Uma família, um cão, uma casa e nenhuma saída. O que faríamos se, de repente, todas as portas e janelas da nossa casa fossem trancadas e qualquer tentativa de escapar fosse bloqueada por uma força invisível? De que forma lidaríamos com a falta de informação sobre o porquê disso estar a acontecer? É exatamente isso que acontece à família Delgado – composta por Jason (Wagner Moura), Ann (Greta Lee) e os seus dois filhos, Ruth e Graham, que moram nos subúrbios de Seattle, no estado de Washington, EUA –, quando se prepara para sair num dia chuvoso com o objetivo de comprar uma árvore de Natal. Inicialmente, a família pensa que o problema poderá ser temporário. A eletricidade, a água e outros confortos continuam a funcionar, por isso tentam manter uma vida normal. Sem internet, aprendem a entreter-se de outras formas. Cozinham, ouvem música e dançam, convivem, desenham, veem filmes… Percebem, através das janelas de casa, que os vizinhos estão a passar pela mesma situação. Conversam com eles através de um quadro de giz e tentam ao máximo manter a calma e a normalidade, principalmente os pais que não querem alarmar os filhos. No princípio chegam mesmo a interrogar-se se não será uma medida de segurança do governo.
No entanto, à medida que o tempo passa, vão percebendo que não há previsão para que o “problema” seja resolvido e que, o que os impede de sair, é mais forte do que aquilo que pudessem pensar. Os dias transformam-se em semanas, as semanas em meses e os meses em anos. A família começa a racionar comida, a utilizar tudo o que tem dentro da casa e a desenvolver métodos improvisados para conseguir alimentos – chegam a caçar através da chaminé (com engenhocas criadas pelo patriarca da família que é engenheiro), e a cultivar comida dentro de casa arrancando o soalho e utilizando a terra que está por baixo dele. Passam então de uma espécie de «quarentena confortável» para uma situação de sobrevivência extrema.
Além disso, desde esse dia, que a chuva torrencial é constante. E, a dada altura, entendem que a água que cai do céu é salgada. Ou seja, não estão perante uma simples catástrofe meteorológica. O mundo exterior está, de alguma forma, a ser invadido pela água do mar que traz criaturas marinhas. No início, são quase uma presença invisível. A família vê movimentos, sombras e coisas estranhas através das janelas, mas não sabe exatamente o que está lá fora. Depois começam a perceber que existem realmente monstros aquáticos humanoides, associados à água e à inundação. O que querem? Porque é que impedem os humanos de sair de casa?
O mais real possível
O filme realizado por Louis Leterrier e escrito por Matthew Robinson estreou no dia 7 de agosto na Netflix e, segundo o realizador francês, este «exercício de género sobre coexistência e compaixão foi o mais desafiador da sua carreira». Recorde-se que este esteve por trás de filmes com orçamentos de centenas de milhões de dólares, aviões, explosões, perseguições e grandes sequências de ação, como O Incrível Hulk, The Transporter, Now You See Me ou Velocidade Furiosa 10.
«Foi o filme mais difícil que já fiz. As pessoas não têm ideia. Foi horrível», disse ao The Hollywood Reporter. «Tentei fazer tudo de forma prática. Construímos uma casa de verdade e um bairro inteiro no estúdio. E conforme o filme se desenrola, a casa também evolui. Foi muito técnico e muito difícil, mas adorei cada segundo. Todos os dias, o elenco e os membros da equipa olhavam uns para os outros e diziam: ‘Ufa! Esta foi difícil’», adiantou. A ideia era começar com uma casa suburbana perfeitamente normal e fazer com que, gradualmente, ela se transformasse num espaço claustrofóbico, escuro e deteriorado. Tal como as personagens.
A escolha de elementos físicos estendeu-se ainda às criaturas. A produção criou uma criatura prática de silicone para determinadas cenas realizadas dentro da casa inundada, com efeitos visuais usados posteriormente para aprimorar o resultado.
Outro detalhe revelado por Leterrier envolve os animais que aparecem no filme: um golden retriever, um lobo, uma raposa, um furão, ursos, esquilos… Todos os animais utilizados durante as filmagens eram reais e não foram substituídos por versões criadas em computação gráfica. O realizador garante que a sua presença aumentou o nível de imprevisibilidade durante determinadas sequências.
De acordo com o mesmo, a longa-metragem foi filmada por ordem cronológica. «Teria sido impossível fazer de outra forma, porque tínhamos apenas uma casa. As filmagens foram feitas em sequência, mas planeámos tudo de trás para frente. Fomos revelando camada por camada. E, como sou um tanto obcecado, priorizei a praticidade em tudo. Não queria adicionar nada à casa que não estivesse lá no início (...) Tudo o que eles usam e consomem tinha que ser mostrado desde o começo», revelou. Os móveis, eletrodomésticos, brinquedos e objetos pessoais mudam e envelhecem juntamente com a família. De lar passa a abrigo, de abrigo a prisão, depois a fortaleza, de fortaleza a ecossistema, até chegar à ruína.
Sobre a forma de filmar, Leterrier decidiu que a primeira metade da produção seria filmada em película cinematográfica de 35 mm: a câmara expõe pequenos fotogramas numa fita física de filme. Depois essa película é revelada e digitalizada para a pós-produção. A grande diferença é a textura da imagem e, segundo o próprio, o objetivo foi recuperar a sensação dos filmes de Steven Spielberg e da Amblin, «nos quais as casas e os ambientes pareciam lugares reais, habitados por pessoas reais».
O realizador disse ainda que a equipa contou com especialistas em sobrevivência para, por exemplo, calcular quanta madeira poderiam remover das paredes para se aquecerem ou construírem algo necessário ao longo de seis ou sete anos. Além disso, tudo na casa funcionava. «As armadilhas de caça foram construídas praticamente com aspiradores de pó Dyson e skates, e funcionavam perfeitamente. O nosso diretor de arte, Kevin Jenkins, e a sua equipa trabalharam arduamente para tornar a casa e o seu conteúdo reais», reforçou.
Um projeto extremamente exigente
A preparação do elenco também foi bastante exigente. «Tiveram que ganhar e depois perder peso e massa muscular para parecerem realmente mais fracos», afirmou. Além disso, trabalharam com uma equipa de apoio à gestão da segurança aquática que ficou responsável pelo o controlo da temperatura até aos sistemas de filtração da água. Os atores fizeram formações específicas de segurança, obtiveram certificações como mergulhadores comerciais e tiveram de aprender técnicas de apneia. Wagner Moura conseguiu uma marca de quatro minutos debaixo de água sem respirar.
As duas últimas semanas de filmagens foram sempre dentro de água. «Foi a coisa mais exigente a nível físico que fiz em toda a minha vida. No princípio pensei que ia ser divertido, mas não foi! Foi mesmo muito exigente fisicamente», disse o ator numa entrevista ao e-talk. «Quando li o argumento, não sabia que ia ser assim. Quatro pessoas trancadas numa casa… Íamos filmar em estúdio… Foi mesmo exigente. Ou isso, ou estou a ficar velho!», brincou. «As cenas foram filmadas cronologicamente e a parte da água foi a final. Eu gostava que tivesse sido o contrário. Passámos as últimas semanas, todos os dias, dentro de água», admitiu. «Na segunda parte do filme, a maneira como eles conseguiram transformar a casa numa espécie de aquário foi fabulosa. Nunca tinha visto nada parecido», acrescentou numa outra entrevista com a Reuters.
É natural que associemos o filme à pandemia da Covid-19, que obrigou o mundo a fechar-se em casa. E, segundo o realizador, o primeiro ato nasceu logo após o início do confinamento. «Matthew Robinson escreveu-o durante um delírio febril de duas semanas (...) Eu não queria fazer um filme sobre a Covid, mas queria fazer um filme que falasse sobre a nossa experiência universal durante a pandemia. O primeiro mês foi sobre sobreviver fisicamente, alimentarmo-nos e tentar proteger-nos, mas rapidamente evoluiu para a sobrevivência psicológica, mental e emocional. Acho que ainda estamos a recuperar disso. Como sociedade, não interagimos da mesma forma que interagíamos antes da pandemia. É aí que o nosso filme começa», afirmou ao The Hollywood Reporter. Louis Leterrier quer que o filme faça o público pensar em consumismo e ganância. «É interessante assistir ao filme e depois olhar para o frigorífico e para a própria família, perguntando: ‘Quanto tempo sobreviveríamos se isto acontecesse agora?’».
Apesar de parecer que o facto da família ter bastantes coisas em casa que a ajudam a sobreviver ao longo de cinco anos, o ator brasileiro partilhou com a Collider que depois do filme teve uma epifania. «Pensei: ‘Não preciso de metade das coisas que tenho em casa’. Temos coisas demais. Precisamos de nos livrar delas e doá-las a quem precisa», acredita.