Há uma doçura estranha, difícil de generalizar, nos homens que foram atingidos pela tragédia depois de se terem convencido de que certos atributos os tornavam invulneráveis. Ficam combalidos, do outro lado daquele riso que neles imprimia um vigor divinal, e que persiste como um eco desvalido, ao verem-se reduzidos à condição dos despenhados. Não é uma doçura sentimental, mas um resto de perplexidade, como se continuassem a olhar o mundo a partir do lugar de onde se viram expulsos. Eric Dane pertenceu a essa linhagem de seres promovidos àquela imprecisa região do estrelato, em que não podem confiar exatamente na sua arte, mas num prestígio associado à beleza, ao charme, uma espécie de favor dos deuses, que os torna alvos particularmente inábeis para lidar com o instante em que o corpo cede e o futuro se torna uma linha demasiado curta.
O ator norte-americano morreu aos 53 anos, 10 meses depois de ter revelado publicamente o diagnóstico de Esclerose Lateral Amiotrófica. A doença, progressiva e rara, destrói os neurónios motores, corrói a musculatura, reduz a respiração a um esforço consciente. O que ela faz, sobretudo, é impor um calendário. Cada gesto passa a ter a densidade de uma despedida.
Houve um momento, algures no último ano, em que a voz de Eric Dane começou a falhar. Um ligeiro arrastar das sílabas começou a impor-se, como se cada palavra tivesse de atravessar uma resistência invisível. Este momento ficou registado numa campanha de sensibilização para aquela doença neurológica também conhecida como doença de Lou Gehrig: sentado, imóvel, a dizer coisas simples – «sou ator», «sou pai» – como quem enumerasse aquilo que estava prestes a perder.
Numa altura em que estava já separado da mãe das duas filhas, a também atriz Rebecca Gayheart, com quem casara em 2004, partiu dela a decisão de reentrar na vida de Dane, de forma a apoiá-lo num momento em que a sua vida se reduzia a negociações com o tempo. Por sua vez, ele procurou converter a tragédia numa causa, angariar fundos para a investigação sobre a doença, falar, aparecer. «Como posso ser útil?», perguntava-se, em outubro, ao The Washington Post. «Não quero soar demasiado mórbido, mas se é para eu cair, prefiro cair tentando ajudar alguém pelo caminho». Era a última coisa que lhe restava, um gesto de sobrevivência moral.
A sua ascensão ao estrelato ficou a dever-se ao papel de Mark Sloan, o cirurgião plástico de Grey’s Anatomy, que se fixou na memória coletiva não tanto por um arco dramático especialmente relevante, mas sobretudo pelo efeito de superfície: a insolência sedutora, a facilidade com que aquele corpo atravessava conflitos sem se sujar. «McSteamy» não era bem um papel, antes um dispositivo de fantasia. A série, que continua no ar até hoje, como qualquer telenovela de longa duração, precisa de dispor a todo o momento de alguns iscos, e Dane percebeu o que se esperava dele, reconhecendo até uma certa ligação a esse tipo de figuras desejáveis e que nunca pagam inteiramente o preço dos seus atos.
Até ali tinha andado meio à deriva, com participações dispersas em séries como Charmed, em Gideon’s Crossing, papéis menores, aguardando algo que lhe desse um rumo. Nascido em São Francisco, em 1972, perdera o pai com apenas sete anos, num suicídio que lhe deixou um buraco, e que definiu uma infância marcada por instabilidade, com a maturidade a construir-se como uma espécie de fuga. A descoberta do teatro, ainda no liceu, ao interpretar Joe Keller em All My Sons, foi descrita como uma revelação de intensidade física, quase imediata. Pouco depois abandonou a escola e mudou-se para Hollywood.
Não seria o sucesso a dar-lhe a estrutura que até então faltara. Ao fim de seis temporadas, de um total de 139 episódios, a sua saída de Grey’s Anatomy foi explicada pelo próprio com uma franqueza rara. Tendo reconhecido a dependência de medicamentos prescritos, desgaste pessoal e atritos no set, ao mesmo tempo, sabia que fazia parte de uma máquina, e, apesar do sucesso do seu personagem, estava longe de ser insubstituível. Tornara-se caro, tornara-se instável...
Tentou recompor-se em The Last Ship, e ganhou bastante peso para o papel, mas assumiu-o também com outro nível de disciplina. Contudo, foi só mais tarde, em Euphoria, que encontrou um papel em que verdadeiramente sentiu que lhe fora dada a possibilidade de se graduar como artista: enquanto pai do personagem interpretado por Jacob Elordi, ali era um dos eixos da perversidade e do efeito de desolação que atravessa a série, a qual faz um retrato impiedoso de uma geração dilacerada por dependências e abusos, por projeções falsas, pelo medo e pela vergonha. A terceira temporada estreia em abril.
No cinema, teve presenças secundárias, como o mutante multiplicador em X-Men: The Last Stand ou um jornalista em Marley & Me. Mas não chegou a ser mais do que um ator televisivo, o que, se nos nossos dias não é já um demérito, no caso das produções a que ficou ligado define um tipo de visibilidade: intensa, efémera, dependente da repetição.
Nos últimos meses, aceitou papéis que refletiam a própria condição, como o de um bombeiro confrontado com a doença. Procurou continuar a trabalhar enquanto o corpo ainda lhe obedecia. Gravou para a Netflix um último testemunho, como parte da série Famous Last Words, dirigindo-se às filhas, reconhecendo que não chegou a ser um modelo para ninguém, mas tentando agarrar-se, no fim, às poucas coisas que a sua fragilidade o obrigou a reconhecer que eram decisivas.