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Que a obra de Alberto Pimenta ocupa um lugar singular na poesia portuguesa, seja pela sua inventividade, seja pela sua intervenção e crítica, não há dúvidas. Que a sua obra, como poucas, nos coloca sempre perante um desafio que, a par de um certo divertimento, por via da paródia ou da ironia, nos confronta e nos liga ao mundo, também não.
Muitas vezes é pelos seus lados mais absurdos ou insubordinados, mas também pelo seu fulgor e encanto que os livros de Alberto se tornam tão desafiantes e contundentes.
Desde a sua estreia com O Labirintodonte (1970), cada livro seu foi uma pancada no meio literário português. Um dos primeiros a acusar o golpe foi Gaspar Simões. Outros se seguiram.
Sujeitos a mossas também foram vários dos seus livros, e por isso, no dia 10 de Junho de 1991 (dia de Camões et cetera), na Feira do Livro de Lisboa, Alberto Pimenta surgiu com a cabeça enfaixada e com um cartaz onde se lia: «Basta lançar um olhar em redor para notar que ninguém percebeu que se chama cultura à cabeça atada», e queima em seguida um exemplar de O Silêncio dos Poetas.
A primeira edição deste livro saiu em 1978 em Itália, com a chancela da Feltrinelli. Meses mais tarde, no mesmo ano, surge a primeira edição portuguesa, com uma cinta que interrogava a (agora) célebre afirmação de T. W. Adorno: "Depois de Auschwitz não há poesia possível"?
Esta interrogação remetia para a guerra do Vietname, que terminou em 1975, e ressoava todos os genocídios anteriores. Mais de uma década depois, o ano da referida performance na Feira do Livro coincidia com a primeira invasão do Iraque.
Em 2003, a segunda edição deste livro sai pela Cotovia, dois anos após o 11 de Setembro que desencadeou a segunda invasão do Iraque. E em 2005, Alberto Pimenta escreve o livro de poemas Marthya de Abdel Amid, segundo Alberto Pimenta. Um livro que era mais do que uma elegia e que foi apresentado na Mesquita de Lisboa. Em consequência disso, o livro foi retirado de várias livrarias famosas de Lisboa.
Este momento marca a poesia de Alberto Pimenta, que a seguir surge com A Indulgência Plenária (2007), quando passava pouco mais de um ano do assassinato de Gisberta Salce. Era visível a cumplicidade com Vitor Silva Tavares, editor da &etc e com Olímpio Ferreira, que fez o grafismo dos livros para aquela editora entre 2000 e 2007. Ao todo, entre 1979 e 2007, Alberto Pimenta publicou 21 livros na &etc. Pelo meio, entre 1989 e 1993, mais 6 livros na Fenda, entre eles a Obra quase incompleta. Uma vénia a Vasco Santos.
A partir de Indulgência Plenária, a ordem e desordem do mundo passam a estar (ainda) mais implicadas nos seus livros, por exemplo, naqueles editados pela 7Nós: O Desencantador (2011) ou Al-Facebook (2012); também no De Nada (2012), publicado pela Boca. Mas aquele que em termos formais, com mais radicalismo, faz assomar com nova força a poesia de Alberto Pimenta é, na minha opinião, Pensar Depois No Caminho (2018), publicado por nós (eu e Mariana Pinto dos Santos) nas Edições do Saguão, em que um longo poema se vê subitamente (a partir da página 63) acompanhado por um outro, que vai começar com ele a interferir, a contaminar até se tornarem num só e a partir daí a esboroarem-se com as últimas sílabas a soletrarem as palavras: antrapoceno e androsluzeiros. Livro-colapso, estertor (n)ec(r)ológico de vésperas bélicas: «e não foi já em vésperas / da guerra / como é costume supor / muito antes usou-se a fórmula/ moral rearmament / tão actual tão adequada / tão exacta / tanto ou mesmo mais / que moral persuasion / e não é problema de sexo / mas agudo instrumento / da vida monetária das nações / bancos com as suas resoluções / matematicamente calculadas / quer dizer algoritmicamente / calculada vida e morte / da vasta moeda / amontoada pelo tráfico».
Nós, que desde 2012 assumimos a publicação dos seus novos livros, já tínhamos publicado na chancela Pianola os Autocataclismos, jogo cruzado, prenunciador do estado do mundo e, nele, dos poetas (poetas são como minhocas / comem a terra / cagam ouro no escuro | os poetas são úteis / fazem versos / poor lonesome poets) e também Nove fabulo o mea vox / De novo falo a meia voz. E duas traduções, a primeira para inaugurar as Edições do Saguão, A Balada do Velho Marinheiro, recuperada e afinada a partir da tese de licenciatura de Alberto Pimenta, a segunda foi a antologia 66 poemas de Hans Magnus Enzensberger. A evidente afinidade poética e crítica entre Alberto Pimenta e Enzensberger foi assinalada pelo também poeta e crítico brasileiro Pádua Fernandes, ao eleger ambos como os maiores representantes de uma poesia social e política na viragem do século XX para o XXI. Enzensberger morreu em Novembro de 2022. Em seguida, Alberto Pimenta dedica-lhe três poemas numa plaquete: Foge a nuvem com o tempo.
Alberto Pimenta publica Zombo (2019 e 2020 ano pandémico), Ilhíada (2021) e o seu último livro inédito é um único poema, intitulado They’ll never be the same (2023), que, partindo das travessias dos migrantes que arriscam a vida ao lançar-se ao mar, vindos do interior de África até ao Mediterrâneo, para continuarem a arriscá-la na Europa, tem, nos últimos versos, um comentário à resposta genocida de Israel ao massacre de 7 de Outubro.
Nos últimos três anos, na impossibilidade de novos livros (quem sabe?), várias reedições começaram a surgir. Em 2025, 50 anos da Revolução de Abril, 50 deputados “fascientos” chegam ao Parlamento, Alberto Pimenta publica, com uma cinta a anunciar: «Livrete de Abril e Maio», um pequeno livro: O poeta e o social: 40 teses seguidas de exercício para mestres e mestrandos, seguido de: Os portugueses nunca comungaram do ideário marxista, instalação de palavras em 6 capítulos. O primeiro publicado originalmente na Revista Crítica de Ciências Sociais nº47 (1997) e o seguinte na Revista Intervalo nº7 (2015). A última das teses, a quadragésima diz: «Quando já morreu / a chama do social, / o poeta renasce / das próprias cinzas.»
No ano passado, em Setembro, publicámos uma nova reedição de O Silêncio dos Poetas (aumentada com mais um texto, de 1976, intitulado Liberdade e Aceitabilidade da Obra de Arte Literária. Este texto termina assim: «[…] quando a luta deixa de ser entre a censura absoluta, como representante do poder estabelecido, e os produtores de arte, passa a travar-se então entre aqueles produtores que se desejam investidos de competência oficial e aqueles outros que fazem questão de que não haja competências oficialmente decretadas. Suponho que são estes últimos os que melhor representam o seu trabalho e melhor o entendem, pois uma coisa é certa: a liberdade da obra de arte literária implica, em certo grau, a sua inaceitabilidade da parte do poder estabelecido, ou da parte do público, ou, frequentemente ainda, da parte de ambos.»
Publicar Alberto Pimenta não é trabalho, é convívio, conduto (por vezes regado) e cuidado, diante dos seus 88 anos de idade, limitado por um corpo físico muito mais frágil do que o seu espírito.
Em Outubro de 2025, saiu pela 7Nós a reedição dos seus quatro primeiros livros, escritos ainda na Alemanha, em Heidelberg, para onde foi enquanto leitor da universidade quando o mandaram apresentar-se no quartel para cumprir o serviço militar e participar na Guerra Colonial. Mais do que uma reedição, estes quatro livros constituem o mais recente acto poético de Alberto Pimenta, ao apresentarem-se numa caixa com o nome Tetraphármakos.
O título e cada pharmakon provêm de Epicuro e Alberto associa cada um deles a um destes livros: Labirintodonte (1970) – Cera de Abelha; Os Entes e Contraentes (1971) – Resina de pinheiro; Corpos Estranhos (1973) – Colofónia; A Ascensão de Dez Gostos à Boca (1977) – Unto de Carneiro. Estes pharmakon serviam como remédio para atingir a ataraxia (a vida feliz), servindo cada um, repectivamente, os princípios do Epicurismo:
Não temer os deuses;
Não se preocupar com a morte;
O que é bom é fácil de obter;
O que é terrível é fácil de suportar.
É mais um rasgo de um poeta que há dois anos vive separado de todos os seus livros e que nunca utilizou a internet. Esta é a diferença entre criar a partir do acesso à abundância torrencial de informação de que hoje dispomos: do zeitgeist às trends e aos slops que nos inundam, ou ter erudição, no que esta tem de capacidade intempestiva, e que se encontra, talvez como nunca antes, ameaçada de extinção. Alberto Pimenta é um erudito.
Ao contrário de intervenções mais comuns na poesia portuguesa, que passam pela reescrita ou mesmo pela delapidação da obra (como em Carlos de Oliveira, Herberto Helder ou Joaquim Manuel Magalhães), intervenções que não deixam de reautorizar a obra, com o duplo vinco autor/autoridade, o que Alberto Pimenta faz é uma recriação que inocula a obra de uma nova vitalidade. Com esta intervenção, ao mesmo tempo sintética e poética, não só reactiva um conjunto de livros à distância de 50 anos, como dá prova também da validade e vitalidade do que propôs no livro O Silêncio dos Poetas: «a expressão estética exige uma apreensão estética», exercendo a sua livre e autónoma consciência contra as normas e símbolos totalitários e a ordem destruidora e arbitrária do mundo. A obra de Alberto Pimenta, incluindo as suas intervenções recentes nos livros reeditados que os fazem responder ao tempo presente, não cessa de mostrar que a arte é política.