quarta-feira, 15 jul. 2026

Ayoi Kusama. A mestre do infinito

É considerada uma das artistas mais influentes e vendidas do mundo. Desde 1977 que vive numa clínica psiquiátrica por vontade própria e transforma as suas alucinações e traumas em arte. Pinta o infinito e admite que só parará de criar depois de morrer. Quem é Yayoi Kusama e o que sabemos sobre a sua difícil trajetória? 

É uma das artistas contemporâneas mais influentes do mundo. O seu trabalho carrega fortes valores feministas, sempre questionou a liberdade do corpo, a expressão sexual, insurgindo-se contra o patriarcado. Sempre esteve à frente do seu tempo, sempre quis provocar. As suas obras são baseadas em padrões que se repetem, em cores, e ficaram marcadas pelos célebres pontinhos e bolinhas (polka dots). Faz instalações imersivas que utilizam espelhos, luzes e superfícies refletoras para criar a ilusão de um espaço infinito.   

Considera-se uma «artista obsessiva», uma «herege do mundo da arte». «Penso apenas em mim quando faço o meu trabalho», já disse várias vezes. «Todas as minhas obras são etapas da minha jornada, uma luta pela verdade que travei com caneta, tela e materiais. Acima, uma estrela distante e radiante, se ergue, e quanto mais me esforço para alcançá-la, mais ela se distancia. Mas, pela força do meu espírito e pela busca incansável do percurso, abri caminho através da confusão labiríntica do mundo humano, num esforço incansável para me aproximar, ainda que minimamente, do reino da alma», escreveu na sua autobiografia Infinite Net, lançada em 2022. Desenha, pinta, esculpe, instala, faz performances e também se destaca no mundo da moda. Fala de identidade através do corpo, criando personas e fá-las viver através das suas criações. «O que mais me preocupa é criar boa arte. Esse é o meu único desejo. Seria inútil e sem sentido focar no tempo cada vez menor que tenho pela frente ou pensar nas minhas limitações. Jamais deixarei de me esforçar para criar obras que brilhem após a minha morte. Há noites em que não consigo dormir simplesmente porque o meu coração transborda com a aspiração de criar arte que dure para sempre. Sinto como a vida é verdadeiramente maravilhosa e tremo de fascínio eterno pelo mundo da arte, o único lugar que me dá esperança e torna a vida significativa. E não importa o quanto eu sofra pela minha arte, não terei arrependimentos. É assim que tenho vivido e é assim que continuarei a viver», revelou ainda.  

Num artigo de 1961, afirmou que chegava a trabalhar de 50 a 60 horas seguidas. «Aos poucos, sinto-me enfeitiçada pela acumulação e repetição nas minhas redes, que se expandem para além de mim e para o espaço limitado da tela, cobrindo o chão, as mesas e tudo mais», explicou.  

Da ‘prisão’ à liberdade  

Mas a verdade é que a sua vida não foi fácil e hoje, com 97 anos, continua a viver numa clínica psiquiátrica em Tóquio, onde se internou voluntariamente em 1977, sem nunca parar de criar. Yayoi Kusama tem um quadro clínico complexo, sendo oficialmente diagnosticada com Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e uma condição neuropsiquiátrica associada a episódios psicóticos, frequentemente descrita como esquizofrenia. «A minha arte é uma expressão da minha vida, particularmente da minha doença mental», admitiu à publicação americana de arte Bomb Magazine.  

A artista nasceu em 1929 em Matsumoto, uma província rural do Japão, no berço de uma família conservadora que tinha o negócio de cultivo de sementes. Por isso, cresceu rodeada de flores. Passava grande parte do tempo sozinha no meio das plantações de abóboras e violetas e, foi nessa altura, que acabou por desenvolver uma fascinação botânica que mais tarde se refletiria na sua obra.  

Por volta dos 10 anos, a jovem começou a ter alucinações. Segundo o que conta, via pontos e padrões em forma de rede que envolviam tudo na sua cabeça. A artista já atribuiu essas visões precoces à tensão psicológica de crescer com uma mãe pouco afetuosa. Esta proibia-a de pintar, chegava a retirar os desenhos das suas mãos e a agredi-la para que parasse. «A expectativa era que ela se casasse e tivesse filhos – e não apenas se casasse, mas tivesse um casamento arranjado», afirmou Heather Lenz, produtora e diretora do documentário Kumana: Infinity, em entrevista à BBC Culture.  «Os meus pais tentavam forçar-me a casamentos arranjados com homens que eu nunca tinha visto e que vinham de famílias muito específicas», disse Yayoi, referindo-se ao início dos seus 20 anos como a sua época de «colapso mental».  

Segundo a mesma, o seu pai era um homem fútil e infiel. Como já contou em diversas entrevistas, a sua mãe obrigava-a, ainda criança, a segui-lo e a espiá-lo durante os seus encontros sexuais. Não é de admirar que isso tenha traumatizado Kusama de forma irreversível. A artista já adiantou que isso a fez criar uma fobia de sexo e do corpo masculino.  

Após frequentar a Escola de Artes e Ofícios de Kyoto, já tinha realizado as suas primeiras exposições na sua cidade natal. No entanto, sabia que tinha de partir. Kusama encontrava um escape na arte e tinha uma admiração especial pela pintora americana Georgia O’Keeffe. A dada altura a jovem japonesa ousou escrever-lhe a pedir-lhe alguns conselhos: «Estou apenas no primeiro passo de uma longa e difícil vida para me tornar uma pintora. Pode mostrar-me o caminho?», perguntou. E, por incrível que pareça, O’Keefe escreveu-lhe de volta, mesmo que fosse para alertá-la que nos EUA, «uma artista tem dificuldades em sobreviver». Apesar disso, a pintora americana aconselhou-a a dirigir-se às fronteiras americanas e a mostrar o seu trabalho a qualquer um que se pudesse interessar. Foi em 1957, aos 28 anos, que decidiu mudar-se.  

De acordo com a BBC,  Kusama falava muito pouco de inglês, e era proibido mandar dinheiro do Japão para os EUA. «Destemida, costurou notas de dólar no seu quimono e partiu pelo oceano Pacífico determinada a conquistar Nova Iorque», escreve a mesma publicação. A mãe deu-lhe apoio financeiro para começar, com a condição de que ela nunca retornasse ao Japão.  

Diferente, provocadora e vanguardista  

As suas obras exploravam os limites físicos e psicológicos da pintura, com a repetição interminável das marcas, criando uma sensação quase hipnótica para o espetador e o artista. Mas não foi fácil conquistar o seu espaço. Na altura, o mundo artístico ainda era dominado pelos homens. Yayoi era boa, recebia elogios da crítica. No entanto, outros colegas de profissão colhiam os louros pelas suas ideias. Andy Warhol, por exemplo, em Papel de Parede de Vacas copiou a ideia da artista de repetir imagens numa obra, tal como a artista fez na instalação Mil Barcos.  

Kusama fez uma declaração sobre a disparidade salarial entre géneros com sua escultura Vida em Viagem, de 1964, que apresenta uma escada coberta de formas fálicas com sapatos femininos nos degraus. Os falos são outro motivo recorrente que a artista usou para processar o seu «medo do sexo como algo sujo», como escreveu na sua autobiografia. 

Um ano depois, tudo se agravou. Inspirada pela preparação de homem para ir à Lua, Kusama notou o interesse do público pelo infinito e criou o primeiro ambiente de sala espelhada do mundo, um precursor do Quarto de Espelho Infinito, na Galeria Castellane, em Nova Iorque. Pouco tempo depois, Lucas Samaras reproduziu essa ideia, tendo a sua instalação espelhada na Galeria Pace, a mais bem prestigiada. Nessa época a artista tentou suicidar-se, jogando-se da janela do seu apartamento. Felizmente, sobreviveu. 

Em 1966, Yayoi apresentou a sua obra Jardim de Narciso na Bienal de Veneza. Nessa obra, colocou 1.500 esferas espelhadas no relvado em frente à entrada do evento, para o qual não havia sido convidada, e tentou vendê-las por 2 dólares cada. Os responsáveis pela Bienal acabaram por intervir e impediram a venda, mas a obra ainda serviu como uma crítica contundente à comercialização do mundo da arte e ao papel dos artistas nele. 

Na mesma década, realizou protestos contra a Guerra do Vietname. Eram eventos frequentemente provocativos, que envolviam muita nudez. Pousou várias vezes nua, pintou corpos nus transformando-os em esculturas vivas. Dois exemplos disso foram o Happening Love In, no Central Park, em Nova Iorque, em 68, e na performance Grand Orgy to Awaken the Dead, no MoMa. Neste segundo, oito pessoas pousaram nuas ao lado de esculturas do museu, fazendo a mesma pose. Enquanto isso, Yayoi cobria os seus corpos com pontinhas.  

«Porque é que pessoas que partilham prazer umas com as outras deveriam ir à guerra e matar outras? Através do sexo livre, o muro entre mim e os outros pode ser derrubado», escreveu também Kusama na sua autobiografia. Com os pontos, tinha o objetivo de apagar a individualidade dos retratados. A artista chama-lhe de «auto-obliteração». «Ao nos apagarmos podemos retornar ao universo infinito», defendia.  

Regresso e sucesso no Japão e no mundo 

Segundo a BBC, Kusama estava cada vez mais desiludida e deprimida. Por isso, acabou por voltar para o Japão. Lá, sem o apoio da família ou amigos, sentindo-se incapaz de pintar, tentou novamente se suicidar. Felizmente, parece que o desejo de criar sempre foi maior do que o de morrer. E, ao descobrir um hospital onde os médicos tinham interesse em arteterapia, decidiu internar-se. Aos poucos, a inspiração voltou e, mais uma vez, os traumas iam-se transformando em arte. Nessa altura, começou também a escrever poemas e ficção surreais, incluindo The Hustlers Grotto de Christopher Street (1984) e Between Heaven and Earth (1988). «A minha arte tem origem em alucinações que só eu consigo ver. Traduzo as alucinações e imagens obsessivas em esculturas e pinturas. No entanto, crio obras mesmo quando não vejo alucinações», esclareceu.  

O seu trabalho foi sendo gradualmente conhecido e, em 1989, uma retrospetiva da sua obra foi exposta no Centro de Arte Contemporânea Internacional, em Nova Iorque. Quatro anos depois, o historiador de arte japonês Akira Tatehata conseguiu convencer o governo de que ela deveria ser a primeira artista a solo a representar o Japão na Bienal de Veneza, em 1993. Embora tivesse que ser acompanhada por um psicoterapeuta, pelo receio de poder sofrer uma crise nervosa, a exposição foi um sucesso e garantiu uma enorme transformação no modo como era recebida e reconhecida no Japão. 

Seguiram-se exposições no Museu de Arte do Condado de Los Angeles, no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, no Walker Art Center em Minneapolis, Minnesota, e no Museu de Arte Contemporânea de Tóquio. Em 2006, recebeu o prémio Praemium Imperiale da Japan Art Association por pintura. O seu trabalho foi ainda objeto de uma grande retrospetiva no Whitney Museum of American Art, em Nova Iorque, em 2012, e uma exposição itinerante atraiu multidões recorde no Hirshhorn Museum e Sculpture Garden, em Washington, DC, em 2017. No mesmo ano, abriu um museu dedicado ao seu trabalho em Tóquio, perto do seu estúdio e do hospital psiquiátrico onde mora.