terça-feira, 18 ago. 2026

Festival de piano de Oeiras: uma iniciativa que une e ensina

Há nove edições que o FIPO quer aproximar as pessoas da música clássica e, segundo Teresa da Palma Pereira, a missão tem sido bem sucedida. Este ano voltou a Oeiras para continuar esse trabalho.
Festival de piano de Oeiras: uma iniciativa que une e ensina

O Festival Internacional de Piano de Oeiras (FIPO) regressou no dia 5 de julho com a sua maior edição de sempre. Marcada pelo lema ‘Somos todos viajantes’, este ano - a iniciativa que decorre no Auditório Ruy de Carvalho, em Carnaxide -, contará com seis concertos de entrada livre e reunirá alguns dos mais prestigiados nomes do panorama pianístico internacional.

Segundo a sua diretora artística, Teresa da Palma Pereira, a sua identidade foi-se consolidando ao longo do tempo, mas já estava um pouco vincada desde o início, «porque o festival tem esta particularidade que é trazer grandes nomes do piano a nível internacional à comunidade de Oeiras, que está à porta de Lisboa, mas, de certa forma, não deixa de ser uma comunidade um pouco periférica». «É um sítio um bocadinho já deslocado do centro e não existe qualquer custo para quem vem assistir. Portanto, são concertos gratuitos. E a ideia foi sempre formar uma comunidade cultural, juntando pessoas que já eram conhecedoras e amantes de música para piano, mas também pessoas que não estavam minimamente familiarizadas com a música erudita, nomeadamente a música erudita para piano», explica à VERSA a também pianista, ressaltando que considera que a equipa tem conseguido atingir esse objetivo com bastante sucesso. «É sempre muito interessante observar o público dos concertos, porque é uma mistura grande… Temos pessoas de todas as idades, estudantes de música, pessoas que não têm conhecimento nenhum prévio, mas que se têm vindo até, de certa forma, a educar musicalmente. Portanto, já temos muito público fiel. E até encontramos, por exemplo, pessoas de fora, que percebemos que são turistas, que estão aqui nesta altura do ano, e vêm. E isso é muito bonito de se ver. Abrimos as portas de uma música que, às vezes, é um pouco elitista, que se faz em espaços um bocadinho elitistas, para toda a comunidade», conta.

Artistas internacionais

Este ano, o lema da iniciativa é ‘Somos Todos Viajantes’ e, segundo a diretora artística, parte da ideia de que «a música é uma linguagem universal que nos une a todos, que tem a capacidade de abolir fronteiras, sejam geográficas ou culturais». «Não importa de onde vimos, todos podemos gostar de música», sublinha. Além disso, este lema refere-se também aos próprios intérpretes que «têm esta vida um bocadinho de nómada, de tocar hoje num país, amanhã noutro». «Os compositores que interpretamos, muitas vezes, também tinham essa experiência. E, por exemplo, este ano, na programação, damos muita ênfase à música do romantismo», adianta. «Temos destaque para compositores como Franz Liszt, que era alguém húngaro, de origem alemã, que se dizia um estrangeiro na sua própria terra. Temos a música de Chopin, que foi um exilado na maior parte da vida. Então, falamos desta coisa que perder as raízes, paradoxalmente, pode ser aquilo que dá essa capacidade de aceder a uma expressão universal. E, através dessa universalidade, nós conseguimos também juntar todas aquelas pessoas no público, que, com as suas diferentes origens e experiências musicais, se juntam por uma razão comum, que é ouvir música», acrescenta.

A IX edição do festival distingue-se pela presença inédita em Oeiras de três artistas de referência: a pianista ucraniana Anna Fedorova, o cazaque Alim Beisembayev e o polaco Rafal Blechacz. Regressam também ao festival os pianistas Alexei Volodin e Yoav Levanon. Ao longo da programação, o público poderá ouvir obras de compositores como Mozart, Beethoven, Chopin, Liszt, Schubert, Schumann, Rachmaninov, Bach, Tchaikovsky e Debussy, num percurso musical que explora a relação entre a viagem humana, a introspeção e a poesia.

A homenagem

Todos os anos, o festival tem homenageado uma grande figura da música, da cultura, mas, sobretudo, da música portuguesa. «Este ano não podíamos homenagear outra pessoa, senão a Maria João Pires. Ainda para mais na sequência do anúncio público da sua retirada das salas de concertos», revela Teresa da Palma Pereira, dizendo que, no fundo, «é uma homenagem muito singela para que este conjunto de pessoas possa aplaudir e fazer o seu agradecimento público que eu acho que esta pianista absolutamente maravilhosa merece de todos nós». A pianista receberá a distinção durante o concerto de encerramento, a 2 de agosto.

Além dos concertos, a iniciativa inclui masterclass e iniciativas pedagógicas. Segundo a diretora artística, esta é uma vertente complementar. «Temos esse projeto de criar uma comunidade em torno da escuta e do gosto pela música para piano, mas também queremos que possam participar ativamente nisso. Queremos transpor um bocadinho as fronteiras da sala de concertos», reforça. «Este ano, eu e a pianista ucraniana, Ana Fedorova, vamos dar masterclasses. Portanto, nós fazemos os nossos concertos, mas também vamos ouvir jovens estudantes, alguns em vias, ou mesmo já, praticamente, a tornarem-se profissionais. É uma forma de partilharmos a nossa experiência e de integrarmos estes jovens pianistas, ou jovens futuros pianistas, nesta grande comunidade», detalha. O curso intensivo de iniciação ao piano, que fazem já há alguns anos, também parte do princípio de que todos podem gostar de música, independentemente da sua preparação. «E, mais uma vez, de que a música também está acessível a todos, no sentido da aprendizagem. Portanto, todos podemos saber um pouco de música… Se calhar nem todos vamos ser profissionais, mas, independentemente da idade ou das experiências musicais que tivemos antes, a música está aqui para todos, na sala de concerto e na sala de aula também», refere a pianista.

Teresa da Palma Pereira acredita que a música clássica tem cada vez mais visão por parte do público. «Há muitas pessoas interessadas, muitas pessoas a gostarem de música», afirma. «Falta, às vezes, haver alguma perceção, talvez de alguns organismos, de que isto acontece, de que vale a pena investir na música, e criar mais espaço para que as pessoas possam tocar. Não é o caso de Oeiras, em que temos um fantástico apoio da Câmara Municipal, e temos um magnífico espaço, o Auditório Municipal Ruy de Carvalho… Mas há muitos teatros e muitos auditórios por este país semi-parados, onde poderia estar a haver mais vida cultural, e a resposta que as pessoas dão aqui no Festival Internacional de Piano de Oeiras prova que há essa abertura, há essa disponibilidade do público», remata.

A entrada no festival de Oeiras é livre, requerendo apenas inscrição prévia. Todos os concertos têm início às 18 horas no Auditório Ruy de Carvalho, em Carnaxide.