sexta-feira, 06 fev. 2026

António Chainho: O mestre da guitarra portuguesa

1938-2026, o homem que levou a guitarra portuguesa além fronteiras.
António Chainho: O mestre da guitarra portuguesa

Abraçava a guitarra portuguesa como ninguém, não fosse ele apelidado por todos de «mestre». O seu pai era guitarrista amador e, aos seis anos, António começou a tocar. Como o braço do instrumento era demasiado grande para o seu corpo, deitava-o no colo, explorando formas de manuseá-lo. Rapidamente se tornou melhor do que o pai, apesar de ter aprendido quase tudo sozinho.

Foi a escutar a Emissora Nacional que desenvolveu a técnica. Tentava reproduzir os sons já que era «muito bom de ouvido». E era mesmo. Seguiram-se seis décadas de uma carreira de imenso sucesso em que colaborou com artistas como Carlos do Carmo, Hermínia Silva, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, José Afonso, Paulo de Carvalho, Gal Costa e Maria Bethânia.

Em fevereiro de 2024, aos 86 anos, a propósito do seu último concerto, que ocorreu em Lisboa, na Praça do Município, disse que já tinha realizado todos os seus sonhos. Que a sua missão «já estava cumprida». Despediu-se do público, mas nunca da guitarra. Esta semana, somos nós que nos despedimos dele. O músico e compositor português morreu na terça-feira, na sua residência em Alfragide, arredores de Lisboa, no preciso dia em que completava 88 anos.

António Chainho nasceu a 27 de janeiro de 1938, em São Francisco da Serra, no concelho de Santiago do Cacém, distrito de Setúbal. Tinha um grande amor pela sua terra. No entanto, depois de regressar de Moçambique, onde fez o serviço militar e onde atuou pela primeira vez na rádio, decidiu fixar-se na capital, marcando aí o início oficial da sua carreira artística. Era elogiado pela sua clareza do toque, o sentido melódico e o enorme respeito que tinha pela tradição da guitarra portuguesa. Foi nos anos 70 que começou a destacar-se não só como acompanhante, mas como guitarrista solista e compositor, ajudando a afirmar a guitarra portuguesa como instrumento autónomo, o que não era comum à época. Mais tarde, veio a tornar-se um grande pedagogo, apesar de não o ser de uma forma tradicional.

Um homem bom

«Conheci o António Chainho há cerca de 55 anos em São Francisco da Serra», diz ao Nascer do SOL o também guitarrista Carlos Soares da Silva. «O pai, o Ti Jorge, tinha uma taberna onde, com muita frequência, se cantava e tocava, principalmente fado. Um amigo meu, o Xico Aragão, que tocava guitarra portuguesa, levava-me com frequência para tocar por lá. Algumas vezes o Chainho estava e tocámos juntos muitas vezes, por entre petiscos e cantorias», lembra.

Foi numa dessas petiscadas, há cerca de 25 anos, desta vez no café da Bia, a irmã, que surgiu o convite de Chainho para o acompanhar em digressões pelo estrangeiro, já que em Portugal era Fernando Alvim era o viola «oficial». «Por problemas de saúde do Fernando, comecei a acompanhá-lo nas deslocações longas: Índia, Indonésia, Sri Lanka, China, Coreia do Sul, entre muitas outras», conta, revelando que em Nova Deli chegaram a ser raptados. «Vimos o caso mal parado. Felizmente, depois de uma noite passada num hotel no meio do mato, voltaram a levar-nos ao aeroporto e tudo acabou bem», brinca. «Além de um músico de excelência, o António era um senhor. Amigo do seu amigo como poucos. Ajudava sempre que necessário. Estava sempre a partilhar os seus conhecimentos. Nunca guardava ou escondia nada. Um homem bom na verdadeira aceção da palavra», garante Carlos Soares da Silva, acrescentando que o que mais o diferenciava era o facto deste ter tido de aprender quase sem recursos. «Não havia gravadores; o pai tocava qualquer coisa, mas não a nível profissional, portanto o António teve de se esforçar muito mais», afirma. «A técnica era ouvir uma variação ou um fado no rádio, memorizar um bocadinho e esperar que voltasse a passar para aprender mais um bocado, sempre de ‘olho no rádio’», detalha o amigo. «Do Chainho fica a sua obra em disco e DVD, as escolas que fundou em Lisboa e Santiago do Cacém, a sua generosidade e a sua grandeza. Tudo aquilo por que ele viveu continua. Seria injusto dizer que fica um vazio, porque ele deixou muito para o preencher», acredita.

Carla Chainho, prima do mestre, descreveu-o como uma pessoa muito afável, cordial e bom conselheiro. «O que mais me agradava nele talvez fosse a sua maneira de ser, de encarar a vida com uma certa leveza, mas consciente da sua complexidade, adorava viver e inclusivamente era uma pessoa que tinha cuidado com a alimentação e não era de excessos», confidencia. «Frequentava a casa da minha avó Lucília, que morava em São Francisco da Serra, e foi lá que me ouviu cantar pela primeira vez era eu ainda adolescente», recorda Carla. «Disse inclusivamente que para além da voz eu tinha ‘ouvido’ para a música. Incentivou-me sempre a estudar porque a vida da artista não era/é fácil», acrescenta. Alguns anos mais tarde contactou-a pelo telefone, para saber se Carla tinha disponibilidade para participar num concerto solidário, o que ela considerou «uma honra e uma excelente surpresa». Chegou a participar em dois concertos. «Sempre gostei muito de fado, algo que me foi incutido sobretudo pelo meu pai, mas nunca quis ser artista. No entanto, tive o privilégio de ser acompanhada à guitarra portuguesa pelo meu primo, e sinto-me honrada e grata por isso. É um orgulho ter na família um artista conhecido a nível nacional e internacional e ao mesmo tempo ter consciência de que era uma pessoa simples, de fácil trato e genuíno»