Berthe Weill. A padroeira dos artistas desvalidos

Pequenina e míope, Madame Weill revelou-se uma galerista de vistas largas. Foi a primeira a comprar obras de Picasso e Matisse, e organizou a única exposição individual de Modigliani em vida, o que lhe valeu uma visita à esquadra
Berthe Weill. A padroeira dos artistas desvalidos

Na movimentada galeria de exposições temporárias do Museu de L’Orangerie, em Paris, há obras de Picasso, Matisse, Diego Rivera e Marc Chagall. Mas aquela que ocupa o lugar de honra, por assim dizer, é uma pintura de Raoul Dufy, uma espécie de sinfonia em cor de rosa. Mostra um interior com uma jarra de flores pousada em cima de uma mesa redonda, com uma nota comum: o chão é cor de rosa, o rodapé é cor de rosa, o papel de parede é cor de rosa, o quadro pendurado é cor de rosa… só as flores que ocupam o centro, curiosamente, recusam submeter-se às tonalidades dominantes.

Executada em 1931, a pintura chama-se 30 ans ou La vie en Rose e celebra os 30 anos da galeria B. Weill. Mas a vida de Berthe Weill, uma ‘santa padroeira’ de cubistas, fauvistas e jovens artistas necessitados, não foi de modo algum um mar de rosas. Atravessou as duas grandes guerras, o Crash da bolsa de 1929, apertos financeiros e a ascensão do antissemitismo. (Quanto à famosa canção de Edith Piaf, ‘La vie en rose’, só seria escrita em 1945, já após a libertação de Paris, e lançada no ano seguinte, com estrondoso sucesso).

«A minha vida foi como foi porque eu quis que fosse assim», escreveu Weill na sua autobiografia, que intitulou Pan! dans l’oeil!... ou trente ans dans les coulisses de l’art contemporain (Pum ! No olho !.. ou trinta anos nos bastidores da arte contemporânea), publicada em 1933. «Tive desilusões, mas também muitas alegrias e, apesar dos obstáculos, dediquei-me a uma ocupação que apreciei do princípio ao fim. Tudo pesado, acho que posso considerar-me uma felizarda… e considero».

Baixinha (media um metro e meio), usava o cabelo curto apanhado num carrapito e vestia com simplicidade. Há quem diga que a forma como se movimentava fazia lembrar uma toupeira. As semelhanças não se ficavam por aí: era míope em alto grau, o que a obrigava a usar óculos com lentes de fundo de garrafa. Não lhe faltou porém visão para apostar em perfeitos desconhecidos que haveriam de tornar-se célebres e conseguiu impor-se num meio dominado por homens. O seu lema, que mandou estampar nos cartões-de-visita, dizia tudo: «Lugar aos mais novos». Entre muitas outras façanhas, teve a ousadia de ser a primeira mulher, que se saiba, a fundar a sua própria galeria de arte – abrindo o caminho a outras, como Peggy Guggenheim, cuja Art of this Century seria inaugurada em 1942 em Nova Iorque.

A fibra de que é feita uma galerista

Nas suas humildes origens judaicas pouco permitia adivinhar uma carreira nas artes. A quinta de sete filhos de Salomon Weill, um trapeiro que se tornara negociante de tecidos, e de Jenny Levy, uma costureira, Berthe nasceu a 20 de novembro de 1865 em Paris.

Pequena e enfermiça, frequenta a escola apenas até aos 10 anos, complementando essa formação rudimentar com um estágio, durante a adolescência, junto de um primo que tem um estabelecimento que vendia pinturas e gravuras, na Rue Laffite. Quando este primo morre, em 1886, já ela acumulou um capital de conhecimento suficiente para abrir o seu próprio negócio de arte e antiguidades, um pequeno espaço no Pigalle, a dois passos da colina de Montmartre.

Não falta muito para mostrar de que fibra era feita. Em 1898, com o Affaire Dreyfus ao rubro (em que o oficial judeu Alfred Dreyfus foi injustamente acusado, condenado, desonrado e preso por espionagem, só vindo a ser reabilitado ao fim de mais de dez anos), Weill coloca na montra da sua loja a pintura Cristo Ultrajado, de Henry de Groux, que na realidade representa o escritor Émile Zola a ser alvo de insultos e de chacota. Tal como Zola, que escreveu o célebre artigo de primeira página ‘J’accuse’, uma carta aberta ao Presidente da República em que garantia a inocência de Dreyfus, Weill não tem dúvidas de que o oficial judeu está a ser vítima de uma injustiça tremenda, se não mesmo de uma conspiração. E, tal como o escritor, também ela é injuriada. Ameaçam partir-lhe a montra, mas a pequena ‘toupeira’ sai da toca, enfrenta a turbamulta e esta dispersa-se.

Picasso e as ‘feras’

Ainda antes de abrir a galeria com o seu nome, Weill faz história ao adquirir três obras a um jovem malaguenho de dezanove anos acabado de chegar a Paris, que lhe é apresentado pelo marchand catalão Pedro Mañach. As três pinturas a pastel mostram cenas de grande dramatismo na arena de uma praça de touros. O jovem artista chama-se Pablo Picasso. Estima-se que Weill lhe tenha comprado quinze pinturas, um apoio de que ele precisava como de pão para a boca, até ter direito à sua primeira exposição individual, promovida por Ambroise Vollard (que Weill detesta), em 1901.

Nesse mesmo ano, Berthe Weill deixa a casa dos pais e, com o dinheiro destinado ao dote de casamento (permanecerá sempre celibatária), funda a sua galeria em nome próprio. À cautela, chama-lhe Galerie B. Weill, escondendo por detrás da inicial que a figura de proa é uma mulher. Reza a lenda que o espaço é tão exíguo que ela chega a pendurar as telas acabadas de pintar numa corda para estender para a roupa.

No ano seguinte, 1902, vende a sua primeira obra de Matisse, cujo estilo se encontra ainda em formação. «Henri Matisse, escrivão de notário, largou tudo para se dedicar à pintura, seguindo o exemplo de Gauguin», escreve a galerista nas suas memórias. «Naturezas-mortas de grande qualidade, figuras que me impressionam; fiquei com algumas para tentar despertar o interesse das pessoas».

Começa também a apadrinhar os fauves (pintores como Maurice de Vlaminck e André Derain, que usam cores tão garridas e de forma tão desconcertante que são comparados a ‘feras’), mesmo antes de estes conquistarem as atenções do público e da crítica no Salon des Indépendants de 1905. Começam a chamar-lhe ‘La petite Mère Weill’, para o que muito contribui o facto de a galerista ter sempre uma refeição quente à espera dos jovens artistas mais necessitados.

O caso Modigliani

A década de 1910 a 1920 fica marcada pelo advento do cubismo – e pelo eclodir da Grande Guerra, claro. Em 1913 Berthe Weill expõe obras de Gleizes, Léger, Metzinger e Picasso. Mas o seu apetite por arte é omnívoro. Mais uma vez, vai mostrar a sua audácia e a agudeza da sua intuição ao organizar, em 1917, uma exposição individual de um completo desconhecido que luta, mais do que para triunfar, para sobreviver em Paris: Amedeo Modigliani.

Vale a pena reproduzir palavra por palavra o texto de parede da exposição na Orangerie: «No dia 3 de dezembro, 32 obras de arte, sobretudo pinturas, foram desveladas, incluindo quatro nus, hoje icónicos. Os pelos públicos visíveis causaram um escândalo, atraindo multidões à galeria». Se no caso da tela de Zola tinha havido ameaças, aqui os efeitos são mais sérios. «O comissário da Polícia do lado de lá da rua mandou Weill ‘retirar toda aquela porcaria’, ameaçando com o confisco por ‘indecência pública’. Apesar do fracasso comercial, Weill fez ela própria cinco aquisições para apoiar Modigliani, cujo trabalho admirava imensamente». A galerista acabará mesmo por ter de fazer uma visita à esquadra.

Mas o aspeto talvez mais espantoso – quase chocante – é que esta foi a única exposição individual a que o artista italiano teve direito em vida. Quase exatamente um século depois, em 2018, uma dessas pinturas, Nu Couché, seria vendida em leilão por 170 milhões de dólares.

O desafogo antes do Crash

Com toda a publicidade – boa e má – atraída pelos nus ‘indecentes’ de Modigliani, a galeria de Weill conquista uma reputação de ousadia e de liberdade, contra os ditames do ‘bom gosto’ convencional. «Os críticos? Deus me livre, nem me falem deles», escreve ela nas suas memórias. «Dizem disparates inacreditáveis. De resto, as pessoas dizem sempre asneiras quando tentam explicar a pintura. A pintura não pode ser explicada. Ou nos agarra pelas entranhas ou nos causa repulsa». Artistas vindos de outras partes da Europa e até da América procuram refúgio e amparo junto desta pequena mulher judia, míope e cosmopolita, cujo traço mais notório é o faro espantoso para detetar o talento mesmo antes de ele desabrochar por completo.

Quando assinala o seu 25.º aniversário, em 1926, a galeria B. Weill vive um período de maior desafogo financeiro, havendo até meios para a publicação de uma revista mensal, significativamente titulada Le Bousilleur (O Trapalhão). Mas o período entre guerras fica sobretudo marcado pelo rash da Bolsa de Nova Iorque na Quinta-Feira Negra, 24 de outubro de 1929. O impacto em França não é imediato, mas os efeitos fazem sentir-se à la longue. As taxas de crescimento da economia, que andavam acima de 4% nos anos loucos da década de 1920, caem para perto de 0,5% ao ano. Os investidores retraem-se e procuram valores seguros. Atingida também pela crise, Weill vê-se forçada a vender o seu acervo pessoal, onde não é arriscado supor que haveria obras-primas de Picasso, Matisse, Modigliani, Diego Rivera, Raoul Dufy e Marc Chagall, entre muitos outros.

O canto do cisne

A tempestade entretanto amaina e Weill recompõe-se. Em 1931, assinala o ‘jubileu’ da galeria – 30 anos de alegrias e dificuldades, como a própria diria – com uma exposição de 100 artistas e um baile de máscaras no restaurante Dagorno, que tem como especialidade as carnes grelhadas no carvão. O fotógrafo Marc Vaux regista a ocasião para a posteridade, numa fotografia com cerca de meia centena de homens e mulheres que fazem lembrar uma trupe circense. Weill aparece ao centro, sentada no chão, vestida com um casaco de smoking, calças pretas, papillon, uma flor na lapela e os inconfundíveis óculos redondos de fundo de garrafa. Para a exposição comemorativa, o seu amigo Dufy contribui com uma tela alegre e festiva: a nossa conhecida 30 Ans ou La Vie en Rose.

Em 1934 a galeria muda de instalações, para o número 7 da Rue Saint-Dominique, a cinco minutos da Gare d’Orsay (hoje museu). Weill aposta na abstração, expondo artistas do grupo Cercle et Carré (Círculo e quadrado) e do movimento Abstraction-Création. Em 1939, nas vésperas da guerra, expõe obras de Otto Freundliche, um pintor e escultor alemão de origem judaica, cuja escultura Der Neue Mensch (O Novo Homem), inspirada nas cabeças da Ilha da Páscoa, tinha figurado como objeto de escárnio na capa do catálogo da infame Exposição de Arte Degenerada organizada pelos nazis em 1937. No convite para a exposição enviado por Weill, lê-se o seguinte texto: «Enquanto o povo, estóico e impassível, se prepara para a loucura coletiva da destruição e da morte, só os artistas, conscientes da sua missão de criar beleza, continuam a produzir a sua arte com amor e desprendimento, segundo o ritmo das leis eternas».

Freundliche acabará por ser assassinado no campo de concentração de Majdanek, em 1943.

Weill, apesar da sua origem, escapa a esse destino. Mas não incólume. A última exposição conhecida na sua galeria é de pinturas da hoje quase desconhecida Odette des Garets, entre maio e junho de 1940 – o mês em que os nazis ocupam a capital francesa. O antissemitismo rampante fá-la passar por um dos períodos mais amargos da sua existência. Em outubro desse mesmo ano, sai uma lei que proíbe os judeus de serem donos de estabelecimentos comerciais. Weill pede a um amigo que tome conta do negócio que, neste cenário adverso, não resiste. No momento em que encerra as portas, a Galeria B. Weill tem no currículo cerca de 140 exposições e mais de 300 artistas exibidos.

 

O fim e o silêncio

Em 1941, a galerista, já septuagenária, fratura o colo do fémur e tem de ser hospitalizada. São anos sombrios, em que vive escondida e na miséria.

Escondida mas não esquecida. Em 1946, com o entusiasmo da libertação de Paris ainda bem fresco, um grupo de amigos, galeristas e artistas que ela apadrinhara promove um leilão de mais de 80 obras a favor da velha dama. A receita angariada ascende a 1,5 milhões de francos (aproximadamente 150 mil euros atuais), o que permite a Weill passar confortavelmente o resto dos seus dias.

Morre em 1951, aos 85 anos. À medida que os artistas que promovera e protegera vão também desaparecendo, cai sobre ela um pesado silêncio. O seu nome quase deixa de ser lembrado, ao contrário dos de outros galeristas do seu tempo, como Kanhweiler, Paul Guillaume, Paul Rosenberg e o por ela detestado Ambroise Vollard.

Até que uma jovem investigadora em História da Arte, Marianne le Morvan, enquanto prepara o seu doutoramento, se cruza com uma referência a uma galerista que, no seu minúsculo espaço, pendurava telas de Matisse e Picasso na corda da roupa. Acha graça à história e pouco depois descobre a autobiografia Pan! Dans l’oeil…, que lhe revela uma personalidade fascinante. Funda um arquivo dedicado a Berthe Weill e esforça-se por localizar os quadros mencionados nas memórias da galerista. Ao fim de cerca de 15 anos de pesquisa, está reunido o material suficiente para organizar uma exposição dedicada a esta descobridora e protetora de talentos. A mostra arranca no Grey Art Museum, em Nova Iorque, e depois viaja para o Museu de Belas Artes de Montreal (Canadá) e finalmente para a Orangerie, em Paris, onde permanece até dia 26 de janeiro.

Berthe Weill. Galeriste d’avant-garde

Até 26 de janeiro no Museu de l’Orangerie, Paris