Num dos Contos do Gato Vadio (ed. Europa-América), o volume onde terá reunido histórias que ouviu enquanto esteve na prisão, o popular romancista britânico Jeffrey Archer falava de um raro jogo de xadrez com um percurso cheio de peripécias. Dispersas sabe-se lá por onde, as respetivas figuras acabavam laboriosamente reunidas, uma a uma, pelos descendentes do seu primeiro proprietário, um tal lorde Kennington.
«As 32 peças de marfim estavam maravilhosamente esculpidas e delicadamente pintadas de vermelho e branco. Os detalhes tinham sido fielmente registados em diversos documentos históricos, embora nunca tenha sido estabelecido com certeza por quantos conjuntos foi responsável [o famoso artesão chinês] Lu Ping durante a sua vida».
No conto de Archer, a nonagenária Lady Kennington possui um conjunto quase completo e aquele dos seus dois filhos que encontrar a peça em falta – o rei vermelho – ficará com o valiosíssimo conjunto.
Pode parecer apenas produto da fantasia de um romancista, mas o facto é que existem mesmo conjuntos de xadrez que, pela sua raridade, qualidade artística e significado histórico, atingem valores estratosféricos.
Alguns desses conjuntos excecionais encontram-se na coleção do banqueiro António Horta-Osório, agora revelada ao mundo através do primeiro volume, dedicado à Índia, de um catálogo publicado pela galeria Jorge Welsh – The Horta-Osório Collection of Antique Chess Sets, assinado pelo próprio colecionador e pelo especialista Jonathan Crumiller. Cada exemplar pesa cerca de três quilos e custa 300 euros. Os volumes 2 e 3 serão dedicados, respetivamente, ao Extremo Oriente e Sudeste Asiático (com foco na China) e à Europa Central e de Leste (com foco na Alemanha).
A propósito do lançamento do catálogo, António Horta-Osório recordou ao Nascer do SOL, por escrito, as origens familiares da coleção e o entusiasmo que sente na aquisição de cada nova peça.
Todas as coleções têm uma origem. Por exemplo, conta-se que Calouste Gulbenkian adquiriu a sua primeira moeda de ouro antiga num bazar de Constantinopla, aos 14 anos, com o dinheiro da recompensa que o pai lhe tinha dado pelo excelente aproveitamento na escola. Há alguma história associada ao início da sua coleção?
Sim, embora tenha aprendido a jogar xadrez com o meu pai desde os seis anos de idade e tenha jogado intensamente durante muitos anos, a origem da coleção de xadrez remonta a um conjunto muito especial que pertencia à família.
A minha avó paterna conservava uma coleção de antiguidades herdada do meu avô. Numa das suas salas, entre todos os objetos, havia um conjunto de xadrez figurativo chinês que sempre me fascinou. Representava os cantoneses em confronto com os mongóis, com peças em marfim esculpidas em vermelho e branco, assentes num tabuleiro de madeira e marfim. Eu via-o como uma peça única e extraordinária, e a minha avó contava-me que o meu avô o tinha trazido da China muitos anos antes.
Quando completei dezoito anos, ela ofereceu-me esse conjunto. Foi o primeiro exemplar da minha coleção e continua a ocupar um lugar muito especial. Curiosamente, apesar dos muitos anos de procura e estudo, nunca encontrei outro conjunto semelhante.
O que o fascinou inicialmente nestes tabuleiros de xadrez? Foi mais o objeto em si, o requinte e os materiais, ou também se interessa pela complexidade do jogo?
Na verdade, tudo isso em conjunto. Sempre fui fascinado por batalhas e soldados. Em pequeno colecionava os exércitos da Segunda Guerra Mundial, e passava horas sem fim a jogar com eles no meu quarto, assim como com índios e cowboys. Além disso, o xadrez também me acompanha desde a infância, e sempre admirei a riqueza estratégica do jogo, o não depender da sorte, a sua profundidade intelectual e a sua aplicação à vida, quer na parte pessoal quer profissional.
No entanto, enquanto colecionador, o que mais me atrai é a vertente artística, cultural e histórica dos conjuntos de xadrez. Talvez por ter jogado tantas vezes com conjuntos tradicionais do tipo Staunton, nunca senti grande interesse em colecionar peças destinadas apenas à prática do jogo. O que procuro são exemplares figurativos, esculpidos e concebidos para serem admirados e exibidos, muitas vezes criados para ocasiões especiais ou oferecidos a reis, nobres e outras personalidades.
Ao longo dos anos defini critérios muito rigorosos para a coleção. Interesso-me sobretudo por conjuntos antigos, preferencialmente do século XIX ou anteriores, executados em materiais que permitam um trabalho de escultura de grande qualidade, como marfim, madeira, osso, âmbar, cristal de rocha ou coral.
Ao contrário da maioria dos colecionadores, dou igualmente grande importância aos tabuleiros. Não os vejo apenas como suporte para as peças, mas como objetos artísticos de grande beleza. Por isso, procuro tabuleiros raros e antigos, sobretudo dos séculos XVII ou anteriores, que muitas vezes são ainda mais difíceis de encontrar do que os próprios conjuntos de peças de xadrez.
O que me fascina é precisamente essa combinação entre o jogo, a arte, a cultura, a história e o extraordinário talento dos artesãos que criaram estas peças. Cada conjunto é um testemunho de uma cultura, de uma época e de uma forma particular de interpretar o universo do xadrez.
É relativamente habitual um colecionador desejar muito um objeto, mas a partir do momento em que o obtém deixar de ter aquele sentimento intenso. Continua a retirar prazer da sua coleção?
Sim, em absoluto! Embora exista sempre uma grande expectativa e entusiasmo na procura e aquisição de uma peça, o prazer não desaparece quando ela passa a integrar a coleção. Pelo contrário, continuo a dedicar muito tempo a estudar os jogos, a sua proveniência e história, bem como a apreciar a beleza das esculturas e a riqueza das diferentes culturas representadas. As peças têm origens muito diversas e cada uma continua a revelar novos detalhes e perspetivas.
Além disso, tenho muito gosto em partilhar a coleção com o público. Aceito regularmente fazer empréstimos para exposições nacionais e internacionais. Atualmente, por exemplo, cerca de 20 peças da coleção estão expostas no ACM (Ancient Civilisations Museum), em Singapura, na exposição Let’s Play, dedicada aos jogos asiáticos. Esta exibição reúne também peças de importantes coleções asiáticas e do Palácio Imperial de Pequim, num contexto museológico de grande relevância internacional.
‘O xadrez simboliza a guerra’
«Só a partir de 1470 o xadrez começou a sua transformação da lenta versão islâmica para o jogo ágil que conhecemos hoje. O roque foi introduzido nesta altura, os peões conquistaram o privilégio de poder avançar duas casas na movimentação inicial e a rainha passou de ser uma aleijadinha que se arrasta (o vizir árabe só permitia que se movesse uma casa de cada vez) para a peça mais poderosa do tabuleiro.
Uma vez que o xadrez é um jogo que simboliza a guerra, é razoável supor que o maior poder de fogo da rainha refletia a introdução da artilharia de campo no final do século XV.
O súbito avanço do Xadrez no seu conjunto deverá ter sido um resultado do Renascimento. Desenvolvimentos intelectuais na época distinguiam-se por uma perceção cada vez mais urgente da distância, do espaço e da perspetiva. Desenvolvimentos paralelos incluíram o uso inovador de artilharia para derrubar as muralhas de Constantinopla em 1453, avanços científicos como o telescópio e o microscópio, e a aplicação da perspetiva linear na arte».
(Excerto do catálogo, tradução do jornalista)