quarta-feira, 22 jul. 2026

Alexei Bueno. Poeta dos poetas, fez da morte uma vírgula

1963-2026. Bueno defendia que a grande unidade de uma literatura é a língua, não a nação.
Alexei Bueno. Poeta dos poetas, fez da morte uma vírgula

E a nossa morte, quem a abrirá? E dentro dela o que encontrará?, perguntava-se o poeta. Primeiro, talvez lhe pareça tudo muito escuro, mas depois, luz, mais luz, sóis, manhãs, aquele modo que o mundo tem de rodar, continuamente, aquela sensação de um sentido que fica a arder na goela, de beber do balde que regressa uma e outra vez desse poço sem fundo. Por isso, é fraca a morte de um bom poeta. Ela é que se angustia sem poder impedir-se de deixar cair quase tudo pelo caminho. Nem todo o seu empenho, impondo contra os dias a sua caravana de ruínas, chega para diluí-lo inteiramente. O poeta continua a dar notícias depois de morto. Ainda que aumente a distância, uiva lá desse lugar que ressoa e vence o rumor que diz que se apagou, que já não importa. Eleva ainda o seu magro alfabeto, o culto que fez desses vincos intemporais, da forma transida na qual a língua respira com uma cadência que não se extingue, e, desse modo, parece recolher do ar as páginas atravessadas pela febre, em versos cheios desse magistral escrúpulo de outrora, pautas de música na sua regularidade mais atenta, fiando uma luz que conserva aqueles detalhes que hoje mais nos escapam, devolvidos entre a métrica e a rima. E se foi um extraordinário praticante do soneto, como da ode, do rondó, dava-se também a ritmos largos, variantes, em verso livre. E mesmo nos seus poemas em que o que mais se aprecia é a virtude formal, sempre damos por uma prega, uma dobra, uma ruga, um estremecimento, uma convulsão, e não se trata propriamente de coisas escondidas, mas é essa graça de ter deixado suspensas, no equilíbrio lúcido dos dias, das noites, o prazer do que persiste, entre a morte e a vida, nessa zona tão subtil da sua conjunção.

Se lhe lermos os versos, ainda dá para ouvi-lo, nessa mínima, rugosa, tão burilada e expressiva entoação, de quem persiste numa loucura de pelo menos cem anos, «compondo um gigantesco manuscrito», entre tão escrupulosas metamorfoses para caçar os sons mais imprevistos, habitante eterno dessas «madrugadas profundas de proscrito», que se somam à luz daquela «chama gelada». Alexei Bueno só parecia ser contemporâneo dele mesmo. Geria uma forma de trânsito, como um ser que absorvesse aquele perigo (solitário, secreto) de residir numa forma ameaçada de todos os lados. Mantendo-se fiel à poesia escrita com empenhada minúcia, não poucas vezes deu mostras de uma certa amargura, vendo-se ignorado pela academia, pelas editoras, pelos seus tão esparsos leitores, que nunca puderam alterar-lhe a sorte. Morreu na noite de 26 de junho, aos 63 anos, na sequência de um cancro do fígado, dias depois de ter estado em Lisboa para participar num colóquio a propósito dos 500 anos de Camões.

De ora em diante, como avisava Baudelaire, a própria condição do poeta, esse ser que não faz concessões aos humores e às frívolas fixações da sua época, é a danação. «Pouco importa que, ao longo de toda a vida, exibam os seus talentos, as suas virtudes e a sua graça; a Sociedade reserva-lhes um anátema particular e acusa-os precisamente das enfermidades que a sua perseguição lhes causou».

Muitos desataram a chorar que foi impedido de fazer tanto quanto podia, morrendo precocemente, mas ele mesmo, numa entrevista dada quando tinha 40 anos, fazia outra ideia das coisas, e dessa noção de que se alguém não morre já com teias de aranha, decrépito e todo mijado tem direito a sentir-se espoliado. «O afastamento da noção de mortalidade no Ocidente está se tornando ridículo. Se um homem morre com 108 anos é capaz da família sair clamando por erro médico! Ora, como pessimista perfeito, velho leitor de Schopenhauer e de Cioran, e obcecado com a efemeridade e, sobretudo, com a apavorante aceleração psicológica da passagem do tempo, sinto-me uma múmia. Numa terra onde Álvares de Azevedo morreu com 20, Casimiro de Abreu com 21, Castro Alves com 24, Augusto dos Anjos com 30, Raul de Leoni com 31, Fagundes Varela com 33, Cruz e Sousa com 36, ter 40 anos é realmente ser uma provecta individualidade muito merecedora de reunir o que publicou. E não me venham falar no avanço da medicina».

Carioca, nascido em 1963, pelo lado materno, descendia diretamente do famoso Anhangüera, grande predador de índios, descobridor de ouro e incendiário de aguardente. Já o pai, de pura ascendência italiana e nascido no interior de São Paulo, era engenheiro de blindados, e Alexei notava que, numa família em que quase todos eram militares, entre os quais se contavam alguns heróis de guerra, ele era o único civil, tendo vivido quase exclusivamente, «e muito mal», das letras, como editor, como autor, escrevendo para jornais etc. Só se lhe conhece uma posição dessas tidas como «dignas», entre 1999 e 2002, período em que dirigiu o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC). Mas era um desses espíritos que de forma mais decisiva contribuiu para a edição de grandes nomes desta língua, tendo organizado edições críticas de autores brasileiros e portugueses, como Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Álvares de Azevedo, Gonçalves Dias, Mário de Sá-Carneiro, Vinicius de Moraes e Camões.

«Sempre há um morto/ Que bate à porta», notava ele. E parecia reconhecer como um morto chega a fazer mais companhia, a ser melhor conselheiro do que aquilo que nos sacode com a pesporrência da atualidade.