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Ano após ano, o final de maio traz o mesmo cenário a Lisboa. O calor instala-se, os jacarandás florescem e milhares de pessoas sobem o Parque Eduardo VII à procura de livros. Famílias, turistas, leitores obsessivos, curiosos de fim de tarde, estudantes, reformados, colecionadores e os caça descontos. Todos se cruzam nos corredores ao ar livre daquele que é o maior evento literário do país.
A 96.ª edição da Feira do Livro de Lisboa (FLL) decorre entre dia 27 de maio e 14 de junho, e promete voltar a transformar o centro da cidade num enorme palco cultural. Organizada pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), a feira reúne centenas de editoras, livreiros e alfarrabistas, e uma programação que mistura literatura, entretenimento, debates, cinema ao ar livre e sessões de autógrafos com autores mediáticos.
A entrada mantém-se gratuita e os horários prolongam-se até às 22h00. Às sextas, sábados e vésperas de feriados até às 23h00.
O que há de novo este ano?
A edição deste ano aposta em novas experiências para atrair famílias e público mais jovem ao recinto. Entre as principais novidades da programação estão as sessões de cinema ao ar livre, que acontecem todos os sábados às 21h30 e os filmes anunciados são o Clube dos Poetas Mortos (30 de maio), o Jurassic Park (6 de junho) e Orgulho e Preconceito (13 de junho).
Outra novidade passa pelas “silent reading parties”, experiências de leitura silenciosa com auscultadores.
A Hora H e a corrida aos descontos
Para muitos visitantes, a verdadeira feira começa apenas ao final do dia. A chamada “Hora H” mantém-se como um dos momentos mais aguardados da programação e continua a atrair multidões às últimas horas de funcionamento do recinto.
De segunda a quinta-feira das 21h00 às 22h00 (ou das 22h00 às 23h00 nas vésperas de feriados), as editoras disponibilizam descontos mínimos de 50% em livros publicados há mais de dois anos. A iniciativa tornou-se uma tradição entre leitores e uma vantagem para os que fazem listas de compras e percorrem os corredores do parque numa espécie de caça ao tesouro literária.
A organização já confirmou que a Hora H não estará disponível nos dias de abertura e encerramento, nem nos feriados de 4 e 10 de junho.
Conversas, sessões de autógrafos e os nomes em destaque
Ao longo das quase três semanas de evento, dezenas de autores portugueses e internacionais vão passar pelo recinto para conversas, apresentações e sessões de autógrafos. Entre os nomes já confirmados destacam-se João Tordo, Afonso Cruz, Hugo Gonçalves, Madalena Sá Fernandes, Maria Francisca Gama, Filipa Fonseca Silva, Ana Margarida de Carvalho e Diogo Faro.
A programação internacional inclui também nomes como Juan Gabriel Vásquez, Sophie Gilbert, Geovani Martins, Paulo Rezzutti e Kerry Barrett, além das autoras espanholas Ana Punset e Diana Vicedo, conhecidas entre o público mais jovem pela coleção infantojuvenil “Unicórnia”.
As filas já não se fazem apenas para nomes históricos da literatura portuguesa. A explosão do fenómeno BookTok, a comunidade literária do TikTok, alterou radicalmente o perfil de parte do público da feira. Jovens leitores procuram agora romances virais, fantasia e autores impulsionados pelas redes sociais.
A vertente solidária da feira
No meio da dimensão comercial do evento, a Feira do Livro mantém uma vertente solidária. A campanha de doação de livros está de volta e tem como objetivo recolher exemplares, que podem ser entregues no Bengaleiro da entrada Sul, e que posteriormente serão entregues a crianças apoiadas por instituições da ENTRAJUDA.
Nos últimos anos, a campanha ganhou destaque entre visitantes que aproveitam a ida à feira não apenas para comprar livros novos, mas também para dar uma segunda vida aos que já têm em casa. Desde 2015 que já foram angariados mais de 371 mil livros.
A Feira do Livro também é amiga do ambiente e, por isso, conta com a iniciativa “Vamos plantar livros” que prevê um aumento de 25% no número de árvores plantadas face ao ano anterior, apontando para cerca de 8750 árvores em 2026.
Programação Infantil
“Acampar com Histórias” está de volta e foi pensada para os mais pequenos. As crianças, com idades entre os 8 e os 10 anos, podem passar a noite na Estufa Fria, rodeadas de livros e contadores de histórias, num ambiente de natureza. As inscrições são feitas no site.
Acessibilidade
Apesar das melhorias implementadas nas últimas edições, a acessibilidade continua a ser uma das principais questões levantadas pelos visitantes.
O declive acentuado do Parque Eduardo VII representa dificuldades para pessoas com mobilidade reduzida, utilizadores de cadeira de rodas, idosos e famílias com carrinhos de bebé. No entanto, há um percurso recomendado que pode consultar no mapa da Feira.
O recinto dispõe de rampas amovíveis, cadeiras de rodas (no stand de informações), casas de banho adaptadas e percursos com sinalética inclusiva e sistema ColorADD, um sistema de identificação de cores para daltónicos.
Os patudos também são bem vindos
O evento é totalmente pet-friendly e por isso a organização disponibiliza espaços com sombra, água e zonas de descanso improvisado, mantendo em mais uma edição o RefresCão.
No entanto, são recomendados cuidados redobrados durante os períodos de maior calor e afluência, sobretudo nas horas de ponta, devido às temperaturas elevadas e ao grande número de visitantes que circulam diariamente pelo Parque Eduardo VII.
Muito mais do que uma feira de livros
Ao longo dos anos, o evento tem vindo a crescer, diversificou-se e abriu-se a novos públicos. Entre a lógica dos grandes grupos editoriais, a vitalidade das pequenas editoras, a força da partilha nas redes sociais e a procura por experiências cada vez mais imersivas, a feira já não pode ser lida apenas como um mercado de livros, mas como um retrato do modo de como se consome cultura nos dias de hoje.
Ainda assim, há algo que resiste: milhares de pessoas escolhem sempre uma história para levar consigo.