Personalidade multifacetada e hoje controversa, homem de talentos vários, José Veloso de Castro (1869-1945) deixou-nos registos preciosos da vida quotidiana nas aldeias, das paisagens e da presença portuguesa em África no início do século XX.
Natural de Braga, Veloso de Castro foi oficial do exército ao longo de 38 anos, 17 dos quais passados em Angola (1902-1919). A sua atividade desdobrou-se por diferentes campos de atividade: fez levantamentos topográficos, editou revistas, escreveu livros e fotografou os sítios que viu e as pessoas com quem se cruzava.
Mas o conjunto excecional das suas mais de 2300 fotografias continuaria hoje numa relativa obscuridade sem a descoberta quase acidental de um álbum feita por Carlos Pedro Reigadas, proprietário da galeria Arte Periférica, no CCB (Lisboa). Os negativos em vidro estiveram fechados em caixas durante mais de cem anos.
A génese de uma exposição
«Eu tinha criado uma sociedade informal com mais três fotógrafos. Comprámos uma impressora e a nossa ideia era fazer edições de alguns quadros», conta-nos o galerista. «Em 2016 ia ser o centenário da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial e em 2018 o da Batalha de La Lys, e tivemos a ideia de editar as fotos do Arnaldo Garcês e fazer reproduções de alta qualidade de algumas das pinturas que estão aqui no Museu Militar – do Malhoa, do Columbano, do Veloso Salgado e do Carlos Reis. Na altura, o Arnaldo Garcês tinha morrido há menos de 70 anos, pelo que as imagens não estavam no domínio público. Só que a família era daquele tipo que nem faz, nem deixa fazer».
Os planos para reproduzir as fotos do Corpo Expedicionário Português goraram-se. Foi então que o diretor da Biblioteca do Exército, o coronel Mário Freire da Silva, teve uma intervenção decisiva. «O coronel Mário é que me abriu as portas todas», continua Reigadas. «E pediu no Arquivo: ‘Arranjem uns livros, uns álbuns, que há aqui muita coisa interessante’. Foi aí que apareceu o álbum do Veloso de Castro. Na realidade, apareceram mais dois ou três muito interessantes e até um envelope com gente em combate, alguns mutilados. Aquilo tocou-me imenso, porque eram miúdos de dezoito anos. Aquele álbum ficou-me na cabeça e sempre pensei em fazer qualquer coisa com ele. Em 2018 ou 2019, candidatámo-nos a uma bolsa para fazer uma exposição com o apoio da Gulbenkian. E foi recusada».
Apesar dessa decepção, o álbum de Veloso de Castro não caiu no esquecimento. «Quando fiz 50 anos, em 2018, decidi ir para a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Ao estudar História de Arte, adquiri outra sensibilidade e conhecimento de historiador. Tive cadeiras de fotografia em que se fazia uma resenha da história da fotografia a nível mundial e um pouco em Portugal e percebi que o Veloso de Castro podia perfeitamente entrar para a história da fotografia tanto portuguesa como até internacional».
Um laboratório aberto
Pedro Reigadas prosseguiu os seus estudos com o curso de Curadoria, Crítica de Arte e História de Arte na Faculdade de Belas-Artes. A exposição José Veloso de Castro: A Revelação de um Artista, que mostrava 120 imagens do ‘fotógrafo-soldado’ e foi inaugurada em finais de setembro do ano passado no Museu Militar (Santa Apolónia), nasceu como o seu projeto de mestrado. «Isto tem também um trabalho fundamental do Roberto Santandreu. Ele é que trabalhou as imagens – a limpar, a contrastar – como se estivesse numa câmara escura. O projeto é todo financiado por mim com o apoio da Arte Periférica – e está aqui um investimento razoável».
Inicialmente, estava planeado a mostra manter-se em cartaz até ao dia 31 de dezembro de 2025, mas, face ao interesse despertado, prolongou-se primeiro até 31 de janeiro e depois até 1 de março deste ano.
Agora, teve de algum modo de reinventar-se, porque a sala inicial, que continha a contextualização histórica, uma cronologia e documentação, deixou de estar disponível. Reigadas decidiu, em alternativa, apresentar aquilo a que chama um «laboratório curadorial aberto», em que, em vez de estarem atrás de vitrinas, os livros e documentos se encontram em cima de uma mesa comprida, disponíveis para serem folheados e manipulados – sob a forma de fac símiles, bem entendido. Entre eles, encontram-se A Campanha do Cuamato, a grande obra de Veloso de Castro (1908), o primeiro livro sobre fotografia publicado em Portugal, O Tratado Theorico e Pratico de Photographia, de J. A. Bentes (1866), as notas de assentamento – que permitem reconstutuir o percurso militar de Veloso de Castro, e onde se lê, por exemplo, «este soldado revela uma grande capacidade para desenhar, escrever e fotografar» – e, claro, o processo militar em que foi acusado de abusar de raparigas.
Outra novidade é que a exposição se expandiu: o número de imagens expostas passa de cerca de 120 para cerca de 160. Uma das agora introduzidas mostra um soldado negro português morto. «Os Cuamatos meteram-lhe o fígado de fora, entre outras coisas, para meter medo aos outros. Essa foto foi a única que eu me autocensurei na versão inicial», reconhece o comissário.
A ética da reutilização
Quantos aos materiais usados na primeira versão, nada se perdeu, tudo se transforma. «Em termos da ética da exposição, a ideia é todos os materiais sejam reutilizáveis ou recicláveis. Não é uma operação de marketing. É simplesmente porque nós [Arte Periférica] estamos há 30 anos no CCB e eu percebo a quantidade de lixo que uma exposição produz. Na cultura nacional há a questão da estética e do limpinho para o dia da inauguração. E depois a exposição morre. Na maioria das exposições é vinil colado na parede. Nem sequer se pode reciclar. Arranca-se e vai tudo em contentores».
Para expor as imagens, optou por discretos suportes de madeira com um sistema de molas. «Desenvolvi estes apoios em madeira de mogno, que é uma madeira autóctone de Angola. Mandei cortar as madeiras e imaginei este sistema de molas, porque as molas remetem para a história da fotografia». Como se as provas tivessem acabado de ser reveladas e ainda estivessem a secar...
Depois, para lá das próprias imagens, há o diálogo que estabelecem com o Museu Militar, que além de ser mal conhecido dos lisboetas se encontra atualmente cercada pelos tapumes do Plano Geral de Drenagem de Lisboa. «Propus colocar nesses tapumes fotografias grandes do Veloso de Castro. Por exemplo, há figuras a andar de bicicleta que se relacionavam com os Ubers de bicicleta que passam aqui. Era uma boa publicidade. Só que mandámos a proposta e a Câmara gostou tanto que, antes das eleições, nos sítios que nós definimos, puseram imagens da sua propaganda. Que depois tiveram que retirar».
Pedro Reigadas faz-nos agora uma visita guiada pela exposição, que começa nas imponentes caves manuelinas e termina no pátio, frente a um painel de azulejos. Vai parando junto das imagens e chamando a atenção para relações com as pinturas históricas e mitológicas de artistas como Carlos Reis, Veloso Salgado e Columbano Bordalo Pinheiro, feitas nos mesmos anos em que Veloso de Castro andava a fotografar em África. «Interessa-me muito a relação cronológica e revelar o artista entre os grandes artistas da época». E agora, entre os canhões, marchar, marchar.