Quando o novo álbum de Harry Styles - Kiss All The Time. Disco, Occasionally. - for editado, no próximo dia 6 de março, o impacto musical não será a única história a captar atenção. A estética visual que acompanha este lançamento - desde a capa até merchandising associado - foi concebida por Bráulio Amado, designer e ilustrador português que há mais de uma década construiu uma carreira internacional sólida a partir de Nova Iorque.
Nascido em Almada em 1987, Bráulio Amado mudou-se para os Estados Unidos em 2011 com o objetivo de aprofundar a sua prática artística e profissional - um movimento que o levaria das agências tradicionais à criação de um estilo visual próprio, marcado pela fusão de humor, cor e irreverência estética.
A sua carreira começou no design institucional: trabalhou como designer em Pentagram NYC e na revista Bloomberg Businessweek, e foi também diretor de arte em agências como Wieden+Kennedy antes de fundar o seu próprio estúdio. Em Portugal colaborou com o Jornal i, revista Parq, Arquitectura21 (onde foi diretor criativo), Pure e jornal Pedal.
O salto para a cultura musical não foi acidental. Segundo o português, a sua ligação à música começou ainda jovem em Portugal, desenhando posters e capas para bandas amigas. Esta experiência, aliada à cultura ‘Do It Yourself’ dos circuitos punk e underground, moldou a forma como pensa o design - não como simples ornamentação, mas como uma extensão visual da expressão sonora.
«Comecei a desenhar websites para bandas que gostava quando tinha 13 anos… e aos poucos comecei a fazer posters e capas para os amigos que tocavam em bandas. Foi assim que comecei a aprender», disse em 2022, em entrevista a um blog internacional, Eye on Design.
Essa história de aprendizagem acabou por se tornar um traço simbólico do seu percurso: apesar de ter formação académica, foi a necessidade de criação constante e a cultura musical que o lançou no cenário global.
Ao longo da sua carreira, o designer trabalhou com nomes tão diversos quanto Frank Ocean, Róisín Murphy, Beck, Robyn, Rex Orange County, Washed Out e muitos outros - produzindo capas de discos, posters, ilustrações editoriais e projetos visuais que dialogam com os universos sonoros de cada artista.
O seu trabalho estende-se ainda a projetos não musicais, incluindo colaborações com marcas de moda e produção editorial, assim como peças mais experimentais, performativas ou conceptuais.
Estética e processo criativo
A estética de Bráulio Amado é frequentemente descrita como vibrante, espontânea e irreverente. Em entrevistas, ele mesmo explica parte do seu processo: «Depende do projeto… às vezes começo com pesquisas e esboços rápidos, antes de pensar no estilo. Noutras, especialmente quando é algo mais experimental, começo a brincar com o que tenho e vejo o que acontece».
Para ele, diz-se muitas vezes que a «imperfeição» é parte essencial da linguagem visual, porque traz a marca humana para um mundo cada vez mais digital e padronizado: «Eu adoro imperfeição. Lembra-nos que não somos máquinas - há uma pessoa real por trás do trabalho».
Esta filosofia de trabalho é também aquilo que torna a sua obra tão singular e procurada por artistas que desejam identidade visual forte e única.
Grammy e reconhecimento internacional
O percurso de Bráulio Amado recebeu um dos seus reconhecimentos formais mais importantes em 2025, quando foi nomeado para um Grammy na categoria Best Recording Package pelo design do álbum Balloonerism, do rap-star norte-americano Mac Miller, criado em colaboração com o artista interdisciplinar Alim Smith.
Balloonerism é o segundo álbum póstumo de Miller, lançado oficialmente em janeiro de 2025 após anos de circulação informal na internet. O projeto físico em edição especial - com vinil duplo, caixa de luxo e livreto colorido - foi reconhecido pela inovadora visão estética que combina música, imagem e narrativa.
A cerimónia dos 68.º Grammy Awards, onde se decide o vencedor, está agendada para 1 de fevereiro em Los Angeles.
Agora, neste projeto com Harry Styles, Amado não apenas criou a capa do álbum: liderou a direção de arte da totalidade do design visual, em parceria com a diretora criativa Molly Hawkins e o fotógrafo Johnny Dufort. A estética, que acompanha a sonoridade pop com influências disco e eletrónica, foi descrita como um reflexo visual da transição musical e imaginativa do artista.
A obra visual pretende conjugar romance e melancolia, reforçando o caráter cinematográfico que tem acompanhado a carreira solo do cantor desde o seu primeiro álbum em 2017.
Hoje com 39 anos, Bráulio Amado representa um exemplo de como criadores portugueses podem influenciar a cultura global. A partir de uma prática que mistura música, design e expressão visual, construiu um vocabulário que vai além das convenções estéticas tradicionais e colocou o nome de Portugal no mapa das artes visuais contemporâneas.