sexta-feira, 17 abr. 2026

Do neolítico ao futuro, entre camponeses e poetas

Ao arrepio das versões mais idílicas ou açucaradas, o poeta e ensaísta Rui Lage traça na antologia Adeus, Campos Felizes um retrato impiedoso do mundo rural, marcado por carências, doenças e desumanidades várias. ‘Sob o reboco do pitoresco e do folclorismo, jazia um campo atrasado, ensimesmado, analfabeto e pauperizado’.
Do neolítico ao futuro, entre camponeses e poetas

Tão fraca é a ideia que sempre fez de si mesmo este país, que, muitas vezes, parece que disso se serviu para recusar qualquer inspecção, ou sequer levantar o olhar para se mirar no espelho, mesmo que para um cumprimento vago, um sinal de reconhecimento ou de triste cumplicidade. Essa curiosidade mínima que tem qualquer coisa viva para consigo mesma. Isso explica como, às tantas, quando enfim a vista se alevanta, o reflexo nos sacode, quase nos esmurra e nos deixa estarrecidos pela distância a que estávamos dele. A certa altura, nas páginas finais do volume Adeus, Campos Felizes – antologia do campo na poesia portuguesa do século XIII ao século XXI, a meio do posfácio de Rui Lage, fica claro que se nos reservou para depois dos versos o verdadeiro confronto com a dureza da realidade campesina que durante séculos esmagou gerações umas atrás de outras neste país. Um médico envolvido nas Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do CODICE, prestou à antropóloga Sónia Vespeira de Almeida o seu testemunho, um dos tantos por ela compilados dos intervenientes ligados ao Movimento das Forças Armadas, no período que se seguiu à revolução. Vale a pena interrompermo-nos, recuarmos até esse reflexo… «Um país do terceiro mundo. Mas muito do terceiro mundo. Posso-lhe dizer que doenças erradicadas no início do século [XX] eu vi-as, o que para a minha formação técnica foi bom, mas ao mesmo tempo foi negativo. São situações que não deveriam existir: tétanos com fartura lá em cima em Trás-os-Montes. Uma prática que era usual naquela região era, nas feridas, pôr bosta de boi. Isto é inconcebível! Vi doenças, como desproteinizações graves como se via no Biafra, porque em vez de darem leite às criancinhas, o leite era para alimentar os bezerros, e às criancinhas davam-se sopas de vinho e biberões com vinho branco, como eu vi em bebés. Lembro de ver miúdos com cirroses hepáticas alcoólicas com três anos. Vi coisas indescritíveis pelo atraso [...]. Certas doenças, como a lepra que só existe em sociedades muito atrasadas, não é? Pontualmente pode haver casos de contacto, mas fora disso isso significava falta de higiene e eu vi casos, vi na Beira [...]. As campanhas serviram para constatar o atraso em que o país se encontrava. Estávamos a uma grande distância da ‘Europa civilizada’, sobretudo o interior do país».

Noutro impressivo recorte, Lage remete-nos para um ensaio saído a 13 de junho de 1974, nas páginas da The New York Review of Books, em que o historiador britânico Kenneth Maxwell reflecte sobre a Revolução de Abril, notando a certa altura que «os níveis de produção agrícola são excepcionalmente baixos em Portugal: as colheitas de trigo são de metade da média europeia, as do arroz três vezes inferiores e as de cevada quatro vezes [...]. Quando viajei através de Portugal, nas semanas anteriores ao golpe, uma grande parte da província parecia ter sido visitada pela praga bubónica. Havia povoações inteiras moribundas, estradas desertas e campos abandonados».

Rui Lage sinaliza a forma como o Estado Novo propagandeou com sucesso durante quase meio século uma forma de telurismo ideológico, cujos ecos se fizeram sentir nas artes, da pintura ao cinema, passando pela literatura. «A ditadura exaltava a ‘beleza patriarcal’ das aldeias, povoadas de rústicos obsequiosos e felizes, gratos por serem pobres, porque serem pobres significava que viviam investidos de autenticidade, bondade e harmonia, numa espécie de Éden agrícola. A pobreza e o trabalho penitencial aprimorava-lhes o carácter. Sob o reboco do pitoresco e do folclorismo, que o clero e os caciques mantinham fresco, jazia um campo atrasado, ensimesmado, analfabeto e pauperizado.»

Assim, a sublimação poética e a estetização do campo funcionaram para uma espécie de complô ou álibi, uma operação estatal em que se ocultava aquelas gerações sujeitas a condições de exploração e desumanização, sendo muitas vezes necessário operar um exercício de exumação desse passado secreto, escondido, uma vez que esta realidade deixou uma série de elementos arqueológicos que estão aí como gritos sepultados, mas que mantêm em si um ânimo assombroso. Como refere o antropólogo James Suzman, «os cemitérios de todas as civilizações agrícolas até à revolução industrial contam a mesma história de carências nutricionais crónicas, de anemia, de episódios de fome e deformações ósseas resultantes de um trabalho repetitivo e penoso [...]. Durante os períodos de penúria alimentar, crianças e adultos deitavam-se frequentemente de estômago vazio, e todos perdiam gordura e músculo». O trabalho era tão duro, tão inclemente, adianta Lage, «a mão-de-obra tão escassa», que a única solução evidente, para a maioria dos agricultores, era procriar. «Para os países dependentes do minifúndio e da agricultura de subsistência era o caso da Europa do Sul e da bacia do Mediterrâneo condições persistiriam muito para além da Revolução Industrial.»

Rui Lage nota que, em finais dos anos 80, no nordeste transmontano, «ainda era possível ver lavrar a terra com o arado de pau inventado, há três mil anos, pelos sumérios; como era possível ver cozer o centeio no forno comunitário.» «O Neolítico exalava o último suspiro. A sua lápide simbólica é o muro da barragem de Vilarinho das Furnas, que, em 1971, submergiu uma aldeia de trezentos habitantes nas águas do Rio Homem, numa rara coincidência do alegórico e do real. Miguel Torga compôs o requiem que se impunha», acrescenta Lage: «Mas, de repente, um muro de cimento/Interrompeu o canto/ De um rio que corria/ Nos ouvidos de todos./ E um Letes de silêncio represado/ Cobre de esquecimento/ Esse mundo sagrado/ Onde a vida era um rito demorado/ E a morte um segundo nascimento.»

A revolução acabou por significar um breve momento de ruptura e confronto com a realidade campesina que até ali fora ocultada. O responsável pelo departamento de agricultura na Comissão Dinamizadora Central (CODICE), a estrutura das Forças Armadas incumbida de cimentar a aliança entre o povo e o MFA, pintou o seguinte retrato de um conjunto de aldeias da Beira Alta: «era a miséria na sua forma mais desumana. Um domínio psicológico total da Igreja, havia uma subjugação física e psicológica das pessoas, falta de infraestruturas a todo o nível, a falta de eletricidade, a falta de caminhos, a falta de água, a água não tratada, o analfabetismo, esta conjugação, era de facto algo atroz [...]. Eram situações de tal ordem desumanas que não era possível escamotear, não era possível admitir que existissem neste século».

Mas passados apenas uns anos, como nota Lage, «esfriado o ardor revolucionário, desvitalizado o modelo colectivista da reforma agrária com as Reformas Barreto (1977), consumada a entrada na CEE e a integração na Política Agrícola Comum, esvaziadas as aldeias, que campo restava aos poetas para cantar?»

Isto serve de impulso, para nos lembrar que é preciso seguir o mundo para lá do degradado arrabalde, onde se dá pelos desintegrados sinais dessas vidas mais difíceis de soletrar, linhagens desfeitas na poeira, os mil despojos de territórios com a exacta vastidão do esquecimento. Mas no intuito de percorrer esses confins de pó, quem nos pode guiar, quem saberá falar a língua dos que se habituaram a falar baixo e o menos possível para não acordar a fome, e que talvez desconfiassem das palavras, por estas nunca lhes terem feito grande diferença? Séculos de vida amarga, de frente para a inclemência do que se perde no fundo tempo; vidas a soluçar pela raiz, com a deplorável sensação de se agastarem na luta contra um pedaço de terra árdua, ingrata. Nalguns lugares os mortos pesam mais do que os vivos, ouve-se o zumbido daquela ressaca presa à terra. E se dissermos como só restam por ali esses sete palmos de terra, junto aos instrumentos que ilustram a terrível inocência da resignação, a vontade consumida em pó, tudo o que nos fala do esforço para sobreviver, enquanto a terra dava à luz as suas entranhas, talvez tenhamos dito o mais que podíamos. Pois se não há destino nem motivo épico que dê sentido a isto, poderá um vómito tardio modelar o verso de modo a ser fiel àquela opressão?

Rui Lage sentiu a necessidade de colmatar essa falha, pois como justificar, “num país onde tudo tem servido de pretexto para antologias”, que não houvesse uma que recolhesse os versos tentando lidar com a nossa mais incerimoniosa tradição? Talvez por isso, por uma suspeita de inconsequência, por ser claro que se denunciaria tratando o assunto tão por extenso, cumulando-o. Já que, desde as pastorelas medievais aos embalos de ficção temática dos poetas estreados já neste século, muitas vezes é nestes confrontos que mais fica claro a contradição entre o tempo que passa e não aceita ser domesticado e essa versão da eternidade que apenas perdura como ociosa ficção, incapaz de transmitir os rumos dessas vidas que crescem e definham nas províncias cruentas do esquecimento, cuja carne tem demasiada familiaridade com a poeira e a dispersão, e que habitam a rigidez de um tempo sem história, tecendo e destecendo o mesmo, aprendendo a linguagem dessas coisas de solidão e de infinito.

Com mais este esforço antológico, o poeta e ensaísta faz alguma coisa para nos enredar nesses lugares por onde anda a monte, sem prece que o alcance, e a coçar-se contra tudo o deus dos secretos, senhor de vidas inesperadas, que não quadram, não encontram rima neste mundo, mas são contíguas a desertos, serras floridas, e mato agreste, afiados instintos de tanto dar caça a bichos difíceis de explicar, enumerar, armar ciladas aos pássaros, naças aos peixes no mais fundo rio, pescarias ali onde o rio faz d’água uma mansa colheita, e às vezes distraídas num gesto mais largo, a molhar n’água amara, e compelidas a recolher a roxa tarde e breve, depois servem-se da capela abandonada como despensa, usam os santos quebrados para esfacelar a carne. Chamam casa a estes lugares que começam onde se chama campo ao que mais ninguém quis. Tudo saqueado, vendido, traído, tudo roído por uma angústia esfomeada. “Vês o tempo como foge/ que parece que não toca?”

O campo surge-nos hoje entre os seus restos, ruínas, elementos devastados, e as suas fantasmagorias, sendo ao mesmo tempo idealizado ou desdenhado em variações mais ou menos inócuas, inábeis entre aquela gramática da nostalgia e um luto inconsequente, nunca levado até ao fim. Raras vezes se sinaliza a indigestão, o pesadelo do passado, pois se “gerações após gerações aí nasciam, penavam e pereciam no anonimato e no isolamento mais cru”, como assinala Rui Lage, persiste um anseio de reconfigurar o apelo bucólico, certas virtudes de purificação pastoril, ao mesmo tempo que se pressente como o corte com o imaginário rural significou uma forma de profundo desenraizamento, alienação, abalando um vínculo decisivo com o mundo, com certas práticas ancestrais, um vasto repertório de rituais, tradições e práticas, de laços religiosos, de elementos místicos ou de superstições, saberes antigos, enquanto, nos nossos dias os homens são cada vez mais seres à deriva, desligados do lugar, incapazes de se situarem... “Hoje, não há mais mundo/ de que uma pessoa possa retirar-se./ O mundo se retirou de nós”, como escreve Jorge Sena.

«A vida camponesa é uma vida inteiramente votada à sobrevivência”, escreveu John Berger no ensaio que serve como abertura da trilogia Into Their Labours, uma série de narrativas breves, contos ou vinhetas atravessadas por momentos ensaísticos, reflexões e descrições em que acompanha, com um escrúpulo quase etnográfico, mas sempre num registo literariamente tenso, a desagregação do mundo camponês europeu, sobretudo nas regiões alpinas, fixando não apenas formas de vida em desaparecimento, mas também os resíduos de uma experiência histórica que resiste a ser absorvida pela narrativa do progresso. «Descartar a experiência camponesa como algo pertencente ao passado e irrelevante para a vida moderna; imaginar que os milhares de anos de cultura camponesa não deixam qualquer herança para o futuro, apenas porque raramente assumiram a forma de objectos duradouros; continuar a sustentar, como tem acontecido durante séculos, que se trata de algo marginal à civilização — tudo isto equivale a negar o valor de demasiada história e de demasiadas vidas. Não se pode riscar uma parte da história como quem traça uma linha sobre uma conta saldada.» A perda da cultura rural é tão significativa quanto o incêndio da Biblioteca de Alexandria, concluiria anos mais tarde o escritor espanhol Luis Landero.

Assim sendo, o problema é então mais profundo, pois como se pode fazer deste tempo ou de outro qualquer alguma coisa que se sinta, que de si possa fazer exemplo, deixar algo que penetre com um perfume apenas seu esses esforços de memória? «Correm os nossos tempos de maneira,/ Antes no mal parece que estão quedos,/ por mais que mude o sol sua carreira,/ Tantos os males são, tantos os medos,/ Que não há vale cá, não há ribeira,/ Por onde soem já cantares ledos;/ Dos tristes ouvi esses, entretanto/ Dará o céu matéria a melhor canto.»

Há tanto tempo já que não cantamos seja o que for, o canto deixou de nos ser natural, uma compulsão de superar o acento áspero, indiferente dos dias, sem o apoio de harmonias, e alguns por falta de orientações, viram-se para os poetas, e estes, pior que as silvas, têm só esta estratégia de viverem virados para si mesmos, fazendo o seu, como quem oferece caução, sem levantar ondas, contando que se insista nesse triste enredo que foi o da eternidade, como se disso tivessem notícias mais do que as enfermidades de retardo que nos servem de quotidiano. “O vosso Tejo vai de sangue tinto./ Tal vai o nosso Douro, tal o Lima,/ E vão ainda pior do que te pinto./ Aquele que mais pode não estima/ Entrar por onde quer, saqueia tudo,/ O fogo traz na mão, a maça e a lima./ O dono do curral há-de ser mudo,/ Se não quer, em soltando uma só fala,/ Provar com dano seu, seu aço agudo.”

Só vagos ventos sem origem nem nenhuma espécie de sentido andam pelos fundos da língua, a fazer que vivam antigas imagens, muito repetidas, muito usadas para ajudar a despertar fantasmas um pouco mais doces, como o dessa Leanor descalça, que vai pela verdura até à fonte e… “A talha leva pedrada,/ pucarinho de feição,/ sai de cor de limão,/ beatilha soqueixada; cantando de madrugada,/ pisa as flores na verdura:/ Vai fermosa e não segura.”

O campo hoje é mais um enredo que o ouvido capta escutando os ecos na sua intimidade ajeitados a modos bravios fazendo por se reproduzirem. “O maravilhoso move-se tão próximo/ das casas sujas e decrépitas…” E o que temos nós ainda de ligação com isto, ainda somos capazes com o nosso peso de assentá-lo em qualquer pegada que faça florescer a verdura?

Somos vistos lá onde o tempo se faz outro de tão longe, e temos alguma semelhança muito lavada com esses de olhos castanhos, a tez soleada, a fala cantada de só saber das coisas o recorte emprestado pelo ar. Outros ouvirão falar de um país esquecido, entregue à sua bárbara implosão, num mundo entregue ao desaire de envelhecer, enrijar, ossificar-se sem mais distracção que a própria destruição… Essa é a sua musa, e desperta nele uma intenção terrível, a de um mundo que deita um olhar envilecido a tudo o que de fora só vem para roubar-lhe a paz, incomodá-lo.

Os que eram daqui, de tanto se desfazerem contra os trabalhos ordinários que aos demais serviam de ilustração, impulsos para que a lira se entregasse às suas perras entoações, tão fartos de terra, de séculos sentindo os ossos lentamente esmagados contra ela, com vergões e cicatrizes herdadas na pele, e nenhum entusiasmo por esses nomes que a nós nos sabem a mel e cheiram a madressilva, mal se puderam ver livres de tudo isto, deram cabo dela e de tudo o que lhes lembrasse, nesse crime passional de que fala Rui Lage.

Numa intervenção anterior (Portugal Possível, 2022) sobre este mesmo tema, Lage havia já vincado que se o campo morreu foi porque «a miséria a que dava corpo, a imobilidade social e as velhas hierarquias de servidão e subserviência não eram mais suportáveis». «E morreu porque se desaprenderam ou se tornaram inúteis os saberes que permitiam extrair dele o magro e amargo sustento. E finalmente morreu por vingança inconsciente dos que nele penaram – ou viram os pais e os avós penarem – trabalhos que animalizavam. Para esses, o colmo e o estrume dos estábulos, a latrina improvisada num canto da eira, eram reminiscências do purgatório. Era preciso sair desse Portugal impossível. Os que não saíram tornaram-no irreconhecível: atiraram-lhe com ácido; ou com melaço. A morte do campo foi um crime passional.»

Preferem-lhe tudo o que sirva para enforcar a vista, essas grandes casas, edifícios que fecham a vista, escondem o horizonte, empurram o olhar para longe de todo o céu, fartos-fartos da terra, das infinitas extensões que lhes causavam vertigem pois só viam o imenso trabalho que tudo isso lhes dava.

Se nós vamos ao campo em passeio, gozar do prazer de ver a terra presa aos astros, alguns vêem a ígnea tela bárbara de espanto, conhecem os infinitos cansaços de “um povo que vivia a suicidar-se, arando a terra, abrindo a derradeira cama”. Esse povo que hoje nos custa reconhecer como a nossa mais funda tradição, povo para quem o trigo é pão em flor, povo para quem a verdadeira flor era o pão. E é deles sobre nós que sentimos assentarem como uma esparsa maldição esses olhos rasos de um espanto podre, vozes misturadas ao silêncio, um engolir a seco nas serras onde irá a enterrar por estes dias o último pastor… Lugares à morte entregues todo-ouvidos. Esta a corografia que se apropriará dos nossos restos, o país das “cabras e carrascos”… “É no teu chão dorido/ Que gasto, em paz, os cascos/ Deu fauno envelhecido…” Escreva-se o requiem, então, sendo certo que de nós nada irá notar-se que não comece ali, que se esboce entre aquela névoa: “A morte/ em flor/ dos camponeses/ tão chegados à terra/ que são folhas/ e ervas de nada/ passa no vento/ e eu julgo ouvir/ ao longe/ nos recessos da névoa/ os animais feridos/ do Início.”

Tão poucas páginas daquilo que se resgata nas antologias fazem ferida como esta. Um pó que soa, um brilho que nos chama para a infinidade dessas noites em que não havia mais que acumular o resíduo de estrelas, vê-lo pairar, como uma essência estranha àquela terra que se fazia sentir com a sua imensidão nos corpos, o peso deles também a decompor-se, sem dar notícia, nesse pouco som enfrentando os currais sem gado que ruíram de pobreza.

O sofrimento é a única história, mas desta talvez só o musgo dê, “em seu discurso esquivo de água e indiferença, alguma ideia disto”. E, por isso, neste tempo que é sempre depois, só nos resta passar por lá em prosa, para não nos entregarmos a essa inane torpeza de quem canta seja o que for, e se põe a soprar aos pés de um enforcado a ver se o faz balouçar… O enforcado de quem ainda alguns têm muita vergonha… “No gesto suspensivo de um sobreiro,/ o enforcado.// Badalo que ninguém ouve,/ espantalho que ninguém vê,/ suas botas recusam o chão que o rejeitou.// Dele sobra o cajado.”

E de toda aquela história resta o quê? Além da dúvida de um tempo incerto, sem ciclos, sem estações sequer, os campos tão sós… “Tão longe/ dos homens, as largas plantações, ermos/ sem lar, sem fumos, sequer sem espectros/ dos antigos habitantes vivos.”

Aos poucos o bucolismo já não aguenta canto seja de que espécie for, morrem as espécies e só se gera já “crias das bestas e dos homens”, um hálito desolador e “oposto ao antigo sopro do Génesis; que gera/ criaturas como se meramente simulasse/ a vida. E a paisagem torna-se aparência,/ semente simulacro e armadilha”. Teremos, então, de nos contar não tanto com os resíduos de estrelas, que já quase não se vêem, mas com os resíduos do campo: “É o oco interior de alguns/ quintais. O bailado surdo/ e brusco das asas/ da galinha./ A caleira podre aonde/ chora um pingo/ – o derradeiro.// É o mundo minúsculo/ dos canteiros; a vida/ nos degraus da planta; a sesta/ de uma gata que por acaso/ insiste em ser novelo.// É este chão cinzento./ A carne entumescida das paredes./ As espinhas reunidas/ do que foi um peixe.// E as armas toscas de matar/ o tempo: colheres, comida, insectos que tentam/ (ao menos) um mundo/ irrequieto./ É a noite que tem as mãos/ suspensas sobre um alguidar/aonde bóia o dia/ pequeno/ de todas as crianças.// Em certas casas constroem-se/ filhos: a música suave/ que se ouve nas camas./ Resíduos da canção/ a única/ que este povo/ ainda sabe/ e canta.”

Mas, entretanto, se a natureza só é vista em trânsito, cada vez mais embaraçada, a vida cedeu toda ela a um comércio passageiro, e se antes Deus se pagava com o seu próprio dinheiro (lombarda, vinho, feijão-verde e batata nova entre outras espécies), agora parece que a própria vida lírica está inteiramente nos velhos, os que tendo memória de outro mundo, estão invadidos de um infinita suspeita, e tossem, conspiram contra este com uma militância certamente desencantada, mas talvez já só haja algum encanto em ser contra. “Sempre se busca alguma espécie de/ mortal eternidade e a escolha/ da terra é a melhor// forma de amar um tempo destinado/ a mostrar que a linguagem por mais/ ninguém usada// como poesia/ o mortal corpo de quem/ a usou há-de por fim dilacerar”.

De resto, que resta? Talvez já só esse resíduo de alvoroço, andar para trás e recompor com toda a dificuldade uma pequena porção de toda aquela dor, emocionar-se diante de algo como um arado, que hoje adquire as feições de um passado remoto, mais parecendo o seu esqueleto. E contra a tecnologia toda que se alimenta de nós, espantar-se diante desse ser já sem mundo… “A mecânica do arado é rudimentar,/ clarividente e sóbria. Nada tem/ em demasia: o que a função requer/ e nada mais.// No perfil eficiente do arado/ há qualquer coisa de navalha, qualquer coisa/ de falo em riste, em transe de fecundar.// de facto, noutros tempos,/ era o arado que rasgava a terra,/ fazia dela um ventre aconchegado –/ cenário certo para o deflagrar da vida/ que vai dentro das sementes.// isto foi no tempo em que havia agricultura/ nos gestos quotidianos dos homens/ e das mulheres.”

Agora, o campo na linguagem parece também ele algo que se trafica na sua versão transgénica. Vemos aquele talento para combinar os termos e favorecer um apelo rústico, na poesia como na gastronomia ou nos empreendimentos de turismo-rural… Os poemas dos nossos neo-bucólicos, estão cheios de tojo, restolho e urze, giestas, estalidos, de folhas secas, água a correr, das vozes distantes que chamam dos quintais, e das “casinhas/ com papás, vovós e manos, talvez/ com uma sentida perda/ de um talher à mesa e uma/ horta, couves, alfaces, a doméstica/ economia dos quintalórios/ com um cão cativo a ladrar/ à sina e à honestidade das batatas/ que as mães ou avós ainda esmagam/ na sopa com uns pingos de azeite e/ enfado. Pequeno país do/ gasóleo e futebol, memórias/ de mercados e feiras buliçosas,/ de escolinhas rústicas, agora desertas,/ com a cruz e os presidentes na parede,/ pequeno país de bravia/ palavra, sofrida crueza/ de mato ardido e estrumes, sucatas,/ detritos, o hábito endurecido dos/ pequenos holocaustos/ diários.”

E para que mais queremos o espaço, a terra, o país propriamente, esse que serve de luxo de passagem, com todas essas aldeias com abismos e alguma ribeira ao fundo. Carbonizadas aldeias que parece que se deitaram para sempre, e estão por aí como ruínas de embalar, “como se nenhum de nós conseguisse entrar nesse obscuro mundo de leis e direcções invisíveis”. E olhamos para tudo isso e aqueles que lhe escaparam de algum modo talvez se sintam como se reconfortados, como se não pudesse mesmo haver volta, e não quisessem daquele mundo outra coisa além desse “mecanismo triste/ movendo a boca breve”.

O fogo talvez seja a última honestidade de que somos capazes. Talvez, de algum modo, nós sejamos toda a destruição que sonharam e convocaram essas tantas gerações que ali no campo “nasciam, penavam e pereciam no anonimato e no isolamento mais cru”, como nos diz Rui Lage. “A luta pelo pão de cada dia exauria a força vital, conduzida para o braço que fazia descer a enxada e o mangual, que pilotava o arado, que cegava as espigas no braseiro do estio e tocava o gado pelos montes. Do berço à cova, a existência do camponês compunha-se de agruras e privações inumeráveis. Ninguém disse tal condição em verso tão cortante quanto Gil Vicente, pela voz do lavrador da Barca do Purgatório (1518): ‘Sempre é morto quem do arado/ há-de viver’. Afinal, nesse auto medial da trilogia das barcas, o Lavrador anuncia-se ao Anjo não como debutante da morte, mas como seu veterano: ‘Da morte venho eu cansado’. Séculos a fio, o adeus aos campos infelizes foi um gesto vedado. A aldeia fazia as vezes de um cativeiro sem grades.”

Na mais decisiva intervenção para desencadear um ajuste de contas com este nosso passado com o qual raramente nos confrontamos, e que está ainda em grande medida por reconhecer, por dele verem ser retiradas consequências seja em termos de esclarecimento histórico, social ou político, Rui Lage consegue, num longo ensaio que surge à laia de posfácio a esta antologia firmar o ponto alto, e ali quase inerme, um texto que gera uma perturbação maior que as tantas páginas anteriores, transmitindo uma visão de tal modo crítica que merece ser recortada e destacada, chegando ao ponto de denunciar como a literatura esteve enredada numa efabulação da vida campesina, participando nessa forma de encobrimento ou sublimação, com cenas pastorais em que o sofrimento é transfigurado em ritmo, em cadência, sustentando até concepções idílicas ao mesmo tempo que, por trás desse reposteiro, durante séculos a fio, viveram gerações entregues à miséria mais abjecta, a uma infelicidade vedada. “Até meados do século XX”, nota Lage, “a fome nos campos era endémica”. E endémicas eram também diversas moléstias, como o paludismo e a varíola. Nos piores anos agrícolas, a fome conspirava com as epidemias para abater malnutridos. A guerra, com o seu morticínio, as suas rapinas e depravações, trazia uma devastação peculiar às aldeias.”

Uma das raras excepções, um dos poucos escritores a cortar com esta intrujice que precedia a ditadura, e que esta apenas soube preservar para bem da cantilena que servia aos seus fins, foi Raul Brandão, que, no seu contributo para o número inaugural da Seara Nova, em 1921, esclarecia sobre essa incómoda realidade que poucos ousavam desvelar: «a aldeia que eu conheço é uma aldeia trágica. A Aldeia de Júlio Dinis nunca existiu [...]. O homem do campo não tem pão para todo o ano e são raros os que passam de caldo e pão. Tenho entrado em muitas destas casas: são pocilgas com enxergas podres». O tropel de miseráveis que diariamente desfilava na Nespereira – e que ninguém resgatava – levou Raul Brandão a escrever que «este mundo em que vivemos é uma mentira monstruosa». Rui Lage sublinha que “não haverá muitas composições literárias do século XX a ombrear com esta integridade e crueza representacionais, esta intransigência com o embelezamento e com o gesto alegorizante”. Mas aquele que passou além da denúncia e se mostrou de forma mais decisiva comprometida com um retrato veraz, duro e justificadamente cruel da realidade campesina foi Aquilino Ribeiro. “Foi ele que, na ficção portuguesa, trespassou a barreira que na poesia havia de perdurar por mais de 50 anos. Como notou Alfredo Margarido, num artigo de 1985, foi Aquilino que ‘deu ao mundo rural e aos camponeses a credibilidade literária que até então lhes faltara ou lhes fora recusada’, uma vez que ‘a literatura portuguesa, como todas as mais literaturas europeias, recusara durante muito tempo a existência simbólica dos camponeses, que constituíam todavia o grupo social principal’”. Ora, Rui Lage não tem pejo em assinalar que nos faltou na poesia uma presença tão decisiva como Aquilino o foi para romper com este embuste. Lage adianta que remonta ao período clássico aquele modo de enlevo em que, “na sua compleição primaveril, tecido de amenidades e propenso à floração”, nos surge o campo como “décor do jogo amatório, para o erotismo subliminal de uma arte palaciana como era a dos trovadores”. “Na Antiguidade Clássica, o lirismo pastoral era de proveniência difusa, provavelmente ligada a despiques cantados por pastores nas terras altas da Sicília. Os modelos foram, no seu núcleo duro, Teócrito – que chamuscou de ironia os seus idílios rústicos sicilianos – e Virgílio, que inventa o ideal da Arcádia como pátria mesma da poesia, uma utopia quietista da contemplação vagarosa, um refúgio ameno, vibrante de graça e beleza, um país espiritual.” Com aquele espírito seguidista que determinou que a arte procedesse durante séculos por vagarosos impulsos imitativos, em que o génio se exprimia mais no balanço formal do que nas visões e representações, Francisco Sá de Miranda, um dos nossos maiorais, séculos depois, numa das suas epístolas, ainda submetia aquela gente a um reverso da vida em sociedade, alegorizando a vida no campo para dali extrair essa margem de pureza face ao desconcerto do mundo, dizendo que os camponeses têm trato com a “madre antiga”, são uma espécie de procuradores adâmicos a laborar uma terra que ainda rescende ao génesis, untados de “santos úberes”. E Lage esclarece que “esse comungar físico, orgânico, da obra divina, confere-lhes uma vantagem expiatória sobre os demais mortais, predestinando-os para a salvação. O seu sacrifício é prazenteiro, o seu esforço, um contentamento uma oblação ao divino. A existência cruenta do cavador, a natureza repetitiva e alienante do seu manejo, só aparecerá muito mais tarde, com Pascoaes, Afonso Duarte ou Jaime Cortesão. Nas suas Memórias, Raul Brandão dirá do cavador que ‘desde que nasce até que morre, repete os mesmos gestos sob a vacuidade dos céus’.”

Quanto aos nossos dias, e sem chegar a apontar nomes, Lage diz-nos que «algumas boas almas pós-românticas identificam na miséria de antanho um equilíbrio ecológico perdido e o molde de um comunitarismo edulcorado, a reactivar». E logo acrescenta: «É certo que a separação da natureza não traz apenas a marca de uma mutação antropológica induzida pela tecnologia ou por factores socioeconómicos, mas também, na nossa época, a marca da delapidação dos recursos e da conspurcação ambiental. Com a predação ilimitada da biosfera, extingue-se a possibilidade mesma do canto, como em Fiama Hasse Pais Brandão, quando nos diz que o ‘grande Minotauro hoje chama-se Chernobyl’ e que ‘o bucolismo deixará de ser um canto, / pois a flauta cala o seu trilo de esperança’.»

Se alguns poetas mais recentes, como Inês Lourenço, José Miguel Silva ou, umas décadas antes, José Gomes Ferreira, «primam pela indocilidade com que aparam as sebes mortas da tradição lírica», outros terão «arriscado a recauchutagem da écloga» enquanto forma capaz de falar ao presente e até de falar ao futuro. Lage dá-nos o exemplo de Afonso Lopes Vieira, mas com uma certa força de desagregação subversora do modelo, esta mesma opção se aplica ao extraordinário tríptico que o próprio antologiador assinou, com Um Arraial Português (2011), Rio Torto (2014) e Estrada Nacional (2016).

Para a maioria dos citadinos o campo não deve sobreviver senão enquanto paisagem, um vestígio alinhado com aquele “decorativismo bucólico”, que, como nos diz Lage, sobrevive no design dos habitáculos do turismo rural, e não é mais que um simulacro do saloio. «Abancados no pomar ou nos vinhedos, os nómadas digitais comerciam metadados de laptop ao colo, jogam na bolsa ou compram activos imobiliários em qualquer cidade do mundo. No outro extremo, surgem novas realidades de exploração como a dos trabalhadores sazonais, mercadejados por máfias para penarem nas estufas dos frutos vermelhos ou na apanha da maçã. A miséria dos nossos antepassados campesinos reencarna hoje nesse enxame de estrangeiros sem os quais muitas colheitas ficariam por fazer». Assim, se a urbanização da nossa espécie é um fenómeno encarado como natural e inexorável, no futuro que se desenha, a terra servirá para fornecer esse negativo das cidades, uma extensão bucólica, automatizada e vazia. Este processo prevê, portanto, e até com um certo alívio, a iminente extinção dessa figura ancestral – o camponês. Hoje, ligeiramente adulterada entre nós (o campónio), a palavra é usada como insulto, num sinal de crescente desprezo, à medida que os camponeses são encarados como embaraçosos vestígios de épocas que muitos prefeririam apagar da memória, sendo os seus traços e saberes tidos como retrógrados, formulações avessas ao “progresso”. Quer à direita, quer à esquerda, os pensadores ocidentais ensinaram que, para se tornar moderna, a sociedade deveria livrar-se dos camponeses. Enquanto Adam Smith antecipava que estes dariam lugar aos proprietários de terras (pois assim “a terra… seria muito melhor aproveitada”), Karl Marx previa a sua substituição pela gestão moderna socialista. Considerava-se garantido que a agricultura acabaria por ser monopolizada por grandes capitais e maquinaria, e que as cidades absorveriam a maioria da população humana. No entanto, Berger sustenta que o campesinato se revelou bem mais resistente do que se pensava. «O camponês sobreviveu muito mais tempo do que se previa. Mas, nos últimos 20 anos, o capital monopolista, através das suas corporações multinacionais, criou a nova estrutura altamente lucrativa, a agroindústria, pela qual controla não necessariamente a produção, mas o mercado de insumos e produtos agrícolas, bem como o processamento, embalamento e venda de todo o tipo de géneros alimentícios.»

Hoje, o campo europeu encontra-se nas mãos de grandes proprietários. A política agrícola comum favoreceu a agricultura industrial e intensiva em detrimento dos pequenos produtores, que vêem as suas margens de lucro encolher. «A golpes de empreendedorismo e engenho tecnológico, singra o abacate no Alentejo, singra o mirtilo para abastecer o norte da Europa, singra o arando e o kiwi, singram os morangos biodinâmicos e o amendoal superintensivo», assinala Lage. Mas se, como ele reconhece, a poesia portuguesa contemporânea fez pouco caso do declínio ou das mutações do mundo rural, e, uma vez esgotada a jazida do bucolismo, extraviado o éthos pastoral, passou-se a deplorar a perda do campo, cabendo este no registo elegíaco, assinalando-se a sua sobrevivência espectral no «oco interior de alguns quintais», ou residual, nas hortas, seria talvez uma intuição decisiva reconhecer o paralelo que pode ser traçado entre o camponês e o poeta. Pois também este é uma espécie de sobrevivente, entregue a uma disciplina que se furta aos imperativos da eficácia produtiva, do lucro, e, nesse labor silencioso, quase clandestino, tece e prolonga mundos internos, mantendo vivos modos de ver e sentir que a cidade considera irrelevantes, anacrónicos. Há uma proximidade entre os cultivos que respeitam os ciclos naturais, e esse modo de cultivar a atenção e a paciência, demorar-se nos prazeres da memória. Saber que se tem um corpo humano para andar pela terra, compreender como mesmo depois do gesto, temos unhas que crescem na noite, na morte. Pode-se apreciar as vastas enciclopédias e os livros de história natural, dedicar-se a laboriosas ninharias, a algum insano herbário de metáforas e argúcias, da mesma forma que alguns se entregam a um pedaço de terra, cultivando-o, procurando essa simetria de gestos ordenados ciclicamente, capazes de nos pôr na maior proximidade com os nossos antepassados, os nossos mortos. No abandono crescente da terra e da língua, no desaparecimento do cuidado quotidiano com sementes, animais, rituais e tradições, reconhece-se a mesma perda. A erosão de um corpo de saber que prolongava a história universal e experiência do homem, essa inteligência capaz de preservar e obter variações dessas encadeadoras metáforas vivas e interpretações do mundo. Os astros e os homens voltam ciclicamente. Tudo depende de minuciosos rumos, de uma assombrada vigília. Descartar a experiência camponesa como irrelevante significa negar uma parte demasiado larga e profunda da história, diz-nos Berger. «A continuidade dessa experiência adquire hoje uma urgência nova. As forças que eliminam o campesinato contradizem as promessas do progresso: a produtividade não elimina a escassez, o conhecimento não garante democracia, o lazer não traz realização, a unificação do mundo não trouxe paz.» Com uma existência inteiramente devotada à sobrevivência, o camponês sabe o que nos espera, e se há uma dimensão de recalcamento na forma como o encaramos, há também uma espécie de terror diante dos riscos que representa o futuro. Talvez, dentro de algumas décadas, sejamos forçados a recuperar os saberes daqueles que viviam expostos a todos os riscos da agricultura — más colheitas, tempestades, secas, cheias, pragas, acidentes, solos empobrecidos, doenças —, capazes de resistir com o mínimo de protecção, de sobreviver a catástrofes sociais, políticas e naturais — guerras, pestes, pilhagens, incêndios. O futuro.