Elísio Summavielle, que entre 2016 e 2023 foi presidente da fundação responsável pelo Centro Cultural de Belém, e que antes disso passou pelo Governo como secretário de Estado da Cultura, juntou-se esta semana aos que criticam a recente decisão do Ministério da Cultura de não integrar no CCB a totalidade da Coleção Ellipse. O caso tem desassossegado o setor cultural lisboeta nos últimos dias.
«O propósito de todo o processo de concretização do Museu de Arte Contemporânea do CCB, cuja abertura foi o meu derradeiro ato enquanto dirigente da Fundação CCB, era esse mesmo, como o nome indica, de haver um museu de arte contemporânea com uma escala de referência, a nível nacional e internacional», disse Summavielle ao Nascer do SOL, sugerindo que a não integração de toda a Coleção Ellipse no CCB enfraquece a instituição.
A Coleção Ellipse é constituída por 849 peças de conhecidos autores contemporâneos, estrangeiros e portugueses, como John Baldessari, Franz Ackermann, Dan Graham, Nan Goldin, Louise Bourgeois ou Lourdes Castro. Foi criada em 2004 pelo falecido banqueiro João Rendeiro e em 2008 passou a ser um ativo do seu Banco Privado Português (BPP), que viria a falir em 2010 e onde o Estado decidiu injetar 450 milhões de euros. É por vezes designada Coleção Holma, por ter sido esta a entidade da esfera do BPP que detinha as obras.
As 849 peças foram compradas pelo Estado em 2022 por cerca de 30 milhões de euros e integradas na Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE), que nos próximos meses passará a estar alojada na zona de Alcoitão, em Cascais, num antigo armazém da Fundação Ellipse, por decisão da ministra Margarida Balseiro Lopes.
O espaço tem «inauguração prevista para o primeiro semestre de 2026» e «permitirá concentrar num único espaço o acervo da CACE», segundo o Ministério da Cultura.
A CACE, anteriormente conhecida como Coleção SEC (Secretaria de Estado da Cultura), foi criada em 1976 pelo então secretário de Estado David Mourão-Ferreira e ganhou novo impulso nos governos de António Costa, com a ministra Graça Fonseca a fomentar novas aquisições. Tem hoje 3.200 obras, avaliadas em mais 100 milhões de euros. A curadoria da CACE está a cargo da historiadora de arte Sara Vieira Jurgens.
Dispersão de obras
A contestação à ida da Coleção Ellipse para Alcoitão levou o Ministério da Cultura a decidir em 2 de fevereiro que 50 peças sejam cedidas ao CCB em regime de comodato por cinco anos para exposição permanente, e que até 200 peças possam ser utilizadas pelo CCB em exposições temporárias, o que na prática corresponde a uma dispersão: menos de um terço para o CCB e as restantes 599 peças para a CACE em Alcoitão.
A dispersão tem motivado críticas de artistas, curadores e museólogos. Antes da decisão de 2 de fevereiro, 147 profissionais da arte assinaram uma carta aberta à ministra da Cultura, noticiou o Público. Entendem que todas as 849 obras deveriam ficar no CCB, mais propriamente no Museu de Arte Contemporânea (chamado Museu Coleção Berardo até outubro de 2023). Note-se que a decisão de integrar o grosso da Coleção Ellipse na CACE, apesar de formalmente decidida pelo atual Ministério da Cultura, já tinha sido anunciada em novembro de 2022 pelo então primeiro-ministro, António Costa.
Ressalvando pronunciar-se «enquanto observador e sem um conhecimento detalhado sobre o assunto», Elísio Summavielle acrescentou que está «de acordo com boa parte da opinião especializada, que não é favorável à dispersão». Sublinhou que a Coleção Berardo «é e continua a ser a grande âncora» do espaço museológico do CCB, a que «deveriam juntar-se outras coleções».