quarta-feira, 13 mai. 2026

E se hoje são os livros que queimam os livros?

Dados da confederação de livreiros espanhola (Cegal) deixam claro que o mercado do livro está em sobressaturação. Metade dos títulos não vende um só exemplar num ano, enquanto a concentração editorial e a rotação acelerada reduzem a diversidade. Também em Portugal, o livro torna-se uma forma combustível que apenas alimenta o fluxo, mas já não define uma ordem de duração.
E se hoje são os livros que queimam os livros?

Já não apetece falar de livros, mas desconsiderar aquilo que, hoje, nos aparece cada vez mais como uma massa indistinta, ruidosa: a livralhada. Na sua circulação frenética, tonitruante, cuja marcha imparável ameaça soterrar-nos, há muito que os livros não sustêm já um verdadeiro fascínio, mas aquele fastio de algo de que seria melhor se nos libertássemos. Procurou-se dar aos livros uma feição monumental, já vê-los circular como artefactos semi-clandestinos, detritos de uma outra luz, mais exigente, o contrário de atalhos – suspensos, buracos… Mas cederam a um efeito de mosaico que por toda a parte nos cerca, não tanto pelo rumor que os liga em profundidade, como canais subterrâneos de um mundo que, entre tantos vazios, nos comunica uma outra possibilidade de ordem ou desordem, mas como esse mural de miragens, um enredo de azulejos que procuram ocupar cada vez mais espaço e simular um efeito de cultura grandiloquente, cerimoniosa, e tão inofensiva que serve perfeitamente as lógicas de um certo fausto propagandista, um enredo monumental que esconde precisamente a degradação do tempo, a devastação íntima desse horizonte para o qual se vira a nossa atenção quando consegue esquivar-se ao efeito de sideração dos estímulos que a todo o momento nos cercam, essa força de um enredo coercivo, sendo a leitura sempre um dom daquele que se esquiva às suas circunstâncias, lançando a sua atenção sobre algo de incapturável, algo que se torna difícil de ser mensurado, desenvencilhando-se da cadeia de pressão do lucro. Quem melhor exprimiu esta sensação de cansaço diante dos livros, de súbito sufoco, como ver-se encarcerado entre eles, foi o escritor francês Pierre Michon. «Toda a biblioteca é fundadora», começa ele, num tom de ressalva e reverência, e então, depois desta unção, lá vem o assalto: «Mas há dias em que apetece a uma pessoa livrar-se dos livros às carretadas. Já não tenho coragem para o fazer. Noutro tempo, dispus de um vazadouro doméstico, uma portinhola que se abria em cada cozinha de um prédio e que, por um conduto estreito, enviava os detritos para um contentor comum. Esse modo de execução rápida desapareceu hoje, por exigências de higiene. No entanto, era tão prático para despachar uma braçada de livros: um gesto, e dois mil anos de trabalho e de esperanças caíam de repente seis andares abaixo, entre cascas de cebola.»

Uma notícia recente do El País dá a este mal-estar uma consistência estatística brutal. Segundo dados apresentados pela CEGAL, 49,4% dos títulos impressos disponíveis nas livrarias espanholas não vende um único exemplar ao longo de um ano. Além disso, apenas 4,5% dos títulos supera os 100 exemplares vendidos por ano, enquanto mais de 40% das cópias vendidas corresponde a dois grupos, Penguin Random House e Planeta. Ao mesmo tempo, embora as livrarias independentes ofereçam o dobro da variedade das cadeias — mais de 525 mil títulos, contra cerca de 230 mil nas livrarias de cadeia —, os grandes espaços passaram a concentrar 52% do total de exemplares vendidos. E tudo isto ocorre num mercado que, longe de estar em retração simples, segue em alta: cerca de 76 milhões de exemplares impressos no país vizinho em 2025, 4% acima do ano anterior, num contexto em que se fala em mais de 90 mil títulos por ano em Espanha, ou, numa conta mais conservadora para a ficção e a literatura comercial, entre 10 mil e 30 mil títulos.

São dados que, genericamente, podem estender-se ao nosso próprio contexto, sendo que a Penguin e a Planeta operam já entre nós, mas estão ainda longe de ameaçar a Porto Editora, que persiste como o grande polvo, cujos tentáculos envolvem todos os níveis do sector, devido ao monopólio do livro escolar. Mas se nos são sonegados estes dados que permitiriam fazer uma análise da evolução do sector do livro, podemos partir daqueles que nos chegam de Espanha para reconhecer como o excesso de oferta, concentração do lucro, esmagamento dos pequenos, ruído estatístico onde outrora se supunha que haveria escolha, são aspectos com os quais estamos confrontados há muito. Mas um diagnóstico assim fica ainda aquém do essencial. O que estes números revelam não é apenas uma anomalia comercial, mas uma alteração da condição pública do livro. Revelam que a abundância, quando administrada pela concentração e acelerada por dispositivos de visibilidade instantânea, pode tornar-se o contrário da diversidade: uma técnica de neutralização.

Dumping controlado

O que há de mais obsceno nestes números é a forma como deixam claro que o mercado eleva a produção de objectos que ele mesmo declara, pelo seu funcionamento efectivo, supérfluos. É um efeito de dumping controlado, o qual produz alterações de fundo no próprio sentido e função dos sectores editorial e livreiro, e que, num nível mais subtil, afecta também o tempo, sendo que esta nunca será suficiente para lidar com esta proliferação exorbitante, nem tem como afinar critérios, mesmo que grosseiros, no sentido de um desbaste, sendo a produção de tal modo acelerada que a sentimos como um atropelo, uma avalanche constante, ainda mais pronunciada pela incapacidade de serem desejadas com lucidez aquelas obras que possam construir esse outro lado da vida, abandonando as premissas que provaram ser inúteis ou erradas. «Compreender», como nos diz Jorge de Sena, «não é aceitar e absolver, mas é certamente discriminar». Ora, aquilo que mais ameaça nos nossos dias uma cultura do livro, a resistência desse ecossistema, é o próprio excesso. Vimos assistindo, nas últimas décadas, a uma inversão drástica dos princípios que garantiam uma verdadeira diversidade, não apenas pela concentração global do sector, pela afinação da logística de acordo com as lógicas financeiras, mas também por se ter desarticulado o sentido temporal a que este dava resposta. Durante séculos, o livro pertenceu àquela categoria dos objectos arduamente conquistados, raros, impondo um custo e uma aplicação de saberes e ofícios, que faziam com que a própria edição fosse um efeito de resistência à expansão descontrolada de uma ordem que nos é inteiramente hostil, uma vez que publicar era tudo menos um gesto inocente, e, entre o manuscrito e a ordem lançada às tipografias – imprimatur! – havia toda uma série de decisões, filtros, demoras, juízos, recusas, apostas, que, se podia tornar o processo bastante moroso, oneroso, e, muitas vezes, avesso ao risco, era ainda assim dos poucos efeitos que conseguiam iniciar uma luta, tantas vezes a fundo perdido, contra o social, contra a moral vigente, operando, nos períodos mais negros, para fundar uma vida secreta na qual sobreviver, deixar um testemunho, escapar a esses mitos menores entre os quais se organiza a servidão voluntária da maioria, para dar margem a alguns para errarem na sua periferia. Isto diferenciava decisivamente o livro, que, na sua forma histórica, não equivalia a outra mercadoria. Sendo um artefacto de duração, um vinco ou dobra entre épocas, uma obra literária não pedia só hospitalidade, introduzia muitas vezes um efeito de combate, e esta antiga gravidade que tem vindo a dissolver-se à medida que o leitor passou a mover-se num campo de ruído tal que a leitura se converteu, cada vez mais, numa forma de triagem defensiva.

A linhagem da edição moderna

O prestígio da edição vem precisamente dessa renúncia às lógicas aceleradas do consumo, a essa soberania daqueles que rejeitavam a ordem dos súbditos, os que encontravam um espaço de desvinculação face às ordens regulares, e pensavam uma outra dimensão temporal, permitindo que livros difíceis, exigentes, minoritários, intempestivos, injustamente ignorados por um largo tempo, tivessem ainda uma possibilidade de sobrevida, de se verem resgatados. O editor italiano e ensaísta Roberto Calasso defendia que publicar livros nunca foi, propriamente, um ramo do comércio, mas uma arte da forma. Não da forma literária apenas, que compete ao autor, mas dessa outra forma, mais discreta e por isso mesmo mais decisiva, que consiste em fazer com que livros muito diferentes entre si, separados por séculos, línguas, mitologias, obsessões, timbres e temperaturas, entrem numa vizinhança carregada de consequências. O editor, ao abrigo dessa tradição, não é um expedidor de objectos nem um gestor de stocks simbólicos, mas alguém que reconhece afinidades onde os outros vêem apenas dispersão. 

Calasso insistiu várias vezes nessa linhagem, assinalando como a grande edição moderna começa quando um impressor-editor como Aldo Manúcio percebe que publicar é também inventar uma apresentação do pensamento, um dispositivo material, um ritmo de circulação, uma maneira de dar a um texto corpo transportável, forma legível, destino. Quando elege este seu ancestral, não o faz para reclamar ouropéis de lendas, nem apenas para fazer remontar ao Renascimento este ideal, mas para assinalar como o livro aparece, a que constelação pertence, que horizonte de leitura propõe. Mais perto de nós, evoca Kurt Wolff, o primeiro editor de Kafka, como uma figura que investiu a sua fortuna pessoal num esforço de distinguir um conjunto de autores muito diversos que, no entanto, configuravam uma mesma paisagem secreta. Não um catálogo como mero inventário, ou uma sucessão de apostas tentando prever os humores da posteridade, mas um catálogo como um exercício de topografia mental. Num certo sentido era até uma defesa dessa ideia de humanidade perante a qual cada homem se mede solitariamente. «Aquele que cai em êxtase, aquele que lê, aquele que perde, aquele que ama – o verdadeiro amor é uma relação íntima directa, também ela associal, também ela um buraco negro, sem se importar com o século nem com o olhar dos outros homens», assim o entende Quignard, para quem o leitor procura um certo resguardo, e, pontualmente desaparece, furta-se, torna-se um anacoreta, capaz de «usurpar o lugar perdido». «Inventa para ti uma falsa vida. É preciso abrir um arquivo-armadilha a fim de oferecer aos predadores nomes nos quais se vão deter e moradas onde as mensagens se irão perder.» É neste ponto que aquela visão de Calasso, elaborada em cumplicidade com Roberto Bazlen, e que veio a dar origem à editora Adelphi, se confronta com este desígnio que não serve outro efeito senão o de devastar a paisagem, passando ao lado do efeito de subtil ligação entre os títulos que se abrigam numa mesma colecção, envergando um mesmo selo, desenhando as relações de vizinhança. Em vez disso, impõe a sucessão, a rotação, o livro como evento sem capacidade de convocar um passado ou uma ficção do tempo que lhe seja favorável. 

Um ciclo imparável

Se Calasso entendia o catálogo como uma espécie de organismo subterrâneo, os actuais departamentos que aprovam este ou aquele plano de edições não têm qualquer leitura sobre a função editorial do ponto de vista de uma estratégia de enfrentamento, nem perdem tempo com contemplações ou juízos relativos a uma eventual posteridade, mas focam-se meramente na dimensão contabilística, e na necessidade de atingir as metas de lucro. E enquanto uns poucos ainda se agarram ao título de editor, alimentando a ilusão de que serão capazes de se fazer ouvir na ratoeira que montam uns para os outros, fica claro que este circuito não consegue produzir outra coisa senão livros-fantasma: impressos, distribuídos, catalogados, expostos por um instante e logo tragados, guilhotinados, enviados para a pasta de papel, num ciclo imparável de substituição contínua. A larga maioria nasce destinada a alimentar este frenesim, e desaparecer sem lhe ser dada a menor hipótese de impor o seu grão na engrenagem. E o que parece mais inquietante neste diagnóstico do sector editorial e livreiro é que este desaparecimento não é uma falha, nem é acidental, mas é uma condição que funciona enquanto a folha de cálculo der positivo. Ora, no entender de Quignard, a pérola do homem é o negativo. E ele parece reconhecer como os fins do sector editorial se contrapõem aos da sociedade, pelo menos de uma perspectiva limitada, já que, segundo ele, «há milénios que as sociedades suscitam muito mais do que o admitem marginais, mendigos, rebeldes, galerianos, desertores, dissidentes, heterodoxos, incréus, foras-da-lei, bandidos, miseráveis, conversos, mouriscos, luteranos, contrabandistas, comunardos, agermanados, celibatários, doentes, loucos». E o que é que ele nos diz sobre o elemento decisivo da cultura judaica? «A metamorfose do mundo dos Judeus no século I foi radical. Ali onde já não havia templo erigiu-se uma escola onde aprender a ler. O sacrifício extinguiu-se no seio da leitura como o ouro do sol no crepúsculo antes de se afundar na noite.»

Socorrendo-se de Kant, ele diz-nos que a tradição dos letrados é a desses que buscam pensar por si, sair do estado de minoridade, romper com o pensamento colectivo, com a alucinação mítica dos súbditos. «Um verdadeiro dom», diz-nos Quignard, «é um dom sem cálculo».

Um caminho juncado de mortos

Hoje, no que respeita aos livros, a escassez está no tempo que deveríamos ter para eles, mas não nos livros, nunca neles, que se acumulam em pilhas por toda a parte, que proliferam numa desordem excessiva, como sinais de uma vida que nos foge, à medida que também eles, logo que se vêem desencantados ao ser arrancados dos altares luminosos em que nos são impingidos, como peças centrais de um efeito litúrgico, se tornam elementos um tanto abstrusos, pois se sabemos manuseá-los, abrir e ler, a linguagem neles muitas vezes parece demasiado distante, e se há uma frase ou outra que nos prendem, depois a massa de texto já nos aborrece. Eles pedem-nos um tempo que teria de ser afinado primeiro pelo tédio, um tempo que não este, sempre eriçado, articulado por compulsões e urgências, onde de qualquer posição é possível observar algum cata-vento desaustinado apregoando algum evento, era preciso que não estivéssemos sempre a ouvir o rangido das carretas de rodar-para-o-mesmo-objectivo, a mesma sanha de fazer valer o dia, mas um tempo que desse para se acomodar sem estas comichões todas, um tempo distendido como aquele que educávamos andando a pé, num vaguear sem outro objectivo além da fantasia, de uma fascinação descomprometida, detendo-se em motivos banais, mas que nos permitiam atingir aquele compasso meditativo. Hoje, os livros não nos surgem por aí, como peças desirmanadas, como senhas, segredos, ínfimos recortes fronteiriços, mas, para nos cativarem, precisam sempre daquele efeito de fanfarra, de uma grande operação para nos fazer perder entre eles como num bosque onde os nossos sentidos se bifurcassem infinitamente. É preciso essa relação impositiva, e isto faz pensar como os livros cederam a esse encadeamento que nos atrai como peças, fragmentos do elemento perdido do tempo. São detritos de um mundo que houve em nós, escórias de um tempo infinito, de tal modo que nos dávamos ao luxo de o matar com todo o tipo de maus tratos ou requintes. Hoje, pelo contrário, o livro participa de um efeito de monumentalidade, e só nos fascina enquanto peça desse efeito aglomerante, dessa excitação das possibilidades que, por um momento, nos parecem ser tantas, e, logo que fazemos a nossa escolha, se estreitam a ponto de nos ressentirmos com o pobre objecto em que deveria aglutinar-se esse efeito de promessa, essa mágica de um fundo sem fundo. Procuramos um livro como uma saída, tantas vezes uma forma de nos escapulirmos ao ritmo alucinado de uma existência que é um acumular de constrangimentos, de faltas e falhas. De tal modo que os livros passaram a funcionar enquanto paisagens elusivas, numa combinação de signos que nos prometem essa forma de se ausentar do mundo, que não significa estar vivo, mas passar a um ritmo aventuroso, em que volta a ser possível redimir o tempo por meio de um sentido, algum significado. O livro passou a funcionar como uma peça de uma superfície fracturada, em constante reordenação, mas que nunca abre para outro plano. Pois não se passa dessa leitura de superfície. Neste sentido, os livros comparecem hoje no espaço público num efeito em que se reivindica as possibilidades da leitura, de uma cultura em profundidade, a qual nos vai sendo, paradoxalmente, roubada. Toda essa exibição dos livros assinala uma renúncia à leitura, uma perda que se exprime pela aquisição dos livros, por essa promessa esvaziada. E, estranhamente, é possível simular um aparato que, pela sua recorrência, pelo fulgor ritualista, faz com que este efeito de superfície assuma um carácter monumental. O que acontece é que, à medida que os livros comparecem cada vez mais neste mosaico, mais se dá um desencontro com essa outra relação que eles constroem, esse enredo feito de demoras, lentidão. Robert Musil, ao meditar sobre os monumentos, identificava entre as particularidades destes uma característica desde logo contraditória: «O que chama mais atenção nos monumentos é ninguém reparar neles», assinalava ele. «Não há nada no mundo que seja tão invisível como os monumentos. Eles são erigidos, indubitavelmente, para serem vistos, mais até, é mesmo para suscitar a atenção; mas, ao mesmo tempo, há alguma coisa que os imuniza contra a atenção, e esta escorre por eles como gotas de água num oleado, sem se deter nem por um momento. Pode percorrer-se uma rua durante meses, vai ficar-se a conhecer todos os números das casas, todas as montras, todos os polícias que há pelo caminho, e uma moeda de dez pfennig em cima do passeio não passará despercebida; mas de certeza que se fica sempre muito admirado se, um dia, se olha de lado para uma linda criada no primeiro andar e se descobre uma placa de metal, nada pequena, na qual está inscrito em letras indeléveis que, neste local, de mil oitocentos e tal até mil oitocentos e mais qualquer coisa, viveu e trabalhou o inesquecível fulano de tal.»

Quanto mais os livros aparecem, e se tornam efeito deste regime monumental, mais a leitura é subtraída, como esse recurso de sensibilidades que abandonam a mundanidade do mundo, renunciam ao processo de aceleração, e de um tempo que se define por uma disciplina imposta a toque de caixa, e que nos torna meros efeitos concatenados de uma realidade semidemente. Como nos diz certa frase de Morand: «A velocidade é um caminho juncado de mortos, uma sede perpétua que nada sacia, um suplício omitido por Dante.» E é em reconhecimento desta angústia da velocidade, do sacrifício constante do tempo próprio, do prelúdio da morte do espírito que hoje se vive, que Vivian Abenshushan, num dos ensaios que integra a obra Escritos para Desocupados, reivindica a escrita como se fora a «invenção de uma nova máquina, a Máquina da Lentidão, um artefacto impossível, capaz de desacelerar o tempo e de reconquistar as horas de ócio, os passeios vagarosos e sem rumo fixo, as leituras prolongadas em posição horizontal»… Tomando balanço naquela «cansaço antecipado e infinito» de Álvaro de Campos, ela fala-nos desse mal contemporâneo para o qual foi cunhado o termo ‘time sickness’: «a percepção obsessiva de que o tempo se desvanece». Depois de o tempo ter começado como uma medição dos ciclos da natureza, o tempo veio a tornar-se uma função cada vez mais abstracta, definida segundo os impulsos do mercado, a lógica do lucro, a aceleração do regime produtivo e da necessidade de excitar os consumos de forma a dar vazão e justificar toda esta dinâmica. Isto levou a um efeito de desmantelamento de qualquer horizonte necessário para nos lançar sobre um abismo de urgências e intoxicações, uma velocidade incontestável, que produz os maiores desequilíbrios e que degrada todos os padrões nos quais a vida chega a assentar os seus processos de regeneração.

Vocação para o nada

O livro funda-se naquele efeito de exclusão, de antinomia, anomia, periferia, esse regime de clandestinidade linguística que se afasta das lógicas de eficácia e do lucro, abrindo espaço para aqueles que se «juntam em forma de exílio, mais do que em forma de mundo, numa terra onde cada um de nós surgiu em estado isolado» (Quignard).

Pascal Quignard diz-nos que, contrariamente ao regime das novidades, o «verdadeiro novo» é o desconhecido, e que o tempo precisa sair debaixo desse efeito de repetição para «começar a começar»: «a desgraça própria da humanidade deve-se à compulsão de repetição (a História) ser mais forte, nas sociedades humanas, do que a novidade absoluta do tempo. As sociedades preferem a reiteração transmitida, genealógica, linguística e social do que a temporalidade imprevisível. Os grupos privilegiam a repetição dos coitos e das mortes na perpetuação dos rostos, dos nomes, das propriedades, dos bens.» Assim, no entender deste pensador, o segredo da paixão política passou sempre por deitar mão à reprodução e não ao tempo. O tempo é aquilo que precisa ser substituído, afastado, por meio de uma reprodução do mesmo, de forma cada vez mais constante e acelerada – previsível e sem falhas.

Não é difícil reconhecer como este efeito de proliferação a que o livro se vê sujeito faz dele uma forma morta. Em vez de desaparecer, a sua profusão quantitativa serve para barrar esta possibilidade de abandonar a matilha, parar de obedecer, encontrar a sua comunidade dispersa entre parêntesis abertos em zonas intermitentes da história. Esta vocação actual dos livros para o nada, e a quantidade de eventos e festivais que ocupam cada vez mais espaço nas nossas cidades e nos calendários com vista à sua defesa e promoção, sobretudo daqueles livros mais inócuos, tudo isso está em linha com o efeito de «domesticação colectiva humana», de que fala Quignard, tão esgotante quanto ensurdecedor. E o que nos diz ele desse efeito? Que é feito de dialogia incansável, de aglutinação solicitada, de significações prescritas, de proibições insuportáveis, de admoestações desprovidas de sentido. Todo este enredo torna cada vez mais difícil a tarefa dos livros, que é precisamente a recuperar algum silêncio. Reaver o tempo contra esta abundância empobrecedora – uma abundância submetida à temporalidade financeira da rotação, da exposição instantânea e da obsolescência precoce. Pois se nunca houve tantos meios de produzir um livro, de o pôr a circular, de o tornar nominalmente acessível, ao mesmo tempo, nunca foi mais difícil garantir-lhe aquilo que, sem solenidade, constitui a sua condição de existência pública: tempo, mediação, permanência, releitura, sedimentação.

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