terça-feira, 09 jun. 2026

Carilda Oliver Labra. Penélope é a tua tia

Com uma beleza lendária e a reputação de ‘devoradora de homens’, levou uma existência ‘quase burguesa’, o que atraiu sobre si as suspeitas e até a censura do regime cubano. Mas Carilda Oliver Labra soube vingar-se, escondendo o verdadeiro alcance da sua obra por baixo dos versos eróticos e subversivos.
Carilda Oliver Labra. Penélope é a tua tia

Em Miami, por estes dias, vislumbra-se já aquele que poderá ser o esplendoroso momento do triunfo sobre a indómita Ilha-nação, circulando ‘memes’ ilustrando a transformação de Cuba num imenso centro comercial. Aquele mundo parado no tempo ver-se-á engolido por arranha-céus, casinos, Walmarts e Taco Bells, num paralelo demasiado óbvio para deixar de ser notado com as imagens partilhadas por Trump salivando com a ‘riviera’ que projectou para Gaza, sobre os escombros e os corpos de milhares de palestinianos, após mais de dois anos de bombardeamentos incessantes. Assim, na Florida vive-se a antecipação do momento em que o regime cubano irá estalar, e muitos contam celebrar em breve a capitulação do mais arrojado desafio ao imperialismo norte-americano. E logo serão esmagados todos os sinais de seis décadas de resistência, a temeridade de um povo que enfrentou um bloqueio tremendo, sendo levado a sucessivos períodos de crise, no que foi definido como uma «guerra sem bombas», como nos vem dando conta a cronista Raquel Ribeiro. Os apagões sucedem-se, a escassez de comida e bens levou a que uma em cada seis pessoas tenha procurado escapar da ilha, tantas vezes em balsas para os EUA, enquanto a nação resiste esquecida, isolada, numa solidão que ilustra bem como a esquerda nos nossos dias está reduzida ao mais cobarde cálculo.

«O bloqueio, mesmo que lhe chamem embargo ou sanções, mina a vida, a liberdade, os direitos e a dignidade das pessoas e é um crime contra a humanidade», disse o socialista alemão Norman Paech, ao comunicar a sentença do Tribunal Internacional no Parlamento Europeu, apontando ao detalhe todos os artigos violados pelo bloqueio, sejam da Carta das Nações Unidas, sobre «protecção de soberania, auto-determinação e a proibição de intervenção», artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, do Pacto Internacional sobre Direitos Económicos, Sociais e Culturais, e ainda vários artigos dos tratados da Organização Mundial do Comércio, do Tratado de Maastricht da União Europeia, do Tratado de Roma ou da Convenção de Genebra. «Os bloqueios são uma das formas de guerra mais traiçoeiras, ilegais e ilegítimas, mesmo que invoquem tratados e leis internacionais para camuflar a sua acção», adiantou Paech. E, neste ponto, porque Cuba, tal como Gaza, permite-nos compreender a despudorada predação a que estamos submetidos, vale a pena transpor um estudo exaustivo publicado pela revista Lancet Global Health sobre o efeito de sanções internacionais em vários países do mundo resumido por Raquel Ribeiro numa das suas crónicas para o semanário luxemburguês O Contacto. «Os autores concluem que ‘sanções unilaterais impostas pelos EUA e pela UE desde 1970 estão associadas a 38 milhões de mortes. Em alguns anos, durante a década de 1990, mais de um milhão de pessoas foram mortas. Em 2021, o ano mais recente dos dados, as sanções causaram mais de 800 mil mortes’, diz o investigador Jason Hickel no seu blogue. E acrescenta: ‘Mais pessoas são mortas por sanções a cada ano do que vítimas directas de guerra. Mais de metade das vítimas são crianças e idosos, pessoas mais vulneráveis à desnutrição. O estudo conclui que, só desde 2012, as sanções mataram mais de um milhão de crianças.’»

Neste momento, porque o petróleo não chega a Cuba, a ilha vê-se a definhar lentamente, as ruas vazias, sem transportes, escolas, universidades e comércio fechados. Não são só as ambulâncias que não podem transportar doentes, há relatos de médicos e enfermeiros a ventilar manualmente recém-nascidos, às vezes durante horas, quando a a electricidade cai. Não há computadores, telefones, internet. «É um cerco que remete Cuba a uma condição quase medieval», nota Raquel Ribeiro. «E é precisamente essa a intenção do governo dos Estados Unidos: apertar o garrote até o povo sucumbir, eventualmente se rebelar e, aí, intervir e impor o seu ‘regime change’.

Pagar as consequências

Se temos sempre de começar por algum lado uma nota crítica sobre um poeta, tratando-se de um cubano, esta não nos parece uma forma inapropriada de o fazer, sendo certo que face a esta nova época, não há inocentes, e voltam a ganhar um sentido profético aquelas vozes que em algum momento deram notícia da revolução, como essa Crónica para um poeta futuro, de Félix Pita Rodríguez: «Escrevo para aqueles que amanhã/ verão em nós o passado e a recordação./ Para ti, jovem poeta,/ que numa noite cálida de Julho como esta,/ dentro de trinta anos,/ enquanto a tua mão semeia sobre o papel, verso a verso,/ um poema que brotará como a flor sem nome/ e sem cor da nostalgia.// Porque estarás pensando em nós,/ os poetas que para ti serão como o passado/ e a recordação, que estamos agora aqui,/ sobre a terra sagrada da pátria que nasce,/ entre carabinas e consignas de vitória,/ nas fileiras do povo e da Revolução/ escrevendo poemas que não poderão ser escritos amanhã/ que não poderão ser escritos nunca mais.// Por isso,/ nesta cálida noite de Julho de 1961,/ pensando em ti, jovem poeta que noutra noite Julho,/ dentro de trinta anos,/ te debruçarás sobre o papel onde está a nascer/ verso após verso, um poema,/ escrevo esta crónica para pedir-te perdão/ pelo nosso enorme privilégio.» Um outro poeta que nos surge no volume que compilou e traduziu Manuel Seabra para a editora Futura, em 1975, é José Yanes, e diz-nos isto: «Estes dias/ de estômagos que se deitaram sem comer/ e de canhões que valem vacas/ (e ninguém venha dizer-me que um canhão é um artefacto horrendo).// Não quero que ninguém pare à minha frente/ para me dizer que qualquer problema não se vai resolver/ ou que este mundo é terrível/ porque o mando pró caralho.// Deixem-me/ reformular:/ Creio no homem.»

É certo que a revolução não trouxe só motivos de júbilo aos poetas cubanos, muitos acabaram por se sentir desolados entre todo aquele idealismo, vendo-se capturados numa engrenagem dolorosa, a amofinar com os anos, muitos acabariam por virar-lhe costas, amargurados, e, mesmo então, só aqueles que puderam escapar-lhe. Mais triste, no entanto, é a impressão que vivemos à distância, numa época em que nos parece que poderíamos ter dito tudo, mas fomos levados a não dizer nada de consequente, deixando-nos absorver face ao talento mais pernicioso de uma cultura inane, que parece enredar-nos nas lúgubres encenações e poses com que fomos dobrando a língua, acompanhando essa perda de sabor ou de sentido da realidade, incapazes de a defendermos da sua trivialização, parecendo só restar-nos agora um amor desenraizado, aniquilado, despovoado. Os sinais de uma rebeldia e de um gozo subversivo que demarcavam a fronteira entre exterior e interior foram sendo apagados à medida que os holofotes invadiam tudo, e que os próprios poetas competiam uns com os outros, exibindo-se como mercadoria, dando lugar a estes corpos sobre-expostos, com os seus estereótipos de um desejo que exprime apenas uma forma de deserção. Fomos cedendo à escatológica glória, a luz imensa que fez do sol esse pobre astro indigente, que nos diz cada vez menos à medida que os ecrãs entre si elaboram um regime dissolvente que nos atrai como um buraco encadeante. Em breve, talvez aproveitemos melhor o sentido daquilo que nos disse Julio Ramón Ribeyro: «As palavras que calámos eram as que devíamos ter dito. Os gestos que refreámos por pudor eram os que devíamos ter feito. Os actos que nos pareciam triviais eram os que se esperavam de nós. Outros fizeram-nos em nosso lugar. Paguemos agora as consequências.»

Um mito na vida cultural cubana

Quando pensamos numa poeta como Carilda Oliver Labra, alguém que só com grande dificuldade parece ter chegado até nós, e de quem é tão difícil encontrar uma só resenha ou um ensaio substancial que nos esclareça sobre as peripécias que dela fizeram um persistente mito na vida cultural cubana, alguém que chegou a provocar o fascínio de celebridades globais como Yves Montand, Katharine Hepburn ou Glenda Jackson, e é extraordinário que nos surja uma breve e fulgurante antologia da sua obra poética este ano, pela mão de um editor que vem ensaiando subtis gestos de subtracção entre tudo o que nos absorve, uma artesania em que cada livro, se é feito à mão, não parece um capricho, mas um impulso de um demónio-omnívoro, pesquisador de remotos sinais, indo aos subsolos, às ilhotas perdidas, capaz de arrancar ao abdómen da memória um fruto estranho, dobras inesperadas. A editora chama-se maus, cada livro está numerado e parece-se mais com uma saída face à obsessão, uma cifra para esse jogo e recreio que se contenta em relançar os limites do mundo, sendo a selecção e tradução assinada pelo editor: Nuno Filipe Ribeiro. Tudo são atenções suas desde a capa, feita a partir do quadro Tales of Genji, I (1998), de Helen Frankenthaler, até à composição e paginação, fazendo deste Como Uma Mulher de Absorto Pólen um estudo sobre a perfeita cumplicidade entre um objecto e o seu ânimo de frágil sobrevivência e flagrante sedução.

Oliver Labra morreu faz este Verão oito anos. Tinha 96 anos. Foi advogada, professora, bibliotecária, escultora, ilustradora. Casou três vezes, não teve filhos. Além de mais de duas dezenas de livros de poesia deixou uma morada célebre situada na calçada Tirry 81, a velha casa que chegou a vir referida nalguns guias da ilha, e onde ela viveu toda a vida entre plantas, diplomas e distinções emolduradas como quadros, estantes com livros antigos, e onde chegou a ter doze gatos a vaguear lenta e desordenadamente e um pachorrento cão salsicha a que, por piada, deu o nome Stalin. Mais até do que os poemas, a sua beleza e os tantos envolvimentos amorosos que lhe eram reputados, entre poetas, músicos e artistas que nalgum momento se lhe renderam, e isto apesar de Labra sempre se ter reconhecido bem mais casta do que a sua lenda, mas os versos teimavam em dirigir-se a algum amante, sugerindo uma ânsia apaixonada, ao mesmo tempo que, por trás, em certos motivos e detalhes, ia dando nota de uma inquietação profunda, tendo atravessado alguns dos períodos mais turbulentos da história cubana, entre a ditadura de Gerardo Machado nos anos vinte e inícios dos trinta e os dois golpes militares de Fulgencio Batista em 1933 e 1952; a Revolução Cubana de 1959; a vitória de Playa Girón sobre a invasão da Baía dos Porcos em 1961; a crise dos mísseis de Outubro de 1962, a que se seguiu mais de meio século de embargo económico. Ao longo desses anos, Oliver Labra viu-se muitas vezes a desenhar esses anjos sujos na cinza, gozando e padecendo com os mexericos e os juízos morais por ter flirtado com a «irresistível promiscuidade» entre a poeta e a personagem que comparece na sua obra, no tal mito, conhecendo tanto o favor e a adulação como ocasionais momentos de ostracismo, segundo o seu principal biógrafo, Urbano Martínez Carmenate (Carilda Oliver Labra: La poesía como destino). O certo é que, embora tenha comparecido sempre nas selectas, nunca chegou a ser plenamente integrada entre aquele lote dos autores prestigiados pelo meio académico, dentro ou fora do país, e isto apesar de ter obtido o Prémio Nacional de Poesia em 1950 pelo seu livro Al sur de mi garganta, e o Prémio Nacional de Literatura em 1997, bem como múltiplas distinções nacionais no início dos anos cinquenta e, mais tarde, nos anos oitenta. Mas entre os pequenos recitadores medíocres que lhe iam fazendo o cerco, e a neutralizavam ao procurar convertê-la numa espécie de sereia em terra, banhada por uma luz redonda, trancada naquela casa onde fazia a figura de uma «quase burguesa», o certo é que todo aquele excesso feminino, aquela figura guardando «uma fita inútil e um leque partido», aludia perigosamente a outros tempos, certos desejos desalinhados, e que é difícil converter a algum esquema político. Ora, por não saber muito bem o que lhe fazer, foi encarada com suspeita e um certo temor pelo regime, enfrentando esse desdém de uma subcategoria, que é, de resto, o que significa escrever como ‘mulher’, mas teve o gozo de ver um dos seus sonetos assumir aquela glória proverbial, e ‘Me desordeno, amor, me desordeno’ agarrou-se à memória cubana como os ‘Versos sencillos’ de Martí, ‘Las golondrinas’ de Bécquer ou a ‘Sonatina’ de Darío.

O talento absurdo da provocação

Em certo sentido, viveu de castigo, e, ao mesmo tempo soube beneficiar da sua beleza e das interdições que a cercavam, fazendo da sua casa a embaixada para um ensejo algo profano, reunindo-se ali uma tertúlia que passava por subversiva. Depois dos primeiros retratos em que a sua imagem rivalizava com a das vedetas de Hollywood («Tenho o cabelo loiro; à noite, desalinha-se./ Beijo a sede da água, pinto o tremor do lótus»…, assim arranca o soneto em que nos oferece o seu auto-retrato e que abre a pequena antologia, seguindo uma outra publicada em Espanha pela Vísor), do livro de estreia custeado a expensas do pai, tendo Oliver Labra distribuído alguns dos 300 exemplares pelos figurões da ilha, foi já depois da revolução, divorciada, que provocou escândalo por ter voltado a casar com um homem vinte anos mais novo, acirrando a impressão da ‘devoradora de homens’. E para se compensar do tédio, a boataria foi tecendo em torno daquelas reuniões todo o tipo de fantasias licenciosas, como um furo que contagiasse o imaginário da ilha com obscenidades, incluindo orgias intermináveis e outras formas de cada um dar folga ao desejo de soletrar os seus delírios lúbricos. Afastada dos círculos oficiais, chegou a ver-se impedida durante cerca de 17 anos de ver publicados os seus poemas.

«Munida de um adeus radiante», Carilda soube defender-se naqueles anos, e a condenação apenas alentou o seu «imponente mistério»: «Deixem-me dar a volta que a flor dá contra o vento/ ou deixem-me simplesmente ser uma mulher qualquer/ que foi salva pelo demónio.» Tinha o talento absurdo da provocação, mas não se ficava por aí, e, de certo modo, a sua tristeza adquiria um peso que ia transbordando sem precisar de se explicar demasiado. Valia-se da ambiguidade para cantar e chorar, num efeito de subtil denúncia que, desde o Éden, nunca nos caiu bem, ameaçando com uma queda, com uma insatisfação profunda, que, se não exprime uma dimensão claramente política, consegue muitas vezes ser mais insinuante e desoladora: «Caminho junto aos meus ossos:/ é uma maneira muito triste de se andar acompanhada.// A terra está húmida de mim./ Vivo de escuridão, como a estrela,/ a querer ser a mesma que não sou.// Lembro-me de coisas que não interessam a ninguém,/ de carris que já não servem para os comboios»…É estranho como pode chegar a ser tão blasfemo o simples acto de uma mulher se descrever, como a imagem com que descose a sua aparência, sobretudo quando esta é tão cativante, nos intriga e inquieta, como se a agonia que exprime fosse sempre sentida como uma acusação. «Desamparada, como o fio perdido de uma agulha./ Sim, para encontra-la/ a sair do espelho…» Uma mulher parece sempre dizer-nos respeito, como se fosse feita desses elementos levíssimos mas estruturantes, dessa promessa de consolo que, se falha, faz sentir como se o mundo desabasse: «Repara que sou feita de leite, de corações, de pó,/ de pequenas células terríveis…/ Repara que a erva nasce de mim…/ repara que guardo as tuas pombas…»

A mulher parece ser uma construção demasiado central, uma peça fundamental, e que desesperadamente se tenta salvar, quando tantas a quem esse corpete é imposto se livram dele, e outras o apertam para tornar ainda mais palpável a crueldade daquilo que se nos mostra conveniente. «Que coração sairia desta insónia/ se eu soubesse ser menina outra vez;/ se não fosse tão parecida com as minhas olheiras,/ nem com esta tarde de inverno, assim dobrada». Carilda encanta e vinga-se tornando também aquele seu amante cada vez mais longínquo, para justificar porque não lhe assenta a alegria que sempre prescrevemos como o ideal da sua condição. «Mas lembro-me aqui de que está longe/ aquele que vivia a par de mim…/ lembro-me do seu nome preguiçoso/ que quase não queria ser palavra.» E mais à frente, devolve-nos a paixão do avesso, e diz: «Mas dói-me aqui, onde me canso,/ aquele homem carregado de crisálidas».

Os pesadelos ao lado dos prazeres

Tudo isso que não desponta, não chega a nascer e a dar-se, todas as promessas e ideais desfeitos, tudo isto não é apenas mal de amor, mas toca mais fundo… «É certo que sou feita de esquinas impossíveis,/ de ásperas libélulas e ervas solitárias», diz-nos em tom de ressalva, mas (e o mas é uma constante nesta poesia, introduzindo a sua carga de capricho e, pior, de subtil ameaça, tratando de uma mulher que avisa «tenho um até logo preparado», adiantando que depois deste já «não volto») «E tu, homem parado a um talvez da ausência,/ cada vez mais te pareces com os meus vestidos.» E estes dois versos devem ser o suficiente para nos deixar arrasados, para sinalizar essa discreta truculência, essa força de quem tão plena e terrivelmente acata a ficção da ‘mulher’. Mais à frente, vem uma indicação que serve como uma espécie de chave para esta perturbação que nos causa: «Não importa que te olhe a partir das coisas destruídas:/ é quase necessário que eu conheça esta tristeza.»

Esta é uma poesia que aprende aquela torção capaz de subtilmente desfigurar de vez um idílio, mudar o sentido do encantamento amoroso, pois se traz o Verão pela cintura, se noutras estações vai colhendo o «fulgor pequeno do orvalho», medindo sombras, trabalha a sua intimidade com aquela «obstinação do mar em desfazer-se de algo que o atormenta». É pela evocação do que está ao longe por meio de objectos infinitamente próximos que Oliver Labra produz o seu insidioso sortilégio, dominando variações umas vezes suaves outras bruscas, e que nos dão a impressão de ver lançada no chão toda uma pele arrancada cuidosamente, infundindo em nós um indizível temor: «Posso dizer:/ sobe, montanha; ama-me, febre./ Posso ressuscitar as ostras, os pêssegos;/ e assim passar inadvertidamente,/ livrando-me de esquinas que se amontoam,/ de montras e de lojas,/ de fotografias e diplomas,/ e até gritar no meio de uma praça/ e fundir a lua com o verme (…) Não sei… vou-me tornando séria,/ divertida, obscura,/ desperta e assombrada,/ persisto na eternidade com um bocejo.»

Podemos ficar-nos apenas pela superfície, pelo mal de amor, pela relação conveniente com essa representação postiça de uma Penélope aprimorando angústias e hábitos domésticos, cuidados, aquela ordem da beleza que se defende ao resguardar-se, o luxo de ficar por entre dias brancos à espera de um sinal qualquer. Mas podemos também reconhecer como na verdade está à espera de nada, ninguém, enfrentando a sós aquela vergonha da carne que é o outro lado das beldades míticas: os pesadelos ao lado dos prazeres de uma consciência, as recriminações, enfim, todos esses passos que uma mulher inventa em territórios inundados, mirando-se nos reflexos que a morte lhe estende, dedicando-se a esse discrição que a alguns cheira a desperdício. «Levanto a noite da tua vida./ Descoso uma luz para as tuas têmporas./ Visito-te na água e não me tens./ Quando chego sou já a despedida.» Mais à frente, admite: «E não sei se é por isso que persiste/ esta alegre dor de ser tão triste/ com que vou vivendo a minha vida.»

Carilda só parece acatar a conveniente ilusão dessa mulher que vive em função de um outro, quando na verdade é ela quem, com uma agulha e uma linha que atravessam o espelho, cose e descose essa impostura, como uma ficção muito mais abrangente e perigosa do que à superfície nos parece.

A mulher é já uma condição de heteronomia, a de quem se desdobra e escapa através da imagem que apresenta ou lhe é imposta, reconhecendo-se na figura desse fugitivo, desdobrando-se acedendo a outros ângulos de si. No poema «Quinta-feira», lê-se:

«Recolhi uma lembrança para suportar a fadiga,/ virei a página do meu caderno/ e escrevi: amo-te./ Mas foi para não mostrar o meu punhal a toda a gente./ (Vão para o raio que vos parta,/ vocês querem dar-nos/ uma sentença de morte,/ vocês não sabem nada do homem;/ prendam-me,/ não importa:/ pintarei nas paredes da prisão.)// Assim se passou a quinta-feira./ Fugi para o campo,/ mas não era como Van Gogh o pintou:/ chovia,/ os pássaros fuzilavam-se uns aos outros;/ a tarde servia para um qualquer postal estupefacto./ No final de contas, não tive outro remédio/ e vim para casa./ aqui ardem as esquinas/ e não chegou a ordem para a rebelião,/ os painéis de mármore estão de luto,/ liga-se o rádio,/ não há telefone para comunicar com o absurdo,/ estufam-se lentilhas,/ dispo-me./ Sabendo que é quinta-feira,/ saio./ Estão cheios os autocarros, caminho/ sonambulamente,/ encontro o fracasso num semáforo;/ mas a noite dá-me outros com os seus astros,/ e quando estou prestes a sorrir/ por sorte/ ou porque Deus tem sempre nojo de nós,/ apareces/ como uma personagem de Deschau./ Juntas-te à minha podridão,/ o tédio entorpece-te as gravatas,/ a tua fome tornou-se uma ignominiosa insígnia (…) temos a humildade exacta dos loucos/ atropelados,/ vejo-te a incendiares-te por cima da mesa do café;/ debaixo dela, dormes. (…) Não sei o que mais acontece/ para além da quinta-feira./ Metes-me num táxi/ com a mesma ternura com que comemos peixe ao almoço/ e eu talvez morra quando dizes:/ leve-a para casa:/ vive no outro quarteirão da minha sorte.// E depois a minha caneta tapa-se com esta lágrima.»