terça-feira, 09 jun. 2026

Ben Morea: Artista e xamã da contracultura

Cruzando arte e revolta, Morea foi o mentor de uma forma de dadaísmo armado.
Ben Morea: Artista e xamã da contracultura

Pintor abstrato, anarquista ctónico, líder do movimento de contracultura que se deu em Nova Iorque na década de 60, lenhador e contrabandista de beleza nas margens do delírio capitalista, foi um dos poucos que resistiu, até ao último fôlego, à domesticação e a aceitar que a revolta se visse rebaixada a mercadoria de consumo ou fetiche académico.

Nascido em Brooklyn, a 8 de outubro de 1941, a travessia de Morea começou no coração dos tumultos urbanos e terminou no silêncio ritualístico das montanhas do sudoeste americano. Entre estes dois extremos, ergueu-se uma das trajetórias mais assombrosas da contracultura do século XX.

A América dos anos 60 era um país a desfazer-se em direto, e havia uns tantos seres empenhados em acelerar o processo. Enquanto Abbie Hoffman atirava dólares para o chão da Bolsa de Nova Iorque e Jerry Rubin declarava que ia levitar o Pentágono, Morea e os seus camaradas do Up Against the Wall Motherfucker invadiram o Pentágono pela porta de trás, e foram expulsos à força pelos soldados. A diferença entre Morea e tantos dos figurões da contracultura norte-americana é que se estes pareciam ansiosos por se resignarem, dando a revolução como um delírio, ele parecia convencido de que estava nas suas mãos fazê-la. E se depois o fracasso, buscou consolação na coisa que mais se lhe aproximava, ou seja, lixar a vida de quem se deliciava com esse fracasso.

Morreu a 2 de maio de 2026, aos 84 anos, sozinho nas suas terras em Gardner, no Colorado. Colapsou enquanto caminhava sem ninguém por perto. O coração gastou-se.

Crescera em San Juan Hill, Manhattan, um bairro com aquela fluência nervosa do jazz e os devaneios sobre o abismo da recreação química, e que foi demolido para dar lugar ao Lincoln Center, essa fortaleza de mármore branco onde a burguesia celebrava a sua superioridade cultural. A cidade que o forma é a cidade que o expulsa. E essa cultura institucional que ele tanto despreza e virá a atacar que se impõe e exprime a lógica do regime administrativo: despejos, demolições, reassentamentos, e depois a ópera. Antes de qualquer militância, há uma deriva entre pequenos crimes para sustentar o vício da heroína, e não demora muito até se ver enfiado na prisão. É numa cela de hospital prisional que, no final dos anos 50, descobre a pintura abstrata. Mal se pôs ao fresco foi à procura dos beatniks. Encontrou o Living Theatre de Judith Malina e Julian Beck, que puseram um nome no que ele já era: anarquista. Começou a expor as suas telas em galerias de Manhattan ao lado de Ad Reinhardt, Louise Nevelson e Louise Bourgeois. Pintava em semi-transe, telas de metro e meio com formas que evocavam padrões aborígenes e estrelas a implodir, que o curador Matthew Higgs classificaria décadas mais tarde como objetos que mereciam estar na coleção permanente do Whitney. Mas Morea não estava interessado. Quando a Pop Art chegou e Andy Warhol se tornou o rosto da modernidade americana, esse espelho vazio que o capitalismo ergueu diante de si mesmo para se admirar, Morea largou os pincéis e foi para a rua. Warhol revelara-se um oportunista «desprezível», que serviu de guia na transformação da arte em necrotério glamoroso da mercadoria. Morea já só via ali cadáveres iluminados por néon. Chamou a Warhol «um ilustrador de moda manufaturado em artista». E quando a sua amiga Valerie Solanas o baleou em 1968, elogiou-a publicamente.

O que Morea construiu no Lower East Side entre 1966 e 1969 não tem paralelo na história da contracultura norte-americana. Primeiro o Black Mask, uma revista de agitação neo-dadaísta vendida por cinco cêntimos, dez números que misturavam a urgência das insurreições negras com o surrealismo europeu e a filosofia anarquista dos veteranos da Guerra de Espanha que ele frequentava nos cafés do bairro. Depois o Up Against the Wall Motherfucker, nome retirado de um poema de Amiri Baraka e intencionalmente impublicável na imprensa mainstream - uma estratégia deliberada para impedir que o sistema os transformasse num espectáculo consumível. Era uma espécie de gangue místico-criminal saído do ventre apodrecido do Lower East Side, que juntava anarquistas, ladrões, artistas, desertores de guerra, freaks, vagabundos armados, miúdos da Ivy League convertidos ao banditismo psicadélico. Gente que percebera antes dos outros que o capitalismo não era apenas uma economia: era uma administração total dos nervos, do desejo, da perceção, da própria imaginação. Alimentavam centenas de pessoas por noite. Patrulhavam o bairro armados. Quando o secretário de Estado Dean Rusk chegou a um banquete em Nova Iorque, receberam-no com ovos, pedras e sacos com sangue de vaca. Quando os varredores de Nova Iorque foram à greve e o lixo se acumulou em montanhas pelas ruas, encheram sacos de detritos e foram depositá-los nas escadarias do Lincoln Center, enquanto distribuíam panfletos em que se lia: «Propomos uma troca cultural - lixo por lixo».

Em outubro de 1968, invadiram o palco do Fillmore East, e há uma fotografia que regista o episódio, e onde se vê o promotor Bill Graham a sangrar do nariz. Ninguém sabe ao certo como aconteceu. O que se sabe é que Graham os chamou ao escritório a seguir, abriu a gaveta da secretária e pôs três balas em cima da mesa. «Os Hells Angels deram-me estas porque queriam algo de mim», disse. Morea olhou para as balas e respondeu: «A única diferença é que, se nós te dermos três balas, elas não vão estar em cima da tua secretária». Graham cedeu-lhes as noites de quinta-feira.