quinta-feira, 05 mar. 2026

Alberto Pimenta. Tantos heróis, tão poucos monstros

Com 88 anos completados um dia depois do Natal, Alberto Pimenta persiste como um dos raros monstros da nossa poesia. Em finais do ano passado, a 7Nós reeditou os seus quatro primeiros livros, escritos ainda na Alemanha, para onde se mudou quando o mandaram apresentar-se para cumprir o serviço militar.
Alberto Pimenta. Tantos heróis, tão poucos monstros

Das últimas vezes que fomos tendo notícias de Alberto Pimenta, estava mal ou, então, ainda pior. Tocado, azucrinado, acusando as roedoras mossas inquilinas, contrapondo ao declínio das suas forças aquela superior razão do espírito, agarrava-se como podia, impedindo os dias de lhe roerem o coração até ao fim. Vive há dois anos numa residência sénior de cuidados dedicados, depois de uma década entrincheirado numa nuvem – umas águas-furtadas na Mouraria, com vista sobre os telhados, as movimentações das gruas que se interpõem entre o céu e os vidros da claraboia. Dali apreciava a vida dos gatos nas alturas, uma espécie de alta sociedade vadia. Sem televisão nem internet, era pelos livros que recebia o sinal de tempos mais amplos. Com a mobilidade bastante reduzida depois de um enfarte, um trambolhão nas escadas de lioz, um osso partido, outros invejando o pó, a carne acusa aquele desgaste de quem mastigou os séculos, e de certos períodos fez bolo, recusando-se a engolir. E apesar de toda a fragilidade, a sua estatura está desde sempre implicada nas tantas recusas que foram pautando a sua relação com o mundo. Desde logo a recusa de um dia-a-dia amassado com mentiras, da soma de pactos, concessões, simulações, dessa forma de tirania exercida sobre cada um de nós nos pormenores quotidianos. Se há seres que recebem sempre no queixo os golpes que o tempo desfere, Alberto Pimenta é um deles. Alguém muito marcado por este tempo irreversível, que tanto nos fere, e ainda nos foge. Por isso, nos diz nuns versos: “aproveita/ bem o tempo antes que/comece o passado/ a parecer-te/ mais longo que o possível futuro/ e tu/ comeces/ a cheirar daquele modo/ que agrada e sobretudo atrai/ a deus, o amador de cadáveres”. Se Deus sempre lhe foi distante, ainda foi contando com um complot de anjos ao seu redor, que nunca o deixaram ficar esquecido, e depois de tão leais e dedicados editores como Vasco Santos e Vitor Silva Tavares, em Rui Miguel Ribeiro e nas Edições do Saguão encontrou mais uma vez um amigo-cuidador e um editor inteiramente cúmplice.

Deste tempo, aproveitando a brochura promocional, poderá dizer-se que venceram os heróis, logo convertidos em accionistas das suas próprias lendas. A moral ficou tão cheia de si que tomou de assalto a consciência convertendo-a à censura. Detectados precocemente e perseguidos, muitos vilões foram sufocados à nascença. Não restando grande margem à dissidência, a festa durou o mais que pôde. No fim, ficou a louça para lavar, tarefa de que foram ocupados os poetas que não se conformaram ao registo dos hinos, à glória ou à fanfarronice da reles épica publicitária que nos resta. A poesia, que chegou a ser o recreio de monstros, viu-se convertida numa oca solenidade, em muitos aspectos afim das intenções de vendedores e do tipo de artistas e autores que não fazem mais que promover mercadoria, a começar por aquela que eles mesmos produzem. Estranho a estes enredos, o monstro hoje é esse em que vemos a diferença feita carne, fulgor, agitação, e que se esquiva por todos os meios aos grandes relatos, não se ajusta ao cânone. Indomesticável, prefere as sombras da teoria imperfeita, a intuição visceral, o relato sujo e a prática artística desobediente.

Alberto Pimenta persiste como um dos raros monstros na nossa poesia. E a ele poderíamos adaptar com um acerto desmedido as palavras escritas por Claudio Magris numa das suas crónicas publicadas no Corriere della Sera, ao lembrar o editor e poeta Michael Krüger, que, num dos seus poemas, aludiu ao modo como “a História acelera e o Homem se descobre lento, ultrapassado por aquele passo demasiado rápido que vai adiante, deixando-o para trás”. E ainda citava alguns versos: “Vemos a época glacial/ por trás, a Grécia/ Roma, a Revolução Francesa/ a nuca de Estaline, as luzes traseiras/ do automóvel de Hitler.” Magris prossegue a sua poderosa evocação que tão bem exprime a situação em que se encontra desde há uns anos Alberto Pimenta, um poeta que terá sentido como poucos nos nervos, nos versos e nos ossos os efeitos deste cansaço da espécie que se identifica “com a história do esgotamento”, tendo-se especializado em afastamento, em extinções, em poeira soprada em estradas e em pistas apagadas. Ele é certamente um homem a quem não foi preciso nenhum tirano colocar o seu nome numa lista, para se ver condenado a resistir, cada vez mais desacompanhado, constrangido, dentro duma personalidade vigorosa e versátil, vital e generosa, mas cercado de uma época cadaverosa. “O que neste momento respiro/ pertence à temporada petrolífera./ Até os gatos se foram embora.// Tanto abandono à minha volta”, escreve Pimenta. E servindo-nos das palavras de Magris, perguntamo-nos: “O que faz este homem que ficou para trás, impotente mas vivo, aprisionado entre os despojos da História como um líquen entre os gelos, sensível como uma célula fotoeléctrica a todas as vibrações, às tonalidades, aos terremotos, aos arrepios e às ténues palpitações do seu tempo que, como ele intui genialmente, já o ultrapassou? Escreve poemas, versos fulminantes que matizam a realidade”, denotando no seu empenho “uma teimosa vontade de forma e uma aguda força criativa capaz de captar as palavras naquela sua dureza e brilho de cristais inquebráveis, que sobrevivem a catástrofes e a cataclismos como fósseis antigos e perenes”.

 “Vacinado contra os estrondos e o gotejar de infinitas catástrofes”, pode dizer-se que Pimenta se resignou a sobreviver para dar testemunho da miséria particular deste tempo, sabendo que, mesmo com toda aquela liberdade e paixão, não deixava de estar exposto ao fim, sendo até um alvo mais fácil – porque mais nobre –, uma vez que estava dotado dessa capacidade de se reconhecer no sofrimento dos outros, o que nos nossos dias é uma espécie de maldição,  assinalando o ponto onde os últimos homens inteiros podem ser feridos de morte.

Nascido no Porto, em dezembro de 1937, José Alberto Resende Figueiredo Pimenta cresceu numa casa na Lapa paredes meias com o cemitério onde está enterrado Camilo Castelo Branco. Em 1960, saiu do país para assumir as funções de leitor na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, de onde viria a ser demitido três anos depois por se recusar a apoiar a guerra colonial que a ditadura salazarista movia em África. Foi então contratado pela própria universidade alemã onde leccionou durante 16 anos. Ali escreveu os quatro primeiros livros de poesia – O Labirintodonte, 1970, Os entes e contraentes, 1971, Corpos estranhos, 1973, Ascensão de dez gostos à boca, 1977, que só no final do ano passado foram reeditados com o selo da 7 Nós. Depois do 25 de Abril, recebeu da Universidade do Porto um convite para regressar a Portugal. Deixou o lugar efectivo em Heidelberg, sendo que, por esses dias, já idealizava a performance que veio a ter lugar no Jardim Zoológico de Lisboa, em 1977, quando se fechou numa cela ao lado de um chimpanzé e um gorila. O director do Jardim percebeu o fito, e não viu grande mal. Mas depois de ver as notícias sobre a performance, Homo-Sapiens, a Universidade do Porto retirou-lhe o convite. Desempregado durante alguns anos, viveu de traduções, tendo ainda participado como actor na série A Arte de Ser Português (1978) na RTP, antes de ser por fim convidado para integrar a FCSH da Universidade Nova de Lisboa. É também de 1977, aquele que se tornou o seu livro mais célebre, o Discurso sobre o filho-da-puta, uma obra que até à data conta já com oito edições, mas que, como ele fez notar: “se a lessem como deve ser provavelmente não teriam vontade de a ler tantas vezes”.

Mas o tempo que temos é determinado cada vez mais por uma erosão que acabou arrasando-o pela base. Hoje, é um diagnóstico comum esse de que as palavras contaminadas contaminam a própria realidade, impõem obstáculos ao sentido, introduzem todo o tipo de torpezas na nossa existência. Por isso, é com as palavras e a língua, antes de mais, que Pimenta acerta contas na sua obra. Travando toda ela um combate com os diferentes níveis do kitsch, contra toda essa tentação de aplanar tudo, converter tudo em superfície, e, assim, ele assume um incisivo regime pericial que passa antes de mais por escolher e ordenar as palavras de modo que, como dizia Nietzsche, estas voltem a ser “duras como pedras”, a fazerem-nos tropeçar ou até partir uma perna. Ele joga com a linguagem e destrói-a, faz realmente trinta por uma linha no ensejo de ridicularizar as imposturas de uma sociedade que apodrece em convencionalismos, numa série de constrangimentos e enredos salivantes e bacocos. A própria poesia surge na sua mira, sendo evidente o claro desprezo pela larga maioria dos seus contemporâneos… “conheço um poeta/ que diz que não sabe se a fome dos outros/ é fome de comer/ ou se é só fome de sobremesa alheia.// a mim o que me espanta/ não é a sua ignorância:/ pois estou habituado a que os poetas saibam muito/ de si/ e pouco ou nada dos outros.// o que me espanta/ é a distinção que ele faz:/ como se a fome da sobremesa alheia/ não fosse/ fome de comer/ também.” Num outro poema, uns bons anos mais tarde ainda acrescentará: “se restassem deste mundo/ só os livros de poesia/ os arqueólogos mais tarde/ pensariam/ que neste tempo/ não aconteceu nada/ a não ser afiar os cabos das facas”.

Em diálogo e exortação permanente de mestres como Camões ou Dante, sendo que o seu confronto, como assinalou Joaquim Manuel Magalhães, começa por ser com a tradição que vai “das cantigas medievais ao maneirismo e ao pós-romantismo, através de uma linha de sensibilidade que de si mesma parece desconfiar: pelo contraponto do palavrão, do lugar comum vocabular, dos anúncios, dos contos infantis, da pronúncia do Porto, das redundâncias tempestuosas, da dissecação iconológica”. E mais do que desdenhar, é alheio a uma poesia, hoje triunfante, e que permeia o ambiente cultural como uma espécie de névoa vítrea e impalpável, de enredo que apenas favorece aquele estupor silencioso, que se limita a rodear as questões decisivas, as grandes convulsões epocais, sem nunca as confrontar decisivamente. Vive de um tracejado que se compõe de elementos esparsos, desordenados, que serve à elocução tremida de textos que não designam nada de formado e completo a que nos possamos agarrar. É uma poesia que também ela participa de um quadro em tudo vai roendo a dimensão de recreio do presente.

Num contexto destes, reconhecendo que o espírito já não pode morar na grande arte afirmativa, e que não lhe resta senão organizar a sua retirada ordenada, é aí que se impõe o modo satírico de forma a prestar este último serviço, diz-nos Josep Casals. Por isso, de Alberto Pimenta se poderá dizer, como Canetti disse de Kraus, que «depois dele, resta o dilúvio». E também quanto a ele é difícil reconhecer alguma continuidade noutros discursos, uma vez que ele nos surge como esse último sobrevivente. Ora, o satírico parte do mais ínfimo e banal para efectuar o seu diagnóstico, das vozes e gestos, fenómenos e lembranças, anúncios e notícias, rumores, desperdícios, submergindo-se no pântano da fraseologia, na baba, no muco da linguagem para proceder à sua dissecação. Assim, o seu lirismo constrói-se através de “uma hábil destreza organizativa e conceptual”, como assinalou em tempos Joaquim Manuel Magalhães, sendo “encadeado por palavras aparentemente denotativas”, mas o discurso embala, e mostra a imensa amplitude das suas estratégias, desenvolvendo uma tonalidade humorística e lúdica, carregada de uma ironia selvagem, com grande dose de bufonaria. Mas há também a expressão da força solar que nele marca um contraste confrontativo com a nossa bisonhice congénita, a tendência para de tantos poetas para se ensimesmarem, entregando-se a um lirismo confessional, magoado e contemplativo, consolando-se numa misantropia que não passa um arremedo narcísico, uma frívola estratégia daqueles que vão afectando uma pose, fazendo o culto da sua depressão e cinzentismo. Ora, Pimenta também reage a este modo de se abandalhar portuguesmente com uma ira exemplaríssima, e um cuidado, uma atenção e um escrúpulo magníficos.

Contra o assédio de palavras que nos cerca de todos os lados e deixa as percepções tão embotadas, ele dá-nos um feroz e, por vezes, hilariante relatório recorrendo aos facta bruta circunstanciais que vai envolvendo e digerindo lentamente, montando o seu estendal de cenas e projecções, e, deste modo, vai-nos revelando a ordem glacial das coisas. Para nos servirmos de uma outra imagem de Claudio Magris, ele é alguém que, sob o palco do nosso consabido e repetido espectáculo cultural, opera como uma toupeira que escava a terra e corrói o teatro, para fazê-lo um dia desabar libertando os prisioneiros acorrentados no seu edifício. Distingue-o, por isso, uma linguagem poética descarnada e dura, pétrea e, ao mesmo tempo, intelectualmente complexa, cheia de ressonâncias, entretecendo uma vastidão de ecos alusivos, como se reencenasse o contexto cultural, afinando outros princípios para as relações de gravidade entre os corpos. E nesse registo variável entre a paródia, a diatribe e o lirismo erótico (Manuel de Freitas reconheceu-lhe “uma sábia mistura de escárnio e de volúpia”), além da contestação, do tom burlesco e satírico, ao fazer um inventário do que está condenado a morrer, Pimenta entretece tudo numa vasta rapsódia elegíaca, sendo que cada novo livro implica um outro rumo e alguma sanha e urgência no seu desabrido modo de invenção, como um movimento que busca autonomia embora mantenha aquela fala em constante processo de actualização, indagação, sempre vigilante e criativa. Menos um produtor dessas formas meio vagas, impulsivas e demasiado devedoras da ocasional inspiração, de súbitos ímpetos, resultando fragmentárias, ele escreve para um efeito de duração, de embalo, buscando uma forma que quase parece desdobrada do corpo, um enredo de quem se balança ou se move no espaço, trabalhando os ritmos necessários à rememoração, ao encadeamento, à ênfase subtil e que se propaga, contagia. Assim, Pimenta “questiona as rotinas, as intemperanças da sentimentalidade e do conformismo, os consensos estéticos que não deixam descobrir novos ângulos no real, os excessos dos saberes e dos poderes instituídos”, diz-nos Carlos Nogueira. E esclarece como aqui “o mundo é um texto em movimento que deve ser decifrado através de textos em movimento (nos níveis gráfico, sintáctico, estrutural e semântico) que propõe descobertas que sugerem indefinidamente outras descobertas”.

Alternando escritos subversivos com jogos astuciosos e que vêm sabotar o palavrório que deixa exangues os nossos dias, também vai executando piruetas de ordem formal algo fastidiosas. E o certo é que, se boa parte da sua poesia é tão vigorosa, não faltam também exercícios muitíssimo enfadonhos, desvarios e redundâncias sem grande aproveitamento, mas percebemos como isso respeita aquela função do azar, da disponibilidade criativa, sendo exercício que se empenha naquela corrosão parodística procurando rasgar a língua para libertar a vida aprisionada, arrancar-nos à camisa de forças imposta ao fluir dos sentimentos, pulsões, fantasias, invenções. E o certo é que, ao contrário da maioria dos nossos poetas tão ilustremente pessimistas, Pimenta nunca cede a um cinismo irresponsável, uma apatia que serve os propósitos das estratégias fatais da ideologia dominante. Embalando no riso as lágrimas, ele recusa-se a abdicar das experiências das vanguardas, da audácia e inapaziguamento dos seus experimentos, que, ao lado do espectáculo massificado, impunham esse outro bem mais instável e precário, mas que estendia o repertório de modo a reivindicar a força da vida e da sua renovação. Assim, Pimenta vem lembrar-nos uma e outra vez, que, sem a insolente e jocosa insensatez, a realidade se mumifica. Ele toma posições claras e vem fazer-nos notar que, em certas condições históricas, “o trabalho mais criativo e humano de Penélope não é a racional tessitura diurna, mas sim a obra nocturna que desfaz essa teia” (Magris).

Na sua poesia, está sempre mais ou menos implícita uma função dialéctica, relembrando-nos os comportamentos e hábitos orais que antecederam durante milénios as obras escritas. Ele volta a representar uma argumentação falada na nossa tradição poética. Assim, a premeditação une-se a um vigor daquilo que tem de poder registar-se e expandir-se espontaneamente nessa dimensão do encontro, atenta aos humores do outro. É uma poesia que deve ferir à queima-roupa, e, por isso, embora dispensando didascálias, pressentem-se essas sequelas de uma espécie de dança mimética ou gestual, um discurso que se faz ouvir alto, como vindo dos fundos da casa; aquela voz colocada, aproveitando cadências simétricas dos provérbios, numa incitação ao sangue… “Desde há muito que, quando há oportunidade, gosto de ler os meus poemas. Porque eles são quase escritos em voz alta. A interpretação surge quase evidente. A minha poesia é uma fala”, vincava numa entrevista concedida ao JL em 2013.

Há algo de poderosamente mundano nesta escrita, um compromisso em falar a todos, e damos pelo poeta a rodar, roer, despedaçar a língua, a brincar entre o aforismo, o adágio, o provérbio, a sentença, o dito espirituoso, a adivinha, o apotegma, o enunciado paradoxal, o preceito, o enigma, o epigrama, mas revirando, misturando o sabor de formas antigas e diversas, baralhando, significando esse algo a mais, esse ajuste feroz, como reacção aos modos ordenados da estupidez proliferante, com asco por toda a imbecilidade que se impõe penosamente nas formas de coacção burocrática. Reage à fluência da fraseologia oca, dos disparates em rápida sucessão, toda essa escola palavrosa, amedrontada, vil. E isto num registo que, apesar da sua erudição prodigiosa, contrasta com os usos da peneirenta escolástica, ao imprimir um registo chão, anti-pedante, anti-teológico, preferindo a provocação, o desafio à ordinarice das ideias-feitas, das cumplicidades de seitas, das massas assustadas, essas lalações de famílias, atingindo tudo isso como um ataque nervoso, levando ao espasmo, à convulsão, puxando-o, deslocando até arrancar.

Ele anda pelos fundos, testando hipóteses, procurando atingir aquele grão eterno, circular, como se o verso fosse antes de mais um elemento de pontuação, um modo de suscitar essa presença, esses gestos compassivos que nos fazem sentir a proximidade do outro, dos outros. Assim, o recorte dos versos imprime um contorno, um fulgor, assinalando a sua progressão, o ardor e a urgência de exteriorização. O nascimento vertiginoso sobre o vazio imenso que se colocou entre todos nós. Todas essas limitações que antecipam já uma regulação mortífera dos modos de se estar, a dificuldade de se ser um homem entre homens, e isto também explica essa forma de insistência ou de retroacção que é uma constante na poesia de Pimenta, tendo este ido ao ponto de definir o poeta como “mestre da repetição”. Os seus versos parecem aplicados como uma série de pequenas marteladas que fazem com que o finito desperte para o que pode estar além. Daí a força de sugestão, esses sinais que apontam para a carência, os aspectos efémeros, o desejo perdido, e mesmo a pesquisa sobre a desagregação da estrutura do tempo, sendo esta necessariamente uma das noções que atravessa toda a poesia actual. Mas tudo isso está presente como a fonte profunda de toda a pontuação, de todo o trabalho formal, os relevos que nos restituem a ritmos ancestrais, a um aparente ritmo oral, sendo o silêncio, o branco das páginas, as suas margens, a pontuação mais forte. A poesia renova-se assim enquanto ritmo, um impulso que cose entre si as partes da vida. Ele mesmo nos fala dessa alquimia impossível que os poetas buscam, essa ânsia de restaurar aquela unidade primordial, em que nenhum discurso era necessário.

Alberto Pimenta é dos poetas que melhor têm lidado e trabalhado com esta impressão de que a verdade enlouqueceu. Numa época que nos obriga a assumir uma lucidez mais dolorosa, parece que, com o passar dos anos, foi o próprio tempo que veio a reconhecer a sagacidade das intuições de um poeta cuja vocação é eminentemente política, confrontativa. “Não tenho vocação nenhuma nem para o passado nem para o futuro. A minha vocação é para o presente”, disse ele numa entrevista. Aquela poesia “incomodativa para quem não queira ver, sentir ou cheirar a indigência mental e material que se alarga graças ao mero desenvolvimento das condições pré-estabelecidas”, veio a provar-se necessário e urgente. E são cada vez mais poetas em que não é difícil reconhecer uma espécie de parentesco ou cumplicidade com o discurso de Pimenta, poetas como Pasolini, Heiner Müller ou Hans Magnus Enzensberger – de cuja obra poética Pimenta nos ofereceu uma magistral perspectiva antológica – , aqueles para quem nos viramos para nos ser possível dilucidar os elementos de uma catástrofe constante que absorve difusamente as nossas vidas.

E se Müller elegia a hiena como o animal alegórico da matemática, esse que sabe que não pode haver resto, e cujo deus é o zero, emergindo igualmente como cronista de uma cidade sitiada, Pimenta vai-nos dando as últimas quanto ao avanço do deserto, e já no último ano do milénio anterior, nos advertia quanto às «funções do zero»: “são o estabelecimento de uma ordem provisória/ dita global/ a que reúne o tempo fora do tempo/ ou seja/ estabelecimento/ aberto também aos domingos/ navio calafetado/ sem mais interpretações/ a caminho de seu iceberg/ lugar sem fronteiras/ portanto/ sem mais nenhuma possibilidade de fuga”. Um ano antes, em As moscas de Pégaso, concluía um poema que trata da ainda inexistente mas já anunciada moeda única, o ‘euro’, com o verso seguinte: ‘mais fácil do que Hitler pensava’.” Assim, enuncia o modo como uma férrea razão financeira triunfou neste IV Reich, “também conhecido cabalisticamente por Europa”, que, tendo-nos agarrados pela moeda, nos condenou ao crédito e à humilhação social.

O pior deste tempo é como até os nossos sonhos foram humilhados, invadidos e invertidos. Hoje até já falam contra nós. Assim, “se perdermos as ruínas”, vinca o poeta, “nada mais nos restará”. E é nessa condição que a obra de Pimenta persistirá, aguardando os cuidados e a atenção dos arqueólogos, como umas terríficas ruínas, para que não se diga que a poesia portuguesa esteve toda ela por igual alheada deste tempo. E para citar ainda uns versos de Enzensberger traduzidos por Pimenta, pelo menos podemos confiar nesta ideia de resistência e persuasão: “Muita coisa fica de qualquer modo/ a pairar no ar./ O mais leve de tudo talvez seja/ o que sobra de nós/ ao estarmos já debaixo da terra.” E voltamos a Pimenta: “ou seja, o tempo/ por dentro deixa tudo como está;/ ou é por fora?/ não era isto, por dentro, ou por fora?/ mas é isto, é, é isto:/ já Parménides dizia aquela boca:/ ora bem, vou falar! e tu escuta/ e guarda bem as minhas palavras;/ pouco dá onde começo,/ porque lá vou voltar sempre.

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