sexta-feira, 17 abr. 2026

Cinema. Albert Camus, O Estrangeiro e o absurdo que vive em nós

Uma nova adaptação cinematográfica de O Estrangeiro chega aos ecrãs portugueses e traz o universo de Albert Camus. Entre o preto e branco e o silêncio do protagonista, o filme explora o absurdo da existência e o confronto entre o indivíduo e a sociedade. Uma reflexão intemporal sobre viver com lucidez num mundo indiferente.
Cinema. Albert Camus, O Estrangeiro e o absurdo que vive em nós

Numa sala de cinema composta maioritariamente por espectadores acima dos sessenta anos, foi exibida uma adaptação de O Estrangeiro, um romance publicado por Albert Camus em 1942. Projetado a preto e branco e em francês, o filme mantém uma estética sóbria que acompanha o tom existencial da obra original, considerada um dos textos fundamentais da literatura do século XX.

Autor de romances, ensaios e peças de teatro, Albert Camus destacou-se pela forma como explorou a condição humana e as questões morais do seu tempo. Em 1957, com 44 anos, foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura. A Academia Sueca destacou a obra do autor “pela sua importante produção literária que, com sincera seriedade, ilumina os problemas da consciência humana no nosso tempo”.

Grande parte da obra de Camus está associada à reflexão sobre aquilo que o próprio descreveu como "absurdo”. Este conceito surge do conflito entre o desejo humano de encontrar sentido e ordem na existência e a aparente indiferença do mundo.

A narrativa acompanha Meursault, um homem que reage aos acontecimentos da sua vida com uma indiferença calma, o que contrasta com aquilo que a sociedade considera emocionalmente adequado. Ao longo da história, o protagonista acaba por ser julgado não apenas pelas suas ações, mas também pela forma como demonstra — ou não demonstra — sentimentos perante o mundo que o rodeia.

A nova adaptação cinematográfica do romance, estreada em Portugal a 12 de março, procura preservar essa dimensão filosófica. O “absurdo” não representa apenas uma ideia abstrata, mas uma característica da vida consciente. O ser humano procura constantemente explicações, valores e significados para a sua vida, enquanto o mundo permanece silencioso perante essas perguntas. É deste confronto entre a necessidade humana de sentido e a ausência de respostas definitivas que nasce aquilo que Camus descreve como o “absurdo”.

Nesse contexto, a personagem de Meursault pode ser entendida como uma representação literária dessa condição. Ao longo do romance, o protagonista revela uma relação com o mundo marcada por uma atenção ao presente e por uma recusa em atribuir significados que ultrapassem aquilo que efetivamente consegue experienciar. Essa atitude entra em conflito com as normas sociais que esperam determinadas manifestações de emoção, sobretudo perante acontecimentos considerados moralmente decisivos.

É precisamente esse desfasamento que estrutura o conflito central da narrativa. Logo no início da história, Meursault recebe a notícia da morte da mãe e está no funeral sem demonstrar o luto que os outros esperam. A ausência de uma reação emocional convencional causa estranheza nas pessoas à sua volta e torna-se, mais tarde, um elemento central no julgamento.

Dias depois, o protagonista regressa à sua rotina quotidiana. Vai à praia, ao cinema e inicia uma relação com Marie, uma antiga colega de trabalho. Quando ela lhe pergunta se deseja casar, Meursault responde que tanto faz, desde que ela assim o queira.

Já no tribunal, o crime que cometera acaba por se tornar secundário. A atenção concentra-se sobretudo na forma como o protagonista vive e reage ao mundo, desde a sua atitude no funeral da mãe até à ausência de arrependimento após o homicídio.

Ao longo da narrativa, que tem lugar na Argélia, elementos aparentemente banais ganham também uma presença significativa, como o calor e a luz do sol, frequentemente mencionados pela personagem. No momento do crime Meursault descreve a intensidade do sol como um fator quase opressivo, que pesa sobre o ambiente e sobre o próprio corpo. Essa insistência nos elementos físicos reforça que a personagem vive inteiramente no presente. O mundo manifesta-se através das sensações imediatas, e não como um conjunto de significados ou normas a cumprir. É neste encontro direto com a realidade, sem interpretação moral prévia, que se revela o absurdo da existência.

Mais de oito décadas após a publicação do romance, O Estrangeiro continua a suscitar novas leituras e adaptações. A versão cinematográfica realizada por François Ozon demonstra que as questões levantadas por Albert Camus permanecem atuais: a relação entre o indivíduo e a sociedade, a procura de sentido num universo aparentemente indiferente e a possibilidade de viver com lucidez perante essa condição. Ao transportar essa reflexão filosófica para o ecrã, o filme reabre um debate que continua a atravessar a literatura, o cinema e o pensamento contemporâneo.

[texto editado por Joana Ludovice de Andrade]