Foi a segunda passagem por Lisboa de Borkman, peça de Henrik Ibsen, possivelmente o maior criador de texto para teatro do séc. XIX. Para se ter uma noção do pecúlio legitimário, basta aditar que algumas pessoas o consideraram o maior dramaturgo depois de Shakespeare. Aconteceu no São Luiz. No memorável 1956 tinha sido traduzida por Costa Ferreira e Luiz Francisco Rebello pela Contraponto, e logo estreada no Teatro Monumental por um deles. Prosa mais que tardia publicada em 1896, dez anos antes da morte do autor, e sete contados até ao abandono do ofício. Texto com sinais deceptivos em fortíssimo, ressumando amargura e sentimentalismo. Apresenta e não representa um ajuste de contas com a juventude que rouba tempo à velhice, lamentoso com o seu tempo gasto, furioso com as crianças de então. O menino selvagem, cristal do maior Ibsen, é já um pateta manipulado por três mulheres. O amor aprisiona-o. A paranóica teia de relações avessas ao bem parecer baralha-se para lá do limite da credulidade do espectador. tema é a velhice e as suas companheiras, o legado e a supervivência. Único tema possível, depois de tantas voltas sem qualidade artística. Entre personagens desavindas por um escândalo público vê-se o diálogo da aparência ameaçadora da essência. De resto, as personagens que menos se vêem são as que podiam desenvolver o drama: os mais jovens, muito bem interpretados. Há demasiada filosofia, no sentido diminutivo que tem a expressão “filosofia académica”. Borkman é uma pizza com demasiados ingredientes.
Encenou Joaquim Horta, para um elenco dos melhores, tendo por base a tradução da editora Cotovia. O pano sobe e entra um actor que declama versos na boca de cena. Um poema subtil sobre árvores e pessoas faz pensar no que pode ser teatro. Não há movimento, apenas voz e palavras em digressão. Não há teatralização, mas leitura branca. Ao contrário, excruciante diálogo o inicial, espécie de legenda televisiva parada durante vinte minutos. Duas irmãs reencontram-se ao fim de anos e há uma vulgar cena de traição, em que é revelado o amor da irmã mais nova pelo cunhado. Pior, sucedem-se ao mau exemplo outras apresentações excessivas das costas de cada personagem. Espaldas com facas de todos os restantes, como viria a celebrizar Poirot, o Hercules fumando no vagão policial para leste. Há polifonia. Cada verdade excessivamente declamada: operaticamente, como se diz vai soçobrando à vez. Todos estão zangados e todos desejam o fim da cena e o seu clarão de paz. Em todos, a desilusão e a contrariedade da sorte faz nascer uma vida nova. A hora final é bastante melhor. Num ribombar de tambores que precede energicamente um final em aberto. Há vários desenlaces simulados e a peça continua sempre. Contém episódios de beleza que a encenação destacou bem para fora da porta da casa dos mortos-vivos.
Passados trinta minutos acontece qualquer coisa. É convincente ângulo o que se quer desenvolver, pois a tia sofre de amor condenável pelo sobrinho, mas salvou a infância dos pais severos; mostrou-lhe o mundo. Esta é a personagem-detective. As duas irmãs disputam o adolescente, que tem três amores e não sabe de qual gosta mais. A mãe usa a saia abaixo do joelho, a sua irmã gémea usa saia acima do joelho, a sua professora de piano não veste saia. Há crise, a mãe é insultada, êxtase! A tensão rebenta logo e baralha o clássico crescendo. Vamos já como quem recua ao piso de cima onde vive o banqueiro, considerado demente pelas calhandras, e visitado unicamente por um poeta desajeitado. O banqueiro faz planos para reabilitar a honra com a ajuda do poeta que o afaga. Borkman sabe que foi traído pelo melhor amigo, com quem competia a um cargo de governo. O verdadeiro crime não é ir contra as leis do país mas contra a lei do amor. Kierkegaard revive. O texto reverte a censura social sobre o criminoso, e isso é surpreendente. O poeta ameaça singularmente o banqueiro por lhe dizer a verdade, e é distratado. Foi Borkman quem o fez ventríloquo, é Borkman quem determina que cale pela primeira vez em que diz verdade. Lembrando-lhe que é ninguém, e que todos somos culpados de qualquer coisa que fizemos de errado, Borkman já não é bondoso. Está rica a personagem do banqueiro ruinoso, afinal o suicida, afinal o romântico, afinal o que cria fervorosamente nas suas ideias. O doente de amor extremamente lúcido e inofensivo que habilitou os herdeiros de Ibsen. O banqueiro foi entalado por um advogado e quem pode salvá-lo? Um amor romântico de juventude. A tia, irmã da legítima esposa infeliz e cuidadora do filho do banqueiro, está agora em cena. Borkman reverdece. Confessa e sonha. Fazem planos para viajar. Borkman torna-se omnisciente. Porém, o drama romântico tardio é desfeito por outra luta pelo poder. A luta entre pai, mãe, tia e namorada pelo destino do Borkman adolescente. Os quatro adultos têm quatro planos alheios à vontade do infante. O plano romântico é ultrapassado, de novo, pela vontade de poder, recalcando o princípio do sucesso do banqueiro. Decidido o filho pela juventude, a aproximação do fim é a salvação da desgraça infinita de um vale de lágrimas. A vida foice e a morte salvadora. Onde é que já vimos isto? Imaginou Ruy Belo em Morte ao Meio-Dia, retomando Freud leitor de Ibsen, que o conteúdo profundíssimo do sujeito que realça o vasto continente se muda numa pequena ilha de tremor. Visto isto, apela à mãe, uma senhora crente e culposa. É auto-brio-grafia.