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Não há maior abuso neste mundo do que a sinceridade, viver de amor e de veneno e levá-lo até às últimas consequências, até só a ficção aguentar e absorver todo esse reino despótico e solitário que se dispõe como um infinito tabuleiro onde as peças se multiplicam e procuram ainda jogar-se num enredo desmedido, desordenado. Enquanto quarteirão após quarteirão a liquidação do mundo prossegue, a realidade recusa admitir o colapso, e o pior de se acordar a cada manhã é ter de engolir o sobressalto da noite anterior, como se nenhuma revelação nos tivesse cruzado o espírito. Vamos perdendo as cartas do lustroso baralho que em tempos foi nosso, e a vida chega a parecer um elástico velho que não garante nenhum dos nossos trunfos. E chega a ser pior confirmar tudo isto num país enferrujado, ele mesmo uma ficção frágil, provinciana, e que está farta de ser só mais um contorno para uma comunidade cada vez menos segura da sua existência. E, no entanto, é preciso aguentar essa ordem de degredo, mesmo se tudo parece alimentar-se da nossa falência. Isto explica porque a morte de António Lobo Antunes, mesmo estando ele já tocado pela demência, incapaz de nos dar notícias daquela província da sua alma, nos tenha afetado como uma morte de um ascendente. Entre os tantos enredos daninhos que subscrevemos, ele respondia por aquela sede de linhas imortais, transmitindo-nos aquela desesperada obstinação do seu ofício, como se não restasse outro sinal de valentia senão escrever diante do vazio, acatar a pobreza essencial dos elementos mais comuns, banais, esses gestos e ações dos quais tem de se fazer uma vida atrás de outra, sem a menor ilusão de se ser resgatado; escrever sobre tudo isso tendo a coragem de estender a mão para a realidade e pedir-lhe outra esmola.
Confrontar memórias de infância
Para muitos dos que o terão lido em períodos cruciais de confronto e balanço, regressar agora aos seus romances parece-se um pouco com confrontar certas memórias de infância, aquelas personagens dos contos infantis que nos interrompem por aí… A Branca de Neve que nos vem perguntar se existimos. É um modo de entender a morte, essa que, como ele nos explicava, se parece com o romper de uma mola cá dentro, como se nada de profundo se alterasse, a não ser que as coisas e os seres já não estivessem ao nosso alcance: uma incoincidência absoluta, como se mais nada tivesse o cuidado ou a paciência de se ligar ao resto, e «os livros nunca mais se abrissem sozinhos na página certa, como dantes». Tudo, a partir dali, parece dominado por um desacerto fundamental.
Se todos tiveram notícia do seu passamento, aqueles que o leram retiram algo mais fundo deste ponto final. No fundo, o que a sua obra nos mostrou é como essa pequena canção que cada um aprende para ser, funciona igualmente para deixar de ser. Foi uma obra fundamental para aqueles que, depois de um confronto mais rude com o mundo, sentiram a necessidade de alguém que lhes fizesse saber que, mesmo se nalgum momento desistimos da fé, não temos de abandonar o hábito de rezar, e podemos até servir-nos do ódio e rezar contra o mundo, contra a imundície que nos obriga a conhecer, por sermos obrigados a levar vidas inteiras no escuro. Como ele assinalava numa das suas crónicas, citando Blondin, «as gerações acabam por se reconhecer, paradoxalmente, através dos seres em ruptura que exprimiram a sua época opondo-se a ela».
Ficção nervosa, sensível, disfórica
O que Lobo Antunes sempre nos dedicou foi uma forma de oposição desaustinada, não se limitando a erguer um espelho, mas desafiando-se com os seus comentários nada meigos, tantas vezes impiedosos, trocistas, porque começava por falar dele e acabava por incluir-nos, gerando essa ficção nervosa, sensível, disfórica, que não deixava de estar muito atenta e de colher na realidade uma infinidade de motivos e estímulos. «Por qualquer motivo que desconheço moro num sonho inventado com chuva verdadeira dentro», diz-nos um dos seus personagens. Pegar num dos seus livros é um modo de tropeçarmos. Estamos sempre a meio, mesmo que comecemos pela primeira frase ou avancemos até à última. Vamos ali para visitar esses Capitães do hábito e da noite, uns tipos soturnos que sabem os horários dos ventos, «sempre com neurastenias como flores de miolo de pão», para quem os anos se sucedem e lhes fazem crescer nas mãos um imenso rosário de injúrias.
Podemos regressar aos seus livros apenas para confirmar que não nos apetece, que não estamos com paciência, que bastando molhar os lábios naquele álcool seria o suficiente para provocar algum abalo nas barragens da memória, e preferimos até ser retratados infamemente como essas figuras em fundo, com «a pele amarela e o riso de incompreensão contente das criaturas demasiado quotidianas para serem verdadeiramente infelizes». No fundo, aquela obra é um privilégio dos infelizes. E não é difícil de explicar que continue a ter tantos adeptos, neste país que se safou de um largo período de décadas a ser governado por sombras, acabando por pagar a liberdade ao preço de passar a ser governado por bandalhos. Um país cada vez mais desfalcado, que sente a consciência como uma chaga, e que vive, por isso, num perpétuo estado de ressaca. Não regressamos àqueles romances em busca de saídas, mas apenas quando nos apetece bater de frente com a nossa condição, ver uma frase partir seja de onde for e tomar para si essa vida inexprimível, a única no fim de contas que aceita unir-nos, mas da qual só obtemos aqui e acolá uns fragmentos descarnados, num combate sem tréguas. É para ouvir essa flor que insulta todos os homens, mas que também os relembra dessa humanidade comum, vulnerável, triste, que abrimos aqueles livros. Meio ao calhas, ao sabor dos sinais e das marcas que lhes fizemos, como uma correspondência que através dele estabelecemos com nós próprios em diferentes momentos das nossas vidas. Porque, no fundo, a maior das suas habilidades é esse efeito de indistinção, de comunidade entre homens que residem num mundo baixo, perdidos como rascunhos ao vento sem ser claro se a intenção era desenhar um anjo ou algum desastre. Homens habituados a acordar sozinhos, homens que só têm para lhes dar alguma coerência à sua má-consciência, para colar as partes das suas vidas, e agarrá-los. Esses poucos homens capazes de trautear uma canção sem o apoio de qualquer melodia, congelando algumas palavras, frases que atravessam os anos com esse gozo de nos ferir; versos demasiado imperfeitos, toscos, lerdos, intermináveis, desses que se põem a ponderar qual o significado do canto dos pássaros.
Catedral de ninharias
É possível erguer uma catedral de ninharias em honra de um deus que perdeu o entusiasmo na sua criação e a deixou por aí a agonizar sem ter uma hierarquia a que recorrer. Ou talvez «o sussurro tenha nascido antes dos lábios», como escreveu Mandelstam, talvez o murmúrio tenha surgido antes mesmo da consciência, o soluço antes do remorso, e talvez nós sejamos a resposta a toda essa dor dispersa que em nós encontro o instrumento capaz de alguma afinação e de suportar um grito. Isso ajuda a explicar esses homens que dia após dia aquecem os próprios restos e têm de comê-los a sós. Sendo o universo de Lobo Antunes, claramente um universo masculino, é evidente como ali todos as figuras, mesmo as mulheres, tresandam a homem, são reflexos seus nas piores horas de confronto consigo mesmo. E, neste mundo, a dor permite a um tipo dobrar-se sobre si mesmo as vezes que forem necessárias até praticamente desaparecer, e montar e desmontar como uma velha arma o mecanismo do grito. Ora, ele expôs-se sempre como um desses monstros de intimidade, ordenando aquela tempestade, o seu desfile de fantasmas. Era a ilustração do muito do pior que chega a caber dentro de um homem, e, por isso, a sua confissão fornecia a tantos dos que não sabem como sair do silêncio essa frase capaz de os escutar. É natural que muitos agora se perguntem quem lhes fará agora a crónica desses silêncios que se torcem nas entranhas de uma cidade ou época. E isto serviu para deixar claro que uma parte essencial da arte de escrever passa pela necessidade de uma voz que possa impor-se à consciência, conhecendo-lhe as manhas, apertando com aquelas experiências que ficam solteiras, abandonadas, experimentando os diferentes ângulos de uma visão do mundo capaz de erguer um carnaval com as cores do desalento, com as tantas impressões que acabam esquecidas e sepultadas no vão de alguma escada da alma, com os pobres materiais que nos dão conforto e mobilam esses quartos que teríamos horror em sermos encontrados.
Passado e presente
A obra de Lobo Antunes parece romper dentro dos nossos costumes fúnebres, prolongando um velório indefinido e um outro tipo de agonia, como quem velasse indefinidamente os mortos, colocando-se nesse ponto decisivo do imaginário português, o da fantasmagórica vivência, esse ralo da História que não tem um só sentido, e àqueles que se colam a ele, transmite-lhes uma visão alucinada do mundo. E isto porque, como assinalou Maria Lúcia Lepecki, «velando alguém, todos nos iniciamos no tempo outro, no mundo modificado que há-de continuar a existir depois da desaparição de uma pessoa». Às tantas, restabelece-se esse vínculo entre cá e lá, de modo que «tanto os vivos velam os mortos, como os mortos velam os vivos»… Todos são fantasmas para todos, numa espacialidade espelhada, como sinaliza aquela crítica literária. Há um efeito de rememoração e de amálgama que se dá ao mesclar épocas, quando passado e presente tendem à mútua invasão de territórios, reconhecendo-se como os portugueses são aqueles que, incapazes de lidarem com a sua História, a vivem como assombração. E Lobo Antunes, no entender desta ensaísta, montou essa prisão ou hospício das personagens que se reúnem dentro das grades de uma alucinada visão do tempo. Como se todos se afadigassem transportando de um lado para o outro o caixão com o corpo de algo ou alguém que se recusam a enfrentar. Daí a tendência para estar submetido a uma fúria dos rodeios, para se entregar à caricatura, ao engrossar dos traços, à hiperbolização dos contornos de situações, como se fosse possível tratar em registo de anedota aquilo que tanto nos sufoca e que às tantas é um fio com tantos nós, uns sobre os outros, que se tornou um regime patológico e que já não se pode remediar. Ficamos sujeitos a esse desequilíbrio da memória, como se lembrar fosse em si mesmo algo patológico, como se não pudéssemos reconhecer as fronteiras entre nós e os outros, até porque, como diz Lewis Thomas, citado por Lepecki, «às vezes um eu nosso morre, e o outro ainda não teve tempo de nascer». Desse modo se dá origem a um mundo interior que se assemelha a um «nicho degenerado», uma zona sobrepovoada, onde tantos seres do passado e do presente se acotovelam, perplexos. Cada um narrando-se para se impedir de ser devorado pela narração dos demais, mas não se conseguindo impedir de apanhar pedaços, integrar as informações narrativas que os outros gritam, e tudo aquilo forma esse caroço na garganta de cada um, que resulta em descrições e impressões em que impera a ironia e o sarcasmo, o lado burlesco de uma existência contaminada por esse mesmo impulso e jeito comum de narrar. Isto explica o lado histriónico, todo aquele elemento sórdido e nauseabundo, a hegemonia das metáforas, das comparações, como alguém que arranca a frase da boca do outro e a hiperboliza, como uma ficção que empurra os estereótipos para o nível da abjeção, por não lhe ser possível conter todo esse efeito de deflagração e degradação que é o do nosso comum falar, acabando por construir a sua sinuosa intriga através de um longo tecido de oposições. E, por isso, as frases se alongam desmedidamente, e não podem livrar-se desse parasitismo nostálgico, nem dos estilhaços de história ou dos mitos que a todos os momentos nos assaltam. Esta obra tem de contender com esses «odores fúnebres», esses restos mórbidos, e mesmo aquele sentimentalismo que por vezes quer fazer ali o seu recreio está obrigado a brincar no seio de destroços afetivos. Isto explica em parte o estado permanente de catástrofe psicológica, aquela representação que não evita o miserabilismo ou as representações melodramáticas, como um irmão mais novo forçado a uma herança de sinais e símbolos desgastados, roupa mais ou menos íntima, tudo coçado, e, aprendendo a criar o seu próprio cheiro na necessidade de se sobrepor, e isto também explica aquelas enumerações infinitas e que procuram acrescentar algo entre camadas sobrepostas de memórias. Por isso a desordem afetiva serve de moto, numa ficção em que tudo parece empilhado, a poesia a entupir a prosa, a prosa a descoser todas as costuras, procurando também afetar as conceções do mundo baseadas em privilégios de casta e de família. E se demasiadas vezes se vincou o hiper-realismo desta obra, a verdade é que se trata de um realismo que vai para além dos seus fins, devassando os estereótipos, conseguindo fazer apelo para uma condição reflexa, de sobreposições de tal ordem que, partindo de materiais castigados, sórdidos, consegue provocar um derramamento do lugar comum, devolvendo-lhe aquela estranheza das coisas familiares quando sujeitas a um efeito de alucinação. Tudo isso também faz desencadear um nível de comédia imprevista, aquela gravidade que vai além da mera irrisão, que supera os clichés, numa certa glória anárquica, por meio da exasperação, respondendo a esse desejo, essa fome de penetrarmos na vida uns dos outros, mesmo que isto ocorra num registo de facécias, transmitindo aquele «paladar bisbilhoteiro», ou a sensação de um universo em que as ligações se fazem pelo arrombar de portas.
‘SÓ A PALAVRA PERDURA’
Esse lastro algo caótico daquele estilo enumerativo aponta para uma proliferação viciosa do real, com observações desgarradas, e que nos dizem tanto sobre a interioridade desses seres que passam a maior parte dos dias a sentirem-se aflitos, acossados, cansados de se lembrarem, exaustos de não poderem esquecer. Como se esta narrativa-crónica nos fornecesse um olhar íntimo a partir da mediocridade da vida, da «exiguidade castrante dos sentimentos». Como nos diz Eduardo Prado Coelho, aqui «todos têm medo de serem eles próprios, e sobretudo de não serem mais do que eles próprios». Lobo Antunes mostra-nos, assim, esses elementos de uma desolação que penetraram tão fundo nas almas, fazendo-as descrever em sucessivas gerações esses mesmos círculos, como se os corpos procurassem libertar-se dessa condenação, desgastando-se na «ronda cega e cabisbaixa das suas existências». E Prado Coelho nota como o ritmo que ele imprime aos seus romances «produz um efeito de ralenti» a essa espécie de decomposição obsessiva das imagens em que os gestos se arrastam na monotonia martelada das repetições, sendo que em vez de personagens, o que temos são esses baraços de frases, esse modo de suplicação, em que aquilo que as distingue é mais como o refrão em torno do qual erguem os murmúrios do seu desamparo, num registo de perdição que lhes é comum. E, deste modo, naqueles romances, «cada pessoa está encarcerada no círculo da sua cantilena sonâmbula», diz-nos Prado Coelho. O que impressiona é como as tantas imperfeições tão grosseiras e grotescas que mais ou menos toda a crítica lhe foi apontando, ainda assim, esta obra consegue superar «o carácter aleatório e displicente das suas combinações absurdas» (Maria Alzira Seixo), para nos oferecer um espécie de «elegia sarcástica», a qual não deixa de ser tão pungente, tão sedutora na sua construção fragmentada, fazendo a epopeia de um quotidiano à base de gestos incertos, débeis, esboços de actos que apenas nos transmitem uma história do desarranjo profundo e do malogro daqueles seres, de tal modo que, no fim, «só a palavra perdura».
Com toda aquela delirante construção romanesca, a imagética desbordante, a sintaxe própria da tirada obsessiva, cose um infindável monólogo tenebroso, dissolvendo todos os elementos de estrutura, precisamente por não ter condições de se conter, estando dominado pelas imagens e os enredos de si próprio, por esses ecos e reflexos que tenta costurar e reabsorver, nunca deixou esta obra de nos fornecer uma versão do romance como terapia, mas dada a sua obsessão maníaca esta pôde ramificar-se e tornar-se emblemática da nossa imensa e estranha forma de praticar a tristeza, impondo-se como uma última esperança do espírito num país que é a nossa verdadeira quimera, um país que, séculos depois, continuamos incapazes de realizar, de modo a não nos limitarmos a tropeçar nos restos dessa feira acabada.
Contra-sepulcro
Assim, o que Lobo Antunes ergueu foi um contra-sepulcro. Como se reconhecesse que o país não aguenta o peso de tantos vivos que não sabem se estão mortos, e tantos mortos que não deram pela diferença face aos dias em que estavam vivos, um país que se afunda por não poder receber mais ninguém, «tal a sua míngua de alma, a sua miséria» (Francisco José Viegas). E porque os mortos continuamente persistem, reclamam ainda o que nunca lhes foi dado, e nos fazem sentir a sua presença, nos querem levar a repetir os mesmos gestos, oferecendo também a sua «cumplicidade silenciosa».
Neste país onde o único destino parece ser o desaparecimento, a começar por esses sinais que a ele nos ligam, os personagens de Lobo Antunes, como vinca Viegas, «são longas metáforas sem transação», «sombras de uma pátria em desagregação», figuras frágeis que se deixam soprar como dentes de leão e que ali se aguentam tendo como ocupação apenas o sofrer desse mal congénito que é a imensa solidão que povoa este reino esse lirismo magoado, que vive de ajustes de contas e de balanços é o «nervo medular» desta obra, sempre a convocar-nos para o recital desses efeitos de consternação e de risível escatologia. Talvez seja por isso que Eduardo Lourenço foi levado a apreciar a ficção de Lobo Antunes assinalando como esta «lembra o gesto de um deus que se tivesse suicidado na sua criação». E recusa o efeito de caos, uma vez que «esse criador está inteiro em cada um dos fragmentos da longa frase desse ‘big bang’ torrencial que a sua escrita recolhe como quem morre».
Dando-se conta de que estava sempre a esbarrar em figuras dilaceradas entre o tempo, naqueles seus primeiros romances, Lobo Antunes procedeu a uma absolutização da Memória, como anotou Lourenço, um processo «capaz de restituir gloriosamente, no seu excesso de metáforas, o caudal de evocações à procura do corpo original para sempre disperso». Essa «memória visceral» alimentava-se de «sensações, vivências, emoções, feitas de sangue e luto». E depois de ganhar a confiança no processo biográfico, ele tornou-se uma espécie de biógrafo de fantasmas, um narrador que em vez de pensar o tempo cronológico, se dedicou a construir esse tempo de fantasmas. Isto, é claro, sempre a partir das suas rondas por fora do esquecimento, essas voltas a horas que o mundo nem suspeita, com aquela inquietação profunda, a ideia de que se nos esquecermos de algumas lembranças cruciais, talvez apodreçamos inteiramente. Por isso ergueu aquela catedral de ninharias e que assumiu um tão grande relevo entre o horizonte desta febre portuguesa. E é natural que, perante esse coração, lambido, rachado pelas vigílias, à sua volta a maior parte dos escritores pareçam fornecer-nos apenas formas de agonia submissa. Com aquele talento tumultuoso de dar voz «às coisas aqui em baixo», Lobo Antunes avançou pela sua longa frase impondo um tempo narrativo instável e movediço, e dando origem a uma das mais memoráveis sagas «contra ou no coração do próprio esquecimento», diz-nos Eduardo Lourenço. «Para povoar o mundo. O dele e o nosso».
«No que me diz respeito», diz-nos Lobo Antunes numa das suas crónicas, «acho que terei toda a vida os defeitos de uma criança pequena que deitavam tarde de mais, como Chesterton dizia de Dickens. Por medo do escuro fui povoando a minha insónia de personagens reais e inventadas, sentando-as na borda da cama para falarem comigo e afugentarem a morte com o dorso da mão, fantasmas familiares que me acompanham desde que me conheço e iluminam os romances que escrevi dado que não faço literatura, faço mitologia e, admitindo que a inocência tem circunstâncias atenuantes, nenhuma outra forma de arte me interessa».