Revisitar Georges Simenon é redescobrir um autor para quem o crime nunca foi o essencial, mas apenas a porta de acesso aos dilemas morais, à culpa e à fragilidade humana. Entre uns e outros, permanece como um dos autores mais lidos do século XX, que prossegue caminho neste século.
«Os meus amigos, incluindo alguns sérios especialistas, espantam-se com a minha memória. Esqueço-me dos meus romances, mal os escrevo», disse George Simenon, o criador do comissário Jules Maigret, que em vendas só perde para Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle, ficando à frente de Hercule Poirot e Miss Marple, de Agatha Christie, ou de Philip Marlowe, de Raymond Chandler.
Simenon foi um dos escritores mais prolíficos do século XX. Nasceu em 1903 e morreu em 1989, escreveu o primeiro livro em 1921 e a partir daí nunca mais parou, demorando, em média, uma semana a escrever cada livro. Produziu centenas de obras, em vários géneros – romances, novelas, contos, e textos jornalísticos ou parcialmente autobiográficos –, sob múltiplos pseudónimos. A sua escrita é fulgurante, por vezes superficial, mas no conjunto – cerca de 500 títulos – merece atenção cuidadosa. Escolher o melhor entre tanta obra não é tarefa fácil.
Simenon foi um dos escritores mais populares do século XX, uma popularidade que se mantém no século XXI, embora de forma diferente. Hoje é valorizado não só pelos romances policiais, mas também pelos romans durs (romances duros), em que o escritor belga, nascido relativamente pobre em Liège e que viveu em França e nos Estados Unidos, explorou com grande profundidade a condição humana.
No domínio da literatura policial, Simenon é comparável apenas a Agatha Christie – que escreveu menos e vendeu mais, mas isso é outro texto. Ainda assim, os romances protagonizados pelo comissário Jules Maigret representam menos da metade da sua produção escrita.
O autor belga foi elogiado por escritores consagrados. André Gide ajudou a consolidar o seu estatuto literário. Roland Barthes escreveu sobre o universo moral dos seus romances. Henry Miller considerou-o um «fenómeno literário único». T. S. Eliot disse: «Nunca leio ficção contemporânea – exceto os livros de Simenon». Federico Fellini admirava a «atmosfera humana e quotidiana» das suas histórias. John Le Carré também foi leitor e admirador. Mais recentemente, o escritor irlandês John Banville tem escrito ensaios sobre os seus romans durs.
Quanto às adaptações, o comissário Maigret teve vários protagonistas no cinema e televisão: o britânico Rowan Atkinson, os franceses Gérard Depardieu e Jean Gabin, e o italiano Gino Cervi, o preferido de Simenon. Já os romans durs foram adaptados por realizadores de renome como Jean Renoir, Michel Audiard, Claude Chabrol e Béla Tarr.
A reedição como novidade
A editora portuguesa Cavalo de Ferro tem vindo a reeditar alguns dos romans durs de Simenon, entre eles A Casa dos Krull, A Neve Estava Suja e As Janelas Defronte. A Relógio D’Água fez o mesmo há um par de anos, com a publicação de Os Três Crimes dos Meus Amigos e O Santinho.
Há crime nos romances, mas não se pode dizer que sejam policiais. A confusão surge muitas vezes porque, para Simenon, o ambiente social em que os crimes ocorrem é mais importante do que os próprios crimes. Não por acaso, diversos académicos compararam Georges Simenon a Fyodor Dostoevsky – salvaguardando a distância, o tempo e a cultura, mas reconhecendo muitas semelhanças: motivações internas, dilemas morais, pensamentos obsessivos, paixões, culpa e redenção. Claro que Simenon é prático, enquanto Dostoevsky é metafísico.
Os Três Crimes dos Meus Amigos (Relógio D’Água) é uma obra autobiográfica, recordando os anos de formação de Simenon em Liège, a mudança para Paris em 1922, a década seguinte e a condenação de amigos criminosos. Simenon é ao mesmo tempo autor e narrador. É nesta altura, e neste livro, que aparece a jovem estudante de Belas-Artes que viria a ser a sua primeira mulher.
O Santinho (Relógio D’Água) é a biografia de um pintor imaginário, em Paris, desde o final do século XIX até aos anos 60 do século XX. A obra divide-se em duas partes: O Rapazinho da Rue Mouffetard e O Rapazinho da Rue de l’Abbé-de-l’Épée. Na primeira, acompanha-se a infância do pintor protagonista, criado numa família pobre, mas disfuncionalmente feliz, liderada por uma mãe algo promíscua que compensa os vícios com as virtudes de uma força inquebrantável. A mãe vendia frutas e legumes na rua Mouffetard, num bairro habitado maioritariamente pela classe trabalhadora e por alguns pequeno-burgueses. Terminada a escola, o jovem não se afasta muito das origens, mas sobe um patamar e vai trabalhar para Les Halles, o grande mercado de Paris da época.
A educação sentimental do pintor, que depois se tornaria famoso, desenvolveu-se através de violência íntima e pessoal. A pintura trouxe-lhe felicidade, mas não a redenção. Os romans durs, escritos entre uma a duas semanas – o tempo habitual da escrita de Simenon –, são simples e aparentemente superficiais. No entanto, numa leitura imersiva, saímos de cada livro com a sensação de termos percorrido um universo sombrio e insondável, do qual não temos a certeza de ter compreendido completamente.
Antes e depois da II Guerra Mundial
A Casa dos Krull (Cavalo de Ferro) é tido como um dos romans durs mais intensos de Simenon, foi escrito em 1939 e traz-nos até aos dias de hoje através de temas como intolerância, medo, culpa e vergonha. A hostilidade contra estrangeiros e a xenofobia, na véspera da II Guerra Mundial, não se distanciam muito do discurso de ódio que ainda observamos em diversos conflitos contemporâneos. O livro é de leitura viciante, mantendo o leitor desassossegado do princípio ao fim.
A Neve Estava Suja (Cavalo de Ferro) é considerado o roman dur mais poderoso e perturbador de Simenon. Esta obra coloca Simenon no patamar de Camus e aproxima-o de Dostoevsky. Não se trata apenas da história de um crime – o de Frank Friedmaier –, mas de uma descida ao inferno, pelo caminho mais obscuro de uma personagem em colapso. A violência não se traduz no “quê”, mas sobretudo no “porquê”: a crueldade e a indiferença social, ontem como hoje.
O narrador mantém-se desconfortavelmente próximo da personagem, revelando-nos os pensamentos e desejos de Frank Friedmaier, desagradáveis, brutais e confusos. Frank, o filho de 19 anos de uma dona de bordel, logo nas primeiras páginas, num bar decadente onde todos já mataram alguém, comete o seu primeiro homicídio – uma ação que associa à perda da “virgindade” e que executa simplesmente porque pode. Nas páginas seguintes, Frank comete agressões sem sentido, maltrata vizinhos e as mulheres que trabalham para a mãe. É repugnante, um marginal assumido, mas Simenon consegue tornar fascinante e irresistível.
O livro foi escrito em 1948 e retrata um país sob domínio estrangeiro, que pode ser a França, a Bélgica ou qualquer território ocupado pelos nazis – ou mesmo a Alemanha sob ocupação aliada. O local exato não é relevante: a corrupção e a submissão permanecem, independentemente de quem está no poder ou do uniforme usado.
Quando escreveu A Neve Estava Suja, Simenon vivia exilado nos Estados Unidos, depois de ter sido acusado de colaborar com o regime nazi em França por permitir adaptações cinematográficas dos seus romances – acabou por ser ilibado. Apesar de não ser assumidamente uma obra autobiográfica, o livro mostra claramente o quanto Simenon compreendia os dilemas morais de viver sob ocupação ou sob o domínio de uma força militarmente superior.
Na mesma linha de reedições, a Cavalo de Ferro publicou também As Janelas Defronte. Na prolífica obra de Simenon, falar de alguns dos seus romans durs é apenas tocar a superfície, terá escrito mais de uma centena, há muitos mais títulos a redescobrir, como O Homem que Via Passar Comboios (Relógio D’Água) ou O Gato (atualmente indisponível).
Em O Gato, acompanhamos um casal parisiense: Émile Bouin, construtor reformado, e a mulher, Marguerite. Ambos viúvos, voltaram a casar na casa dos sessenta, que vivem um quotidiano infernal e claustrofóbico, em que passam os dias a provocar e atormentar-se mutuamente, numa batalha de vontades que só pode terminar em tragédia. Não se falam e comunicam apenas através de breves recados escritos.
O gato do título era um animal vadio que Émile resgatou de um estaleiro de obras. Proporcionava-lhe calor e companhia nos dias melancólicos, até que Marguerite o envenenou – ou pelo menos foi nisso que Émile acreditou. Em resposta, ele mutilou o papagaio de estimação de Marguerite, provocando a morte do animal. O pássaro empalhado, colocado na gaiola, passou a dominar a sala de estar do casal, funcionando como uma censura permanente a Émile e uma grotesca afirmação do ressentimento e espírito de vingança da mulher.
A situação é terrível mas horrivelmente cómica, ainda assim, a história é profundamente triste, tornando-se cada vez mais angustiante à medida que avança. O casamento transforma-se num espaço exíguo onde se acumulam memórias e ressentimentos, tornando Émile e Marguerite duas almas perdidas, agarradas aos destroços da mútua dependência.
George Simenon morreu aos 86 anos. Nasceu em Liège, em 1903, e começou a sua carreira como jornalista, publicando o primeiro romance em 1921. No ano seguinte mudou-se para Paris, iniciando uma produção incessante de livros, que só abrandou durante os anos de guerra. Viveu uma década nos Estados Unidos, entre 1945 e 1955. Morreu, em Lausanne, na Suíça.
Com as histórias do comissário parisiense Jules Maigret, Simenon escreveu 75 livros, tornando-o o segundo detetive mais vendido do mundo, com traduções em mais de 50 línguas. No total – embora os números variem – terá escrito entre 400 e 500 obras. Cada livro era concluído entre 7 e 11 dias. Prolífico na escrita e extenso nas relações amorosas, os biógrafos ainda não confirmaram o número exato de mulheres com quem se relacionou amorosamente, mas pode falar-se em milhares. De qualquer forma, terá concluído que: «Uma mulher é capaz de suportar mais do que um homem pensa, e fazer sofrer mais do que ele imagina».