terça-feira, 18 ago. 2026

Bruxelas cancela apoio de dois milhões de euros à Bienal de Veneza devido ao regresso da Rússia

A Comissão Europeia cancelou um subsídio de dois milhões de euros à Bienal de Veneza devido ao regresso da Rússia à edição de 2026. A organização contesta a decisão, enquanto Portugal e dezenas de artistas e pavilhões protestam contra a participação russa e israelita
Bruxelas cancela apoio de dois milhões de euros à Bienal de Veneza devido ao regresso da Rússia

A Comissão Europeia cancelou um subsídio plurianual de dois milhões de euros atribuído à Bienal de Veneza, depois de considerar incompatível com os valores da União Europeia o regresso da Rússia à edição de 2026 da mais importante mostra internacional de arte contemporânea.

A decisão foi anunciada na terça-feira pela Agência Executiva Europeia para a Educação e a Cultura (EACEA), na sequência de um parecer jurídico e de uma recomendação da Comissão Europeia, segundo o porta-voz da instituição.

"Os eventos culturais financiados pelo dinheiro dos contribuintes europeus devem salvaguardar os valores democráticos e promover o diálogo, a diversidade e a liberdade de expressão", afirmou Thomas Regnier, citado pela agência AFP, acrescentando que esses princípios "não são respeitados na Rússia de hoje".

A decisão surge depois de a Bienal de Veneza ter confirmado o regresso da Rússia à edição deste ano, uma participação que provocou protestos no meio artístico internacional. A Bienal decorre desde 9 de maio e termina a 22 de novembro, reunindo 100 pavilhões nacionais e uma exposição geral com 111 participantes.

Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, a organização tinha anunciado que, enquanto o conflito persistisse, não aceitaria delegações oficiais, instituições ou pessoas ligadas ao Governo russo. A Rússia esteve ausente das edições de 2022 e 2024, mas regressou ao certame este ano.

Bienal contesta decisão da Comissão Europeia

A Bienal de Veneza lamentou a decisão da Comissão Europeia e defendeu que o financiamento agora cancelado se destinava a projetos "sem qualquer ligação" à participação da Rússia na exposição internacional.

A organização considerou ainda que a perda do apoio europeu "não teve um impacto significativo" no funcionamento da Bienal, uma vez que o montante representava apenas uma pequena parcela do orçamento global da instituição.

Apesar disso, anunciou que irá defender os seus direitos "em todas as instâncias competentes" para contestar a anulação do subsídio pela EACEA.

Em maio, a Comissão Europeia já tinha avisado que iria "suspender ou terminar o contrato" de financiamento caso a organização não respondesse "satisfatoriamente" à carta enviada por Bruxelas, na qual eram levantadas questões sobre a reabertura do pavilhão russo.

Portugal junta-se a protesto contra Rússia e Israel

A participação da Rússia não foi o único foco de polémica na edição de 2026 da Bienal de Veneza. Um grupo de 67 artistas e 39 pavilhões nacionais, incluindo o de Portugal, contestou também o modelo de atribuição dos prémios e pediu para ser retirado da lista de candidatos ao Prémio do Público, numa ação de protesto contra a participação de Israel e da Rússia.

A decisão surgiu em solidariedade com o júri da Bienal, que se demitiu em bloco em abril.

A representação portuguesa está a cargo do projeto artístico "RedSkyFalls", do artista Alexandre Estrela, comissariado pela DGArtes e instalado no Palácio Fondaco Marcello. Além de Portugal, estão também presentes no universo lusófono as representações nacionais do Brasil e de Timor-Leste.

A Bienal decidiu, ainda assim, manter a lista completa de candidatos aos votos dos visitantes, alegando que pretende "garantir a sua liberdade de expressão". Contudo, os votos atribuídos a artistas ou pavilhões que anunciaram a intenção de abandonar o Prémio do Público não serão contabilizados.

Júri demitiu-se após boicote a Rússia e Israel

A crise na edição de 2026 teve origem a 23 de abril, quando o júri internacional anunciou um boicote inédito, propondo excluir da atribuição de prémios países cujos líderes fossem acusados de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional.

A decisão atingiu diretamente as representações de Israel e da Rússia e desencadeou uma forte polémica no meio cultural.

A organização da Bienal tem defendido que o certame "deve permanecer um espaço aberto à participação internacional" e demarcou-se da posição do júri, considerada autónoma. O conflito agravou-se com pressões políticas e divergências internas, incluindo críticas provenientes do Governo italiano.

Perante a falta de consenso, os cinco membros do júri demitiram-se em bloco a 30 de abril, nove dias antes da inauguração. O painel era presidido pela curadora e gestora cultural brasileira Solange Oliveira Farkas e integrava ainda Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi.

Na sequência das demissões, a entrega do Leão de Ouro foi adiada para o encerramento da exposição. Sem júri, a organização criou um novo modelo de participação, os "Leões dos Visitantes", permitindo ao público votar nos melhores pavilhões e artistas.

Pavilhão russo permanece encerrado ao público

O pavilhão russo apresentou a exposição "The Tree Is Rooted in the Sky" ("A Árvore Está Enraizada no Céu"), com atuações musicais de artistas russos e internacionais.

O espaço esteve aberto apenas durante os dias de antevisão da mostra destinados a profissionais e jornalistas. A participação russa provocou protestos de representantes da Ucrânia e de vários setores do meio artístico internacional, incluindo do coletivo dissidente russo Pussy Riot.

Atualmente, o pavilhão permanece encerrado ao público. Através das janelas são apenas visíveis gravações vídeo das atuações apresentadas durante a abertura.

Sob o tema "In Minor Keys", com conceito da curadora-geral Koyo Kouoh, que morreu em 2025, a Bienal de Arte de Veneza conta ainda com 31 eventos paralelos em vários locais da cidade até 22 de novembro.

A cerimónia de atribuição dos prémios decorrerá este ano no encerramento do certame, ao contrário do habitual anúncio durante a cerimónia de abertura, e será marcada pelo novo modelo de votação do público.

Criada em 1895, a Bienal de Veneza é uma das principais manifestações internacionais dedicadas à arte contemporânea, reunindo, a cada dois anos, cerca de uma centena de pavilhões nacionais, exposições e eventos paralelos.