terça-feira, 16 jun. 2026

A providência e a guitarra. Uma comédia absurda para pensar a arte

A última longa-metragem de João Nicolau estreou no dia 14 de maio nos cinemas portugueses. O realizador contou à VERSA como nasceu a ideia e o que espera que ela desperte nas pessoas.
A providência e a guitarra. Uma comédia absurda para pensar a arte

Num passado distante, Léon e Elvira, artistas ambulantes, ganham a vida saltitando de vila em vila. Em Covarronca, acossados pelo Comissário, são obrigados a passar a noite ao relento. Conhecem então Stubbs, um estudante de Cambridge, com quem encontram refúgio na casa de um pintor em desavença com a mulher. Paralelamente, uma maldição obriga-os a viagens até ao século XXI, onde o futuro da segurança social e de uma banda rock estão em jogo». É esta a história que nos conta João Nicolau na sua última longa-metragem A Providência e a Guitarra, inspirada no conto homónimo de Robert Louis Stevenson, de 1878, mais conhecido por títulos como O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde ou Ilha do Tesouro. O filme – que estreou no dia 14 de maio nos cinemas portugueses e abriu a última edição do Festival de Roterdão, foi vencedor do prémio de realização da última edição do Indielisboa e vencedor do prémio de Melhor Filme no Concurso Internazionale Casa Rossa do Festival Internacional Bellaria, em Itália –, funciona em vários níveis ao mesmo tempo: é uma fábula romântica, uma comédia musical, uma reflexão sobre o papel da arte e também um comentário subtil sobre Portugal, a precariedade e a sobrevivência emocional dos artistas. Nele, saltamos entre o passado e o presente, que coexistem. 

Uma celebração da arte 

O primeiro contacto que teve com o conto foi através da sua irmã e co-argumentista, Mariana Ricardo. «Deu-me a ler, não com a ideia de o adaptar, mas para partilhar. Apaixonei-me imediatamente por duas coisas: pela caracterização muito rica do personagem Léon Berthelini, que no conto tem mais peso do que no filme – porque no filme quis que o protagonista fosse o casal a quem Pedro Inês e Clara Riedenstein dão vida – e, por outro lado, pela riqueza e o prazer da linguagem que o escritor usou e que o tradutor português encontrou para fazer a sua versão portuguesa», conta o realizador à VERSA. E, por isso, deu-lhe «imensa vontade de cavalgar esse gozo da linguagem» e de «tentar expandi-la e enriquecê-la». «Porque no fundo o conto é uma novela muito breve e o filme é uma longa metragem. Foi assim que nasceu… Na verdade, mais do que o tema – as agruras e deleites da vida artística –, foi toda a forma e todas as imagens que se criaram na minha cabeça quando li o conto», revela. 

Uma delas (que estava mortinho por concretizar na rodagem), está relacionada com uma sequência muito grande em que a personagem de Stubbs, representada pelo cantor Salvador Sobral, aparece. Léon e Elvira ficam sem abrigo durante uma noite e encontram um estudante de Cambridge que se junta a eles. «Digamos que essa foi das imagens concretizadas mais próximas daquilo que imaginei. E foi sempre esse ambiente noturno, ora marcado pelas luzes quentes, porque não havia luzes elétricas na altura – neste passado indefinido que eu criei –, ora marcado por luzes mais frias, quando eles estão a preparar-se para passar a noite ao relento», detalha. Ou seja, essa atmosfera foi das primeiras imagens que se criou na sua cabeça.

Mais do que uma caracterização marcada pelo rigor histórico, de como era feita a vida dos artistas ambulantes, neste caso, interessou-lhe a postura ética daquelas personagens perante a sua profissão, e as consequências que essa postura tem não só na relação com o resto da sociedade, quer seja o público, quer seja com o poder que é encarnado pelo comissário da polícia, mas também ao nível conjugal. «E também, digamos, os próprios debates internos que essas posturas suscitam nos protagonistas», explica João Nicolau. 

O título A Providência e a Guitarra é o título original do conto. O realizador considerou que este poderia servir também o filme, «porque é suficientemente aberto para cada espetador o interpretar à sua maneira». «Mas esse título identifica já os dois polos de tensão que percorrem o filme. Por um lado, a necessidade básica de ter um ganha-pão, de ter um sustento e, por outro, a guitarra como símbolo de tal compromisso com a arte e com a maneira de a fazer», refere. 

Interrogado sobre a teatralidade do filme, o realizador chama-lhe antes «artificialidade». «E a maneira de eu lidar com isso foi exatamente assumir e explorar esse artificialismo até o fim. Porque, no fundo, para mim, o cinema é um modo de propor linguagens. Eu quis, com este filme, quase até exagerar esse artificialismo, quer ao nível de como os corpos se mexem, quer ao nível das palavras que são ditas. O Léon, por exemplo, é capaz de usar quatro frases para dizer ‘obrigado’. Quis também assumir o gozo dessa linguagem quase barroca e tentar partilhá-lo com o espetador», admite. 

Um filme com várias aventuras  

Ao longo do filme, acompanhamos outra linha temporal, numa Lisboa do século XXI  onde os Desgraça, uma banda de rock, é afetada por problemas entre os seus membros enquanto divulga o lançamento de um novo álbum. Nela, surgem os mesmos personagens, com as mesmas questões, mas de uma outra forma. Virgínia – interpretada pela atriz francesa Jenna Thaim –, e Raul – a quem Isac Graça dá vida –, são um casal, e quase se confundem com os personagens principais. 

Nesses segmentos contemporâneos, a linguagem é outra: «É muito mais prosaica, muito mais corrente, e o estilo de representação é mais próximo do naturalismo. Eu quis criar esses dois estilos diferentes, para podermos aceder também a características diferentes dos personagens», explica o realizador. 

João Nicolau queria que a longa-metragem funcionasse a vários níveis. «Eu creio que este filme pode ser visto a partir dos 12 anos, sendo que um adolescente de 12, 13, 14 ou 15, se calhar, segue as peripécias rocambolescas, a trama, o plot, e outras pessoas com outras experiências de vida identificarão no filme outras coisas com as quais se identificam ou que reconhecem e com que se debatem», aponta. «Nos meus filmes, sempre gostei de utilizar ou de namorar com vários géneros e modos de fazer cinema. Neste caso, tenho uma comédia musical que tem seis canções originais tocadas todas em direto, que tem também esse lado reflexivo que obriga não só o espetador mas os próprios personagens a pensarem naquilo que lhes está a acontecer. Tentei abordar isto tudo como quem aborda um filme de aventuras», adianta o realizador, acrescentando que, o aspeto unificador de todas estas abordagens foi que cada pequena peripécia, cada cena, quase encerra em si uma aventura. «Há a aventura de tentar convencer o dono da taberna a permitir-lhes atuar sem a autorização; há a aventura da demanda para conseguir a autorização do comissário; há a aventura de escapar à prisão; há a aventura de encontrar um desconhecido à noite; há a aventura de bater a porta de um casal que discute aos altos berros», enumera. «Foi mais ou menos como quem seguia um filme de piratas ou de capa e espada», compara ainda. 

O humor, a magia e as maldições 

O autor de filmes John From (2015) e Technoboss (2019) gosta de misturar o drama com a comédia, a poesia e o surrealismo. E, neste projeto, não foi diferente. O humor tem aqui também um papel muito particular. No entanto, para si, «é uma coisa, muitas vezes, difícil de avaliar». «Não é um humor de comédia básica. Ou seja, o objetivo não é suscitar gargalhadas, embora haja momentos no filme em que isso possa acontecer. É mais um filtro que permite olhar as cenas do filme com um sorriso», reflete. Apesar disso, o realizador acredita que os próprios personagens, quer os do conto, quer os que foram inventados, carregam em si já esse lado de humor e que, sobretudo, no caso dos protagonistas «é também uma forma de se defenderem e de lidarem com o mundo social à sua volta»

Ao mesmo tempo, o filme mistura o quotidiano com elementos inesperados ou quase mágicos e, de acordo com João Nicolau, isso é possível através da montagem. «Para mim o cinema tem a vantagem de ser uma forma artística que permite – através dos jogos da imagem, do som, do ritmo e da montagem –, pôr em paralelo realidades que andamos a separar na nossa vida quotidiana, mas que no entanto estão lá. Por exemplo, a maldição dos olhos vermelhos é, se quisermos, uma mistura de várias superstições do contexto rural português ou latino», revela. Quando Raul e Virgínia contam a Léon que vão ser pais – no meio de uma carreira musical incerta e de uma vida financeira instável –, este acaba por «amaldiçoar o bebé» acusando-os de estar a destruir a banda. 

Ou seja, as personagens vivem constantemente entre o encanto e a miséria e, nas duas linhas temporais, surgem pequenos demónios que aparecem de forma literal ou simbólica. «Os demónios, no fundo, são uma objetificação da maldição que o Léon lançou… O filme tem dois tempos que podem ser encadeados de maneiras diferentes. Há pessoas que os veem como tempos paralelos… Quando nós passamos para a parte contemporânea é como se fosse um ‘flashback no futuro’, porque nós estamos a contar a história do Léon e da Elvira quando se estão a conhecer e quando se estão a apaixonar. O filme no passado já os apresenta como um casal… Na sequência do ensaio em que os primos dizem ao Léon que estão grávidos, ele acaba por amaldiçoar o bebé, e é por isso que vemos os olhos a ficarem vermelhos na barriga da Virgínia», reforça. «A parte final é um pouco recuperar das tradições e superstições populares: o Léon a correr o fado, a passar em sete montes, sete fontes, sete pontes, para quebrar a maldição. Por isso é que os olhos da criança passam de vermelho para olhos normais», acrescenta. 

Escolha de elenco e cenários

Relativamente ao elenco, ao contrário dos dois filmes anteriores, o realizador decidiu fazer um casting «mais localizado». «Os outros foram castings muito grandes até eu encontrar as pessoas que me davam segurança e me convenceram que poderiam ser as melhores para representar Portugal. Neste caso, por várias questões, desde logo o facto de terem que estar à vontade musicalmente, de saberem cantar, tocar instrumentos, isso já reduziu bastante o leque de escolhas possíveis», conta. 

No caso dos protagonistas, não os escolheu separadamente, mas sim como casa. «Tive atenção desde a maneira como as vozes soam juntas, à estatura relativa entre eles, mesmo em relação a tons de pele, tons de cabelo… Portanto, eles foram escolhidos em conjunto. Experimentei fazer várias combinações», elucida.  

No que toca à escolha de Salvador Sobral, já o conhecia antes de partirem para a realização deste filme. «Ele sempre mostrou interesse em desafiar-se e ter um papel no cinema, um papel fictício, porque o Salvador já teve algumas experiências com filme ou com documentário, mas sempre um pouco a fazer da sua pessoa. Neste caso, é uma coisa completamente inventada, e ele fez um trabalho extraordinário, até porque as características do personagem são quase opostas às características da pessoa Salvador Sobral», explica João Nicolau, revelando que Salvador Sobral é uma pessoa expansiva, que fala bastante, que se entusiasma, que arregala muitos olhos. «O Stubbs é exatamente o contrário disso: é um tipo inglês, discreto, que mede cada palavra e que tem uma maneira até quase algo rígida de lidar com o corpo», caracteriza. 

O convite a Rui Reininho – que interpreta um locutor de rádio que recebe os Desgraça no estúdio para a apresentação do novo álbum –, foi uma homenagem à sua juventude: «A música e as letras do GNR abriram-me horizontes diferentes no final dos anos 80 e início dos anos 90. Isso é obviamente exterior ao filme… Foi também porque eu sabia que o Rui faria todo o sentido como um apresentador mais experiente de rádio, um apresentador que à maneira dos DJs de rádio ingleses aposta em novas bandas e corre esse risco, então fez todo o sentido convidá-lo e, felizmente, ele aceitou e divertiu-nos bastante a fazê-lo». 

Já Jenna Thiam – que é também mulher de Salvador Sobral – e Isac Graça, foram escolhidos «um pouco a pensar no efeito de espelho com o casal principal». «Eu gostava que esse casal dos primos ao entrar no filme levantasse algumas questões sobre o original, a cópia, os direitos do autor. É por isso que a Virgínia é ruiva tal como a Elvira. É por isso que o Raul é moreno como o Léon e tem o nariz ligeiramente proeminente», detalha o realizador.  

A equipa contou com o apoio da Câmara Municipal de Castanheira de Pera, que a recebeu e alojou. «Foi um apoio bastante importante em termos de produção, porque o orçamento era bastante limitado e então, quando esse apoio se tornou uma possibilidade, eu fui visitar praticamente todas as aldeias do concelho. A aldeia de Covarronca, que está construída no filme, é no fundo uma colagem de vários sítios das aldeias deste concelho. Em relação a Lisboa, a atitude é diferente. Foi também uma maneira de encontrar uma forma das personagens habitarem esse espaço, quer das ruas mais anónimas à noite, quer de sítios mais icónicos como a Fonte Luminosa ou a Calçada da Bica», partilha. 

Interrogado se há algo de autobiográfico ou pessoal neste filme, João Nicolau admite que o tema lhe diz muito, apesar de não se ter inspirado em nada da sua vida ou percurso. «Eu trabalho sobretudo com cinema e música e obviamente que não tenho um emprego fixo… Nós trabalhamos por projetos, e há fases de mais trabalho, fases de menos trabalho. A incerteza faz parte do nosso modo de vida. Por isso, senti-me próximo das questões que o Léon atravessa no filme», afirma. O realizador realça ainda que o modo de fazer arte hoje é bastante diferente. «O próprio papel do artista é considerado diferente do que era no século XIX. Eles debatem essa questão com o Stubbs, não é? Um ator não era necessariamente um artista, era um ator, era uma profissão. O músico era um músico. Além disso, nós hoje vamos ver um concerto de um artista num sítio específico, compramos o bilhete. Não nos aparece necessariamente como apareceu aos cidadãos de Covarronca, que estão ali numa taberna e que, provavelmente, estariam lá também se não houvesse esse espetáculo», explica. 

O filme estreou no Festival de Roterdão, onde teve bastantes sessões e, para João Nicolau, foi bastante gratificante perceber que uma longa-metragem passada num ambiente cultural mais do sul da Europa, conseguiu tocar a audiência do norte da Europa. «Já o mostrámos no IndieLisboa e num Festival em Itália. Foi distinguido em ambos e eu espero que isso chame a atenção das pessoas. Acho que, como estávamos a falar há pouco, é um filme que tem várias portas de entrada possíveis. Estou agora bastante expectante para saber qual será a adesão nas salas», remata.