Uma cortina poderosa separa-nos daquele mundo. E soa a algo que deixou de nos ser familiar, um tempo em que se tinha de esperar pela história, que demorava a libertar espaço para as fundações, equilibrando as estruturas, e que se libertava de tanto material de segunda ordem, até nos sugerir uma composição e um enredo de uma época quase inalcançável. Durante certos períodos, o que se ouvia ao fundo era música clássica, com o seu enlevo paciente, aquele domínio de uma expressão capaz de extrair do tempo uma relação de outra ordem, numa intensidade contínua, sustentada, que nos arrancava às desordens do banal viver comum. Hoje já não parece ser assim, a não ser nos momentos em que morre uma figura que se liga ainda a esse regime. Com a morte do maestro Álvaro Cassuto, somos levados a interrogar-nos sobre as passagens de época, sobre o arbítrio dos calendários humanos, e vem à memória uma frase de Hemingway, convencido de que ninguém é capaz de dizer quando uma época começa, mas todos estão perfeitamente certos de saber quando termina.
O jogo dos ciclos e retornos é inútil e, na maioria dos casos, enganador, mas é preciso retomar um certo desígnio ilusório para acolher dignamente o percurso de Álvaro Cassuto, não como figura ornamental de uma tradição, mas alguém que trabalhou insistentemente para a manter viva, relevante e reconhecível, audível para lá das fronteiras que, durante décadas, limitaram a circulação da música portuguesa. O seu percurso organiza-se em torno desta exigência: levar o que era, em muitos casos, um património encerrado num contexto nacional para um circuito internacional, sem abdicar da precisão técnica nem de uma ideia exigente de interpretação.
Nascido no Porto, em 1938, filho de pais de origem alemã que se haviam fixado em Portugal após a fuga ao regime nazi, cresceu entre Lisboa e uma formação musical que começou cedo, no violino e no piano, e que rapidamente se alargou à composição, sob orientação de nomes como Fernando Lopes-Graça. A sua curiosidade levou-o, ainda jovem, a explorar linguagens como o dodecafonismo, que aplicou numa obra em 1959, num gesto que não procurava tanto romper com o passado como situar-se numa corrente de transformação que atravessava a Europa musical do pós-guerra.
Essa abertura ao que se fazia fora do país levou-o a Darmstadt, em 1960, onde se encontravam figuras centrais da composição do século XX – Ligeti, Boulez, Messiaen, Stockhausen – e, mais tarde, a Munique, onde contactou com a música electrónica. O seu interesse pela música concreta traduziu-se em experiências em Portugal, com meios rudimentares mas eficazes, e na colaboração com António de Macedo no filme Verão Coincidente (1962). No entanto, essa fase experimental não se prolongou: Cassuto afastou-se progressivamente da electroacústica por considerar que o seu caminho se encontrava na relação directa com a orquestra, na construção de um som dependente da presença humana.
A formação como maestro consolida-se ao longo de vários anos, com estudos em Viena, Berlim e Hilversum, sob a orientação de mestres como Pedro de Freitas Branco, Franco Ferrara e Herbert von Karajan, de quem guardava uma admiração clara. Em 1965, conclui o diploma de Kapellmeister no Conservatório de Viena, e, pouco depois, assume funções na Orquestra Gulbenkian, primeiro como assistente e depois como subdiretor.
A sua relação com os EUA, entre 1968 e 1986, constitui um eixo fundamental da sua carreira. É aí que obtém reconhecimento internacional, através do Prémio Koussevitzky, do Tanglewood Music Center, e de convites para colaborar com figuras como Leopold Stokowski. Leciona na Universidade da Califórnia e na Juilliard School, e dirige orquestras como a de Rhode Island e a National Orchestra of New York, acumulando experiência num sistema distinto daquele que conhecia em Portugal.
Regressado, não se limita a retomar funções já existentes. Cria a Nova Filarmonia Portuguesa, fundada em 1988, em resposta à necessidade de descentralizar o acesso à música. Os 635 concertos realizados até 1993 são sinal de uma prática continuada, sustentada por mecenato e itinerância. Dessa experiência resulta, em 1993, a criação da Orquestra Sinfónica Portuguesa, que dirige até 1999. Seguem-se colaborações em Israel e Itália, bem como com orquestras europeias e norte-americanas como a Filarmónica de Londres, a Orchestre de Paris, a Rundfunk-Sinfonieorchester de Berlim e a Orquestra Nacional de Espanha.
Mantém uma linha constante: a divulgação da música portuguesa. A sua discografia, com mais de trinta gravações, inclui monografias de Vianna da Motta, Lopes-Graça, Freitas Branco, Bomtempo e, de modo particular, Joly Braga Santos, cuja obra sinfónica gravou integralmente. Estas gravações, muitas pela Naxos, foram decisivas para a circulação internacional desse repertório.
A escrita acompanha-o, permitindo organizar a experiência acumulada. Em livros como Sinfonias Incompletas ou Memórias de Um Maestro, reflete sobre a sua trajetória como registo de um trabalho contínuo.
Morreu aos 87 anos, na sua casa no Guincho, deixando um legado que se distribui entre gravações, instituições e um conjunto vasto de interpretações que ajudaram a definir a forma como a música portuguesa do século XX é hoje ouvida.