Cresceu numa família conservadora e católica, mas que nunca afrontou a sua liberdade. Aliás, sempre a incentivou. As portas estavam sempre escancaradas, a casa cheia de amigos, música de todos os estilos e poesia. Podia fazer o que quisesse, desde que com seriedade e responsabilidade. E foi isso que fez. Apaixonado pelo futebol - mas sem muito jeito para praticá-lo -, decidiu ser treinador. Fascinava-o aquilo que acontece «por trás». «Houve várias frustrações ao longo do tempo, porque eu ia fazer treinos de captação a vários clubes e, muitas vezes, não fiquei. Fui rejeitado (...) Foram obstáculos difíceis de lidar porque nessa altura ainda estamos a crescer. Um ‘não’ assertivo é uma pedra de cimento que vai construindo uma barreira ao nosso sonho e, de repente, deixamos de ver o outro lado. E foi isso que me aconteceu», confidencia Francisco Guimarães à VERSA. Felizmente gostava tanto de futebol que descobriu uma maneira de se manter no meio sem ter que ser jogador, e a persistência ajudou-o, quase sempre, a chegar onde queria.
Prova disso foi a forma como conheceu o seu ídolo, José Mourinho. «Houve um professor chamado Manuel Sérgio que me marcou muito. Eu conheci-o numa conferência e entreguei-lhe um trabalho que tinha feito para a escola sobre o Mourinho. No fim estava o meu número de telefone e e-mail. Como quem diz: ‘Vamos lá ver se ele liga’. Quando ele efetivamente me ligou, achei que estava a sonhar… Disse-me que tinha lido o meu trabalho e que tinha várias incorreções. Aquela chamada era o sinal de qualquer coisa. Ele tinha levado a sério a ambição de um miúdo, o atrevimento de alguém que lhe tinha mostrado um trabalho sobre uma pessoa que ele conhecia muito bem», lembra. Desde aí construíram uma relação de grande amizade e, segundo Francisco Guimarães, houve um dia, com a sua «lata do costume», que lhe disse que adorava conhecer Mourinho. «À minha frente mandou-lhe um e-mail. O Mourinho estava no Chelsea na altura, na segunda passagem do Chelsea. E respondeu: ‘Ele que venha!’. E eu fui… Tinha 17 anos na altura. Não estava nada combinado e a minha mãe ficou muito surpreendida. Queria que eu entrasse em contacto, mas eu não queria voltar a chatear. Por isso, só fui! O meu pai quis vir comigo e fomos os dois para Londres», continua. Deu por si, a certa altura, à porta do centro de estágio do Chelsea, a tentar convencer os seguranças que era o tal miúdo de que o Mourinho tinha falado. «Eu não tinha nenhuma prova, não tinha sequer o e-mail comigo. Foi uma completa inconsciência, mas eu acho que os venci pelo cansaço. Estive lá a ver o treino do Chelsea, a tomar um pequeno almoço ao lado dos jogadores e a conversar com o Mourinho. Foi a concretização de um sonho. E acho que foi a prova concreta de que a perseverança e o risco valem a pena. Eu podia ter sido rejeitado, como fui nos vários treinos de captação. Mas daquela vez não fui», diz satisfeito.
Treinador aos 15
Na verdade, antes desse encontro, Francisco já estava a apresentar provas do seu talento. Aos 15 anos já era treinador. Assistia a conferências de imprensa e as aulas de Educação Física eram passadas a analisar a forma como o FC Barcelona jogava. Mas apesar da tenra idade, sentia-se seguro. «Já contei a experiência que tive em casa e aconteceu exatamente o mesmo na escola. Era uma continuação da minha casa como lugar de liberdade total. Tanto é que, algumas vezes, deixaram-me faltar às aulas para ir a conferências na Faculdade de Motricidade Humana ou para ir ver treinos do Jorge Jesus no Benfica. Ou seja, olhavam para mim e percebiam que o meu sonho era uma coisa séria. Percebiam que estava ali um miúdo, igual aos outros, mas a levar a sério uma ideia, um sonho. E acho que o facto de responderem a sério às perguntas que eu tinha fez com que eu, se calhar, crescesse mais rápido que os outros», admite. Isso obrigou-o a fazer escolhas mais precocemente comparado com outras crianças. «Obrigou-me a abdicar. Eu acho que nós nos tornamos adultos a partir do momento em que começamos a abdicar de coisas de que gostamos conscientemente. Foi uma coisa que aconteceu. Tinha treinos todos os dias. A maior parte das saídas à noite, ou ia e saía mais cedo, ou simplesmente não ia porque tinha jogo de manhã, tinha treinos para preparar, ou tinha jogos para ver», afirma.
Aos 21 anos teve a sua primeira experiência profissional fora do país, mas infelizmente as coisas não correram como gostaria. «Fui para a Índia e foi uma espécie de loucura. Costumo dizer que foi o meu Erasmus, apesar de não estar na faculdade nessa altura. E, ao tomar essa decisão, formulei muitas expectativas na minha cabeça. Expectativas essas que não corresponderam nunca à realidade», lamenta. Vivia nos arredores de Delhi, demorava muito tempo para chegar ao centro da cidade, a casa onde estava hospedado não era «propriamente acolhedora» e não tinha grandes coisas para ocupar o seu tempo livre. «Foi uma frustração desde o início. Além disso, muitas vezes o trabalho salva-nos, mas as coisas não nos correram bem do ponto de vista dos resultados, apesar de eu ter ficado com uma relação extraordinária com muitos dos meus jogadores. Ou seja, eu virava-me para a parte profissional e as coisas não estavam a correr bem. Virava-me para a parte do lazer e também não tinha assim grande atividade para fazer. Podia descansar em casa, mas a casa não era confortável para descansar. E ter aquela experiência, ainda por cima num país que se pode tornar inóspito, com aquela idade, é duro», detalha.
O jogo como metáfora para a vida
Quando voltou estava completamente deprimido e essa tristeza fê-lo reencontrar-se com a escrita. «Talvez tenha tido a tristeza como motor de purgar uma dor, de querer contar qualquer coisa que estamos a viver e que não conseguimos dizer com a boca. Uma coisa quase catártica. É nessa altura que a escrita reaparece na minha vida. Felizmente, hoje em dia, já não dependo disso para escrever. Mas esses anos tiraram-me alguma energia que hoje estou a voltar a descobrir de outra maneira. Acho que sou na mesma uma pessoa persistente que quer concretizar os sonhos e que quando põe uma coisa na cabeça não desiste até a concretizar, mas acho que essa energia está mais contida, está mais serena», revela Francisco Guimarães. «O Rainer Maria Rilke, no livro ‘Cartas a um jovem poeta’, que é talvez o livro que mais marcou a minha vida, a certa altura escreveu que (a propósito das experiências negativas do jovem que lhe escrevia): ‘Pense bem se não foram essas experiências que o levaram ao mais fundo de si mesmo’. Acho que foi o que me aconteceu na Índia. O facto de me deparar com tantas histórias e com muita tristeza obrigou-me a aprofundar uma relação comigo próprio que não tinha. E também descobri que o que me atraía verdadeiramente no futebol era o desejo profundo de conhecer o ser humano. Por isso é que eu acho que há uma relação muito profunda entre o futebol e a poesia. O futebol é muito carnal e a poesia também. O jogo é uma ótima metáfora da vida. Podemos relacioná-lo com qualquer aspecto: a adversidade, a morte, o trabalho em equipa, a relação com o outro, a relação com as várias culturas, etc. A poesia é também isso. São aqueles silêncios que nós muitas vezes não conseguimos dizer e que explicam as nossas ações», compara o jovem treinador. Decidiu depois licenciar-se em Artes e Humanidades na Faculdade de Letras e, segundo o próprio, essa decisão surgiu, sem dúvida, de um vazio. «Tinha chegado a Portugal, tinha tempo e tinha que o ocupar. Já era comentador de futebol na altura, mas não estava a treinar», afirma.
Francisco começou a ser comentador desportivo no Mundial 2018 e acredita que mudou muito ao longo destes anos. «Sinto que mudei imenso. Primeiro porque, tal como quando escrevi o primeiro livro, havia um certo pretensiosismo de querer mostrar que era extraordinário. E era o que eu queria fazer quando comecei a ser comentador. ‘Olhem para mim que sou diferente. Olhem para mim que vou ser uma espécie de ar fresco do comentário desportivo!’. Nós depois percebemos que não somos nada disso. Somos só nós próprios com a nossa personalidade a contribuir para a área onde estamos inseridos. A minha mudança veio essencialmente disso. De não me levar tanto a sério e de perceber o que é verdadeiramente importante. Tanto no comentário como na escrita», acredita. Sobre a imparcialidade, o comentador não acredita nela. «Eu acho que a imparcialidade não existe. É um mito que se criou na comunicação, na comunicação social no geral. O que eu acho que pode haver é liberdade e independência. E nesse aspecto acho que sou. Acho que sou livre e acho que sou independente», partilha, referindo, porém, que tem as suas estimas, os seus ódios de estimação e as suas fragilidades. «Até a roupa que eu escolho quando acordo de manhã não é uma escolha imparcial. Ou seja, é nesta medida que eu não acredito na imparcialidade. Acho que qualquer coisa que nós façamos tem por trás a nossa história, a nossa cultura. Portanto é impossível sermos imparciais. Mas acho que é um desafio diário, quando me sento num estúdio de televisão ou quando escrevo uma crónica, de me tentar distanciar dessas minhas fragilidades, dos meus apegos, das minhas emoções, das pessoas que eu gosto. Muitas vezes tenho que falar sobre elas. E esse é o desafio diário», sublinha.
A paixão pela escrita
Francisco - que escreveu o seu primeiro poema quando estava no 7º ano -, também não acredita na «poesia medicinal» ou na literatura como «modo de salvar o mundo». «O que eu acho é que a literatura é uma maneira de nós conseguirmos imaginarmo-nos para além de nós próprios. É uma maneira de conseguirmos conhecer histórias que, sem livros, não seriam possíveis de conhecer. É uma maneira de nós vivermos outras vidas. E isso tem um efeito… Não acho que uma pessoa que leia seja melhor pessoa, mas acho que uma pessoa que lê e que tem essa preocupação faz o exercício diário de imaginação e isso produz qualquer coisa. Nós não sabemos qual é o resultado. Somos todos diferentes», explica.
Lançou o seu primeiro livro Convocatória, em 2021, uma obra que rompe as barreiras da norma. Não é um livro sobre futebol e também não é um livro de entrevistas. «Foi a confirmação de que o futebol pode realmente ser uma ótima maneira de explicar a vida. O livro surgiu com o pretexto de eu querer usar o jogo para falar sobre outros temas que me interessam. Portanto, o jogo é o ponto de partida. E eu escolhi uma série de 23 pessoas como se fosse uma convocatória de uma seleção adicional para falar com elas sobre os diferentes temas que o futebol me deu. Da cultura, à beleza, à estética, à morte, ao trabalho em equipa, ao sentido do humor», pormenoriza.
Atualmente, escreve crónicas, poemas, letras de músicas e tem uma relação bastante próxima com o fado. Mas é, sem dúvida, na poesia e nas letras das canções que mais se encontra. «A crónica é mais um um aspeto profissional da literatura. Está sempre relacionada com a atualidade. Enquanto a poesia e as letras não têm essa preocupação de estarem alocadas ao real. Acontece-me muito estar, por exemplo, a calçar os sapatos e interromper. Ficar só com um sapato calçado, porque me lembrei de um verso. A escrita é uma coisa que me acontece como necessidade. É uma pulsão diária… Um poema dá trabalho. Depois de aparecerem as primeiras ideias, é preciso deitar sangue naquelas páginas», garante.
A magia do fado
Para as letras das músicas, senta-se para escrever. Os poemas escrevem-se no seu quotidiano. «Chegam-me através de coisas que vejo. Sentimentos que depois de vividos, aparecem como versos. Conversas que tive... Acho que toda a matéria do humano é matéria poética. Com as canções, eu pressiono-me a escrever, na poesia é uma coisa mais natural», reforça. Antes de escrever poesia, escrevia quase sempre só letras. «E a maneira que eu tive para me distanciar das letras foi escrever poesia muito mais livre. Porque senão, estava constantemente a escrever uma coisa que eu achava que era um poema e a pensar na música, na métrica, na rima. Quis dar um pontapé nessa parte formal e foi o que eu fiz. Por isso é que as minhas letras são muito diferentes dos meus poemas», acredita. Francisco Guimarães é autor das letras: O pedido (Teresinha Landeiro); Porta aberta (Luís Trigacheiro); E conta quem eu sou (Ricardo Ribeiro); Vida vagabunda (Beatriz Felício); Outono (Mimi Froes), entre outros.
É também uma presença assídua no circuito das Casas de Fado lisboetas. «O fado é uma espécie de estrada para a palavra poder andar», afirma. «Tem um encanto especial, inexplicável e bastante misterioso. Uma canção aparentemente singela e simples, do ponto de vista técnico, com pouca complexidade musical, conseguir atingir-nos o tutano mesmo quando nós, muitas vezes, não percebemos a letra? Há muito essa experiência com os estrangeiros que ouvem um fado e que se emocionam, não é? É mais ou menos uma maneira de ser português. Por isso é que nos toca tanto, que tem esta capacidade, essa força», acredita, acrescentando que tudo se exponencia numa casa de fado. «A casa de fado é sempre muito mais interessante do que um disco de fado. Porque é uma experiência sensorial completa: é física, ao mesmo tempo que é lírica, ao mesmo tempo que é auditiva. É mística!», reforça.
O 1º livro de poesia
Recentemente, Francisco Guimarães lançou aquele que é o seu primeiro livro de poesia: À Espera de um Lugar Sentado. Um amigo fotógrafo estava numa viagem à volta do mundo e pediu-lhe que «escrevesse uns poemas para dar palavras à viagem». O jovem acabou por se entusiasmar e, quando deu por si, tinha escrito um livro. «Na verdade, eu já tinha aquilo que julgava ser um livro. Já tinha vários poemas organizados, vários rascunhos escritos. Até que este meu amigo fotógrafo decidiu pedir-me uns poemas para ilustrar algumas das fotografias que estava a tirar nessa sua viagem, para ele fazer um livro para consumo interno, para amigos e família», conta. «E eu levei aquilo a sério, entusiasmei-me e escrevi um livro inteiro. E o livro que eu achava que tinha escrito foi praticamente todo para o lixo. O que é ótimo. (risos) Ainda bem que escrevi aqueles poemas. Alguns aproveitei, outros aproveitei só um verso, outros aproveitei só a ideia. Mas a maior parte foi escrito depois daquele meu amigo me pedir», revela. Segundo o autor, foi uma maneira de não só viajar, mas viajar pela lente dele. «Acho que é uma experiência criativa interessante: escrever-me sobre uma viagem que não fizemos. Uma experiência de imaginação extraordinária. E além disso, foi também uma maneira de me lembrar das viagens que eu já tinha feito. E portanto, neste processo, que demorou mais ou menos dois anos, acabei por me lembrar de muitas coisas que tinha vivido na Índia. Foi também dois anos em que eu viajei algumas vezes. Portanto, acabei por escrever poemas novos», continua.
Interrogado sobre aquilo que o livro representa para si, Francisco diz ser uma pergunta difícil de responder. «A Rosa Montero, que é uma escritora que eu adoro, diz que ‘a poesia aspira à perfeição’. Eu perdoo a Rosa Montero, porque a adoro, mas acho que ela se esqueceu do resto da frase. ‘A poesia aspira à perfeição, mas falha’, e falha redondamente. Falha ao ponto de quem a escreve, neste caso o poeta, ficar-se estendido no chão porque se sente um falhado. E este meu livro representa um falhanço, que não é nada mais do que aquilo que nós andamos a fazer todos os dias na vida. Eu não sou o único a falhar. Acho que todos nós andamos a falhar todos os dias», reflete.
Uma vez o seu irmão escreveu-lhe uma carta onde dizia que este tinha uma «vontade bruta» que o movia. E Francisco acredita que ainda a possui, apesar de ter medo que ela desapareça. «Acho que este livro escrito só nasce porque em mim habita uma vontade bruta, que não existe por mérito, existe porque me foi dada e eu tenho que canalizar para algum lado. Mesmo que eu tenha medo por vezes que ela desapareça. Tive muito medo quando tive a depressão… Ela provavelmente escondeu-se nessa altura. Mas um livro de poemas só existe porque se tem vontade bruta. É difícil escrever poesia, mesmo em poemas que tenham apenas dois versos ou três. Há ali um trabalho de decoração, de detalhe, de atenção às subtilezas. Se nós não temos essa vontade bruta, acho que é manifestamente impossível escrever um poema», remata o escritor.