quinta-feira, 11 jun. 2026

Eurovisão arranca esta terça-feira entre boicotes, polémicas e divisão política na Europa

A 70.ª edição da Festival Eurovisão da Canção 2026 arranca esta terça-feira em Viena com Portugal entre os concorrentes da primeira semifinal, mas num ambiente marcado por boicotes, divisões políticas e o menor número de países participantes dos últimos 20 anos.

Os amantes de música esperam por este evento todo o ano. A 70.ª edição do Festival Eurovisão da Canção começa esta terça-feira, com a primeira semifinal a contar com Portugal já a lutar por um lugar na final de sábado, dia 16 de maio.

Mas esta tem sido uma edição peculiar: boicotes, apelos políticos e o número reduzido de participantes. Afinal, o que se está a passar com um dos maiores eventos da música europeia?

Que países vão boicotar o festival?

A polémica na Eurovisão não é nova: no ano passado, também vários países criticaram o festival devido à permissão da participação de Israel no festival, mesmo enquanto acontecia o conflito com a Palestina no Médio Oriente.

Este ano, Espanha, Irlanda, Eslovénia, Países Baixos e Islândia optaram por não levar concorrentes a Viena, Áustria. Além disso, os três primeiros países recusaram transmitir o evento nas suas emissoras públicas: a RTE de Irlanda vai transmitir uma comédia, Espanha um especial musical realizado para este propósito, e a Eslovénia vai transmitir uma homenagem à Palestina, com a série temática "Voices of Palestine".

A revolta centra-se sobretudo na "diferença de tratamento" entre Israel e a Rússia, tendo esta última sido proíbida de participar no festival devido ao conflito com a Ucrânia, em 2022. A Amnistia Internacional acusa a União Europeia de Radiodifusão (UER) de "cobardia" por não ter coragem de suspender o país. A Moroccanoil, empresa israelita, mantém-se como uma das maiores patrocinadoras do festival.

E Portugal?

Portugal vai participar, com os vencedores do Festival da Canção Bandidos do Cante, que levam a Viena a canção "Rosa".

A banda alentejana foi um dos poucos participantes do festival português que não assinou o documento de boicote à Eurovisão. Cristina Branco, Djodje, Beatriz Bronze (EVAYA), Rita Dias, Francisco Fontes, Gonçalo Gomes, Pedro Fernandes, Inês Sousa, Dinis Mota, Jorge Gonçalves (Jacaréu), e os grupos Bateu Matou, Marquise e Nunca Mates o Mandarim, 13 dos 16 participantes, garantiram não viajar até Viena, mesmo que fossem vencedores.

A decisão dos Bandidos do Cante levantou uma onda de protestos, incluindo uma petição que reuniu 27 mil assinaturas, com o nome "Pela Retirada Imediata de Portugal do Festival Eurovisão da Canção enquanto Israel participar".

Em Portugal, artistas de renome como Salvador Sobral (único vencedor português da Eurovisão, em 2017), José Cid, António Calvário, Fernando Tordo, Lena D'Água e Rita Reis, assinaram, no final de 2025, uma carta aberta onde dirigiam um apelo à UER para excluir Israel do festival, considerando o país "cúmplice do genocídio contra os palestinianos em Gaza". Já este ano, a iniciativa "No Music for Genocide" contou com a assinatura de 339 artistas portugueses numa carta aberta, lançada ainda em 2025, também exigindo a exclusão de Israel.

Ana Bacalhau, Jorge Palma, The Legendary Tigerman, Carlos Mendes, Cláudia Pascoal, Iolanda, Ana Cláudia, Ana Lua Caiano, Beatriz Pessoa, Celina da Piedade, Fado Bicha, Filipe Sambado, Francisca Cortesão (Minta), Janeiro, Joana Barra Vaz, Júlio Resende, Luiz Caracol, Mayra Andrade, Pepperoni Passion, Rita Onofre, Sebastião Varela (Expresso Transatlântico), Selma Uamusse, Tota ou Xico Gaiato e os grupos Linda Martini, Pop Dell’Arte e Sensible Soccers são alguns dos nomes portugueses revelados.

Além do boicote, os participantes desta iniciativa removeram as suas músicas das plataformas de streaming de Israel, a quem acusam de genocídio.

No final de abril, o cantor Toy protagonizou também um momento político na 8.ª edição dos Play - Prémios da Música Portuguesa 2026, transmitida pela RTP1, onde, durante o seu discurso em palco, deixou uma mensagem de intervenção, evocando a relação entre cultura e política, defendendo que ambas são indissociáveis e que a cultura pode funcionar como instrumento de intervenção social, embora não critique a posição da banda jovem portuguesa de manter a participação.

Já na semana passada, vários trabalhadores da RTP apelaram ao canal público para que seguisse o mesmo caminho de Espanha, Irlanda e Eslovénia e não participasse nem transmitisse os três dias de festival. A carta aberta dirigia-se ao presidente do Conselho de Administração da RTP, Nicolau Santos, ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, e à ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes.

Onde vai acontecer a 70.ª edição da Eurovisão?

A edição deste ano realiza-se em Viena, Áustria, nos dias 12, 14 e 16 de maio, em Wiener Stadthalle, uma das maiores arenas da Europa.

Áustria foi o país que ganhou a Eurovisão no ano passado, com a canção "Wasted Love" de JJ.

Que países vão participar?

A edição deste ano vai ter o menor número de participantes dos últimos 20 anos: apenas 35 países decidiram concorrer.

Em cada semifinal competem 15 países por um lugar na final de sábado, sendo apurados 10 em cada dia.

Na primeira semifinal competem lado a lado a Moldávia, Suécia, Croácia, Grécia, Portugal, Geórgia, Finlândia, Montenegro, Estónia, Israel, Bélgica, Lituânia, São Marino, Polónia e Sérvia. Já na segunda semifinal, no dia 14 de maio, participam a Bulgária, Azerbaijão, Roménia, Luxemburgo, República Checa, Arménia, Suíça, Chipre, Letónia, Dinamarca, Austrália, Ucrânia, Albânia, Malta e Noruega.

Como todos os anos, o grupo dos "Big Five" tem lugar direto na final por integrarem o grupo dos maiores financiadores do festival. Deste grupo fazem parte Itália e Alemanha, que vai ter a oportunidade de ver atuar na primeira semifinal, e França e Reino Unido, que atuam na segunda semifinal. Já a Áustria tem também lugar garantido na final por ser o mais recente vencedor.

Onde assistir e quem vai apresentar?

O Festival Eurovisão da Canção é todos os anos transmitido nas emissoras públicas de cada país: no caso de Portugal, pode acompanhar as duas semifinais e final em direto a partir das 20h00 na RTP e RTP Play.

O evento de música será apresentado por nativos do país anfitrião: Victoria Swarovski, cantora, modelo e apresentadora e Michael Ostrowski, ator e argumentista. Já na green room estará Emily Busvine, atriz e radialista, mais em contacto com os participantes.

Quem são os favoritos nas casas de apostas?

Para já, Finlândia, Grécia, Dinamarca, França e Austrália ocupam o top 5 de favoritos à vitória este ano. As projeções costumam variar consoante as semifinais, pelo que pode acompanhar em Eurovisionworld, o site que reúne as maiores projeções das casas de apostas.

Portugal surge em 33.º lugar na previsão, entre 55 canções, com 1% de probabilidade de vencer.

Recorde-se que Portugal acabou em 21.º lugar o ano passado, com a canção "Deslocado" da banda madeirense "NAPA".

Entre música e controvérsia, o Festival Eurovisão da Canção 2026 chega a mais uma edição sob forte escrutínio político e mediático, refletindo divisões que vão muito além do palco.