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Era um dos grandes artistas da segunda metade do século XX e foi considerado o primeiro a construir uma memória gráfica do Porto – a partir do final dos anos 1960, o seu percurso ficou marcado pela valorização e renovação da área das artes gráficas, introduzindo-as no ensino a nível académico, na edição literária e na publicidade. Apesar disso, a sua identidade era essencialmente a de pintor, considerando as artes gráficas «uma continuidade» da pintura. «Se analisarmos bem, a minha obra gráfica é, de certo modo, a continuidade da pintura de outra forma. Está lá aquilo que se aprende na pintura. Sobretudo a depuração das coisas está plasmada na minha atividade das artes gráficas», disse numa entrevista ao Público, em 2015. E era principalmente no Alentejo que se inspirava. Sobre ele, Eugénio de Andrade escreveu que «não se nasce impunemente no Alentejo, e menos ainda quem um dia se descobre pintor». A verdade é que tinha uma ligação muito especial com essa região do país: «Quando acabei o curso e comecei a pensar o que ia ser a minha pintura, escolhi a paisagem como uma espécie de tema, o fio condutor de toda a minha pintura. E tenho andado sempre a fazer coisas para homenagear a paisagem que, no meu caso, tem origem no Alentejo, dos vários momentos do dia, das estações do ano (…) essas coisas todas que nós temos de uma vivência interior muito forte, e que de algum modo pretendemos e queremos passar para a pintura», disse no ano passado ao Alentejo Ilustrado. «A paisagem que eu pinto não existe, de facto. Tem a ver com o conhecimento que tenho do Alentejo. (…) Mas é a paisagem profunda: a terra, as cores dos campos, o nascer das searas, as mudanças de cor (…) que depois procuro transmitir através da pintura. Mesmo quando ela se torna um pouco mais figurativa, quando a gente reconhece uma árvore, ou as árvores de uma paisagem, não são as árvores que existem. No fundo, são sempre as transformações pelo conhecimento que tenho dela», adiantou.
Armando Alves morreu na terça-feira, aos 90 anos, tendo o falecimento sido tornado público pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.
Renovação das artes gráficas
«Natural de Estremoz, onde nasceu a 7 de novembro de 1935, Armando Alves concluiu o curso de Pintura na ESBAP em 1962, com a nota de 20 valores. Com Ângelo de Sousa (1938-2011), José Rodrigues (1936-2016) e Jorge Pinheiro (1931), todos eles professores e antigos estudantes da ESBAP, formou, em 1968, o grupo Os Quatro Vintes, com o qual apresentou várias exposições nacionais e internacionais no final dessa década e início da seguinte, afirmando-se como figura central na renovação das artes gráficas em Portugal», lembra o estabelecimento de ensino, acrescentando que este foi professor assistente na ESBAP, tendo sido um dos pioneiros da formação em Artes Gráficas que conduziria à criação do primeiro curso em Design de Comunicação no Porto. «Em 1973, deixou o ensino para se dedicar exclusivamente à prática profissional das artes gráficas, com particular destaque para a produção em design editorial e cartaz. Em paralelo, liderou a organização e direção gráfica de diversas exposições e iniciativas culturais no Porto», lembrou ainda a Universidade na sua nota de pesar.
Segundo uma autobiografia que escreveu para o Jornal de Letras, em 2009, teve uma infância feliz «na companhia» de familiares e amigos que começou «a descobrir na escola primária». Mas foi na Escola Industrial, influenciado por dois professores (Irondino Teixeira de Aguilar e Sebastião da Gama), que surgiu o interesse pelo desenho. Aliás, foram eles que acabaram por convencer os seus pais a enviarem-no para a capital para estudar numa escola que desse acesso às Belas Artes. Ingressou depois no curso de Preparação às Belas Artes da Escola António Arroio. Porém, nunca se conseguiu ligar a Lisboa e, «porque a Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP) era mais bem cotada da que a de Lisboa» – tal como explicou na mesma entrevista ao Público –, fizeram-no mudar-se para o Norte, fixando-se entre a cidade do Porto e Matosinhos. «O Porto significou o conhecimento de novos amigos, a descoberta de uma cidade onde acabaria por me radicar», lê-se no texto do pintor. «Significou ainda a experiência da arte que, nos ateliers de cada um se punha em prática, e que nos cafés se debatia, sobretudo no Majestic, à noite. Este era um dos espaços de frequência obrigatória a par de outros de que recordo os espectáculos do Teatro Experimental do Porto, em que cheguei a colaborar, a Livraria e a galeria Divulgação, o Cine Clube do Porto e os Colóquios da Casa dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Aí nos encontrávamos para trocar ideias e massacrar os ouvidos dos ‘pides’ que nos escutavam tirando apontamentos…», revelou ainda na autobiografia que destaca também a Cooperativa Árvore, de que fez parte. «Na vida cultural e artística da cidade, o aparecimento da Árvore foi um acontecimento de importância capital para o Porto», sublinhou.
Armando Alves fez a sua primeira exposição individual em 1956, em Lisboa e na Póvoa do Varzim. Entre 1968 e 1971 fez inúmeras exposições coletivas em Portugal e no estrangeiro com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro. A sua obra integra hoje coleções do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, do Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, e da Câmara Municipal de Matosinhos, entre outras.