«Como posso eu pintar um anjo se nunca vi nenhum?», respondeu Gustave Courbet (1819-1877) quando um dia lhe pediram para acrescentar uns anjinhos numa pintura para uma igreja. Este defensor feroz do realismo, que batalhou contra os membros da Academia que se compraziam a recriar cenas mitológicas, é o protagonista da exposição que acaba de ser inaugurada no Museu Leopold, em Viena, que inclui também uma estátua do artista feita pelo seu contemporâneo Louis-Joseph Leboeuf (ao centro da imagem). Por trás desta, surge O ateliê do artista ou Alegoria da Pintura (1855), que mostra Courbet no seu ateliê a pintar uma paisagem com uma modelo (a Pintura) semi-nua por trás. O quadro, um dos ícones do Museu de Orsay, em Paris, parece ecoar a máxima de Eça de Queiroz, também ele um seguidor do realismo: «Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia».
Os mais pudicos sentiram-se ofendidos pela presença da mulher despida no meio de tanta gente vestida, mas nem sonhavam que cerca de uma década depois Courbet pintaria para um diplomata turco, Khalil-Bey, um quadro bem mais escandaloso, um grande plano da púbis de uma mulher deitada. «São os pelos mais bonitos que alguma vez se viu!», comentou o pintor James Whistler. «Não de um vermelho dourado, mas de um vermelho acobreado, como tudo o que sempre sonhámos numa veneziana».
Khalil-Bey tinha esta joia da sua coleção de pintura erótica bem guardada num pequeno gabinete secreto. Depois, a obra pertenceu ao psicanalista Jacques Lacan, que também a tinha escondida atrás de uma pintura mais apresentável.
Só em finais do século XX A Origem do Mundo perdeu o seu caráter escandaloso, sendo exposta ao público pela primeira vez em 1995. Tornou-se uma das mais obras admiradas do Museu de Orsay, de onde raramente sai. Saiu agora, para a grande retrospetiva de Courbet em Viena.