Há muito que a morte estava sobre a mesa. Talvez até nessa indagação ou mistério entre as palavras, que nunca são as certas, mas só têm para oferecer, tantas vezes, a sua indecisão, a gramática pulverizada, imagens movendo-se sem um nexo. «Escrever quando tudo já foi escrito é para os presunçosos, os cegos, aqueles que não sentem o sabor da sua própria mortalidade», anotou no seu romance A História Seguinte, cuja ação se passa em Lisboa. Contudo, Cees Noteboom apegava-se aos livros, e notava que, por diversas vezes, estando de pé diante da sua estante, não conseguia deixar de pensar que era aquela a sua única árvore genealógica. A escrita surgia-lhe como uma extensão de alguns desaforos de ordem íntima, por urgência de viver num outrora de fragmentos, não se ficando apenas pelo folhear das notícias enlouquecidas do jornal. Gostava de submeter o mundo a esse esforço de «limpidez, sintonia, vozes apenas, o caos dos sentimentos constrangido pela ordem da composição». Olhava-se de um modo tantas vezes impiedoso, enquadrando os demais nas suas reflexões, sempre dominado por esse «perigo de uma outra vida, um poema».
Figura proeminente na literatura holandesa e europeia, um eterno candidato ao Nobel, o poeta e romancista que viajou pelo mundo e foi publicado inúmeros livros com as suas crónicas de viagens, morreu a 11 de fevereiro, aos 92 anos. Uma declaração feita em nome da sua companheira, a fotógrafa Simone Sassen, adiantava que a morte não lhe causou nenhum sobressalto, tendo vindo buscá-lo à «sua amada ilha de Menorca».
Apesar de a literatura de viagens ter vindo a assumir, desde o início da década de 1960, um peso cada vez mais significativo na sua obra, a poesia era o seu género predileto, a «oficina central» da sua empreitada, embora tenha também escrito romances e ensaios. «De dois em dois ou de três em três anos saía uma coletânea minúscula das notícias da morna província da sua alma, versos desdentados, comboios de palavras à deriva no branco das páginas».
Deixou testemunho das temporadas que passou no Brasil, Bolívia, México, Tunísia, o Irão, Suriname, a Tailândia, Gâmbia, Mali, Saara, Alemanha... Como foi notado por Mário Santos, «à ideia de viagem ela mesma dedicou Nootebooms Hotel (Hotel Nómada), e é de uma caminhada partilhada há séculos por milhões de seres humanos que se ocupa outro dos seus livros mais reconhecidos, O (Des)caminho de Santiago (Asa, 2003) – mas o caminho, neste caso, é uma forma de viajar pela história, pela literatura, pela política». Foi também visita frequente do nosso país, e admirou os últimos vestígios da capital de um império em decomposição, apreciando ouvir a língua, que lhe soava a um «latim conversado e distendido que, na minha opinião, tinha que ver com a água, a águas das lágrimas e a águas dos mares do mundo, com os cordames manuelinos e os seus nós que ornamentavam as construções dos antigos reis, e até com os barquinhos diligentes que faziam a ligação com Cacilhas e o Barreiro, e a Torre de Belém, soturno símbolo de despedida, o último pedaço de pátria que os navegadores de partida para as descobertas viam e o primeiro que divisavam no regresso, muitos anos depois». Noutro ponto deste livro com que o escritor se apresentou por cá no início da década de 1990, dizia ainda isto sobre Lisboa: «Toda esta cidade é despedida. No extremo da Europa, a última margem do primeiro mundo, o ponto onde o continente erodido se afunda lentamente no mar (...). Esta cidade não é deste tempo, aqui o passado guardou-se para o futuro. A banalidade ainda não despontou aqui».
Toda a sua literatura assume uma natureza reflexiva, filosófica: para ele «o que importa não é o que se põe por escrito em particular, o que importa é o escrever em si, a ação. Buscar ou criar uma forma de ordem, que é sempre uma forma de meditação. Anotar, associar, catalogar, tudo isso pertence ao pensamento, à reflexão». E, no entanto, como notava o tradutor da antologia da sua poesia em espanhol, Fernando García de la Banda, parece paradoxal que este caráter reflexivo-filosófico seja conseguido através de uma poesia essencialmente visual, e uma linguagem grandemente substantiva, concreta, material, que se esquiva a toda a abstração, tanto nas palavras como nas imagens. Nooteboom recusava a «poesia poética», considerando que não passava de «ar embalsamado».
Nascido Cornelis Johannes Jacobus Maria Nooteboom em Haia, a 31 de julho de 1933, numa entrevista ao The Guardian em 2006, disse que não tinha memórias da infância até o início da II Guerra. Quando a Alemanha invadiu a Holanda em 1940, «vimos no horizonte o brilho de Roterdão a arder e lembro-me de ter ficado de tal modo dominado pelo medo que tiveram de me atirar água fria à cara para me acalmar». «Os meus pais divorciaram-se no último ano da guerra», recordava ainda. «Devido à fome em Haia, o meu pai, que morreu num bombardeamento britânico em 1944, enviou-nos, à minha mãe e a mim para fora da cidade, onde pudéssemos encontrar comida. A nossa casa em Haia; a imagem daquela montanha irreconhecível de pedras está gravada na minha memória».
Quanto à urgência da escrita esta viria a impor-se-lhe no final da adolescência quando se viu encarregado de entregar dinheiro «a senhoras idosas da alta sociedade» enquanto trabalhou num banco, dos 17 aos 19 anos: «Costumava fazer um desvio para passar por um bosque, onde parava junto a um riacho para pensar, e às vezes parece-me que a minha escrita começou por ali, sem escrever uma única palavra; a partir do absentismo e da clandestinidade que agora sei que são partes importantes da minha escrita».