sexta-feira, 13 mar. 2026

Elísio Summavielle defende Ellipse no CCB

Menos de um terço das obras colecionadas pelo falecido João Rendeiro vão para Belém. Restantes 599 seguem para Cascais.
Elísio Summavielle defende Ellipse no CCB

Elísio Summavielle, que entre 2016 e 2023 foi presidente da fundação responsável pelo Centro Cultural de Belém, e que antes disso passou pelo Governo como secretário de Estado da Cultura, juntou-se esta semana aos que criticam a recente decisão do Ministério da Cultura de não integrar no CCB a totalidade da Coleção Ellipse. O caso tem desassossegado o setor cultural lisboeta nos últimos dias.

«O propósito de todo o processo de concretização do Museu de Arte Contemporânea do CCB, cuja abertura foi o meu derradeiro ato enquanto dirigente da Fundação CCB, era esse mesmo, como o nome indica, de haver um museu de arte contemporânea com uma escala de referência, a nível nacional e internacional», disse Summavielle ao Nascer do SOL, sugerindo que a não integração de toda a Coleção Ellipse no CCB enfraquece a instituição.

A Coleção Ellipse é constituída por 849 peças de conhecidos autores contemporâneos, estrangeiros e portugueses, como John Baldessari, Franz Ackermann, Dan Graham, Nan Goldin, Louise Bourgeois ou Lourdes Castro. Foi criada em 2004 pelo falecido banqueiro João Rendeiro e em 2008 passou a ser um ativo do seu Banco Privado Português (BPP), que viria a falir em 2010 e onde o Estado decidiu injetar 450 milhões de euros. É por vezes designada Coleção Holma, por ter sido esta a entidade da esfera do BPP que detinha as obras.

As 849 peças foram compradas pelo Estado em 2022 por cerca de 30 milhões de euros e integradas na Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE), que nos próximos meses passará a estar alojada na zona de Alcoitão, em Cascais, num antigo armazém da Fundação Ellipse, por decisão da ministra Margarida Balseiro Lopes.

O espaço tem «inauguração prevista para o primeiro semestre de 2026» e «permitirá concentrar num único espaço o acervo da CACE», segundo o Ministério da Cultura.

A CACE, anteriormente conhecida como Coleção SEC (Secretaria de Estado da Cultura), foi criada em 1976 pelo então secretário de Estado David Mourão-Ferreira e ganhou novo impulso nos governos de António Costa, com a ministra Graça Fonseca a fomentar novas aquisições. Tem hoje 3.200 obras, avaliadas em mais 100 milhões de euros. A curadoria da CACE está a cargo da historiadora de arte Sara Vieira Jurgens.

Dispersão de obras

A contestação à ida da Coleção Ellipse para Alcoitão levou o Ministério da Cultura a decidir em 2 de fevereiro que 50 peças sejam cedidas ao CCB em regime de comodato por cinco anos para exposição permanente, e que até 200 peças possam ser utilizadas pelo CCB em exposições temporárias, o que na prática corresponde a uma dispersão: menos de um terço para o CCB e as restantes 599 peças para a CACE em Alcoitão.

A dispersão tem motivado críticas de artistas, curadores e museólogos. Antes da decisão de 2 de fevereiro, 147 profissionais da arte assinaram uma carta aberta à ministra da Cultura, noticiou o Público. Entendem que todas as 849 obras deveriam ficar no CCB, mais propriamente no Museu de Arte Contemporânea (chamado Museu Coleção Berardo até outubro de 2023). Note-se que a decisão de integrar o grosso da Coleção Ellipse na CACE, apesar de formalmente decidida pelo atual Ministério da Cultura, já tinha sido anunciada em novembro de 2022 pelo então primeiro-ministro, António Costa.

Ressalvando pronunciar-se «enquanto observador e sem um conhecimento detalhado sobre o assunto», Elísio Summavielle acrescentou que está «de acordo com boa parte da opinião especializada, que não é favorável à dispersão». Sublinhou que a Coleção Berardo «é e continua a ser a grande âncora» do espaço museológico do CCB, a que «deveriam juntar-se outras coleções».