As palavras e ideias têm o poder de mudar o mundo», «Carpe diem. Aproveitem o dia, rapazes. Façam as vossas vidas serem extraordinárias», «Ó capitão, meu capitão!». Hélder Gamboa lembra-se perfeitamente da primeira vez que ouviu estas frases retiradas do filme Clube dos Poetas Mortos (1989) escrito por Tom Schulman, vencedor do Óscar de melhor argumento original. «Lembro-me do que estava a fazer, onde estava, com quem estava quando vi o filme pela primeira vez, com 17 anos. Marcou-me logo ali (...) Foi um filme muito forte. Primeiro porque queria ter um John Keating na minha vida. E mais tarde, porque se calhar queria ser um Keating quando dei aulas de teatro», diz com as lágrimas nos olhos depois do ensaio corrido do espetáculo que encenou, que estreou no dia 30 de abril no Teatro da Trindade, e que resgata a história ambientada em 1959, num colégio interno masculino, marcado por um ensino rígido e padronizado, assente nos quatro pilares da «tradição, disciplina, honra e excelência». «E agora, quase todos os dias, nos ensaios, fico comovido ao ver os atores viverem esta história. Emociona-me muito», admite, lembrando os tempos de juventude vividos na praia de Carcavelos. «Eu não tive nenhuma gruta, mas tinha a praia de Carcavelos. O único instrumento que toco ainda hoje são as campainhas, mas na altura tinha uma viola. E, com um grupo de amigos, íamos à noite para a praia, cantar, tocar… Como dizia o Keating, sentíamo-nos deuses», detalha.
Contar a história de outra forma
Já não via o filme há muito tempo e pediu especificamente a toda a equipa técnica que não o visse durante esse período, para as influências cinematográficas não se imporem na produção do espetáculo. «A peça vi em Paris, depois de ter lido o texto», revela. «Mas há aqui pontos que, sem querer, eu vou buscar ao filme. É muito presente na memória de todos nós. A adaptação, que foi feita pelo autor do texto do filme, leva-nos também a fugir um bocado ao filme.. Vamos por outros caminhos que o teatro nos dá. A mensagem tem que ser passada de uma maneira diferente. E é por aí que vamos fugindo ao filme. A história tem que ser contada de outra forma. Há outro ritmo. Mas o texto, que é brilhante, está lá», adianta o encenador.
Uma das suas opções cénicas foi a de concentrar a ação num único espaço: a biblioteca. Lá acontecem as aulas, as conversas com o diretor Nolan – interpretado por Virgílio Castelo –, e as cenas que, no filme, se passam nos quartos. As únicas exceções são a gruta, onde se reúne o clube dos poetas mortos – o cenário é construído apenas com uma rocha, no escuro, onde os alunos conversam com lanternas na mão –, e o cenário da peça de Teatro ‘Sonho de uma Noite de Verão’, de William Shakespeare, em que a personagem de Neil Perry entra às escondidas do pai, depois de perceber que quer ser ator. «Havia vários cenários. Havia o quarto dos alunos, o refeitório, a sala de aulas. E nós decidimos misturar isso tudo num único espaço físico que é esta biblioteca onde tudo acontece», explica.
Sobre a escolha dos atores Hélder Gamboa garante ter sido fácil. Dany Duarte, Diogo Fernandes, Diogo Mesquita, Jaime Pinto Gamboa, João Maria Cardoso, João Sá Nogueira, Nuno Represas, Rafael Leitão e Rui Pedro Silva, foram selecionados através de casting e, «de repente, as peças encaixaram e eles são perfeitos para o que estão a fazer», elogia o encenador. «Foi tão bonito o casamento entre este grupo de 11 atores. Os ensaios foram maravilhosos, foram positivos o tempo todo», conta. «Os atores desta geração que estão a sair, muitos deles, da Escola Profissional de Teatro de Cascais, da Escola Superior de Teatro e Cinema, do ACT – Escola de Atores –, estão muito mais bem preparados para uma vida profissional como ator, do que se calhar a minha geração», sublinha. Quanto à escolha do protagonista, Hélder Gamboa diz que não houve dúvidas. Não havia um «plano B»: «Quando se vê este Keating, não há capitão como o Diogo. (...) Aqui é o Diogo e ponto», garante.
Uma reflexão urgente
O encenador considerou ainda que a peça pode ter impacto junto de diferentes gerações, pode unir e fazer refletir sobre a utilização das novas tecnologias e no impacto que têm nas relações humanas. «Há uma coisa que já me está a fascinar, porque são avós a trazer os netos, pais a trazer os filhos que não viram este filme… Apesar de vivermos num mundo global, onde supostamente estaríamos mais próximos uns dos outros, estamos mais fechados na nossa máquina… É útil e é fundamental, e eles têm que aprender a trabalhar com isto, vai ser útil para a vida, mas tal como diz o Keating: ‘Eu tenho dois caminhos, e se calhar vou seguir por aquele que é menos percorrido’. Isso faz toda a diferença!», defende. «São mensagens fortes, que espero que cheguem ao lado de lá, porque o mundo de facto não pode ser eu, a máquina e uns amigos imaginários espalhados algures neste mundo», reforça.
Para Diogo Infante, está a ser «uma experiência muito bonita». «É-me muito prazeroso poder dizer estas palavras, e penso que a mensagem que o Keating traz para cima da mesa fazia, obviamente, sentido num contexto do final dos anos 50, em que o mundo estava a viver várias revoluções. O que é estranho é pensar que hoje em dia esta mensagem continue a ser necessária», reflete o ator. «Num momento em que estamos a viver outras revoluções e outras guerras, em que se devinham retrocessos do ponto de vista das conquistas dos direitos, de liberdades, é muito importante que a malta mais nova possa ouvir estas palavras e perceber que a sua identidade, a sua individualidade não pode, nem deve ser posta em causa por ninguém, ninguém tem esse direito», continua o artista, acrescentando que acredita que a razão pela qual houve uma adesão tão massiva ao espetáculo, sem sequer ter estreado, tem que ver, por um lado, «com a memória afetiva do filme», mas também «com a urgência de experienciarmos coisas físicas, ao vivo». «Acho que nós temos que estar juntos, temos que ter experiências que nos toquem, que sejam marcantes, que nos mudem. Este espetáculo é perfeito para isso, porque congrega várias gerações, desde a avó, aos pais, aos netos… Todos podem vir, e cada um deles vai-se rever neste espetáculo, nestas personagens de uma forma diferente», revela.
Segundo Diogo Infante, a produção faz apelo à memória, no caso de Portugal, de um período que vivíamos em ditadura: «De um período austero, de grande conservadorismo, onde as pessoas tinham muita dificuldade em sonhar, em ter voz. É isso que essa autoridade do reitor e do próprio pai representa. É sobre isso que devemos refletir», afirma.