Eduardo Brito. “Há um desejo de cinema que espero que perpasse nas histórias que conto”

Nascido em 1977, em Guimarães, Brito tem um percurso assinalável como guionista e realizador, mas sendo esta uma arte cara, voltou-se para os livros, e trouxe à literatura portuguesa um mapa assombroso para que esta deixe por fim os seus becos sem saída.
Eduardo Brito. “Há um desejo de cinema que espero que perpasse nas histórias que conto”

História e elegia são modos afins. A palavra «história» vem de um verbo do grego antigo, que significa «perguntar», como nos lembra a poeta Anne Carson. Assim, aquele que pergunta pelas coisas – pelas suas dimensões, peso, localização, humores, nomes, santidade, cheiro – é um historiador. Mas esse perguntar, vinca a poeta norte-americana, não é ocioso. «É quando perguntas por algo que te apercebes de que tu próprio lhe sobreviveste e que, por isso, tens de o carregar contigo, ou de o moldar numa coisa que se sustente por si mesma.»E se Heródoto é tido como o autor dessa função, este refere como tantos objectos e monumentos foram criados de modo a corporizar uma «memória». Por esta razão, a História pode ser ao mesmo tempo «concreta e indecifrável», adianta a poeta. E o historiador pode ser aquele que rumina esses pedaços mudos da realidade em busca de uma fala que esclareça alguma das perguntas que mais o acicatam. Carson adianta que a palavra «mudo» é tida pelos linguistas como um termo cuja formação onomatopeica não se refere ao silêncio mas a uma certa opacidade fundamental do ser humano, que gosta de revelar a verdade permitindo que esta seja vislumbrada no seu esconderijo. Esta ideia não deixará de dizer muito a Eduardo Brito, que gosta de trabalhar as suas propostas narrativas em redor de enigmas, aproveitando a estranheza dos sonhos, a forma como estes misturam memórias, obtendo uma atualidade sem relação com qualquer uma das memórias de que partiu. Procura Nada surpreendeu-nos ao propor uma narrativa com fôlego e desembaraço ensaístico, tecendo uma rede de subtis vínculos e hipóteses ficcionais a partir de uma série de figuras que desapareceram ou viraram costas à civilização: exploradores do Árctico engolidos pelo gelo, um astronauta suspenso fora do mundo, navegadores que partiram à aventura e foram devorados por névoas e lendas. Se Heródoto se distinguiu como esse historiador que nos ia treinando a perceber a função que inaugurava à medida que avançávamos nos seus relatos, também o tão peculiar registo de que Brito se serve, fazendo colapsar as convenções dos géneros, se organiza no mesmo sentido, como quem vai fazendo perguntas, seguindo as suas pesquisas, aprofundando obsessões, coleccionando documentos, testemunhos, fotografias, detalhes, e convidando a dúvida, testando conjecturas, mas, acima de tudo, admirando e pasmando com as estranhas coisas que os homens fazem. E aquilo que Heródoto descobriu, através daquele processo, foi que esse modo de investigar e cumular informações de modo a responder às perguntas que vão surgindo, muitas vezes não produzem relatos nem claros nem propriamente úteis, mas isso também não importa, pois como ele se deu conta, os leitores acabam por se satisfazer com as formas mais bizarras de se dar uma resposta. Eduardo Brito parece intuir isto, que não são as certezas o que nos satisfaz, mas a oportunidade de rodear um mistério, levantar teorias mais ou menos implausíveis, indagar o sentido das coisas sem dar cabo do seu mistério, e, do mesmo modo, interessar-se por fantasmas, espectros, desaparições, e crimes por resolver, adeuses amorosos, casas assombradas, paisagens de solitude ou intrigas envolvendo trocas de identidade.

Se o romance e outros géneros parecem condenados a estiolar e a perder aquela força questionadora, aquela capacidade de romper com a previsibilidade e relançar as possibilidades do sentido, do espanto e da aventura, não é de estranhar que tenha sido um realizador e guionista, que no ano passado se mostrou tão temerário ao adaptar A Sibila de Agustina ao cinema, um professor de Belas Artes e Letras, além de fotógrafo e escritor, alguém que se mantém saudavelmente alheado dos becos sem saída em que a literatura se foi refugiando, que nos veio mostrar como o campo de acção pode sempre ser expandido de forma imensurável, fazendo recurso a todo o tipo de estratégias, e sem nunca perder de vista as magistrais intrigas que se encontram mal se despe a História da sua pátina. O que Brito faz é recuperar um termo sobre o qual Walter Benjamin se deteve longamente, «Spielraum», que significa o espaço para brincar ou manobrar, um espaço no qual alguma exploração pode ocorrer. Neste caso, a brincadeira é resultado de um desejo de repegar elementos e sinais que estão fora de campo, um espaço imaginário que se serve de referências e relatos concretos, testemunhos e vidas reais, mas que, por efeito de uma rutura ou desaparição, ganharam um apelo fantasmagórico, abrindo caminho a infinitas oportunidades especulativas. É através destes elementos, e fazendo recurso às possibilidades de inventariação e montagem sugeridas pelo cinema, que Brito prossegue uma reorganização do eu no mundo. 

 

Vês o teu trabalho literário como um percurso separado do trabalho como guionista e realizador, como professor, ou parece-te que são ocupações complementares, interessando-te menos as fronteiras do que a porosidade, a forma como estas podem extravasar umas para as outras?

Vejo tudo isto como as direções diferentes que tomam os ramos saídos de um mesmo tronco. Está tudo em processo, e sinto que ando sempre de volta das mesmas obsessões. Gosto daquela tese do Jorge Luis Borges que nos diz que só existem quatro histórias, e que estamos constantemente a reinventá-las, a produzir variações a partir destas. Assim, a ênfase não se coloca tanto no que contamos, mas no como o contamos. Tudo se repete, e entendo que entre os filmes e as curtas-metragens que fui fazendo, muitos destes temas já lá estão. Acho que estou algures numa linha que vai do desejo de comunicar ao de exorcizar questões que andam a bulir cá dentro há muito. Houve um tempo em que a fotografia era a forma principal de o fazer, mas neste momento aparece sobretudo como um elemento da composição dos livros. Gosto de explorar esse terceiro sentido, em que as imagens trazem outra dimensão ao texto. Estou fascinado por esta criação de um todo maior que a soma das partes, seja este um livro, uma curta ou uma longa. Já a atividade de professor ou guionista não entram aqui. Mas a atividade de caminhante, de viajante, as relações que vou criando e o meu percurso cinéfilo, isso, sim, comparece aqui. Sobretudo, uma certa ideia de cinema, que é uma arte que me vai salvando a vida. Nas fases mais críticas, houve sempre alguma coisa que me apareceu como uma tábua de salvação vinda do cinema. Por isso é que é tão forte a minha vontade de permanecer até ao fim a trabalhar em cinema. E isto não se esgota no trabalho com o guião, na realização, mas também nestas unidades, nesta relação entre a imagem e a palavra. Há um desejo de cinema que espero que perpasse nestas ligações, nas próprias histórias que povoam o texto, e até nas referências que sempre comparecem, e muitas vezes a um nível quase inconsciente. Mesmo sem me dar conta, lá estou de novo a escrever e a falar convocando esse universo, porque o cinema e os filmes organizam a minha memória e as suas cadências, o meu pensamento. Isto é evidente no exercício de montagem do Procura Nada, d’As Orcadianas, do East Ending. No fundo, estou sempre em processo, a filmar ou a imaginar coisas que podiam acabar num filme.

 

Mallarmé disse que tudo foi feito para acabar num livro. No teu caso, tudo foi feito para acabar num filme…

Sim… e, se calhar, como filmar é muito caro (risos)… vou ter aos livros.

 

Quando destacas também o caminhar e o vaguear como atividades que de algum modo se correspondem com o teu processo criativo, gostava de saber se tens alguma relação com o universo do Robert Walser, sobre quem também o Sebald se deteve num dos seus livros. Nos fragmentos da sua escrita, nos seus contos, como nas suas caminhadas, dá a sensação de que havia ali um esforço de não se deixar engolir pela loucura… Como se o espaço pudesse servir de terapia contra a tentação de sermos absorvidos no movimento elíptico para dentro de nós próprios.

Não necessariamente através do Walser, mas compreendo a ideia. Walser não é um escritor que tenha presente, que já faça parte das minhas referências, mas o Sebald, sim. Já falámos dele, e desta diluição do sujeito, do eu biográfico face ao eu ficcional, sendo que nele também é decisiva a interceção entre o texto e a imagem, e da própria ideia de deriva. Temos o Austerlitz, o Vertigo, Os Anéis de Saturno, mas o Sebald vai também ao Ártico com um texto que me marca profundamente, a segunda secção em Do Natural, ‘Quedara-me eu no fim do mar’, um dos três poemas daquele livro - todo ele descrito como um poema elementar - em que segue o naturalista Georg Wilhelm Steller, companheiro de Vitus Bering na famosa expedição, feita entre 1733 e 1743, que tinha por objetivo explorar a Sibéria e em viagens pela costa do Alasca, tentando perceber se a Ásia e a América estavam ligadas. Em Sebald encontro esse consolo daquilo que leio e que me leva a outras paragens, esse lado flutuante, peripatético, essa febre do caminhante, que retira o seu impulso daquilo que o aflige… Se não dou tanta importância à forma como a História se liga ao destino particular de cada uma das personagens, algo que é central na obra dele, há depois esse lado encriptado, enigmático, do não-dito, e que nos leva a compreender uma história maior sem a revelar na totalidade. É algo que também encontro em Conan Doyle, nos mistérios irresolvidos de Sherlock Holmes… o grande detetive cujas histórias contadas andam tantas vezes à volta de uma jóia desaparecida do cofre de uma família, mas que começam por um caso resolvido e não contado que evitou uma guerra devastadora: quantas vezes o Conan Doyle não começava as aventuras de Sherlock desta forma, apresentando de passagem casos com implicações e repercussões bem profundas, que ficam em pano de fundo, enquanto nós somos levados a examinar outros de pouca monta. O Corto Maltese é outra figura referencial aqui, é uma dessas personagens que existem num intervalo histórico muito demarcado, mas sempre com pontos de fuga para o campo onírico, para zonas de delírio, para as visões e assombrações, algo que muito me cativa. Das pessoas a quem o livro [Procura Nada] foi chegando, o que me dizem é que ficaram com vontade de perceber melhor o espaço que fica entre os relatos históricos. Para mim é sinal de que o livro está a resultar, de que se sentem mordidas, de que não ficam saciadas, nem empanturradas. Uma boa refeição é essa em que ainda nos resta algum apetite por satisfazer, que instiga os sentidos em vez de virmos a bolçar, e com aquele enfartamento que nos diz que fomos além da conta, muitas vezes gerando até uma repugnância por aquilo de que nos enchemos.

 

No capítulo final do livro, que está dividido em três momentos, tens um a que chamas Entropia, e às tantas dizes: «preso ao horror das despedidas prolongadas, digo-te como se do nada viesse este pensamento, que a única coisa em que creio é a segunda lei da termodinâmica»... E depois explicas: «na medida em que ao longo do tempo, em qualquer sistema fechado, a propensão para a desordem aumenta sempre, o que não explica só a irreversibilidade e a expansão do universo, mas o caos de todas as ligações». Parece-me que esta lei noz diz muito sobre o processo narrativo que desenvolves, pela forma como apreendes os factos e relatos históricos, como os vais digerindo lentamente, e isto gera um contraste com um tempo em que, não tanto pela expansão do universo, mas pelo efeito quase opressivo da informação, que em grande medida consome todos os espaços e nos empanturra a todo o momento, constrangendo e empurrando a imaginação para fora do campo da invenção e do pensamento, levando a que esta fique sem espaço, e a informação vai-se impondo e penetrando tudo até ela mesma ser uma forma do terror. Todos estes receios acumulados, todo este medo e perturbação que a torrente constante de informação não processada nos provoca, deixa-nos trespassados, preocupados em relação a circunstâncias e problemas em relação aos quais não podemos fazer grande coisa, o que nos faz sentir impotentes. Assim, estamos sujeitos a uma guerra constante no que toca ao sentido, pois, se há cada vez mais informação, há cada vez menos sentido.

Uma das coisas de que falo nas conversas que tenho com os alunos é esta questão do tempo de paragem, de já não vermos as próprias fotografias como imagens fixas, estáticas, mas sim como um fluxo. As próprias imagens, que antes conseguiam existir por si, existem como uma mancha. Isto é uma questão desafiante, sobretudo para nós, que somos de uma geração que viveu nos dois tempos. Íamos a uma festa em que levávamos a máquina fotográfica e tirávamos umas quatro fotografias, que depois de serem reveladas eram tantas vezes organizadas em álbuns, e passado uns anos serviam como pontos de articulação para trazer à tona outras imagens de entre o que ia caindo no esquecimento, e então recordávamos, reimaginávamos, como tinha sido aquela festa, como este caiu, aquele foi para a cama com aquela, e isto e aquilo... Cada fotografia permitia montar e desmontar uma série de constelações, de histórias, de percursos. Agora, em vez daquelas quatro fotografias, tens 1500 fotografias, e não foste só tu que as tiraste. Isto leva a que se perca essa força daqueles momentos isolados e tão significativos em redor dos quais certas lembranças iam reemergindo. Estamos dentro de uma rapidez, a que somos obrigados pela quantidade das fotografias, que em vez de serem contempladas pausadamente, são percorridas a correr, e também num percurso impregnado de velocidade, que torna esta torrente imparável, que torna cada vez mais difícil filtrar seja o que for. A sensação que temos é que já nada pousa como uma pena, nada cai devagarinho. Pensando no tempo que tenho vivido neste mundo, a sensação que se me impõe é uma dificuldade cada vez maior no processamento da informação. Isto obrigou-me a traçar um certo perímetro, a deixar de ver televisão, a perceber que sou eu que mando nas notificações que recebo das redes sociais e dos programas que uso, sou eu que escolho a hora dos meus telejornais. Mas isto é já um processo que obriga a algum trabalho. Repara: tu hoje ligas a televisão e tens canais de informação em que o ecrã chega a dividir-se em várias sub-ecrãs ao mesmo tempo, em que as imagens se repetem em loop até à exaustão. Guy Debord estava coberto de razão ao assinalar como «num mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso». Vês um jogo de futebol em que não vês o jogo em si: tens um plano fixo de dois comentadores e outro que está apontado ao treinador..., enquanto tens informações sempre a passar em rodapé, e as pessoas ficam de olhos postos naquilo como se estivessem a ver o jogo. E depois, todo este excesso de escolha, todas estas bifurcações, segmentam e dispersam a capacidade de estar atento. Algo parecido no streaming: quase nunca sabemos que filme é que vamos ver, perdemos meia hora antes de encontrarmos algum, e depois se calhar já perdemos a disposição: o papel do programador está cada vez mais diluído, as pessoas já não partilham as experiências, estamos a perder os intervalos onde nos encontramos. Não vemos os mesmos filmes ao mesmo tempo, mas andamos a seguir infindáveis linhas de recomendações em que cada vez mais umas opções se parecem com as outras, afunilando a perspetiva, estamos a ficar ilhas cada vez mais distantes umas das outras. Daí que este livro, num certo sentido, seja também pessimista, a dada altura parece que a única saída seja um processo de extinção em massa. Às tantas, e para não nos sentirmos responsáveis pelas atrocidades que estamos a viver, parece que a única hipótese airosa é ficar à espera de um cometa que destrua isto tudo. É neste aspeto que estou próximo do narrador do livro, ligando-me à sua melancolia, sobretudo nesta crença na segunda lei da termodinâmica, até como princípio relacional, vendo tudo ficar cada vez mais caótico até à dissolução, e isto assume uma expressão desta nossa incapacidade de nos regermos perante um consumo exponencial, que exige tudo em cada vez maior quantidade. Em reação a isto, encontrei os meus próprios mecanismos de me desligar deste ritmo frenético, e o que mais faço é caminhar, caminho que me farto, vou palmilhando o Gerês, fazendo os caminhos de Santiago, bem para além de motivações religiosos. E esse é um tempo de paragem, de um desligamento cada vez mais importante. Outras vezes estou em Bruges (Bélgica), isolado, faço daquilo uma espécie de retiro. A sensação é de que esses períodos de ausência permitem que alguma coisa regresse, que não esteja sempre consumido com o que a todo o momento me assalta, um desligamento. Quanto a esta segunda lei da termodinâmica, que às tantas convoco no livro, há um lado de crença. Se me perguntam: «Então, acreditas em Deus? Não, mas acredito na segunda lei da termodinâmica» (risos). E é claro que isto tem alguma coisa que ver com o livro enquanto uma tessitura meio desorganizada de fragmentos, que depois se pode - e deve - recompor de outras formas. Essa propensão para o caos não significa que não se possam fazer certas leituras e retirar daqui algum sentido, seja do livro seja de algum fenómeno maior. Sempre com o devido cuidado de quem escreve se distanciar das personagens, de não permitir que um eu esteja demasiado presente. Lembro-me sempre do Franz Wright que, no livro Kindertotenwald, que não está traduzido para português, começa o texto com um sonho: «Estava com dificuldades em adormecer. Não sei há quanto tempo estava ali deitado, a ouvir a tempestade de neve, quando tive a impressão mais vívida de que se tratava de uma tempestade de neve em Minneapolis, em 1959. E isso perturbou-me. Sabia que isso teria agora de acender o candeeiro, sair da cama e tentar escrever sobre mim; e, claro, fosse o que fosse que escrevesse, eu soaria apenas a algo que isso tinha inventado. Mas, no fim, decidiu ficar onde estava, virar-se para o outro lado e guardar-me só para si. Creio que foi a decisão acertada. Afinal, era apenas uma tempestade de neve em Minneapolis, em 1959. Como é que se descreve algo como eu? E, pensando bem, por que razão haveria alguém de tentar, por que razão haveria sequer de importar-se?» Esta dificuldade de nos distanciarmos de nós próprios é, a meu ver, o grande desafio da escrita que eu faço e que quero fazer. Independentemente daquilo que te dizia, de que estamos sempre a falar de nós, ou a contar a nossa história, ou a efabular a partir das nossas experiências, a amplificar ou a reduzir a escala daquilo que vivemos... acredito que é preciso abrir o livro a uma comunidade, a pessoas que tomem conta dele, que se sirvam para os seus próprios fins, e que depois se vão embora. Não devemos ter a pretensão de que este nos seja sempre devolvido, que signifique sempre alguma coisa sobre nós, tornando-se uma propriedade que nos afirma, seja na constituição de um eu biográfico ou ficcionado - por sinal, uma tendência que vou encontrando cada vez mais, e que me parece uma disposição reveladora do nosso tempo: «Eu fiz isto, eu fiz aquilo, eu fui ali, eu sinto ou acho ou penso...» À medida que ia escrevendo o livro, fui falando com algumas dessas pessoas com quem me aconselho, e o meu receio era se isto não estava demasiado centrado em mim próprio. E o livro avançou porque foi passando nos testes desses amigos, que me diziam que a história, apesar de derivar de algumas experiências minhas, amplifica e estende o horizonte. Ou seja, se tem esta raiz, que é algo que não pode deixar de ter – entre a primeira e a terceira pessoas –, depois joga com isso. É o ‘Ele’ a personagem, que se vai distanciando de si próprio e de quem o inventa, e o meu esforço é criar estes jogos de distância. De qualquer modo, é um pouco difícil para mim verbalizar isto, porque é a primeira vez que estou a dar uma entrevista sobre o meu trabalho de escrita. Quando o faço é sempre sobre cinema, no qual já levo alguma quilometragem. Nesse sentido, esta conversa está a obrigar-me a pensar questões que nunca tinha explorado desta forma. Porque é que fiz isto? O que posso dizer é que o fiz porque sou melancólico, porque tenho algumas histórias dentro da cabeça e que me ocupam e me dão muito que fazer, tenho esta galeria de “notáveis”, de figuras que desejei que se cruzassem, tenho esperanças e desconsolos, e adoro comboios e cinema. Estes são os motivos; depois há aquilo que consigo fazer com eles.

 

Para terminar, queria voltar ao título do livro, Procura Nada, que é também um dos seus enigmas. Nas últimas páginas referes como há uma suspensão nisto tudo, falas-nos do presente como um peixe imóvel a nadar contra a corrente, e falas no conceito de vazio que, na linguagem dos inuíte, é o imaituq, que significa algo próximo de ausente ou de nada, mas também de infinito. Também nos falas nessa ideia de esvaziar o gesto de conteúdo, reduzindo-o à forma... E gostava de perceber o que é que tu retiras daí, desta «cosmogonia sem um deus, um sistema de relações em que os seres humanos, os animais, as forças naturais e as deidades estão em equilíbrio. Não há a figura de uma mãe ou de um pai divinos, não há punições eternas no pós-morte, a moral não transcende a estratosfera»... Estás aqui num registo entre o místico e o filosófico, e gostava de perceber se, quando escolheste este título, quiseste resolver esta oscilação de que o livro vive.

Acho fascinante, até do ponto de vista da ficção, e, sobretudo, de uma certa ideia de cinema, a possibilidade quântica que estas artes têm. Quando digo quântica estou a referir-me à possibilidade do tempo revertido, de microscopia e de comportamento dualista. Tenho pensado muito sobre estas coisas, e tenho explorado temas que entram no campo místico, para não dizer espiritual, e isto com pessoas que têm algum envolvimento com esses campos. Creio que estas inquietações acabam por assaltar-nos a todos a determinada altura. Acaba por ser também o corolário de uma série de leituras, de cruzamento de campos do saber, de uma série de conversas e de dúvidas que vou expondo e que vou tentando perceber. Neste caso, do título do livro, foi a Mariana Pinto dos Santos, minha prima, sendo que a relação que temos é a de irmãos, quem mo sugeriu. Pelo menos, associo o título a uma conversa que tive com ela. Era uma frase que estava no livro, e que depois de ela o ler, foi puxada para título. Mas tem muito a ver com esta ideia de desapego, e de um certo contentamento que vou sentindo à medida que tento reduzir os meus processos de meta-cognição, que penso menos nas coisas, que me torno mais contemplativo e menos reativo, ou menos dominado por compulsões. Tem também muito a ver com as tais caminhadas. Mas não tenho propriamente um plano, não tenho grandes certezas nem soluções. Acho que a capa do livro também passa por aí, ao trazer a imagem do iceberg, em que aquilo que está à superfície é apenas uma porção menor do que o que está submerso, o não dito, o não visto. Grande parte dos sistemas filosóficos, religiosos ou de matriz não-religiosa, propõem o alheamento ou o abandono da auto-consciência, que acaba por ser o que nos define enquanto espécie, e isto seja pelo processo de meditação, de caminhada ou o que quer que seja, como superação dessa mesma dádiva. Isto não deixa de ser muito contraditório, como a incomunicabilidade entre a física quântica e a relatividade geral. Ou seja: ambas existem, ambas se ligam. Mas nós não sabemos como. E aqui, na escrita, na ficção, isto possibilita um desafio fantástico, que é o de imaginar como, neste intervalo de mistério que liga aquilo que conhecemos, esta possibilidade de desligamento se torna forma de ultrapassar os vínculos. Isto é um território fantástico que se intromete entre tudo o que conhecemos, e nele cabem todas as dúvidas, todos os enigmas, todas as histórias... Como a do velho índio, cego e analfabeto, que fui buscar ao Italo Calvino (outro autor da minha predileção), e que narra todas as histórias. No fundo, este livro é mais uma que está ali, no fluxo interminável.