Talvez sejam os caminhos que viajam. E alguns deixam-se ir, como passageiros, procurando esses golpes do acaso, esses sinais que por alguns instantes nos iludem quanto a um sentido mais profundo e definitivo. «Há uma história sobre um prisioneiro em Alcatraz que passava as noites na solitária a deixar cair um botão ao chão e a tentar depois encontrá-lo às escuras. Assim passava ele todas as noites, até de manhã», relata-nos Jenny Offill no seu Departamento de Especulações. Parece uma ninharia, esta busca. Talvez seja uma pobre artimanha, mas ainda assim serve para iludir o tempo, e obrigar a que se manifeste a vida da escuridão.
As coisas mais difíceis aprendem-se diante dos piores constrangimentos. Afinal, mesmo o excesso de estímulos não engana quando se constatou como a terra para nós se tornou nula, e é nesse ponto que se canta. «Canta-se/ no reflexo/ daquilo que passou ao nosso lado» (Celan). O que mais temos a aprender com este mundo, senão a aproveitar essa tensão diante de tudo aquilo que, apesar da força com que nos puxa e atrai num momento, prendendo-nos, logo deixa claro, por vezes de forma cruel, de que não era para nós?
Com o passar dos anos, depois daquele ânimo existencial ter começado a esvair-se, necessitamos desesperadamente de hipóteses alentadoras, velas de ignição, ou seja, instantes de fugidia exuberância, captados de passagem, os quais fazem de tantos de nós «notáveis colecionadores», cada qual transportando «aquilo que só tu podes carregar», e da sobrevivência um engenho de «peregrinos». Entre os turistas, hoje tão depreciados, abre-se essa categoria dos desertores do quotidiano, aplicados em exercícios em que cada um aprende a fazer-se desaparecer, num dia incerto e que é menos o de hoje que um ontem interminável, em que certas impressões são retomadas, medidas e dispostas segundo uma ordem que não é ainda própria das lembranças, pois estão ainda demasiado frescas, vivas, e que nos vão deixando esse «sedimento frágil», impulsionando um movimento de embalo em desgaste. Sujeitos a uma «cadência catatónica», àquela fadiga fantasiosa que proporcionam estas cidades azucrinantes em que vivemos, alguém procura furar as suas rotinas, deixando a atenção a encher-se de pulgas, toda mordida, vendo navios aparecerem por entre as fábricas, «Os estranhos reclames luminosos avariados./ O ar cheio do zumbido de nomes que nós/ Só com esforço podemos pronunciar.»
Poderia falar-se desse síndrome epocal em que parece que o nosso fantasma se nos antecipa, em que nos sentimos deslocados face a nós mesmos, encarando as nossas vidas de fora. Leiam-se as duas primeiras estrofes do poema ‘Sonata de Fantasmas’… «Aconteceu ontem: o tempo deixou-nos para trás./ Uma expedição polar e alguém, ainda não muito velho,/ ficou preso na tempestade de neve, com os óculos congelados./ Numa rua sinuosa da cidade que nos é familiar/ Os séculos vieram em silêncio contra nós./ Toda a espécie de sentimentos congelados derreteu./ Os candeeiros encurvados voltaram a parecer-se com forcas.// Todo o antes e o depois foi eliminado./ A ordem foi perturbada, o filme andava para trás./ As revoluções passavam por cima como castelos de nuvens./ Quem disse que tudo continua sempre tal como foi planeado?/ Os demagogos na televisão falavam ao povo/ Na linguagem desavergonhada da desinformação./ Foi assim o leilão de nações inteiras.»
Sentimo-nos, então, forçados a andar de um lado para o outro, como se um certo impulso nómada debaixo da nossa tentação sedentária exigisse reaver o espanto das grandes vadiagens, reconhecendo como «não fazer nada tira o juízo». É preciso, no mínimo, expor a pele e os sentidos a variações incómodas, outras exigências. Não se retira um verdadeiro prazer de banhar-se «ao sol dos ruídos», mas é esse o idioma da nossa época, o barulho que nos chega «de todo o lado e de longe». E se não restam já verdadeiras aventuras, por toda a parte estamos sempre diante do «lado B da vida». Mas de algum modo é necessário dar resposta a esse «vício migrante», certamente mais forte nuns que noutros. Há seres que sentem os ciclos de forma mais persistente, «a alteração das marés nas psiques», «forças intermitentes» que abalam os corpos. Grünbein é um aplicado estudante dos sinais de declínio, de modos de existência abandonados ao reverso das mitologias… «Como tudo decorre sem atrito./ Como tudo parece pacífico, civilizado./ Há a abundância e a burocracia./ Há o betão e as bananas,/ O pânico mudo dos animais transportados/ E as pontadas no estômago.// Será este o aspecto da morte que não vemos?// No supermercado uma promoção surpreendente:/ Carne de Minotauro, hoje a metade do preço!» Estamos sempre a ser confrontados subtilmente com reflexos degradados da canção do progresso, todos esses prodígios na sua fase já decrépita, e que tardiamente nos fazem ver como era uma ilusão a ideia de que a vida poderia ser mais fácil. Não foi algo nesse sentido o que disse Keats? «É inútil esperar que o mundo se torne um lugar onde seja fácil salvar a nossa alma.» Enquanto vemos a cidade tornar-se «numa ala de psiquiatria aberta», o que resta da dimensão do sagrado parece ser cada vez mais tudo aquilo que se nos esquiva. «Aí está ele outra vez,/ O deus da estranheza, que tudo muda de sítio».
A grande proeza desta poesia é a forma como, dispensando o lirismo, não abre mão daquela que se reconhecia ser a qualidade divinal desse registo: a combinação do máximo de subjectividade com o mínimo de individualidade. Este poeta alemão faz de um livro destes um livro de registos, apontamentos, ocorrências, exclamações suspensas, visões e sonoridades, tudo aquilo que nos atravessa, e mesmo a sensação de ir sendo outra e outra coisa, atingindo esse limite que se propõe e que não pára de se furtar. Como seriam os «últimos preparativos para o silêncio», para qualquer coisa de definitivo. «À noite, na água da banheira encolhe-se/ O mundo (res extensa) por um buraco gorgolejante.»
33 epitáfios
Este é o segundo livro de Durs Grünbein a ser publicado no nosso país, depois do tão extraordinário quanto peculiar Aos Queridos Mortos, um breve volume que saiu em 2003 na Angelus Novus, com uma excelente tradução e posfácio de Fernando Matos Oliveira, notando este que ao longo dos 33 epitáfios que ali comparecem a morte impõe-se como um problema de linguagem, recorrendo o poeta àquela forma breve, a um registo lacónico, lapidar, de modo a «negociar o estatuto da lírica no mundo contemporâneo, reivindicando um aparato minimamente resistente à degenerescência da memória». Originalmente publicado em 1994, os poemas partiram de uma coleccção de recortes feitos a partir de jornais de grande circulação como o Bild, o The Sun ou o The New York Times, tendo o poeta reconhecido o estranho apelo dos necrológios jornalísticos, em que somos confrontados com «descrições sumárias», em que uma vida nos surge submetida a uma «redução grotesca», de tal modo que o poeta percebeu que seria possível focar-se na «impropriedade discursiva» dessas notícias, extraindo-lhes um «epitáfio civilizacional», como sugere Matos Oliveira. «O desinvestimento transcendental que na modernidade conduziu à dessacralização progressiva do ritual fúnebre, tendo dado já origem a experiências (americanas) tão singulares como o drive-up funeral home, traduz-se aqui numa dispersão radical dos lugares da morte, captada justamente antes de qualquer decisão comunitária quanto à necrópole», diz-nos o tradutor no seu posfácio. «Se o poema deve agarrar um determinado ‘momento crítico’, como defende Grünbein, o instante que os epitáfios fixam é precisamente o de uma morte violentada por um circunstancialismo que chega a entrar pelo tabu da degradação corporal.» Leia-se um desses epitáfios, propostos ao leitor como um conjunto de «relatos do declínio de gente comum»: «Berlim. Um morto estava sentado há treze semanas/ Hirto frente ao televisor, ainda ligado, o olhar/ Quebrado. Na televisão um cozinheiro de TV dava/ A dica certa para a boa cozinha./ Putrefacção e mau cheiro no quarto,/ Detrás das cortinas um cintilar azul, depois/ Os ossos secos./ Silêncio/ Dos vizinhos, que o espreitavam a medo, pois/ Todos eles há muito pensavam o mesmo: ‘Já me/ cheirava’./ Um morto estava sentado há treze semanas…/ Foi sem dúvida um belo fim./ Uma passagem de século assim.» Entre os epitáfios há ainda três meditações de ordem mais convencionalmente lírica, e um destes é especialmente significativo de uma forma de encarar a dissolução utópica depois da queda do muro de Berlim, quando eram já evidentes os sinais de que a ocidentalização não poderia corresponder aos anseios que alguns nutriram no período da reunificação. Ao despertar do Pesadelo da História, alguns espíritos mais lúcidos reconheceram como a narcose das aspirações individuais iria conduzir os homens a um abatimento progressivo das suas faculdades críticas, levando-os a cambalear entre ludíbrios e falsas promessas, cada vez mais desencantados, até se sentirem de tal modo vazios que só lhes restará o ímpeto de se aniquilarem a si mesmos. «Traz-me deprimido, a tristeza dos corpos./ Êxtases, viscosidade, a casca vazia da pele./ O que se esvai no universo, curvo, pulverizado,/ Caminhou em tempos direito, sorridente, de porte ligeiro.// Aquilo que te espera, vê-lo-ás cedo nos outros./ Assustadoramente claro… futuro, substituído pelo Nada./ O jogo da vida é para ganhar e perder… No final/ Nem sequer a tua própria morte fica na memória.»
Esse livro ficou como uma passagem um tanto bizarra e controversa numa obra recebida com grande entusiasmo desde a primeira hora, mesmo se não podia exactamente estranhar-se esta forma oblíqua de promover um gesto de denúncia que, não sendo propriamente enfática, está longe de ser puramente cínica, mas parece assinalar essa desgraça silenciosa que se estava a abater sobre a humanidade, num período em que tantos celebravam «o fim da História», num período de suposta ressaca ideológica. Não podia estranhar-se vindo de um poeta que mereceu o ‘patrocínio’ literário de Heiner Müller, e que parecia estar a invocar aquele ânimo perverso de uma tradição que remonta a Brecht, com passagem obrigatória em Hans Magnus Enzensberger, mesmo se aqui a aparente frieza na forma como é encarado o processo histórico leva estes poemas a comportarem uma dimensão um tanto sinistra, como se não coubesse já construir um significado político imediato, mas antes reconhecendo os efeitos do dilaceramento já não das grandes decisões, mas da própria cultura, que começava a acelerar o definhamento e devastação à medida que as formas que, como o epitáfio, eram cultivadas de modo a persistir na memória, estavam a desaparecer, num efeito que ameaçava a própria poesia, tendo Grünbein, com o génio retórico que lhe é reconhecido, chamado a atenção para a coincidência do nascimento da mnemónica com a figura histórica do poeta.
«Moramos em cidades sem mistério,/ Em ruas sem graça e sem grandeza,/ Cantou-me o rouxinol no parque pela manhã», lê-se num dos poemas desta colectânea que agora nos chega com selo das Edições do Saguão, e em mais um marco do empenho de Maria Teresa Dias Furtado para colocar à disposição do leitor português algumas estações centrais da poesia alemã contemporânea. Se no outro livro um editor ficcionado se apresentava num texto a encerrar o volume, dizendo que aqueles epitáfios haviam sido descobertos no arquivo de um sótão em Dresden, neste Velas de ignição persiste um certo distanciamento, e nada é exactamente trivial, havendo uma certa reflexão antropológica, um esforço ainda para nos libertar daquele formalismo oco para que tende hoje toda a linguagem, e não só a fúnebre. Como se «os vivos» fossem neste tempo os estrangeiros, assistindo a formas de devastação que nos são anunciadas todos os dias por demagogos, burlões, falsificadores, mercadores da morte, como evidências de um futuro radioso. Basta andar alguns quarteirões e reconhecer como estamos diante do mesmo cenário por toda a parte: «Agora a cidade estava escavada. Através de túneis/ Circulava um trânsito sem sentido./ Já não possuía entranhas, labirintos/ Ao crespúsculo, com vielas a dar para o inconsciente,/ Ruas que conduziam à própria circulação sanguínea.// Em troca, havia o pequeno terror diário:/ Cabeças, cheias das notícias de ontem,/ Explodiam diante de um café de rua.»
Identificando-se com Pasolini quando este proclamava: «Eu sou uma força do Passado», assistindo hoje nestas cidades que apenas nutrem com relação à sua antiguidade uma reverência postiça, um modo de fazer triunfá-la nesse vício do «pitoresco», o poeta vagueia pelas capitais desta desolação registando os crepúsculos, as manhãs sobre Roma e outras cidades europeias, sobre um mundo que antes se alimentava de um diálogo com as épocas passadas, mas que agora assiste ao contágio dos «verbos brancos», esses que se chamam «desaparecer, apagar, morrer/ E conduzem a lugares desabitados./ Imperceptíveis, deslizam pelo espaço.» No fundo, ele assiste aos primeiros actos da Pós-História, regista as múltiplas formas de «decomposição, dispersão», a partir da orla extrema de qualquer idade sepultada. Diz-nos que estes verbos brancos «apagam/ Com uma mão fantasma o que alguma vez existiu./ Embrulham o pensamento na neve que cai, na neblina,/ E começam como os traços de giz no quadro da escola./ Dão à linguagem o impulso final.»
Estamos assim ainda perante aquele regime da «tanato-filologia», de um idioma que nasce para dar a morte. «Monstruoso», anotava Pasolini, «é quem nasce/ das entranhas de uma mulher morta.» O monstro é, assim, este que força a nossa atenção a dirigir-se para aquilo precisamente que está a ser apagado, consumido por esses verbos que operam de forma encoberta. O monstro é o próprio poeta, esse ser descentrado, vagueando «à procura de irmãos que já não existem».
Cumpre-lhe essa arqueologia antecipada face a um futuro em que tudo se viu ora congelado, ora a assistir ao declínio, condenado a um prazo prestes a expirar. Assim, servindo-se da imagem dos cartazes de circo numa pequena cidade junto ao mar, hoje amarelados, diz-nos que estes já começaram a descolar, como aquelas crianças que antes riam no circo, e hoje são funcionários públicos. Um desses funcionários, ansiando pelas «vacâncias», pela «soma de Verões por chegar», interroga-se: «Quem me compensará pelos anos mal iluminados,/ Desperdiçados em pisos de escritórios? O dia/ Sempre a começar tal como tinha terminado,/ Com balanços cinzentos, vacâncias sem esperança.»
A própria vida parece ter-se tornado uma estação terminal, neste «tempo vulgar» que o poeta lamenta, sem, no entanto, ceder a ele. Embora reconheça o profundo mau gosto, o facto do centro das nossas antigas cidades estarem tomadas por boutiques, com nomes como Armageddon ou Paradise One, se «As montras reflectem as mesmas cenas/ De ontem e amanhã», e mesmo se percebe como «a ordem temporal foi abolida» e «a verdade também», a sua memória, essa «antiguidade vigorosa» que ele encarna, essa força consegue resgatar as formas e o sentido das coisas a este efeito de dispersão. A tarefa do poeta é reaver os níveis, a intensidade daquilo que, reflectido no seu espírito, fulgura nos interstícios da linguagem, nos seus desvios, nas sugestões que irrompem «como uma eternidade que só pode ser revelada no devir, uma paisagem que só aparece no movimento» (Deleuze). «Era isto que era tão difícil de compreender:/ Que tudo acontece uma única vez – e friamente/ Passa por aquele que procurava palavras/ Onde quer que vá, fugazmente de passagem.// Por maior que fosse o quotidiano, por mais tremendamente/ trivial que fosse, ao longo dos caminhos percorridos./ Observa, o mais ínfimo renova-se sem cessar./ Destruição, que também se agita dentro de ti.»
Mesmo que só lhe reste a dúvida, a incerteza, isso basta para suspender por um instante a desaparição do mundo, tratando-se aqui de registar essas passagens ou instantes fugazes que têm o sabor da própria vida, dos seus devires encadeados uns nos outros, coexistindo de algum modo, contagiando-se, abrindo sempre para outros limiares, produzindo aquela vertigem soberba das inversões de sentido, das aberturas inesperadas, permitindo gozar essa indisposição extraordinária, essa revigorante estranheza que o mundo nos causa se admirado de fora. «O seu poema/ Era uma segunda pele, acabada de descascar da rocha», diz-nos referindo-se a Miguel Ângelo, que além de pintar, escrevia sonetos, e «matava os mosquitos de Roma, às dezenas de uma só vez».
‘Pelos confins da sua história’
Este livro que parece uma antologia, é, na verdade, um único volume, extensíssimo, publicado originalmente em 2017, e cheio de percursos e inquirições, atento a figuras marginais, «Sombras de um submundo,/ Notado apenas por intrometidos». São poemas que dão pelo pé branco de mármore, ao lado dos contentores de lixo, ao mesmo tempo que se dão conta de como «Turistas e refugiados crescem em número.» E assim estabelece ordens de relação e simultaneidade decisivas, reconhecendo como a abundância de que se gozou nestas últimas décadas nunca foi outra coisa senão um sinal de crise, enquanto a antiguidade morta ia atraindo a juventude cansada, dando a sensação de que a eternidade pesa mais a cada ano que passa. São poemas que recusam formalizar-se excessivamente, com Grünbein a identificar-se como «um poeta das transições», valendo-se daquela tensão de quem foge «sobre uma linha de feitiçaria na qual ganha a potência do indefinido» (Deleuze). «Todos os seus poemas são aventuras,/ Resultados de pequenas e grandes/ Viragens de tempos que se misturam// Num certo dia – entre dias que se cruzam/ Segundo a dramaturgia de um sonho./ Alguém que diz ‘eu’ como qualquer outro// (Por hábito como qualquer outro) –/ Que se mudou para se surpreender a si mesmo/ Com palavras imprevisíveis, versos,// Que têm a sua própria trajectória./ Alguém que passa na rua por si mesmo/ Sem cumprimentar – e que tem a tendência/ Para fechar os olhos enquanto fala./ Alguém que uma manhã partiu/ Dos jardins fechados da infância.// Um mundo de quartéis, muros, casernas/ De Rostock a Vladivostock,/ Para procurar a sua salvação ao ar livre –// Se é que havia ar livre em algum sítio,/ Na luminosidade profana do poema.// Uma luminosidade ou santidade,/ Uma glória momentânea,/ Convocada contra a diminuição dos sonhos,/ Porque os sonhos também diminuem,/ Quando a parte comercial da vida começa./ Com um nada de linguagem/ O ser humano constrói-se. Não é preciso muito/ Para se afirmar, não é preciso muito./ O ser humano, tão assustadoramente limitado/ Enquanto corpo, com vergonha desde a infância/ Desse corpo, avança com os seus/ Pensamentos no íntimo desconhecidos,/ Pelos confins da sua história.»
Os mortos-vivos da Guerra Fria
Em vez de traçar limites, a poesia de Grünbein esforça-se por transpô-los, cruzar fronteiras, misturar registos, pressionar a realidade sem nunca levar as coisas para lá de um ponto em que o delírio pareça frívolo ou gratuito. A imaginação apenas deve aprofundar ou dilatar a nossa exposição aos detalhes de que a realidade se constrói. Serve-se de uma formulação de Baudelaire para exprimir este pacto: «As palavras contêm um núcleo sagrado que nos proíbe de brincar com elas. Usar a linguagem com arte é praticar magia verbal.» Ele livra-se dos elementos excessivamente formais que da poesia não fazem mais que uma ocupação cerimoniosa, e não perde tempo com os registos da poesia mais convencional, considerando que esta contém pouco mais do que entulho, sendo que toda aquela pomposidade muitas vezes apenas serve para «barrar a passagem à expressão directa». Para reter o que lhe interessa da tradição poética, a este poeta alemão interessa menos aquele efeito virtuoso da forma do que uma ânsia de «responder ao apelo do exterior, sentindo-se em casa perante o presente despido, tal como no seio de Abraão». «Para quem mantinha a sua confiança na palavra, a comédia inerente em todas as expressões vinha em seu socorro, de toda a parte, e o absurdo era uma consolação», diz-nos no posfácio de Velas de Ignição. Num outro ensaio, ele vinca que «a poesia deve os seus maiores avanços evolutivos a essas almas tempestuosas: errantes, videntes, alquimistas da linguagem, dinamitadores e neuróticos verbais». «Há muitos indícios de que, em períodos de enfraquecimento ou dissolução da subjectividade, a poesia tende a contrair-se até se tornar um acontecimento puramente verbal.»
Ora, no seu compromisso com esse esforço de se ligar ao mundo, este poeta que, vivendo actualmente entre Roma e Berlim, desde os 26 anos tem viajado por toda a parte graças ao crescente prestígio dos seus versos, mostra-se comprometido com esse desejo de espelhar o cruzamento de fronteiras, e não se consegue deixar de ler um livro como este, em que abundam as referências a diferentes cidades, sobretudo europeias, sem captar algo desse espectro da migração que uma vez mais empurra hoje milhões de pessoas que escapam à fome, à perseguição e à guerra, vendo-se forçadas a abandonar as suas raízes, as suas fronteiras, e sendo encaradas com suspeita e até ódio ou medo, por uma Europa que novamente se esquiva às suas responsabilidades e se apressa a erguer novas barreiras.
Esta é uma obra que reconhece como a história é feita de reveses, e apesar da tonalidade subtil e humorística que permeia os poemas, trata-se de uma poesia pouco complacente com o lado mais emotivo ou plangente, preferindo ficar do lado de uma certa precariedade. Grünbein admite que desde cedo foi emergindo uma gramática mais dura, um tom mais frio: «o instrumento adequado para uma inteligência amputada do coração». Num dos seus ensaios exprime o efeito de desorientação e aquele zumbido de fundo através do qual a história sempre se fez sentir na sua vida. «Mal tínhamos sobrevivido à Guerra Fria e já os primeiros sinais dos horrores potenciais de uma era biológica iminente — empenhada em desmontar o ser humano e reduzi-lo a uma grandeza reproduzível, puramente estatística — começavam a surgir no horizonte. A minha geração foi a última a ter assistido conscientemente ao colapso dos grandes sistemas políticos e, desde o início, o nosso lema era: ‘Não te queixes, diz as coisas como são.’ Foi isso que esteve na origem da minha poética do sarcasmo.»
Tendo conhecido Grünbein através da cena teatral de Berlim Leste nos anos 1980, Müller contribuiu decisivamente para o seu sucesso literário no Ocidente, e foi por sua indicação, recomendando-o à Suhrkamp Verlag, que criou as condições para a sua estreia fulgurante, tendo desenvolvido com ele uma amizade que o poeta mais jovem viria mais tarde a comparar à relação de lealdade, confiança e mentoria entre Joyce e Beckett. Grünbein ainda descreve Müller como o último grande «poeta-intelectual». É evidente que o poeta mais velho reconheceu nele um sucessor, e numa das suas últimas aparições em público, celebrou-o ao assinalar como «no poema de Durs Grünbein, a experiência de uma geração encontrou a sua forma — uma experiência que, até aqui, se exprimira sobretudo como recusa da forma. É a geração dos mortos-vivos da Guerra Fria, já incapaz de compreender a história por via de uma ideologia que desse sentido ao sem-sentido, e reduzida agora apenas a reconhecê-lo como tal: sem sentido. As imagens mudam, mas a alienação persiste. Esta geração não tem pátria nem língua materna. Para ela, Bertolt Brecht tinha razão quando dizia: «‘As situações são as mães dos homens’. […] Depois do desaparecimento das mães, segue-se o trauma do segundo nascimento. A perda de si no espelho, ou antes, a sua fragmentação em estilhaços de espelho, que o eu pode usar como revestimento de paredes ou para cortar os pulsos. O verso ‘E o que vi era mais do que podia suportar’ exprime esse trauma. […] Trata-se de um olhar sem pálpebras.»