada uma isquemia cerebral e o médico disse-me que se tivesse dinheiro a minha mãe podia ser tratada no Brasil mas que na Europa teríamos melhores condições. 

Vendeu a casa que tinha no Brasil e veio?

Não cheguei a vender, perdi-a. Deixei-a numa imobiliária para ser vendida com uma procuração. E eles lá venderam.

Então e eles não lhe deram uma satisfação?

Não. Eu quis lá ir resolver o problema e a minha mãe pediu-me por amor de Deus para eu não ir porque tinha medo de que me matassem. Só dizia: ‘Deixa a casa! Esquece a casa!’

Então e quando chega cá, a mãe é internada?

Quando chego, a minha mãe vai para Santa Maria, é observada, todos os exames que tinha feito no Brasil estava tudo rigorosamente certo e o médico disse-me que ela podia ser operada em Portugal mas que o sistema em Londres era mais avançado, era a laser.

Fui ter com um amigo cujo pai teve a mesma doença, foi operado no Thames Hospital em Londres e ficou maravilhoso. Ele tratou de tudo, lá fomos para Londres e, no regresso, a minha mãe veio numa cadeira de rodas. Voltou ao Santa Maria para ser observada e foi para um lar, que eu já tinha procurado.

Eu fiquei muito desorientado porque o meu programa era ficar no Brasil e morrer no Brasil. E já nos tínhamos mesmo mentalizado para isso, tanto eu como ela. Voltei em 2009.

Durante um ano andei um bocadinho a bater com a cabeça nas paredes. Nisto, há um amigo meu, o Fernando Santos, a Deborah Kristal, somos unha com carne, muito amigos, e ele desafiou-me a voltar a trabalhar. E então arranja-me um contrato de três meses para o Mr. Gay, uma casa na Margem Sul. Uma casa enorme, um palco lindíssimo, onde eu estou três meses a fazer um novo espetáculo, nesse meu regresso a Portugal. O primeiro espetáculo chamava-se mesmo ‘O Regresso da Monstra’. 

E quando é que terminou a sua carreira, por assim dizer?

Não terminei. Ainda no dia 1 de dezembro voltei a vestir-me. Fizeram-me uma homenagem na Gala da Abraço. Mas atuei como velha senhora, nada de grandes coisas. E estive na Fábrica de Braço de Prata durante 10 anos, até à pandemia. Só não trabalho regularmente desde a pandemia. 

Então, se lhe pedirem para atuar num bar aceita?

Não me meto em casas de pouco mais ou menos porque já dei muita cambalhota, já levei com muita estória. Hoje é uma coisa, amanhã já aparece outra. E não sou para me envolver em problemas. Se amanhã me aparecer aí um teatro e queira que eu faça um burlesco, uma mulher-a-dias, uma saloia vinda de Avintes, uma coisa qualquer, eu estou lá caidinho que nem um prego. Mas tem de ser uma coisa realmente com cabeça, tronco e membros. 

Carlos, olhando para trás, para estes 50 anos de carreira e 83 de vida, que balanço é que faz?

Tive uma vida maravilhosa! Fazia tudo igual outra vez.