Depois do êxito de vendas no Brasil de A Gramática Para Concursos Públicos (2014), o linguista e professor de Português Fernando Pestana lança uma obra polémica que essencialmente colige 70 escritos seus de 2022 a 2025 no Facebook — onde aliás tem mantido acesos debates académicos, incluindo com o professor Marcos Bagno, opositor intelectual de Pestana. No novo livro, intitulado Norma Culta Inculta: A Subversão da Gramática (ed. Minotauro), este carioca radicado em Portugal há nove anos, atualmente a viver em Mondim de Basto depois de fazer um mestrado em Linguística pela Universidade do Porto, desenvolve que «uma das mais irritantes falácias defendidas por certos linguistas é definir a norma-padrão da língua portuguesa como anacrónica, artificial». Em introdução assinada pelo também linguista brasileiro Rodrigo Barreto, lê-se que «o alvo da crítica» de Pestana «não são pessoas, mas ideias». O assunto, tão propriamente brasileiro, salpica o legado de Portugal. E porque o caso é de normas, optou-se nesta entrevista por grafar à portuguesa palavras e expressões que o professor verbalizou à brasileira, como ‘fato’ ou ‘registrar’.
O marxismo está a destruir a língua portuguesa no Brasil. É um bom resumo do seu novo livro?
O meu livro é contrário à visão ideológica imiscuída na linguística brasileira. Essa visão — a visão neomarxista — molda a posição, direta ou indireta, de não poucos linguistas-gramáticos que a partir da década de 1970 começaram a mudar a maneira de ver o conceito de norma culta. Tal conceito — ao longo de dois mil anos, desde Dionísio de Trácia, dois séculos antes de Cristo, percorrendo todos os outros gramáticos gregos, romanos e das línguas vernáculas — era simplesmente um conjunto de factos linguísticos em comum, produzidos por aqueles com elevada cultura. Os estudiosos da língua, que buscavam e buscam estabelecer as suas normas, deviam e devem registar os usos daqueles que melhor cultivam a língua. Citando o primeiro gramático da língua portuguesa, Fernão de Oliveira, em 1536, antes mesmo de Camões ter escrito Os Lusíadas, os mais cultos são os que mais leram, viram e viveram. É essa apropriação da cultura que faz com que as pessoas consigam esmerar, polir, destilar, tornar a língua mais enriquecida. Isso manifesta-se, obviamente, na linguagem escrita.
Entende que desde a década de 70 vários linguistas brasileiros têm querido estabelecer um novo conceito de norma culta?
Exatamente. Não tenho a menor dúvida.
E por que é que isso é errado?
Porque eles redefinem o conceito do adjetivo ‘culto’, para preencherem critérios burocráticos e sociológicos dentro do ambiente académico. O conceito do adjetivo ‘culto’, seja no Brasil, seja em Portugal, está ligado à ideia de cultivo. O adjetivo ‘culto’ foi distorcido, no sentido de que eles passaram a entender que para se considerar alguém culto basta que estejam preenchidos dois critérios. Deixaram-no claro no projeto NURC [projeto de estudo da Norma Urbana Culta], que fizeram na década de 70 para mapear como os brasileiros cultos usavam a língua falada. Dois critérios. Primeiro critério: a pessoa tinha que ter nascido numa cidade populosa. Tinha que ter histórico e vivência urbana. Segundo critério: a pessoa precisava ter um curso superior. O primeiro critério é muito questionável, porque não basta categorizar como culta uma pessoa que vive numa cidade. Qual é a garantia de que a pessoa, vivendo num ambiente urbano, vai usufruir dos bens culturais que a urbanidade tem a oferecer, como museus, teatros, cinemas, bibliotecas, exposições, universidades? Não há garantia. O segundo critério é ainda mais fraco, sobretudo dentro do cenário brasileiro. Qual a garantia de que uma pessoa com curso superior é verdadeiramente culta? Quem termina um curso aos 22 anos é verdadeiramente culto? É aqui que entra Fernão de Oliveira, em 1536: na verdade, as pessoas cultas são as que mais leram, viram e viveram.
Quem são esses linguistas a que se refere?
Os sociolinguistas brasileiros da década de 70. O projeto NURC foi desenvolvido por um grupo de linguistas em cinco capitais do Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Porto Alegre. Em São Paulo, temos Ataliba Teixeira de Castilho, que ainda é vivo. Um linguista muito famoso. Celso Cunha, no Rio de Janeiro. É conhecido em Portugal por ter escrito uma gramática com o português Lindley Cintra. Nelson Rossi, na Bahia… Entre outros.
Qual o interesse em estabelecerem uma nova norma culta para o português do Brasil?
Entenderam que a norma que estava na gramática tradicional não mais representava a maneira como as pessoas falavam. Esse é um grande problema epistemológico de partida, porque as gramáticas registavam o que estava presente na língua escrita, não na língua falada. Quando se passa a fazer uma análise da maneira como os brasileiros das grandes capitais usam a língua, obviamente que se encontram diferenças entre a norma contida nas gramáticas tradicionais e a norma falada. Ou seja, o que era a norma culta deixou de ser. A nova norma passou a ser o que eles entendiam como sendo usos efetivos da fala dos brasileiros cultos. Mas aqueles brasileiros entrevistados para o projeto NURC eram verdadeiramente cultos?
Pode dar-nos dois ou três exemplos de como a norma culta foi alterada?
Um uso muito comum no português brasileiro é ‘chegar em algum lugar’. Diferentemente, Portugal usa ‘chegar a algum lugar’. Ambas são legítimas e fazem parte do sistema da língua. Mas nas gramáticas tradicionais a recomendação é ‘chegar a algum lugar’ e não ‘em’. Porquê? Porque os grandes escritores do idioma, não só portugueses, brasileiros também, usavam e usam ‘chegar a algum lugar’. A norma culta, antes do projeto NURC, era o espelho daquilo que havia em comum nos textos dos melhores escritores do idioma, aqueles que realmente cultivavam a língua. Ora, os investigadores desse projeto descobriram que os brasileiros dizem ‘chegar em’, o que é uma obviedade, porque sempre assim foi. ‘Chegar em algum lugar’ faz parte da linguagem falada e não da linguagem escrita monitorada do brasileiro culto. Mas os linguistas de 70 pensaram: se o brasileiro diz ‘chegar em’, e não ‘chegar a’, devemos alterar a gramática normativa. Outro caso. Os brasileiros usam os pronomes pessoais retos — ‘eu, tu, ele, nós, vós, eles’ — na posição de complemento do verbo. E os portugueses usam os pronomes oblíquos átonos — ‘-o, -a, -os, -as, -lo, -la, -los, -las, -no, -na, -nos, -nas’. O brasileiro diz sobre uma pizza: ‘Comi ela inteira’. O português diz: ‘Comi-a inteira’. É uma diferença muito marcada entre o português brasileiro e o português europeu. Para os linguistas do projeto NURC, se o pronome reto na posição de objeto é comum na oralidade dos brasileiros cultos, então uma nova gramática normativa teria ou tem de contemplar esse uso.
Hoje em Portugal já se ouve dizer com frequência ‘comi ela’, talvez por influência da produção cultural brasileira.
É um caso particularmente interessante. Os portugueses do século XVI, quando descobriram o território que se tornou o Brasil, usavam o pronome reto na posição de objeto, o que continuou após século XVI com os brasileiros. É óbvio que havia flutuações. Ora usavam o pronome reto, ora usavam o pronome oblíquo. Portanto, o uso do pronome reto é uma herança dos portugueses do século XVI para os brasileiros, que o acomodaram pelos séculos, até hoje. Não na escrita, mas na oralidade. Quando nos debruçamos sobre a escrita culta dos brasileiros — verdadeiramente cultos, aqueles que se consagraram, que foram reconhecidos nacionalmente pela qualidade da sua escrita —, vemos que não usam o pronome reto na posição de objeto, exceto na boca de personagens ou muito raramente quando o narrador está num contexto informal.
Portanto, a corrente de pensamento que defende é elitista e conservadora. Elitista no sentido de uma norma culta das pessoas verdadeiramente cultas, que por norma pertencem às elites. E conservadora no sentido em que vai buscar definições e usos antigos, que pretende que continuem a vigorar. Concorda?
O problema dessas duas palavras é que, se puser no jornal ‘elitista e conservadora’, as pessoas que vivem no mundo de 2026 e que partilham a cosmovisão dos linguistas brasileiros atuais, sobretudo sociolinguistas, entenderão ‘elitista e conservadora’ como ‘reacionária’. Por exemplo: existe a esquerda política? Existe. Existe a direita política? Existe. Mas se fizermos um levantamento nos grandes órgãos de comunicação social, dificilmente vamos encontrar a mesma proporção da expressão ‘extrema-esquerda’ a par de ‘extrema-direita’ ou ‘ultradireita’. Porquê? Porque o ambiente académico que forma os profissionais do estamento [statu quo] cultural e mediático, sobretudo a partir de meados do século XX, é comprovadamente mais alinhado com as ideias de esquerda. Consequentemente, as ideias de esquerda acabam influenciando a maneira como a pessoa enxerga o mundo.
Diria que, depois dessas alterações surgidas no português do Brasil a partir de 70 temos hoje duas correntes: aquela, mais progressista; e a sua, mais conservadora?
Estamos num hiato entre dois tipos de gramática. Uma gramática mais conservadora, no sentido de preservar os usos estabilizados ao longo do tempo. Conservadora nesse sentido. Elitista não no sentido de classe socioeconómica abastada, de sangue azul, que somos obrigados a seguir, mas elitista no sentido de norma estabelecida pelas pessoas que fazem parte da elite sociocultural por mérito e reconhecimento.
Qual delas vai prevalecer?
Não faço exercícios de futurologia, como alguns linguistas que dizem que o português brasileiro se tornará língua brasileira. É uma ideia que vem desde a independência do Brasil, em 1822, quando o espírito jacobinista defendia que os brasileiros tinham de se livrar do colonialismo e adotar a maneira como os brasileiros legitimamente falam no colóquio diário.
Também se ouve dizer que a variante portuguesa do Brasil se vai tornar de tal forma dominante que fará desaparecer o português de Portugal. Parece-lhe viável?
A língua é a mesma, o sistema é o mesmo. Portanto, essa ideia é sem precedente.
Mas a internet está a uniformizar o mundo e poderá também uniformizar a língua. Ou não?
O que possivelmente pode prevalecer é a norma do português brasileiro e não a dita língua brasileira. O português brasileiro é uma variedade da língua portuguesa.
Há quem diga que o português é muito mais diferente entre Brasil e Portugal porque nos falta uma entidade reguladora como a que tem o espanhol através da Real Academia Espanhola.
Pode ser verdade, mas o diabo sempre está nos detalhes. Estamos a tratar da modalidade falada ou da modalidade escrita? O problema, que é o que trago no meu livro, é o de que esses linguistas brasileiros da atualidade, que vêm escrevendo gramáticas a partir do início do século XXI, vêm normalizando usos linguísticos do português brasileiro que se encontram maiormente na modalidade falada e não na modalidade escrita culta. Dou o exemplo do livro Gramática do Português Brasileiro Escrito, de 2023, escrito por dois linguistas famosos, Carlos Alberto Faraco e Francisco Eduardo Vieira. São ambos da mesma corrente de rutura epistemológica da tradição gramatical luso-brasileira. Que é que eles fizeram? Analisaram não os melhores escritores do idioma mas textos jornalísticos sem fonte delimitada, que são escritos muitas vezes sofrivelmente, e textos académicos, que não raro também nos oferecem peripécias maravilhosas com desvios absurdos dentro da normatividade vigente. Nesta gramática encontramos lições gramaticais que não estão respaldadas, adivinhe-se, na modalidade escrita culta que eles mesmos dizem descrever. Fiz um artigo académico sobre isso, expondo os problemas desta gramática.
Quer exemplificar o que considera serem erros de Faraco e Vieira?
Os portugueses dizem ‘o pai deixou-a brincar na sala’. Há um privilégio da ênclise no português europeu atual. Apesar de a próclise no português lusitano ter existido entre o século XVI e o início do XIX, depois isso mudou. Mas essa é uma outra história... Voltemos a ‘o pai deixou-a brincar na sala’. Na sua gramática, que é baseada na modalidade escrita formal do português brasileiro, os dois linguistas afirmam que o pronome reto nesta construção específica já faz parte da norma culta escrita do português brasileiro. Ou seja, ‘o pai deixou ela brincar na sala’ seria também um uso próprio da norma culta escrita. Só que essa construção é encontrada estatisticamente em número bastante ínfimo na escrita culta, de modo que não permite falarmos num modelo de referência. Na escrita, a construção com os verbos no infinitivo — ‘mandar’, ‘deixar’, ‘fazer’, ‘ver’, ‘ouvir’, ‘sentir’ —, mais o pronome oblíquo átono — ‘-o’, ‘-a’, ‘-os’, ‘-as’, ‘-lo’, ‘-la’, ‘-los’, ‘-las’, ‘-no’, ‘-na’,‘-nos’, ‘-nas’ —, mais um verbo no infinitivo — ‘amar’, ‘vender’, ‘partir’ —, a construção, na escrita do português brasileiro culto, ainda conserva o pronome oblíquo átono. Existem muitos outros pontos problemáticos, como casos de regência verbal, concordância verbal, emprego de pronome relativo, colocação pronominal.
O que leva tais cientistas da língua a lavrar naquilo que o professor apresenta como erros? São motivados por questões ideológicas?
Bom, temos um grupo de linguistas que se referenciam o tempo todo, que se retroalimentam do mesmo discurso, o discurso de que é preciso transformar a sociedade. É preciso estabelecer um novo senso comum. É preciso estabelecer uma nova norma linguística e abandonar aquilo que eles consideram a norma caduca da gramática tradicional, em favor de uma nova norma, que eles entendem ser efetivamente real. Quem se debruça sobre os dados reais, porém, percebe que não é bem assim.
Estão a confundir ciência com ideologia?
Exatamente. Eles confundem ciência com ideologia quando moldam a ciência à sua ideologia.
E a ideologia do professor qual é?
A minha ideologia é ‘x’. A ideologia deles é ‘y’. Mas a ciência deve ser imparcial e seguir o rito metodológico. O rito metodológico do fazer científico. Não importa se sou preto, branco, azul ou amarelo, de esquerda, direita ou centro, católico, budista, candomblescista. Não interessa. A ciência parte dos dados da realidade. E os dados da realidade não comprovam o que eles vêm estabelecendo como nova norma culta.
Voltando ao início, subscreve o resumo de que o seu livro critica uma certa revolução de raiz marxista que está a ser operada ao nível da linguística?
Pode ser interpretado assim, mas não quero verbalizar. Se eu afirmasse isso, aqueles que discordam frontalmente da minha tese iriam igualar-me a si mesmos, vendo-me como um ideólogo de sinal trocado. Não quero associar o meu nome a essa disputa. Sou um cientista da linguagem, estou apenas constatando um facto. E factos não se importam com opiniões ou ideologias.
Outro tema ideológico. Este tem mobilizado alguma opinião pública em Portugal: se a Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa deve ou não deixar de se chamar Nova School of Business and Economics, como decidiu o atual reitor. Ouve-se dizer a muitos brasileiros que os portugueses aderem em excesso a estrangeirismos. Qual é a sua opinião?
Os brasileiros também aderem. É inevitável quando uma língua franca como o inglês é encabeçada por um país que é a maior potência económica e cultural. A língua inglesa influencia o modo de falar de todas as pessoas, não só do Brasil, não só de Portugal. No entanto, devemos prezar a nossa língua.
É um problema para a língua portuguesa?
Sinceramente, sempre houve interinfluência de idiomas estrangeiros em todas as línguas e culturas. O português está cheio de influências do espanhol, do francês, do árabe, do inglês. E outras culturas também estão cheias de palavras portuguesas. Isto sempre existiu e vai existir, e a língua materna nunca deixará de ser a língua materna. Não vejo um problema em si.
Uma última pergunta sobre um assunto que tanta polémica gerou em Portugal: o Acordo Ortográfico de 1990. Revisão ou reversão?
Se me perguntasse se o Acordo Ortográfico deveria ser melhorado e reformulado, diria que sim, claro.
Em que pontos? ‘Para’ e ‘pára’, ‘chegamos’ e ‘chegámos’?
Primeiro, a eliminação do trema, que antes indicava a pronúncia do ‘u’. Sem ele, perde-se uma pista importante para a leitura correta, o que pode gerar dúvidas. Segundo, a redação pouco clara das regras de acentuação. O Acordo mistura monossílabos tónicos e oxítonas como se fossem a mesma coisa, quando, por óbvio, não são. Uma distinção mais precisa teria evitado confusões desnecessárias de ordem didática. Terceiro, a questão dos compostos sem hífen. Por fim, a inconsistência no uso do hífen em compostos com elemento de ligação. A tentativa de unificação linguística acabou incompleta. l