Algum dia pensou que o Coliseu dos Recreios iria esgotar durante 12 dias para um espetáculo de Joana Marques?
Sim, quando estava ainda no liceu ou na faculdade - e foi talvez por isso que me tenha interessado por esta área da organização e promoção de espetáculos -, lembro-me do Rui Veloso lançar o Mingos & Os Samurais e esgotar cinco coliseus e a imprensa toda a dizer que era inacreditável, ‘um português esgotou cinco coliseus’. Na altura eu dizia: ‘4.000 vezes cinco, dá 20.000 pessoas’. Eu afirmava: ‘Está tudo enganado’. O Estádio da Luz [na altura] levava 120.000 pessoas num Benfica-Sporting. Estamos a falar do antigo terceiro anel, do Fernando Martins. Pensei assim, isto só vai ser um verdadeiro sucesso quando esgotarem 30 datas, porque se nós conseguimos numa partida de futebol pôr 120.000 pessoas, também havemos de conseguir 30 datas para um artista. Não sei de cor, mas penso que o Zambujo e o Miguel Araújo fizeram mais.
Fizeram 17.
Isto é uma chapada de luva branca nas políticas públicas em Portugal, porque o público estava a afastar-se do teatro e, de repente, vem o stand-up, a comédia, e as pessoas voltam ao teatro. Até não deixa de ser curioso que há muitos teatros públicos que acham que comédia não é cultura.
Há algum boicote ao que é comercial?
Quem é que tem o direito, em nome de 10 milhões de portugueses, de decidir o que é comercial e o que não é? Isto é um erro. É a ditadura do gosto. Já se chamou de muita coisa, já se chamou lápis azul. Nessa perspetiva, hoje o Miguel Araújo e o António Zambujo são muito comerciais. Está tudo maluco. Então a Joana Marques é muito comercial? Claro que não. No cinema passa-se o mesmo. O número de espetadores de filmes portugueses, no ano passado, foi de cerca de 230 mil. Curiosamente, quase 70 mil foi de um filme não apoiado pelo Instituto de Cinema, que é do Leonel Vieira, que faz os chamados filmes comerciais. O que não é comercial é o que não tem espetadores, é o que as pessoas não querem ver.
Por que diz que falta fazer o 25 de Novembro na cultura portuguesa?
Os tempos são diferentes, mas basta ver que as políticas culturais são sempre para o setor público. É a tal história, é comercial, não interessa. Nós no setor privado da cultura, nestas últimas décadas, nunca tivemos um ministro. Creio que não existe setor económico que sofra mais discriminação do Estado do que o setor cultural. Posso dar vários exemplos. No PRR, os 5% para a Cultura são para o setor público. Quando falam na recuperação de equipamentos culturais, estão a falar do público, no setor privado, nada. Ainda agora o Teatro Villaret fechou porque vai entrar em obras de recuperação, 100% suportadas pela concessionária. Porque isto, por acaso, é um paradigma. Quando se licencia uma sala de espetáculo, seja um cinema ou um teatro, obtém-se uma licença de utilização. É um casamento para a vida, cujo divórcio só pode ser dado pelo ministro da Cultura. Ou seja, só se pode dar um outro uso a esse equipamento, se o ministro da Cultura o desafetar da atividade. Por isso é que durante muitos anos víamos os cineteatros por este país fora a cair abandonados. Outro caso, os vistos gold culturais. Os privados estão excluídos, porque um projeto cultural de um privado, por exemplo, a recuperação do Teatro Villaret, não pode ir ao abrigo do acordo, porque os vistos gold culturais são também para a recuperação do património, mas só pode ser para fundações de interesse público, que são as fundações da classe política, e o Estado. Conhece alguma atividade em que só apoiem, por exemplo, a produção de tomate deste ano, se for do Estado? Eu não conheço. A história dos vistos gold é bastante reveladora. Não se constrói um teatro privado há mais de 50 anos. Isso só acontece porque há um mercado completamente desregulado, com a concorrência desleal do Estado.
Por absurdo, aceitaria ser ministro da Cultura algum dia?
Não, porque sou empresário e só se vivesse numa democracia plena é que poderia ir para a política. Com a lei das incompatibilidades um empresário não pode ir para a política. Um médico pode, um advogado pode, um engenheiro pode. Assim não vamos a lado nenhum.
Também disse que um povo que tem hábitos culturais fortes é um povo que produz mais. Que disciplinas é que acha que deviam ser obrigatórias a partir do ensino básico?
Sabemos muito bem que a música, o teatro e a dança liberta-nos. A pessoa torna-se mais sem vergonha, e é uma coisa muito curiosa, pois os portugueses são muito envergonhados. As artes libertam as pessoas. Talvez fosse uma coisa muito interessante haver uma disciplina de artes obrigatória até o 12º ano. Os países que têm mais hábitos culturais, que consomem mais cultura, são os mais ricos. Pode-se dizer assim, consomem mais, porque têm mais dinheiro. Eu digo o contrário, então digam-me um que tenha muitos hábitos culturais e seja muito pobre? Não conheço.
Todos os anos recebe muitos pedidos de borla. O que diz aos políticos que querem ir aos festivais com convites?
O meu bisavô, em 1940, nos 50 anos do Coliseu, escreveu isso, que a borla era uma instituição nacional. Toda a gente achava que tinha direito a uma borla. Na minha área, conseguimos, com um grande esforço, que haja um valor percebido. Quando se vai a um café não se diz, ‘Oh amigo, ofereça-me hoje um café!’. A história das borlas já foi mais complexa. Eu digo, o NOS Alive está esgotado nos dias 10 e 11. Só falta o primeiro, a 9, mas já temos mais de 70% dos bilhetes vendidos. Quando me perguntam se consigo arranjar bilhetes para os dias esgotados, digo que só se conhecerem algum parceiro nosso que tenha bilhetes.
Se tivesse que optar por um concerto entre Coldplay, Radiohead ou Pearl Jam, por quem optava?
Não posso, isso é muito difícil. Optava por dois, Radiohead e Pearl Jam.
Estamos próximos de assistir a concertos de inteligência artificial?
Pela primeira vez tenho um espetáculo, no Sagres Campo Pequeno, em que o artista não existe no mundo terreno, é digital. Já tenho quase três mil bilhetes vendidos. É um artista feito por alguém em computador. A capacidade de velocidade da IA é assustadora, é um grande instrumento, mas não sei onde é que isto vai parar. Quando a IA se tornar autónoma, e mandar em nós, vamos entrar na ficção científica. Que o mundo vai mudar a uma rapidez absolutamente estonteante não tenho dúvida nenhuma.