terça-feira, 21 jul. 2026

Dia D: Sob Pressão. Como as condições atmosféricas ameaçaram o desembarque na Normandia

Entretanto, 156 mil homens, 7 mil navios e 11 mil aviões aguardam impacientemente a ordem de Eisenhower para avançar. Trata-se da maior operação anfíbia a que o mundo alguma vez assistiu
Dia D: Sob Pressão. Como as condições atmosféricas ameaçaram o desembarque na Normandia


Um homem obstinado e com cara de poucos amigos chega a Southwick House, a mansão do século XIX, perto de Portsmouth, que serve de quartel-general às Forças Aliadas, sem saber exatamente o que o espera, ou o que se espera dele.

Embora seja um militar, foi chamado pela sua competência científica. Chama-se James Stagg, tem uma personalidade difícil e é o especialista recomendado por Winston Churchill, que o considera um génio, para questões de meteorologia. A sua missão, vem a descobrir, é fazer a previsão meteorológica para o dia escolhido pelo comandante supremo Dwight Eisenhower para a Operação Overlord, o Dia D, em que as forças aliadas desembarcarão na Normandia para começarem a reconquista da Europa aos nazis.

Faltam 72 horas (o desembarque está agendado para as primeiras horas de 5 de junho de 1944), mas para que a operação tenha sucesso é preciso que se verifiquem certas condições, em particular no que respeita à visibilidade e agitação marítima. A lua cheia não é essencial, mas ajuda.

Em contrarrelógio, Stagg, um fanático dos dados, começa rapidamente a coligir leituras meteorológicas recolhidas em diversos pontos: só com o máximo de informação disponível conseguirá fazer a previsão o mais precisa possível.

Contrariando o otimismo do seu homólogo norte-americano – o simpático e extrovertido Irving Krick –, Stagg descobre dados inquietantes. Apesar das condições aparentemente favoráveis nas vésperas  da operação – o sol brilha, não há vento –, duas tempestades deslocam-se em direção à costa da Europa Ocidental. Com ondas de dois metros, como indicam as suas previsões, e visibilidade reduzida, o desembarque será pura e simplesmente impraticável.

Entretanto, 156 mil homens, 7 mil navios e 11 mil aviões aguardam impacientemente a ordem de Eisenhower para avançar. Trata-se da maior operação anfíbia a que o mundo alguma vez assistiu.

O dilema é terrível. O que fazer? Cancelar tudo e comprometer o esforço de guerra por causa de uma tempestade que pode chegar ou não? O comandante das forças terrestres, o intratável Bernard Montgomery, apanha Stagg sozinho e confronta-o: ‘Quer ser pessoalmente responsável por perdermos a guerra?’.

Embora conheçamos hoje o desfecho da Operação Overlord, é aqui que o recentemente estreado filme Dia D: Sob Pressão, de Anthony Maras, mostra a sua tremenda eficácia e capacidade de persuasão junto do espectador. Não estará Stagg a ser demasiado cauteloso e timorato? A próxima janela de oportunidade é só dali a duas semanas. Se o desembarque for adiado, o moral das tropas não será afetado? Além disso, parece impossível manter os preparativos em segredo durante tanto tempo. Não se perderá o efeito-surpresa e a oportunidade de desalojar os sinistros nazis dos territórios ocupados? O que está em jogo é nada menos do que o próprio curso da História.

A horas do momento previsto para o desembarque, a incerteza mantém-se e a pressão acumula-se a ponto de se tornar quase insuportável. O que fará o meteorologista perante os gigantes militares, a começar pelo imponente Eisenhower (interpretado por Brendan Fraser)? Continuará a fazer o papel de advogado do diabo, e a insistir em adiar a operação, contra tudo e contra todos?

E é então que, sentados na sala de cinema, desejamos tanto quanto Stagg que no dia 5 de junho rebente a tal tempestade que confirma as suas previsões. Mesmo se isso, a curto prazo, parece comprometer as aspirações dos Aliados.