Caracteriza-se como uma artista multidisciplinar: produtora e compositora de música, performer, bailarina, atriz, autora, dj e modelo. Além disso, gosta de desenhar, pintar, trabalhar com vídeo, photoshop e estar enraizada na natureza. “Sinto que as diversas áreas me satisfazem de formas diferentes”, começa por afirmar à VERSA. Segundo a Aurora, “a dança é uma prática que faz libertar todas as hormonas e fortalecer a corpa” - recorde-se que “corpa” é um termo utilizado no feminino, muitas vezes no contexto de estudos de género e sexualidade, para se referir ao corpo de forma subjetiva, política e vivenciada, especialmente de pessoas trans e negras. Por sua vez, a música “provém das entranhas” e “transforma o espectro emocional em potência”. “No acting posso vestir outras personagens e desafiar-me noutras vidas”, continua a artista. Enquanto autora, pode trabalhar a auto-representação e ficção. Com a performance, “trazer o lado sci-fi da corpa biónica”. “No desenho e pintura posso ser abstrata e sonhadora múltipla. Na moda consigo trabalhar a minha insegurança e imagem. Sinto diferentes coisas e necessito de todas elas para me expressar e funcionar no meu dia-a-dia”, garante.
No dia 6 de março a artista apresentou o novo álbum KATANA nas Damas, em Lisboa. De acordo com a mesma, é o disco mais sólido que alguma vez produziu, que se tornou no seu maior refúgio depois da morte da tua “mammy-avó”. É, por isso, “elétrico, visceral e extra pessoal”. “Estive a trabalhar neste disco durante três anos. A ideia sempre foi fazer um disco autobiográfico como se tivessem a debulhar páginas dum livro”; detalha. Por essa razão, quis trazer esse “lado íntimo” e “gravar com a minha avó, mãe e manas”. “Eu gosto muito de estar em estúdio porque posso ser vulnerável, plantar emoções e ritualizar choro non-stop. É o momento de esgoelar, refletir e esculpir os minerais. Sendo uma pessoa muito tímida e insegura, sinto que a música me ajuda a perceber novas linguagens sobre a multiplicidade da minha corpa. Este disco é um manifesto através de memórias, é o culminar da minha própria identidade”, acrescenta.
Aurora tem uma linguagem muito própria, por isso o seu trabalho fala muito de identidade. “Sinto que consegui trabalhar fragilidades, inseguranças, alienação, canalizar luto e transformar dor em potências”, revela. Gosta de “redescobrir coisas novas, desafiar-se a desconstruir pensamentos e reconstruir emoções”. “Neste disco fico feliz por ter uma música intemporal com a minha avó e mãe. Representa também duas mulheres que ficaram ocultas e esquecidas. A educação, luta e o amor delas construiu também quem eu sou hoje. E sinto que houve uma reconciliação com a vida. Estou muito grata por elas e pelas manas Filipe e Kyara”, conta.
Além disso, KATANA é um gesto político. As músicas ‘I AM’, ‘B ALIVE’, ‘GALLOWS OF BLOOD’ e ‘BIONIC’ são polidas por esse manifesto político intemporal. “É o reflexo dos tempos que atravessamos neste momento. É um grito político pós apocalipse. É resistência e fúria em tempos de guerra”, admite Aurora.
Interrogada se no videoclipe da música ‘VIDEOGAME’ existe uma conjunção de muita força com vulnerabilidade. A artista explica que é algo “natural” e “fluido”. “Sou força que resiste, mas também sou bué vulnerável. Sinto que a força provém da Katana e a vulnerabilidade da Aurora. Essas duas realidades culminam e germinam a minha identidade”, acrescenta.
Para si, é importante “desconcertar e desmantelar o sistema, questionar os nossos lugares diariamente enquanto corpas dissidentes que nos tentam oprimir, abafar e silenciar constantemente”. “E devido ao trabalho árduo da minha ancestralidade, eu faço parte da nova geração que chegou para ficar period. E sim, sou monstra feroz, implacável, sem pedidos de desculpa”, detalha.
Com este álbum, Aurora espera ocupar um lugar urgente de representação, reivindicação, mudança, estabilidade, streams. “Já acendi velas para ter tour atrás de tour e chegar ao mainstream”, revela. “Espero que as pessoas recebam com bué amor, se sintam inspiradas, empoderadas, fogosas, manifestem seus desejos emancipados e reivindiquem suas identidades”, remata a artista.
Este “manifesto biônico” de 11 faixas tem selo Maternidade e está disponível em todas as plataformas de streaming